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Posts de março 2012

Uma festa para a literatura da cidade

30 de março de 2012 1

Ilustração de Fabriano Rocha para o material de divulgação da FestiPoa Literária

Será lançada neste sábado a programação oficial da 5ª edição da FestiPoa Literária, um dos eventos marco da programação cultural da Capital no primeiro semestre. Dois debates marcam o lançamento oficial da programação da FestiPoa, no Jardim Lutzenberger, no 5º andar da Casa de Cultura. Às 16h, um debate entre três grandes agitadores das letras, Tânia Rösing, Marcelino Freire e Sérgio Vaz. Às 18h, um debate sobre o fazer poético reúne Martha Medeiros e Marina Colasanti, com mediação de Maria Rezende. Marcelino Freite também aproveita para autografar seu novo volume de contos, Amar é Crime, pelo selo editorial do qual é um dos fundadores, Edith.

A 5ª edição da FestiPoa, que vai de 18 a 28 de abril e tem como homenageado Ivo Bender. Veja a programação dos 10 dias de festa literária, com links, quando possível, para matérias anteriores do Mundo Livro sobre convidados e obras desta edição:

DIA 18 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA
No Bar Ocidente (João Telles, esquina com Osvaldo Aranha)
* 18h30min – O homenageado da programação, o dramaturgo Ivo Bender, conversa com Diones Camargo, Tatata Pimentel e Regina Zilberman
* 20h30min – Uma leitura dramática de obras do homenageado.

DIA 19 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)

* 18h30min – A crítica literária Beatriz Resende e o professor e organizador de antologias Ítalo Moriconi debatem A Produção Literária Brasileira Contemporânea, com mediação do escritor Paulo Scott, autor de Habitante Irreal.
* 20h – O escritor Joca Reiners Terron, autor de Do Fundo do Poço se Vê a Lua, conversa com o brasileiro Sérgio Sant’Anna, autor de O Livro de Praga, e o argentino César Aira.

DIA 20 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 18h30min – Ramon Mello entrevista Heloísa Buarque de Hollanda, crítica literária, professora, editora e curadora do Portal Literal.
* 20h – Cíntia Moscovich, autora de Por Que Sou Gorda, Mamãe, revê a literatura politicamente incorreta em debate com a musa do udigrudi nacional Márcia Denser.

No Espaço Cultural Sintrajufe-RS (Marcílio Dias, 660)
* 22h Sexta Básica, noite de leituras, performances, shows e apresentações poéticas e musicais. Com Iracema Macedo, Ramon Mello, Gabriel Pardal e o show Escrete Chico Buarque, com Antônio Carlos Falcão, Alexandre Missel e Jorge Furtado.

DIA 21 DE ABRIL, SÁBADO
Na Palavraria (Vasco da Gama, 165, bairro Bom Fim)
* 11h – O crítico argentino Cristian de Nápoli e Karina Lucena debatem A Produção Literária Latino-Americana Contemporânea, com mediação do professor Rubén Daniel.
* 14h24 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Leila Teixeira.
* 14h30 _ O poeta Fabrício Corsaletti e o escritor Ismael Canepelle realizam o debate Estudos Para o Corpo da Linguagem, com mediação de Guto Leite.

Na Casa de Teatro (Rua Garibaldi, 853, bairro Independência)
* 17h – Os poetas Diego Grando e Gabriel Pardal debatem Poesia: Humor: Liberdade:, com mediação de Diego Petrarca. O bate-papo será seguido dos autógrafos dos livros Carnavália, de Gabriel Pardal; Sétima do Singular, de Diego Grando, e Correnteza e Escombros, de Olavo Amaral.
* 20h – Um sarau com leituras de Fabrício Corsaletti, Cristian de Nápoli e da poeta Angélica Freitas.

DIA 22 DE ABRIL, DOMINGO
Na Palavraria (Vasco da Gama, 165, bairro Bom Fim)
* 14h30 – Os escritores Henrique Schneider e Olavo Amaral falam sobre Narrativas Breves, Fantásticas e Reais, com mediação de Leila Teixeira.
* 16h24 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Ramon Mello.
* 16h30 – Os escritores Pedro Maciel e Altair Martins debatem Identidade: Ficção, Esquecimento e Memória?, com mediação da jornalista Luciana Thomé. Seguido do lançamento de Previsões de um Cego, de Pedro Maciel.
* 18h30 – Luís Roberto Amabile e Carol Bensimon, autora de Sinuca Embaixo D’Água, debatem Literatura se Faz na Universidade? com mediação de Augusto Paim.
* 20h30 – Recital de poesia, com alunos da oficina Bem Dita Palavra, ministrada pela poeta carioca Maria Rezende.


DIA 23 DE ABRIL, SEGUNDA-FEIRA
No mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* Das 17h às 22h – Noite do Livro e da Literatura, com leituras, por convidados e pelo público, de O Tempo e o Vento, e gravação de um vídeo celebrando 50 anos da conclusão da trilogia.
* 18h30 _ O quadrinista Rafael Coutinho e o cartunista Santiago debatem a produção de quadrinhos e humor, com mediação de Moa. Com lançamento do projeto e da exposição Gazzara.
No Teatro Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 20h – Leitura Dramática da peça O Tempo sem Ponteiros, de Diones Camargo. Direção de Diones Camargo. No elenco, Fernanda Petit, Fabrizio Gorziza, Renata Stein e Francine Kliemann.
No mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 21h30 – Performance Tanka!?, do grupo Hoburaco
* 21h44 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Rosane Pereira.
* 21h30 – Performance Ontolombrologia Sertaneja: Ode aos Vates, com Gabrielle Vitória.

DIA 24  DE ABRIL, TERÇA-FEIRA
No auditório do Goethe Institut (24 de outubro):

* 20h – Leitura dramática de Quem Roubou meu Anabela?, de Ivo Bender, com direção de Marcelo Adams. No elenco, Gisela Habeyche, Margarida Leoni Peixoto, Marcelo Adams e Pedro Antunes.
* 21h _ O encenador Marcelo Adams e a professora de literatura Léa Masina debatem A Dramaturgia e a Ficção de Ivo  Bender

DIA 25  DE ABRIL, QUARTA-FEIRA
No Ocidente (Avenida Osvaldo Aranha, 960, entrada pela Rua João Teles, Bom Fim)

* 18h30 _ O neurocientista Ivan Izquierdo e o poeta Armindo Trevisan debatem Memória e Literatura, com mediação do escritor Altair Martins, autor de A Parede no Escuro.
* 20h _ O organizador do Bloomsday de Santa Maria, Aguinaldo Severino, e o tradutor e professor Caetano Galindo debatem Ulisses, de James Joyce
22h _ Show Ronald Augusto Trio

DIA 26  DE ABRIL, QUINTA-FEIRA

Na Sala II do Salão de Atos da Ufrgs (Campus Central, Avenida Paulo Gama)
* 19h –
Luiz Tatit e Luis Augusto Fischer debatem o Núcleo da Canção.
* 21h – Ademir Assunção entrevista Nei Lisboa.

