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Polêmica nos bastidores do Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 10

Eduardo Sterzi na Flip 2011. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Na central de hoje do Segundo Caderno, encontra-se um texto que resume em parte uma polêmica recente envolvendo a 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar. Na última sexta-feira, dia 16 de março, o poeta, jornalista, crítico literário e professor Eduardo Sterzi, que havia sido laureado com uma menção honrosa no resultado pelo júri do prêmio, enviou um e-mail ao diretor do Instituto Estadual do Livro renunciando à premiação.

De acordo com ele, o prêmio havia se tornado um festival de “promiscuidades” e apequenava-se ao mudar a premiação do Palácio Piratini, onde estava inicialmente prevista a entrega oficial, para a Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, devido à bem conhecida aversão de Ferreira Gullar, o vencedor, em pegar aviões. Também mencionava de passagem que era outro “absurdo” o fato de Antônio Carlos Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras, fazer parte do júri. Ele, ao lado de Alfredo Bosi, é um dos prefaciadores da obra que venceu o prêmio, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar.

Para saber mais detalhes dos motivos que levaram o poeta autor de Aleijão (o livro que recebeu a menção honrosa no concurso) a renunciar à menção honrosa que recebeu, procuramos Sterzi, gaúcho que há anos reside em São Paulo, e ele nos respondeu a seguinte entrevista, por e-mail (nos posts seguintes, publicaremos também o contraditório das entrevistas com Ricardo Silvestrin, diretor do IEL, e com o próprio Antônio Carlos Secchin:

Zero Hora – Você divulgou uma carta aberta rejeitando a menção honrosa concedida a Aleijão pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar – na qual aponta como motivo a transferência da cerimônia oficial para o Rio. Poderia detalhar um pouco mais seus motivos?
Eduardo Sterzi –
Minha decisão de renunciar à menção honrosa se deu na última sexta-feira, quando recebi um email do Instituto Estadual do Livro com o convite para a cerimônia de entrega do Prêmio Moacyr Scliar. Não posso dizer que fiquei surpreso com a decisão de transferir a cerimônia para o Rio de Janeiro, porque já imaginava que algo assim poderia acontecer. Mas a falta de surpresa não diminuiu minha indignação ao enfim confirmar o que, em alguma medida, já se desenhava desde que o nome do vencedor do prêmio foi anunciado. Para quem conhece um pouco do comportamento pregresso de Ferreira Gullar, era óbvio que ele não se deslocaria a Porto Alegre para receber o prêmio. Já se tornou parte da mitologia pessoal do poeta, amplamente divulgada e freqüentemente reiterada pelo próprio, seu medo de avião, que funciona como um ótimo álibi para fugir de compromissos indesejáveis.
Ferreira Gullar está em seu direito, claro, em se recusar a voar seja para onde for; o que não compreendo é que, dada a recusa do autor, o Instituto Estadual do Livro ou o governador (que, segundo o convite, confirmou sua presença) tenham decidido transferir para outro estado uma festa que, evidentemente, deveria ocorrer em solo gaúcho. Não consigo me lembrar de outro prêmio que tenha feito isto, ainda mais se tratando de uma premiação promovida pela administração pública. Consegues imaginar, por exemplo, o Prêmio São Paulo de Literatura deslocando sua cerimônia de entrega para outro estado? Isto é falta de dignidade, falta de altivez. O que se quer? Conferir prestígio ao novo prêmio com uma meia dúzia de fotos de autoridades sul-riograndenses ao lado do “grande poeta”? Pois o resultado, a meu ver (e não só meu), foi precisamente o contrário. O prêmio se desvaloriza, o nome do seu patrono é desrespeitado e a imagem do Rio Grande do Sul, que é o meu estado, sai diminuída. Mas o que realmente me escandalizou foi verificar que, entre os apoiadores do evento, se encontra a editora agraciada junto ao seu autor (não esqueçamos que não só Ferreira Gullar ganhou R$ 150 mil, mas que também a José Olympio arrebatou R$ 30 mil). Também não consigo me lembrar de prêmio algum que acabe incluindo entre os patrocinadores de sua festa de entrega (no caso, o coquetel) um dos próprios ganhadores. Isto é promiscuidade – não há outra palavra.

