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Desconstruindo o Chefão

15 de março de 2012 4

Conselho de guerra na família Corleone. Paramount: Divulgação

O Poderoso Chefão mudou não apenas o cinema. Quarenta anos depois do lançamento, o filme já rendeu homenagens, paródias, releituras, duas continuações e citações em produções de propósitos e qualidades tão diversas quanto o desenho animado Rugrats e a comédia romântica Mensagem para Você, passando por Simpsons e até produções brasileiras como um recente episódio de A Mulher Invisível. Mas a influência se expandiu para além da tela e se tornou um fenômeno social ao influenciar a própria Mafia que retratava. Diversos livros como The Godfather Effect, de Tom Santopietro, e Gomorra, de Roberto Saviano, narram o quanto a influência de O Poderoso Chefão se alastrou para os próprios mafiosos, que se comprazem em imitar os gestos, o vestuário e até os supostos códigos da “família”.

De acordo com a escritora alemã Petra Reski, essa não deixa de ser uma questão problemática: no momento em que o retrato dos mafiosos plantado no imaginário popular é tão glamouroso que os próprios gângsters querem imitá-lo, perde-se a referência da Máfia como a organização criminosa e cruel que de fato é. Esse é um dos tópicos abordados por Reski em seu estudo sobre os tentáculos do crime organizado Máfia: Padrinhos, Pizzaria e Falsos Padres (Tinta Negra, 2010, tradução de André Delmonte). Reski, alemã, defende em seu livro que a imagem folclórica da Máfia – incluindo aquela segundo a qual a organização é um problema exclusivamente italiano, e não do continente europeu – tem ajudado a Máfia a se expandir e a sobreviver. Devido justamente aos 40 anos de O Poderoso Chefão e o quanto o retrato elaborado por Coppola se entranhou no imaginário popular, entrevistamos Petra Reski. A entrevista foi realizada por e-mail e o titular deste blog aproveita para agradecer a inestimável intermediação com a agência literária da autora feita pela nossa jovem musa nerd Bruna Amaral, viajada blogueira do Intercambiando, atualmente residindo na Alemanha, em Berlim, onde participa do programa International Journalisten-Programme e trabalha no jornal Tagesspiegel. Abaixo, a entrevista:

Mundo Livro – A senhora é uma pesquisadora especialista na Máfia. É verdade que o seu interesse no tema começou com O Poderoso Chefão?
Petra Reski –
Quando eu  tinha vinte anos – uma estudante que havia lido O Poderoso Chefão – decidi viajar de carro de Kamen, pequena cidade na região alemã do Ruhr, na qual cresci, direto para Corleone, na Sicília  No início, muito tempo antes de começar a trabalhar como jornalista, meu interesse pelas coisas da máfia foi despertado pela história familiar de O Poderoso Chefão. A imoralidade nas famílias me interessa, e, no final, todas as histórias de máfia sempre foram histórias familiares. Assim, minha primeira aproximação correspondia ao tipo de ideia “romântica” da máfia – que ainda é bastante difundida em todo o mundo.  Devido à propaganda feita pela própria máfia. A máfia tem muito interesse em controlar sua imagem – para fazer as pessoas acreditarem que a organização é uma espécie de idéia romântica.

Mundo Livro – Quarenta anos  passados de seu lançamento, O Poderoso Chefão é, mais do que  um grande filme, um fenômeno  cultural e popular. Na sua opinião, o que tornou o filme tão grande e influente no imaginário pop?
Petra – As pessoas adoram heróis imorais. Aquele que pode fazer tudo, sem ser punido. A máfia sabe dessa inclinação e tenta definir a sua imagem no mundo: ela faz com que as pessoas acreditem que a máfia é uma espécie de idéia romântica, uma espécie de associação popular ao estilo Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres. A literatura, os filmes estão cheios dessa ideia da máfia – que nunca correspondeu à realidade. Infelizmente, há um monte de jornalistas que ainda contribuem  para divulgar esta ideia romântica da máfia – ou porque esses jornalistas são pagos pela própria máfia ou porque são ignorantes.