DIA 27 DE ABRIL, SEXTA-FEIRA
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)

* 18h30 _ O crítico Antonio Carlos Secchin e o poeta e diretor do IEL Ricardo Silvestrin conversam sobre produção poética e leitura de poesia. Seguido de lançamento de Memórias de um Leitor de Poesia, de Antônio Carlos Secchin
* 20h _ Homenagem ao Centenário de Publicação de Eu, de Augusto dos Anjos, com Jaime Medeiros Jr. Paulo Seben, Sidnei Schneider e Ana Tettamanzy.
* 21h30 – Lançamento da coletânea Moradas de Orfeu, reunindo poetas do RS, SC e PR, organizada por Marco Vasques.

No auditório do Goethe Institut (24 de outubro):

* 19h _ Sarau literário com temática Erotismo.

DIA 28 DE ABRIL, SÁBADO
No Auditório Luís Cosme, 4º andar da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)

* 10h30 _ Os críticos Miguel Sanches Neto e João Cezar de Castro Rocha debatem A Consciência da Crítica Literária Brasileira, com mediação do jornalista Carlos André Moreira

No mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana (Andradas, 736)
* 15h – A professora Lívia Lopes Barbosa apresenta a conferência Drummond: Três retratos, um poeta.
* 16h – Lançamento de A Voz do Ventríloquo, de Ademir Assunção
* 18h – Livro ao Vivo, sarau de leitura de poesia, com Andréia Laimer, Diego Petrarca, Lorenzo Ribas e Rodolfo Ribas.
* 18h24 – Sessão de leitura A Melhor Maneira de Dizer Tudo em 6 minutos, com Everton Behenck
* 18h30min – Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, e Fabiana Cozza, participam do debate Desde que o Samba é Samba, com mediação de Marcelino Freire
* 20h30min – Show de Henry Lentino Quarteto

* 21h – Festa de Encerramento da programação

Adeus ao gênio

28 de março de 2012 3

Millôr, José Antônio Pinheiro Machado e Jorge Polydoro durante a entrevista, em 1981. L&PM: Arquivo pessoal

O Estado está fracassado definitivamente. O Estado não existe, o Estado já fodeu com 70% da humanidade. Nós temos hoje, em números absolutos e relativos, você sabe disso, mais miseráveis do que em todos os tempos. Claro, se fosse só em números absolutos você diria: ‘Claro, em Roma tinha 10 mil miseráveis, hoje tem 100 mil’”. Mas em números relativos também, se o mundo tinha 50% de miseráveis, hoje tem 90%. Então vamos esquecer o Estado e vamos entrar na metafísica, a possibilidade de um indivíduo atravessar a vida, o span of lif, o período que lhe foi dado a viver, que hoje no Brasil é 61 anos, em Roma é 82. Entrando nos fatores ocasionais considero que eu devo já ter terminado, como brasileiro, a minha média de vida; posso viver mais cinco anos, ou mais 10, ou mais 20, mas já estou no lucro. Enquanto eu vivo eu tenho também uma glândula que me faz feliz, uma glândula otimista! Não foi a sociedade que me deu isso! Quando eu acordo e vejo aquele puta céu de Ipanema e eu corro na praia, isto me faz extremamente feliz. Por exemplo, o meu trabalho: agora eu estou traduzindo o Rei Lear. De repente eu comecei a me chatear com o negócio e tal, mas também descobri a Aventura, que não tem nada a ver com o negócio; eu mergulhei no século XVI e concluí que só eu no mundo, ou pelo menos no Brasil, estou fazendo isso. A gente começa a entrar naquele negócio de descobrir as palavras, o significado, o que é que elas queriam dizer há 400 anos, aquelas coisas todas. Então a pessoa que tem este temperamento, que é capaz de correr na praia, de gostar, de gostar intensamente, veja bem, não é só sexual, não, de gosta intensamente da sua relação com mulher, bom essa pessoas está noutra. (Se as feministas soubesse como eu gosto de mulher totalmente, elas viriam aprender comigo.) De gostar da minha relação puramente dinâmica. Olha eu aqui, eu estava dizendo aqui no começo da noite, quando alguém perguntou onde nós íamos, eu falei, ‘olha, não vamos sair daqui, não. Vamos ficar conversando aqui, e se de repente não tiver mais ninguém pra conversar, eu fico conversando com a cozinheira até as 4 horas da manhã, para mim está sempre tudo muito bem’. E, se você tem esta possibilidade de vida, você não pode ser senão otimista em relação à vida. Mas esta posição, este sentimento, tem muito menos a ver com a sociedade em que eu vivo do que com a metafísica que me dirige.

O depoimento acima, que resume a postura ávida de Millôr pela vida que ele teve de deixar provavelmente a contragosto hoje, está em um dos últimos livros sobre o autor lançados recentemente. No primeiro trimestre de 2011, a L&PM lançou Millôr Fernandes: A Entrevista (L&PM 104 páginas, R$ 22.), reedição em livro de uma extensa conversa entre o gênio Millôr e os então jovens homens de imprensa Ivan e José Antônio Pinheiro Machado, Paulo Lima, José Onofre e Jorge Polydoro. Os três primeiros seriam fundamentais para a criação da L&PM. José Onofre e Polydoro tornaram-se nomes referenciais do jornalismo do Estado.

Na entrevista,  Millôr fala sobre sua trajetória, sobre a política e o cenário de um Brasil numa era pré- internet e até pré- democracia, uma vez que ainda vigorava a ditadura militar no país. A conversa de Millôr com o quinteto foi realizada em uma noite de 1981, durou sete horas e foi publicada na revista Oitenta, publicação cultural da própria L&PM que marcou época em Porto Alegre lançando ficção inédita, resenhas, entrevistas de grandes autores. Lembro que era uma das coisas que representava um oásis na bibllioteca da Fabico, em 1992, entre as milhares de obras sobre Teoria da Comunicação que encontrei por lá quando mudeu para Porto Alegre para estudar jornalismo. Na mesma época, fui a uma palestra de Millôr no centro municipal de cultura e muito do que vi e ouvi aquela noite me marcou para sempre. Tanto que estou até agora tentando organizar o que representa, para mim, a morte desse homem que li e admirei por boa parte da vida. É mais fácil especular o que a morte dele representa para o Brasil: um desastre e uma falta, imensa.

