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A Anna deles e a minha...

18 de março de 2012 2

Tolstoi assim descreve Anna Karênina a certa altura de seu monumental romance de mesmo nome, em uma cena ocorrida em um baile. Em tempo, para quem não leu o romance: Anna Arkadiévna é a Anna do título mesmo, nomeada com o prenome de batismo e o patronímico (compreensivelmente, o mesmo de seu irmão Stiépan Arkadiévitch). No contexto da cena a seguir, a jovem Kitty citada no texto, que vê em Anna, grande dama chegada de Petersburgo, um modelo de elegância e cosmopolitismo, é a futura noiva do infausto Conde Vronsky, um belo e arrojado jovem que terminará se apaixonando pela protagonista. O amor de ambos precipitará uma tragédia (quem reclamar de spoiler com este comentário a respeito de um livro que está por aí há “só” 139 anos será desconsiderado, desculpe). Mas eu falava de Anna. Eis como ela é descrita na cena do baile:

Korsunski fez uma reverência, empertigou-se e ofereceu-lhe o braço para conduzi-la até junto de Anna Arkadievna. Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda do vestido dos joelhos de Krivine e voltou os olhos em busca de Ana. Esta não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Uma toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, como esculpidos em velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. Nos cabelos negros, sem postiços, ostentava uma grinalda de amores-perfeitos, combinando com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas Estava penteada com muita simplicidade. Apenas alguns caracóis de cabelo frisado na nuca e nas fontes se lhe eriçavam rebeldes. Em volta do pescoço bem torneado brilhava um fio de pérolas.

Leitores de Anna Karênina - falo por mim mesmo, mas já tive corroborada a impressão por um ou outro dos leitores devotos da obra – tendem a se apaixonar pela personagem, o que talvez seja o motivo pelo qual os mesmos leitores tendem a torpedear sem piedade as transposições da história para o cinema – muitas vezes com a maior das razões, como no filme de 1997, uma das adaptações literárias mais equivocadas de todos os tempos. Ao saber, portanto, que Joe Wright se preparava para filmar mais uma versão, em pós-produção neste momento em que escrevo, fiquei desconfiado. Wright já provou ser bom em reconstituição de época e adaptação literária, mas tem o péssimo hábito (compartilhado por vários diretores de elenco, sei lá por quê) de escalar Keira em papéis de época na primeira oportunidade que aparece. Keira Knightley, com seus braços de espaguete, se houvesse um mínimo de acurácia histórica, seria mais apropriada para viver uma tuberculosa terminal em algum sanatório saído de Os Miseráveis, mas eles insistem. Daí por que, mesmo sabendo que a moça tem um rosto bonito e muito clássico, não consegui me convencer a abrir espaço na Anna da minha imaginação para a que ela representa nas primeiras imagens do filme, como a divulgada abaixo:


Keira Kightley como Anna. Foto: Laurie Sparham, Focus Features, Divulgação


Comentários (2)

  • Milton Ribeiro diz: 19 de março de 2012

    Escalar Keira Knightley é de um absoluto absurdo. Decididamente, ela não tem o phisique du role, para utilizar uma expressão bem metida. Anna é uma comedora de homens impulsiva e descontrolada. Keira é classuda demais para o papel de alguém que fica pensando “se eu quisesse, desmancharia o casamento de Liévin”. Ademais, Anna tinha cabelas negros e olhos acinzentados. Não, Keira, não!

  • Silas Silva diz: 19 de março de 2012

    Eu me apaixonei também pela personalidade fortíssima de Anna, por sua paixão avassaladora por Vrónski e a firmeza de suas decisões. Isso faz dela uma pessoa muito mais interessante que o sem graça do marido, como Tolstói descreve tão bem.

    Sobre a Keira Knightley eu não posso opinar, mas fico com pé atrás sempre que surgem adaptações de textos clássicos, longos e profundos para o cinema.

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