ZH –  Você menciona que Antônio Carlos Secchin, um dos integrantes do júri, é um dos prefaciadores do livro vencedor, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar. Crê que isso tenha influenciado a decisão final do júri?
Sterzi –
É impossível afirmar que o fato de Secchin ser um dos prefaciadores do livro premiado influenciou na decisão do júri. Mas acredito que, seja ele mesmo, sejam os organizadores do prêmio, alguém deveria ter percebido que havia aí um impedimento ético. O que se pode supor, com alguma segurança, é que pelo menos um dos votos dos jurados já tinha uma clara tendência, uma vez que o comprometimento de Secchin com a obra de Gullar não se limita à redação do prefácio do seu último livro, mas é antigo, constante e intenso, a ponto de, em janeiro de 2002, o crítico ter viajado até Estocolmo para apresentar à Academia Sueca a candidatura do poeta ao Nobel (cf. p. ex. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u21150.shtml). Lembro ainda que não se trata do primeiro júri de que Secchin participa e do qual Gullar sai como vencedor. Isto já aconteceu no Prêmio Camões de 2010. “Naturalmente”, naquela ocasião, foi o mesmo crítico a telefonar para Gullar para lhe dar a notícia… (cf. p. ex.
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,ferreira-gullar-ganha-o-premio-camoes,559893,0.htm).
Friso que não vejo nenhum problema no comprometimento de um crítico com determinado autor que ele admire especialmente. O que acho complicado é que este comprometimento passe a envolver dinheiro público e instituições que deveriam agir com a máxima transparência possível. Fico extremamente incomodado com o fato de que isto se dê justo com o Instituto Estadual do Livro, órgão pelo qual tenho o orgulho de ter publicado o meu primeiro livro, Prosa, em 2001.

ZH – Você anunciou a sua renúncia no dia 16 de março. Por que não na época do anúncio da premiação?
Sterzi
– Porque, como disse na primeira resposta, só recebi o convite para a cerimônia no dia 16.

ZH – Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?
Sterzi –
É certo que, no âmbito literário, cuja amplitude é relativa, inevitavelmente chegará um momento em que haverá relações entre jurados e concorrentes. Não só relações positivas, frise-se, mas também relações negativas – umas ou outras, nos mais diversos graus de comprometimento. Foi por estar consciente dessa quase inevitabilidade que, ao confirmar que o resultado da premiação era o que eu já previa, preferi não me manifestar a respeito e acabei aceitando a menção honrosa que me foi oferecida. Friso que, embora acredite que, pelas razões já expostas na minha segunda resposta (sobretudo o grau de comprometimento entre crítico e autor neste caso específico), havia um impedimento ético para a participação de Secchin no júri, não foi este o motivo de minha renúncia à menção honrosa. Questões éticas são sempre passíveis de discussão, dependem de escalas de valores compartilhadas ou não por uma comunidade, dependem até mesmo – como tu bem observas – das particularidades da constituição de uma determinada comunidade (aqui, por exemplo, o fato de ser relativamente restrita). Renunciei à menção honrosa por um fato muito objetivo, que foi a transferência da cerimônia de entrega do prêmio para outro estado que não aquele que promoveu o prêmio. Isto me pareceu uma falta de altivez e de dignidade indiscutíveis. Algo realmente inédito, diria até mesmo impensável no caso de outros prêmios promovidos por instituições ligadas a governos estaduais. Não vejo nisto senão um casuísmo deplorável. Pergunto-me: digamos que o agraciado tivesse sido qualquer outro autor que também alegasse medo de avião ou outro motivo para não ir a Porto Alegre receber o prêmio; o IEL também transferiria a cerimônia para a cidade em que este hipotético autor mora? O governador do Estado também se deslocaria para esta cidade? Não vamos longe: se o agraciado tivesse sido qualquer um dos ganhadores de menção honrosa, isto aconteceria? É evidente que não. Seria absurdo. E é absurdo. A isto se soma o fato de, no convite oficial para o evento, a editora premiada aparecer também como apoiadora, isto é, em bom português, como patrocinadora (e, portanto, dona) de parte da festa. É claro que a José Olympio tem todo o direito de promover um coquetel em homenagem ao seu autor. O que acho promíscuo é este coquetel tornar-se parte da própria cerimônia de premiação. Vejo aí uma promiscuidade lamentável, que também não comporta, a meu ver, muita discussão. Que a editora proponha tal coisa, tudo bem; que o IEL aceite, é um absurdo. Que eu me lembre, nos júris de que participei, nunca um houve uma situação como esta ocorrida no Prêmio Moacyr Scliar (até porque, que eu saiba, nenhum outro crítico brasileiro viajou a Estocolmo para apresentar a candidatura de outro escritor ao Nobel…), tampouco como as que mencionas (prefácio, homenagem ou menção nos agradecimentos). A maioria dos júris de que participei foi de concursos literários destinados a obras inéditas, em que não tínhamos acesso aos nomes dos autores. E, no único caso diverso, o Açorianos de 1997, não me lembro de haver nenhum problema dessa ordem.

Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?

Comentários (10)

  • O Instituto Estadual do Livro responde | Mundo Livro diz: 21 de março de 2012

    [...] O Prêmio Moacyr Scliar foi anunciado oficialmente em agosto do ano passado.  Patrocinado pela Petrobrás e pelo Banrisul, ele oferece R$ 150 mil para o escritor e R$ 30 mil para a editora da obra vencedora, para custear uma nova edição a ser distribuída em bibliotecas. A primeira edição do prêmio foi aberta a livros de poesia publicados nos dois anos anteriores. A segunda edição, prevista para o ano que vem, vai contemplar contos também lançados até dois anos antes, e assim sucessivamente, alternando os dois gêneros. Foram 152 livros inscritos no certame, entre eles Aleijão, de Eduardo Sterzi. [...]

  • Ivanhoé Eggler Ferreira diz: 21 de março de 2012

    Minha total solidariedade ao escritor Eduardo Sterzi pela atitude tomada nessa palhaçada que se tornou o Premio Moacir Sclyar. Com certeza esta cerimônia está sendo usada com finalidade politica aja vista essa movimentação para o Rio de Janeiro ao encontro dos interesses da José Olympio e do Sr.Ferreira Gullar que não viaja de avião quando o motivo da viagem não se enquadra aos seus interesses. Promiscuidade é um pequeno adjetivo para esse desmerecimento com o povo gaúcho. Se o escritor Gullar não pode sair do seu reduto…não participe de eventos fora do quintal da casa dele.E mais. Se crie um cláusula no regulamento do evento exigindo a obrigatoriedade da presença dos ganhadores ou seu representante. Pronto. É assim em todos os eventos bem organizados!!!

  • dbottmann diz: 21 de março de 2012

    está certo o eduardo: isso de entidade mudar regras para atender a conveniências pessoais é meio desmoralizante demais, para todos os envolvidos, a começar pelo indivíduo que faz prevalecer suas idiossincrasias.

  • José Serrano Agustoni diz: 21 de março de 2012

    Como bem frizou o Eduardo Sterzi, o motivo foi a transferência da cerimônia de entrega do prêmio para outro estado que não aquele que promoveu o prêmio. Concordo com este argumento. Se o poeta Ferreira Gullar tem medo de avião, basta ele pegar um ônibus ou não vir à cerimônia que é realizada no Rio Grande do Sul. Ou será que este prêmio será sempre entregue à domicílio?

  • Ligia Cademartori diz: 21 de março de 2012

    Cumprimento Eduardo Sterzi pela lucidez da análise sobre o inusitado episódio do Prêmio Moacyr Scliar. Nesse deslocamento, nesse encolhimento, nessa submissão, se não reconheço nada da dignidade gaúcha, tampouco consigo ver algo das práticas culturais comuns a prêmios similares.

  • Emanuella diz: 22 de março de 2012

    Se este rapaz bem observar, a logo da editora não se encontra no espaço de patrocinadores e sim antes disso; trata-se apenas de um destaque à editora do autor vencedor. Bem como me parece inconveniente contestar o fato de a mesma oferecer um coquetel no dia da premiação. Queria que a editora DELE oferecesse o coquetel ao poeta? Dar piti devido à mudança de local para a entrega da premiação, que é de âmbito nacional e será feita na Biblioteca NACIONAL, não importando os motivos (se for de fato o a aversão de Gullar a viagens longas, que tal?), é de um pensamento tão proviciano e me parece até invejoso: meu amigo, eu me habilito a ir até o Alegrete – só não me pergunte onde fica, pois irei seguindo o rumo do teu próprio coração – para oferecer teu nome para receber o Nobel de Brio Gaudério Ferido.