Mafalda, atemporal com qualquer idade

26 de março de 2012 0

Mafalda acaba de realizar o sonho de milhares de mulheres. Completou 50 anos e, por decreto, voltou a ter 48. Mal começaram a se multiplicar as homenagens pelo meio século de vida da mais famosa personagem do quadrinista  argentino Quino, criada para uma campanha publicitária jamais divulgada em 15 de março de 1962, o autor se manifestou adiando o aniversário em dois anos: o nascimento oficial da garota preocupada com os rumos do mundo seria em 29 de setembro de 1964, quando ela apareceu pela primeira vez em uma tira.

A confusão deixa margem à pergunta: entre todas as mulheres (de carne e osso ou papel), Mafalda comemoraria a chance de protelar os emblemáticos 50 anos? Sua amiga Susanita — aquela apaixonada por si mesma e que acreditava que a conjugação do verbo amar no presente perfeito era “filhos” — com certeza adoraria a possibilidade. E Felipe? O dentuço perdido em reflexões, provavelmente precisaria de uma superdose de Nervocalm diante da incerteza do dia do próprio nascimento. Mas Mafalda…

O mais fascinante sobre a garotinha que saiu de cena em 1973, mas segue cultuada por fãs fiéis ao redor do mundo, é seu olhar agudo sobre a realidade e as pessoas. Garimpando suas tiras, entre um comentário irônico sobre o embate entre o capitalismo e o comunismo naqueles agitados anos 1960, as aspirações da classe média e temas universais como a relação pais e filhos, ela aparece refletindo sobre o passar do tempo. Ao pensar no futuro, dali a 30 anos, quando a Terra teria 7 bilhões de habitantes e ela e seus amigos a idade de seus pais, ela conclui que estariam, além de apertados, velhos. Em outro momento, pergunta quantos anos alguém precisa ter para ser velho, ao que a mãe  responde que o importante é ser jovem de espírito. Então, Mafalda arremata: “E quando o espírito começa a precisar de maquiagem?“.

Mas, a despeito da certeza infantil de que qualquer idade além dos 20 é velhice, Mafalda certamente estaria agora, seja aos 48, seja aos 50, mais preocupada com os desdobramentos da Primavera Árabe ou o novo bate-boca pelo domínio das Ilhas Malvinas do que com crises etárias. A garota que ainda na pré-escola se questionava sobre os rumos do movimento feminista e, olhando as roupas passadas, a louça lavada e o chão brilhando, perguntou certa vez à mãe o que ela gostaria de ser se vivesse, é anticonvencional demais para se preocupar com idade.

Aliás, mesmo cinquentona, Mafalda, pelas artes do traço, seguirá sendo a criança que ainda hoje, quando seus leitores se aproximam ou há muito passaram dos 50, é capaz de nos desconcertar. Afinal, como ela mesma disse, entre as pequenas e as grandes questões do mundo, “a humanidade não é nada mais que um sanduíche de carne entre o céu e a terra”.

Os causos e a ironia de Chico Anysio

23 de março de 2012 2


Pantaleão Pereira Peixoto, menor na idade, fez muito carinho em dona casada, em moça donzela — e — contam — até uma meninota de quinze anos, filha-de-maria e neta de doutor, sentiu nas trancas a mão ensinada de Pantaleão Pereira Peixoto a lhe ensinar o que era bom.
— Terta, espia. . . Amanhã é dia de ter noite de lua.
— Será?
— Ora será. Não tou dizendo que é? Se eu digo que é, é porque é, ô xente.
E quem é a lua pra ter coragem de não vir na noite seguinte? Ela era necessária. Nas noites em que ela vem é que Pantaleão, desde as galinhas dormirem até os pintos piarem, com o pé calçado na alpercata de rabicho comprada em Campina Grande, vestido no pijama folgado, do tempo em que era mais gordo, tem, pra quem dê a honra de aparecer, uma estória a contar.
— Seu Pantaleão, conte a estória da vaca que usava óculos. . . — insinua Pedro Bó, conhecedor do repertório do padrinho, olho brilhando pela alegria de saber que vai escutar outra vez a estória já ouvida muitas tantas.
— Isso é estória besta, Pedro Bó. Nem é estória. Isso é um causo que nem vale a pena tomar o tempo de ninguém — rebate Pantaleão, já se preparando para contar, que ele não resiste.
Dona Terta pega o bastidor para cuidar do bordado que nunca termina. A espingarda reluz, chega a encandear pelo brilho terrível produzido graças ao alisar constante da flanela de Pedro Bó. O pé de Pantaleão sobe, pousa no assento da cadeira de balanço. O visitante se ajeita para melhor escutar. E tome conversa. Tudo coisa vivida. Tudo verdade verdadeira que quem tiver coragem que caia na besteira de duvidar.
— É mentira, Terta? — a pergunta é feroz, exigindo afirmação na resposta.
— Verdaaade — a resposta é mansa como Terta, humilde como Terta, submissa como Terta, mulher como agora já não existe mais.
— Pois bom.
E começa a estória. Da vaca de óculos, do veado capenga, do bode que voa, do ganso que fala.
A de hoje não sei qual é. Nem sei, também, qual será a de amanhã. Mesmo a de ontem eu já esqueci. Só sei que, diariamente, quando a noite se apresenta, desde o deitar das galinhas até o piar dos pintos, a voz de Pantaleão Pereira Peixoto troveja pelo sertão, no causo pedido.
— Pois bom.

Chico Anysio (1931– 2012) era um homem de TV, é certo. Sua carreira está ligada ao veículo que viu nascer e que ajudou inclusive a desenvolver no Brasil – alguns dos mais “espertos” efeitos especiais dos primórdios da TV brasileira estavam no programa Chico City, na década de 1970, ainda em preto e branco, e no qual Chico por vezes, caracterizado ora como um ora como outro de seus personagens,  contracenava consigo próprio.

Mas Chico também foi popular em livro nos anos 1970 – hoje sumidos, talvez até desconhecidos.  Editoras como Sabiá e José Olympio lançaram várias coletâneas de textos de humor escritos por Chico, alguns deles baseados em esquetes que o próprio escrevia para seu programa de TV ou para suas apresentações de teatro – se hoje o stand up é mania, não se pode esquecer que comediantes de gerações anteriores, como Chico, Jô Soares, Ary Toledo, Costinha e Juca Chaves foram pioneiros populares do humor de palco. Coletâneas de textos e contos humorísticos que saíam em livros como O Batizado da Vaca ou O Enterro do Anão – que eu, na época com 13 anos, confundia com O Anão no Televisor, do Moacyr Scliar, sei lá por quê.