Mundo Livro – Peter  Biskind, um escritor americano, diz em seu livro Easy Riders,  Raging Bulls que Copolla e sua equipe tiveram problemas com a máfia durante a produção do primeiro Poderoso Chefão.  A equipe de filmagem estava sob a pressão de Joe Colombo, um líder mafioso de uma associação ítalo-americana.  Depois de uma década,  como você menciona em  seu livro, O Poderoso Chefão já havia se tornado uma referência até para os próprios bandidos.  O que mudou?
Petra –
Na verdade, nada mudou, pelo menos não para melhor. Não há valores na máfia, toda a história sobre honra e respeito a leis é apenas uma invenção, um mito útil para os membros da máfia, que lhes dá algo em que acreditar. E um mito útil também para as pessoas na Sicília, na Calabria, na Campania: todos devem acreditar no caráter altruísta dos chefões da máfia. Hoje, a máfia influencia a política de países inteiros, como a Itália. E influencia economias inteiras, como a europeia. Isso foi possível pelo seu enorme poder econômico, resultado do tráfico de drogas, que foi lavado e investido na economia legal. A Máfia hoje é um problema a ser enfrentado. Mas, infelizmente, ainda é considerada como algo folcórico, como O Poderoso Chefão.

Mundo Livro – O enorme sucesso de O Poderoso Chefão gerou uma uma imagem que até mesmo a máfia decidiu imitar?
Petra –
Para a máfia é muito importante ser considerada como uma instituição com valores a preservar, caso contrário, não iria encontrar mais apoio na população local. É por isso que a máfia adorou filmes como O Poderoso Chefão, que a ajudou a espalhar sua imagem generalizada como um tipo de organização arcaica, baseada em valores arcaicos. A máfia sabia que precisava de uma imagem baseada em valores desde o início, quando ela decidiu copiar (e perverter) as regras da Igreja Católica: o homem precisa de algo para se acreditar Mas o único valor real no qual a máfia realmente acredita é a sobrevivência da própria máfia, a qualquer custo. Eles sempre mataram crianças e mulheres. E mães mataram até mesmo seus filhos por causa da máfia.

Mundo Livro – No mesmo Easy Riders, Raging Bull, Peter Biskind conta que ninguém queria investir em filmes de  máfia no período imediatamente antes de O Poderoso Chefão, porque The Brotherhood, uma produção com Kirk Douglas filmada em 1968, havia sido um imenso fracasso. Por que a Máfia desde então tem sido um assunto  tão fascinante?
Petra –
Porque O Poderoso Chefão não é contado como uma crua história policial, mas como uma história de família. Isso é o mais importante: todos temos famílias. E muitas vezes as famílias são mostradas com uma aura de imoralidade. Essa é a razão do sucesso. O Poderoso Chefão apresentou a máfia como uma saga familiar na qual um monte de gente poderia identificar semelhanças com sua própria família. Isso foi muito inteligente. Não só para o filme. Mas para a máfia, também. Até hoje, a grande maioria das pessoas considera a máfia como algo bom, talvez às vezes cruel, mas fascinante – como no filme. O Poderoso Chefão foi a melhor estratégia de relações públicas para a máfia em toda sua história. Ele influenciou a nossa maneira de entender a organização. Infelizmente.


Comentários (4)

  • Bruna Amaral diz: 15 de março de 2012

    que bonito ficou esse topo novo!

  • Armando diz: 17 de março de 2012

    Está aí um poderoso exemplo do quanto a industria cultural – incluindo aí todas as mídias – pode criar e mudar mentalidades e exercer influência. Fato que é tão subestimado e minimizado por alguns subintelectuais de plantão, não raro a serviço dessa industria. Sempre prontos a atribuir as mazelas sociais e desvios éticos a uma tendência inata dos indivíduos para o mal.

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