  • Magali Lippert da Silva diz: 22 de março de 2012

    Parabéns, Eduardo! Enfim alguém se manifestou sobre este absurdo!!! Mesmo que o caso não envolvesse tantas pecualiaridades, sejamos francos, o Ferreira Gullar não precisa de mais mídia, dinheiro e divulgação. Quando a literatura vai ser promovida de forma séria, com investimentos em autores que vêm trabalhando em projetos literários de qualidade, inéditos (e não reaproveitando restos de escritos…)? Se as comissões julgadoras não fossem compostas sempre dos mesmos nomes, talvez tivéssemos resultados diferentes… Senhores gestores culturais, por favor, reciclem as comissões!!!

  • Marcelo Valente diz: 22 de março de 2012

    Infelizmente esse imbróglio só faz desprestigiar o prêmio. Me parece também um tanto ofensivo o deboche com que a pessoa acima (Emanuella) trata o povo gaúcho, que merece todo o respeito, assim como qualquer outro. Se não sabe onde é o Alegrete, não queira ironizar os gaudérios que no final das contas são os que pagam por este prêmio. Um pouco mais de respeito e lucidez é condição primordial para pensarmos no que é aceitável e no que é descartável à hombridade gaúcha.

  • Rosângela Veiga diz: 22 de março de 2012

    Parabéns Eduardo por sua atitude de homem de caráter e integridade em não aceitar fazer parte deste circo, o que prova que nem tudo está perdido. E em relação a essa palhaçada só lamento o nome de nosso escritor Moacyr Scliar estar envolvido, que não merecia ter seu nome, depois de já não estar mais conosco, envolvido em tamanha palhaçada. Infelizmente existe uma máfia editorial que impõe o que se vende o que se lê em nosso pais ditando, impondo e nos empurrando goela abaixo sempre mais do mesmo, mentes pequenas que não se abrem, e assim o ciclo doentio e vicioso onde apensa meia dúzia de escritores se alimentam e se sustentam. E Senhora Emanuella a senhora sentes-se e se recolha a sua insignificância literária, que não deve ir além de Best Sellers, e tenha mais respeito a um povo que não se sujeita e não aceita a desvalorização da literatura brasileira, existem muitos bons escritores no país inteiro que não tem medo de avião, e que precisam e devem ser divulgados e lidos e questionados, mas isso parece estar se tornando cada vez mais difícil em nosso país….

  • Emanuella diz: 23 de março de 2012

    Cara Solange. Acho curioso o modo como você avalia a minha formação literária e até distingue meu corpus de leitura a partir e tão somente do meu posicionamento a respeito do prêmio. O curioso é que, seguindo essa lógica, não sendo eu dada à leitura de clássicos e de literatura de qualidade, sendo mais inclinada, segundo você, à leitura de best-sellers e/ou de literatura desprezível, certamente meu posicionamento nessa polêmica estaria do outro lado, não deste. Mas enfim, não creio que esse seja o foco da discussão. Este menino tem toda o direito de não estar satisfeito com a alteração de local, afinal de contas seria muito agradável receber a sua menção em terra natal. E ponto. Esta carta aberta, no entanto, é de um exagero sem tamanho, com ofensas gratuitas à instituição premiadora, ao poeta, inexoravelmente consagrado (que ironia descabida é essa de colocar sua designação entre aspas?) e que sequer esteve envolvido na alteração de local, e injuriosa à editora, que possui uma tradição de publicaão de autores clássicos e imortais ao longo de 80 anos. Não houve solicitação de alteração da entrega por parte do poeta, a editora não é patrocinadora de absolutamente nada e não se trata de nenhum escândalo receber um prêmio em uma instituição pública e nacional de um prêmio nacional, visto que inclusive o próprio prêmio Camões, um dos mais importantes em língua portuguesa do mundo – se não o mais -, já deslocou o local de sua premiação em reconhecimento à importância de um autor ratificado canonicamente. Moacyr Scliar certamente estaria muito orgulhoso de ser representado por um autor de grande valia que não se envolve em escândalos vis tampouco por motivos de recalque.

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