Como a maioria dos brasileiros de uma determinada faixa social, muito vi Chico Anysio na TV durante a infância – não Chico City, claro, Chico City é anterior a meu nascimento, mas seu sucessor, Chico Total, o programa dos anos 1980, em que os quadros eram mais independentes. E talvez  por eu ser guri na época, Chico me parecia, aos meus olhos de espectador infantil, um tanto irregular. Algumas coisas achava muito engraçadas, outras não. Achava mais graça, e provavelmente entendia mais, os programas de humor mais popularesco como Balança mas Não Cai e o próprio Viva o Gordo.

Um dos quadros do Chico que não me diziam nada era justamente o de Pantaleão – um velho de pijama com um tapa-olho contando causos – era, claro, uma referência à cultura popular de narrativa oral ainda muito presente nas comunidades do interior, como as do Nordeste de onde Chico vinha ou as do interior do Estado, onde eu morava. Talvez por conhecer muita gente na cidade que ficava sentado na varanda ou no pátio da frente, de pijama, contando história, não achava exatamente engraçado aquilo tudo quando via na TV, não sei, é uma elaboração que estou fazendo agora.

Mas houve um momento em que Pantaleão fez sentido: quando seu personagem ganhou seu próprio livro: quando encontrei na biblioteca municipal um volume de É Mentira, Terta?, publicado pela José Olympio em 1973. O livro, aproveitando carona na popularidade do personagem, o dotava de uma biografia mais detalhada. Nome completo (Pantaleão Pereira Peixoto), a razão do Tapa-Olho (furou a vista no galho de um espinheiro desbravando o mato)  e por que não saía de casa (uma enfermidade na perna que dificultava a locomoção), entre eles.  E por escrito, o livro pareceu fazer muito mais sentido do que o quadro na TV jamais fez. Chico escrevia bem. Tinha uma maneira de criar o colorido do cenário com pinceladas ao mesmo tempo graciosas e elegantes, enquanto dotava Pantaleão da voz dos grandes contadores de histórias. Claro que para quem comprou o livro nos anos 1970 o sabor deve ter sido de coisa requentada, uma vez hoje sei que muitos daqueles textos haviam sido escritos a partir dos roteiros de episódios do programa.

Mas eu, naquela época, só ouvira falar de Chico City, sem ter visto. E embora o xingamento “Pedro Bó” fosse corrente, por algum motivo, ali por meados dos anos 1980, o personagem já não aparecia mais no quadro. Talvez esta fosse a chave: os textos de Chico lidavam, principalmente nas réplicas tumultuadas entre Pantaleão e Pedro Bó, com um recurso que talvez fosse tão sofisticado que eu só fui entender por escrito: a ironia.

Pedro Bó interrompia seu padrinho com perguntas estúpidas que eram respondidas com uma brutal ironia. Não chegava a ser Machado de Assis, nunca chegou, mas eu não conhecia Machado de Assis aos  13 anos. Para um guri, a ironia de Chico era uma bela apresentação, e por escrito o espírito do “causo” finalmente ganhava uma razão de ser. Não eram textos exatamente engraçados, mas eram textos com bastante graça. Leiam uma das histórias do livro e tirem suas próprias conclusões:

EIS O MODO DE PANTALEÃO CONTAR UM FATO ACONTECIDO COM A RAPOSA E NO FIM DO QUAL A RAPOSA É FIGURA DE MENOR EXPRESSÃO

– ATÉ QUE ENFIM APARECEU! – gritou Pantaleão, feliz, ao perceber que o compadre Roberval despontava. O zaino riscou junto ao batente do alpendre, Roberval desmontou e entregou a rédea do animal a Pedro Bó, que o conduziu ao quintal, onde lhe daria água e descanso.
– É Deus quem lhe traz, meu compadre. Entre, se acomode, a casa é sua. Dona Terta chegou com os braços afastados para o abraço no compadre.
Conversaram o inevitável trivial, perguntando e sabendo das coisas e das gentes. A melhora da comadre Inocência, esposa de Roberval, foi motivo de alegria para Dona Terta, que andava muito preocupada com o estado de saúde da amiga.
– Só não veio comigo porque a gente não queria deixar a casa só – explicou Roberval. – Tem uma raposa que anda cercando o galinheiro, e Inocência tem muito jeito pra fazer armadilha de pegar raposa.
Pantaleão suspirou fundo, tirou os óculos, com o indicador dobrado coçou o lugar onde antes tivera um olho, recolocou os óculos. Terta percebeu.
– Meu velho se lembrou daquela raposa, não foi?
Era isso. A estória da raposa não podia ser esquecida numa hora em que o nome do animal fora falado.
– Conte esse causo, compadre – pediu Roberval, já bebendo a caneca, água fresquinha recém-tirada da quartinha.
Dona Terta tomou a frente.
– Agora, não. Deixe Pedro Bó voltar que se ele não escutar essa estória ele morre. Pedro Bó é doidinho por esse causo da raposa.
Não foi preciso esperar muito. Mais uns minutinhos e já vinha Pedro Bó maquitolando, mordendo um pedaço de capim, enxugando a testa com a manga da camisa.
– O cavalo tá bebido e comido, Seu Roberval – anunciou ao entrar. – Oh, cavalo mais lindo. Botei ele na sombra. Ele tá que parece um bispo, de tão quietinho. Dona Terta, então, pôde anunciar:
– Pedro Bó, vem pra cá que Pantaleão vai contar pro compadre Roberval a estória da raposa.
– Eita! – Pedro Bó deu um pulo de alegria. Os olhos se encheram de lágrimas. – O senhor pra contar estava esperando por mim?
– Não, Pedro Bó. Tava esperando pelo Dr. Getúlio Vargas. Tá vendo, Terta? Foi pra escutar essa besteira que eu esperei. Pedro Bó, vá lá pra dentro e escreva cem vezes “preciso aprender a deixar de ser besta”.
Dona Terta controlou o marido, evitou o castigo, consolou Pedro Bó, serviu um cafezinho e Pantaleão velho de guerra tomou a palavra.
– O causo se deu em Penedo, em 1927. Como voimicê sabe, compadre Roberval, bicho que raposa aprecia é galinha. Bote uma paca, bote um jumento, bote uma capivara, a raposa se vê, nem faz conta. Mas por galinha o diacho da raposa é doidinha. É feito Terta por missa: não enjeita. Pois bom. Um dia, era já de meio-dia pra tarde, se não fosse duas horas, era por aí. Eu tava mastigando uma tora de rapadura, deitado em minha rede armada na varanda, quando comecei a escutar um barulho que vinha do terreiro. Era um tal de có-có-có, có-có-có.
– Era uma galinha?
– Não, Pedro Bó, era um jegue. Tinha acabado de botar um ovo e tava festejando. Terta, traga aquela chibata que coronel Heliodoro me deu no dia dos meus anos.
Ora, que mania. Pedro Bó não tinha mesmo jeito. Só se alguém lhe passasse um esparadrapo na boca. Dona Terta, mulher santa, mais uma vez acomodou as coisas.
– Siga adiante, compadre – pediu Roberval, pernas cruzadas, mostrando ostensivo a espora de prata.
– Pois bom. Aquele cacarejo aperreado não parava. Era có-có-có e mais có-có-có. . . e tome có-có-có. Eu pensei comigo: “homem, as galinhas tão afuleimadas”. Saltei da rede e entrei em casa. Mal eu entrei, escutei o latido do lado de fora. Ora, mas será possível? Eu tou lá, tem coisa aqui, venho pra aqui, tem coisa lá? Mas o latido de cachorro era diferente do latido normal, compadre. Era um latido triste, lamentoso, não sabe? Corri pra ver, era meu cachorro Rompe-Ferro. Sozinho. Eu me azucrinei: “Rompe-Ferro, cadê os teus irmão?” – o cachorro não respondeu, compadre, que cachorro não fala. Mas entende, que parece gente. Rompe-Ferro sacudiu o rabinho, espiou triste, como quem diz “desapareceram”. Não era um dia bom, compadre. Aqueles três cachorros – Rompe-Ferro Fura-Nuve e Corta-Vento – eram a alegria da minha vida, sem botar nisso Terta, que Terta é coisa de outro valor. Mas entre os cachorros e Pedro Bó eu nem sei quem preferia. Pulei o muro do alpendre, atravessei o terreiro da frente, corri pro mato gritando: “Fura-Nuve! Corta-Vento!”. Foi quando eu ouvi uma voz dentro do mato gritar: “Pantaleão, corre aqui!” Correndo como eu vinha, correndo eu segui no rumo do grito. Era Inacinho, um menino que trabalhava comigo na ocasião. O que foi, Inacinho? Espie aqui, Seu Pantaleão. Compadre, Inacinho tinha nas mãos as penas de quatro galinhas que a raposa tinha comido.
– Cruas?
– Não, Pedro Bó. Na cabidela. A raposa botou um avental, foi pra beira do fogão e preparou as galinha de cabidela pra tu comer mais tua mãe. Hoje você dorme no sereno, que é pra ver se pega um difluxo.
– Continue, compadre – pediu Roberval, menos interessado do que aparentava. Ninguém lhe notara as esporas de prata.
– Pois bom!
A perda das galinhas irritou o homem. Tinham sido quatro e isto significava que a terça parte do galinheiro havia sido devorada pela raposa. Era preciso tomar uma providência e o homem capaz de uma atitude no caso era ele mesmo, Pantaleão Pereira Peixoto, criado, desde menino, de modo a nutrir um ódio enorme pela covardia daquele bicho miserável que come o almoço dos domingos. Inacinho afirmara que vira a raposa ganhar o mato na direção do engenho. Pantaleão, com o ódio nas veias, pegou sua espingarda coió, chumbeiro de chumbo grosso, tabaqueiro de chifre de bode e saiu na cata da raposa. Andou mais de duas léguas farejando o rastro. Nenhum perdigueiro tinha faro melhor. Ele sabia, numa simples olhada, o trilho da raposa. Na volta do bananal, avistou a loca de pedra. Ali acabava o rastro. Por onde sair, a raposa não tinha. Mas não era uma raposa que havia na loca, eram muitas. Sem que ele esperasse, as raposas começaram a sair.
– E sai uma e sai outra e sai outra. Compadre, era um tal de sair raposa que não tinha cristão que desse jeito. Quando chegou em oitenta, eu parei de contar porque já tava saindo era de três em três, de quatro em quatro. Eu nem imaginava que naquela loca coubesse tanta raposa. E sai mais uma e sai mais cinco, eu me embaralhei na conta. Só sei, compadre, que uma delas me viu, avisou pras outras, quando eu dei fé, em vez de eu caçar as danada, elas é que iam me caçar. Pensei comigo: vou subir num pé de pau.
– Pra escapar delas?
– Não, Pedro Bó. Ia subir num pé de pau pra fazer um discurso: meus senhores, se vós conhece gente mais besta do que Pedro Bó, me amostreis. . . Hoje você dorme de botina, pra sonhar com o cão.
– Continue, homem de Deus – pediu o compadre. – Acabe essa estória enquanto eu tiro minhas esporas de prata.
– Pois bom – seguiu Pantaleão, sem prestar atenção nas esporas já citadas. – Eu botei reparo numa coisa: eu tava debaixo de um pé de imburana. O galho mais baixo não estava a menos do que quinze metros.
As raposas se formavam em grupos de cinco, de oito. Eram muitas. Não importava, agora, saber qual delas tinha comido as quatro galinhas. A vida de Pantaleão estava em perigo. Se as raposas se enfurecessem e resolvessem atacar, tudo podia acontecer. Ele mediu a altura do galho mais próximo e preparou o salto.
– Eu me encolhi, compadre, e me preparei mode pular pra cima. Pedi a proteção de São Francisco de Assis – santo de palavra, que nunca me deixou em necessidade – e vupt, subi.
– Compadre, você estará querendo me dizer que num pulo subiu quinze metros e pegou o galho?
Pantaleão exasperou-se. Não gostava que duvidassem do que dizia e, muito menos, que o julgassem homem de menor competência. E o modo como o compadre falara, insinuava mais coisas.
– Não apreciei o jeito de você fazer essa pergunta, compadre Roberval. Estou lhe recebendo na minha casa com muito amor, pra você pagar essa gentileza com uma pergunta safada como essa.
– É que eu acho que quinze metros – desculpava-se o compadre – é muita altura. Você, num salto, subir quinze metros…
– Eu vou ser sincero, Roberval. Eu não peguei o galho no pulo que dei, não.
– Ah, bem.
– Quando eu pulei, eu passei pelo galho, mas na descida do pulo, caí escanchado nele, que foi uma beleza.
– Bem, a prosa está boa, mas as esporas de prata estão me apertando – disse o compadre, levantando-se e saindo à busca do seu zaino. O que ouvira já era o bastante. E havia a raiva das esporas não terem sido elogiadas. Nem notadas, sequer. Despediu-se com um aceno, já galopando pela estrada.
– Foi-se embora e nem ouviu a estória da raposa … – lastimava-se Pantaleão. – E me diga uma coisa, Terta: ele estava de espora?

Três buscas

23 de março de 2012 0

Três escritores gaúchos de trajetórias distintas participarão neste sábado, às 18h, de um debate e sessão de autógrafos coletiva em Porto Alegre. Reunidos no auditório da Livraria Cultura (Shopping Bourbon Country, Avenida Tulio de Rose, 80), Dilan Camargo, Luís Dill e Sergio Napp apresentarão seus livros de estreia pela editora 8inverso e conversarão com o público sobre literatura e mercado editorial.

Nos lançamentos, cada autor apresenta uma forma narrativa diferente. O poeta Dilan Camargo aventura-se em contos direcionados aos jovens em O Man e o Brother (96 páginas, R$ 34), um livro compilando 10 contos voltados para o público juvenil a partir de personagens que vivem em situaçõesde vulnerabilidade. São as “macabéas” que inspiram o autor:

– O personagem do conto que dá título ao livro é um jovem que quer ser um homem, e não apenas um brotherzinho submetido à lógica social da violência e do crime, mesmo no limite da sua própria vida.

Voltado para a mesma faixa etária, o escritor Sergio Napp, também conhecido pela atuação como letrista da MPB e da música regionalista, lança o romance de formação Houve um Verão (128 páginas, R$ 35). Inspirado pela possibilidade de fazer literatura juvenil sincera e irreverente, Sérgio Napp concebeu um livro protagonizado por um Gabriel, que começa a narrativa como é um menino curioso, depois, um adolescente que anseia por ser e, finalmente,um homem feito.

–  O livro toca em vários assuntos atuais, mas sem o ranço moralista. Este texto me abriu caminhos em meu modo de escrever e pensar a literatura juvenil – afirma Napp.

Do ponto de vista formal, o livro mais ousado é o de Luís Dill. A Dor mais Afiada (208 páginas, R$ 39) leva adiante a experimentação anterior de Dill cruzando minicontos e o gênero policial. Desta vez, o autor lança um romance policial dividido em mil pequeníssimos capítulos, de três linhas cada. Em A Dor mais Afiada, Douglas vive uma trama de crime e traição cujos conflitos desenvolvem-se em pílulas que instigam, mas não saciam (numa estrutura que lembr ade passagem o conto 74 Degraus, de Rubem Fonseca).

– Sempre gostei de inventar estruturas narrativas e de me propor desafios restritivos. Um dos maiores foi fazer com que cada capítulo tivesse importância na construção dos personagens – conta Dill.

Ainda que não se trate de uma coleção, e a publicação das três obras apenas coincida no tempo de seu lançamento, a coordenadora editorial das publicações, Elaine Maritza da Silveira, reconhece entre os livros uma ligação:

– Há um traço forte de humanidade que se consegue perceber nas personagens que passeiam pelas narrativas tão bem construídas. Nos três livros, o leitor encontrará seres humanos que querem, embora algumas vezes o neguem, ser alguém melhor, e por isso buscam, às vezes por vias tortas, encontrar o fio que lhes dará o norte, ou o que pensam que seja o norte.


O que diz Antônio Carlos Secchin sobre o Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 1

Antônio Carlos Secchin na Jornada de Passo Fundo de 2009. Foto: Jean Pimentel

A comissão julgadora da 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar foi composta por Heloisa Buarque de Hollanda, Ricardo Vieira Lima, Antônio Carlos Secchin, Armindo Trevisan  e Carlos Felipe Moisés. Um dos pontos que o poeta Eduardo Sterzi elenca como “absurdo” em sua carta de renúncia à Menção Honrosa recebida por sua obra Aleijão é que Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras e crítico com longa relação de leitura e diálogo com Ferreira Gullar, fazia parte do júri – e Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio), foi o vencedor entre os 152 inscritos. Entrevistamos também, desta vez por telefone, Antônio Carlos Secchin.

Zero Hora – O poeta Eduardo Sterzi renunciou a uma menção honrosa concedida pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar e qualificou como absurdo o fato de o senhor integrar o júri e ao mesmo tempo ser um dos prefaciadores do livro vencedor. Como o senhor responde a isso?
Antônio Carlos Secchin –
Fico muito espantado com essa reação de Eduardo Sterzi. Esse é um concurso para o qual se convidam pessoas que tenham certa experiência com o objeto literário. Eu já integrei praticamente todos os júris de poesia no Brasil, e com mais de 30 anos de carreira universitária e literária é impossível não conhecer os poetas que estão em atividade.  Quando recebi o convite, não sabíamos quem havia se inscrito. Dentre os 152 concorrentes, aliás, talvez eu tenha escrito prefácios para mais de 20 deles. Seguindo essa lógica só podem participar de júris de concursos literários eremitas que jamais escreveram sobre qualquer livro em sua vida.

ZH – O senhor é de fato um dos prefaciadores do livro, ao lado de Alfredo Bosi. De algum modo essa circunstância não poderia ser apontada como um impedimento à sua objetividade de jugalmento?
Secchin –
Não. Não é segredo que sou um leitor da obra de Ferreira Gullar, já escrevi sobre ele, assim como já escrevi sobre Cecília Meirelles, preparei a edição da obra de João Cabral, sou um dos curadores da reedição da obra de Carlos Drummond de Andrade. Como crítico, eu tenho uma relação com os grandes poetas da língua. Ressalto ainda que quando as pessoas são convidadas para júri, não sabem quem são os inscritos. Escrever uma apresentação é uma coisa. Ter a consciência ética de julgar é outra. Posso ter escrito sobre mais de uma dezena de livros e nem todos entraram na minha relação final das obras que mereciam ganhar. Não é como se eu estivesse protegendo o Gullar dentro do júri. Circunstancialmente, o Gullar ganhou, o que protege o livro dele é a alta qualidade desse livro, que já vinha credenciado pelo Prêmio Jabuti. Tanto que éramos cinco jurados e a vitória foi por unanimidade. Ainda que eu tivesse tido alguma intenção ou ação para favorecer o livro do Gullar, o meu voto não teria sido determinante. Se eu não quisesse que ele ganhasse o prêmio, também teria sido vencido, porque os outros quatro votos foram nele. Duvidar disso é querer apequenar a dimensão do livro.

ZH – Qual foi o método de trabalho do júri? Os senhores chegaram a se reunir pessoalmente, uma vez que são radicados em Estados diferentes?
Secchin –
Não houve uma reunião específica em Porto Alegre. Poderíamos ter enviado cada um nossos votos e depois o Instituto Estadual do Livro que tabulasse tudo e anunciasse o vencedor, mas eu propus, e todos concordaram, que em vez de apenas mandarmos uma lista, trocássemos mensagens sobre os principais livros em um fórum de discussão. O processo não foi voluntarista, mas nasceu de um longo amadurecimento de propostas, contrapropostas, listas que os jurados trocaram entre si via mensagens.

ZH – O motivo principal da desistência de Sterzi é a transferência da cerimônia de premiação para o Rio de Janeiro, algo que se dá apenas pela projeção do vencedor. O que o senhor pensa disso?
Secchin –
Aí já é outra questão. Isso não tem nada a ver com o prêmio em si. É uma questão de logística de operacionalidade do prêmio. Um concurso como o Moacyr Scliar é de dimensão nacional. Os organizadores do Prêmio acharam que esse concurso de caráter nacional sendo oferecido na Bibloteca Nacional daria mais visibilidade ao prêmio, mas isso é uma questão interna. Até o local da entrega já ser alvo da polêmica me parece desviar o foco da questão de que possa ter havido um livro que foi o melhor dentre os inscritos.

ZH – Mas a transferência obedeceria a uma idiossincrasia do premiado, o fato de que Gullar não viaja de avião?
Secchi –
De fato, Ferreira Gulllar é um poeta que há alguns anos optou por não fazer viagens de avião, é um homem de idade, não vejo problema nisso. Mas se o prêmio fosse entregue em Porto Alegre, para esses casos há uma fórmula muio simples, que seria enviar um representante. Quando se optou pelo Rio de Janeiro, não foi só para atender a um pedido do Gullar. Quem sabe na biblioteca Nacional o Prêmio vá ter uma divulgação maior ainda. Quando ele ganhou o Prêmio Camões também o prêmio foi entregue no Rio de Janeiro.

ZH – E o fato de a editora do livro também oferecer o coquetel de entrega não lhe parece estranho?
Secchin –
Como se sabe, o prêmio não é apenas para o autor, esse prêmio é para a editora também. Qual é o absurdo de uma editora premiada com um dinheiro em concurso nacional, querer fazer uma festa para o autor que ganhou esse prêmio? A Biblioteca nacional não está gastando um tostão da festa, o que talvez fosse mais problemático. Acredito que é muito mais decoroso que a editora, como retribuição desse prêmio, use um pouco do valor para organizar uma festa para seu autor.

O Instituto Estadual do Livro responde

21 de março de 2012 3

Ricardo Silvestrin, diretor do IEL. Foto: Mariana Muller

O Prêmio Moacyr Scliar foi anunciado oficialmente em agosto do ano passado.  Patrocinado pela Petrobrás e pelo Banrisul, ele oferece R$ 150 mil para o escritor e R$ 30 mil para a editora da obra vencedora, para custear uma nova edição a ser distribuída em bibliotecas. A primeira edição do prêmio foi aberta a livros de poesia publicados nos dois anos anteriores. A segunda edição, prevista para o ano que vem, vai contemplar contos também lançados até dois anos antes, e assim sucessivamente, alternando os dois gêneros. Foram 152 livros inscritos no certame, entre eles Aleijão, de Eduardo Sterzi.

O livro vencedor foi Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio, 2009). Sterzi recebeu Menção Honrosa, bem como os livros Em Trânsito, de Alberto Martins (Companhia das Letras); A Vida Submarina, de Ana Martins Marques (Scriptum) e Lar,, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras).

Na última sexta-feira, Sterzi renunciou à menção em uma mensagem dirigida ao diretor do Instituto Estadual do Livro, Ricardo Silvestrin. Para ouvir a posição do Instituto sobre os Motivos que levaram à renúncia de Sterzi e sobre os comentários feitos por ele em sua carta de renúncia, entrevistamos Silvestrin, também por e-mail:

Zero Hora – O poeta Eduardo Sterzi renunciou, em uma carta aberta endereçada ao senhor, à menção honrosa que havia sido conferida a ele pelo Prêmio Moacyr Scliar. Ele cita como razões a mudança para o Rio da solenidade oficial de entrega e o fato de a própria editora da obra vencedora oferecer o coquetel de premiação – como de fato está expresso no convite que foi divulgado pelo IEL. O senhor já leu o comunicado? Qual sua posição oficial sobre ele e sobre os pontos apontados por Sterzi?
Ricardo Silvestrin
– Sim. O autor enviou e-mail para o IEL na sexta feira (dia 16), às 21h31min, solicitando que seu nome e seu livro fossem retirados da lista dos ganhadores de menção honrosa. Foi respondido a ele, com base no item 6.4 do regulamento, que diz os casos omissos serão resolvidos pela Secretaria de Estado da Cultura e pelo Instituto Estadual do Livro, que sua solicitação, embora não concordando com seus argumentos, foi aceita. Os outros pontos estão respondidos abaixo das tuas perguntas.

ZH – Por que um prêmio realizado no Rio Grande do Sul, homenageando um dos maiores escritores do Rio Grande do Sul e conferido por uma secretaria de governo do Rio Grande do Sul terá solenidade de entrega oficial no Rio de Janeiro? A escolha do agraciado determinou a mudança do local de entrega? Por quê?
Silvestrin –
O agraciado, Ferreira Gullar, comunicou à Secretaria de Cultura e ao IEL que não viaja de avião. Não viajou, por exemplo, para Lisboa quando foi o escolhido para receber o prêmio Camões, que foi entregue a ele também na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como o Governador Tarso Genro estaria no Rio em função de atos do governo, no dia 29, data prevista pelo edital, o Governo, a Secretaria de Cultura e o IEL decidiram aproveitar a oportunidade para fazer a entrega. Embora realizado por uma Secretaria de Estado do Rio Grande do Sul, embora leve o nome de um dos maiores escritores nossos, trata-se, também, de um prêmio nacional que leva o nome de um dos maiores escritores nacionais. A vontade, é claro, era realizar a entrega aqui, no Palácio do Governo. Mas, em virtude da inviabilidade de deslocamento do vencedor, não foi possível.  Outro ponto levantado pelo autor que pediu sua exclusão da lista dos ganhadores de menção honrosa – menções que foram propostas pelos jurados e aceitas pela Secretaria e pelo IEL – seria o fato do coquetel de confraternização ser pago, no Rio de Janeiro, no próximo dia 29, pela editora premiada.  Como está no edital, a editora do livro premiado (e poderia ser mesmo um livro independente; sendo nesse caso o autor também o editor), recebe a quantia de trinta mil reais como pagamento pela compra dos direitos de edição para uma nova tiragem de cinco mil exemplares impressa pela Corag (apoiadora do Prêmio). Essa edição será distribuída nas bibliotecas públicas e pontos de cultura do estado. Nada, a nosso ver, impede a editora de oferecer um coquetel, por sua iniciativa, para receber os convidados do evento, o autor, as autoridades e confraternizar com todos. Aliás, essa é a praxe em lançamentos.

ZH – O edital do prêmio, como é padrão em certames do gênero, proíbe a inscrição de membros da comissão julgadora e de parentes e “afins”. Sterzi argumenta que, dada a reconhecida amizade de Antônio Carlos Secchin com Ferreira Gullar, soa estranha a premiação. O “afins” neste caso não englobaria também críticos que tenham prefaciado, apresentado ou recebido agradecimentos nos livros inscritos?
Silvestrin –
Não. O “afins”, segundo o Direito de Família, define o que segue:
“O parentesco pode ser, portanto: a) consangüíneo ou natural, quando se funda na igualdade de sangue; b) afim, quando se forma entre um indivíduo e a família de outro, por intermédio da união sexual.”
Ou seja, não se trata de parente afim (sogro, cunhado, genro, concunhado…) Além disso,  as decisões da comissão julgadora são soberanas – o IEL não tem qualquer interferência no resultado do concurso.  Se, por hipótese, o IEL tivesse a possibilidade de qualquer ingerência – o que seria um absurdo legal, veja-se: a comissão julgadora é composta por 5 membros. A decisão foi por unanimidade – e dessa comissão fazem parte, por exemplo, pessoas com a idoneidade moral e intelectual de um Armindo Trevisan, pra citar um nosso conterrâneo. Essa comissão não considerou que o fato de um dos membros ter feito o prefácio da obra de um autor de longa trajetória na cultura brasileira fosse um impedimento a ponto de propor a sua abstenção na votação. Matematicamente, um voto nada poderia fazer contra os outros.  E a votação foi individual.  Houve prazo de recurso contra a decisão, o qual se esgotou, e ninguém interpôs recurso algum, isto é: a comunidade literária reconheceu como idônea a atribuição do prêmio.

ZH – A formação da comissão julgadora foi efetuada pelo IEL e pelo Secretário de Cultura do Estado, de acordo com o que está no edital. Qual foi o critério de escolha dos nomes que formaram o júri?
Silvestrin –
O critério está explicitado no item 3.1. Todos os nomes escolhidos se enquadram nesse critério. São poetas, ensaístas, antologistas, professores com destacada atuação no meio literário do país. Procurou-se compor um grupo que tivesse uma visão tanto da produção contemporânea, como o caso do crítico e antologista Ricardo Vieira Lima, da produção dos últimos quarenta anos, como a professora, antologista e editora Heloísa Buarque de Holanda, ensaístas e poetas destacados, como Trevisan, Secchin e Carlos Felipe Moisés.  Todos foram convidados quando do lançamento do edital. Os livros inscritos foram divulgados e enviados para a Comissão Julgadora só após o IEL tê-los recebidos dento do prazo de inscrição. Não havia como barrar qualquer jurado antes da inscrição dos exemplares. Depois disso, a decisão se haveria algum impedimento para o julgamento ficaria a cargo da Comissão Julgadora.

Polêmica nos bastidores do Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 10

Eduardo Sterzi na Flip 2011. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Na central de hoje do Segundo Caderno, encontra-se um texto que resume em parte uma polêmica recente envolvendo a 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar. Na última sexta-feira, dia 16 de março, o poeta, jornalista, crítico literário e professor Eduardo Sterzi, que havia sido laureado com uma menção honrosa no resultado pelo júri do prêmio, enviou um e-mail ao diretor do Instituto Estadual do Livro renunciando à premiação.

De acordo com ele, o prêmio havia se tornado um festival de “promiscuidades” e apequenava-se ao mudar a premiação do Palácio Piratini, onde estava inicialmente prevista a entrega oficial, para a Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, devido à bem conhecida aversão de Ferreira Gullar, o vencedor, em pegar aviões. Também mencionava de passagem que era outro “absurdo” o fato de Antônio Carlos Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras, fazer parte do júri. Ele, ao lado de Alfredo Bosi, é um dos prefaciadores da obra que venceu o prêmio, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar.

Para saber mais detalhes dos motivos que levaram o poeta autor de Aleijão (o livro que recebeu a menção honrosa no concurso) a renunciar à menção honrosa que recebeu, procuramos Sterzi, gaúcho que há anos reside em São Paulo, e ele nos respondeu a seguinte entrevista, por e-mail (nos posts seguintes, publicaremos também o contraditório das entrevistas com Ricardo Silvestrin, diretor do IEL, e com o próprio Antônio Carlos Secchin:

Zero Hora – Você divulgou uma carta aberta rejeitando a menção honrosa concedida a Aleijão pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar – na qual aponta como motivo a transferência da cerimônia oficial para o Rio. Poderia detalhar um pouco mais seus motivos?
Eduardo Sterzi –
Minha decisão de renunciar à menção honrosa se deu na última sexta-feira, quando recebi um email do Instituto Estadual do Livro com o convite para a cerimônia de entrega do Prêmio Moacyr Scliar. Não posso dizer que fiquei surpreso com a decisão de transferir a cerimônia para o Rio de Janeiro, porque já imaginava que algo assim poderia acontecer. Mas a falta de surpresa não diminuiu minha indignação ao enfim confirmar o que, em alguma medida, já se desenhava desde que o nome do vencedor do prêmio foi anunciado. Para quem conhece um pouco do comportamento pregresso de Ferreira Gullar, era óbvio que ele não se deslocaria a Porto Alegre para receber o prêmio. Já se tornou parte da mitologia pessoal do poeta, amplamente divulgada e freqüentemente reiterada pelo próprio, seu medo de avião, que funciona como um ótimo álibi para fugir de compromissos indesejáveis.
Ferreira Gullar está em seu direito, claro, em se recusar a voar seja para onde for; o que não compreendo é que, dada a recusa do autor, o Instituto Estadual do Livro ou o governador (que, segundo o convite, confirmou sua presença) tenham decidido transferir para outro estado uma festa que, evidentemente, deveria ocorrer em solo gaúcho. Não consigo me lembrar de outro prêmio que tenha feito isto, ainda mais se tratando de uma premiação promovida pela administração pública. Consegues imaginar, por exemplo, o Prêmio São Paulo de Literatura deslocando sua cerimônia de entrega para outro estado? Isto é falta de dignidade, falta de altivez. O que se quer? Conferir prestígio ao novo prêmio com uma meia dúzia de fotos de autoridades sul-riograndenses ao lado do “grande poeta”? Pois o resultado, a meu ver (e não só meu), foi precisamente o contrário. O prêmio se desvaloriza, o nome do seu patrono é desrespeitado e a imagem do Rio Grande do Sul, que é o meu estado, sai diminuída. Mas o que realmente me escandalizou foi verificar que, entre os apoiadores do evento, se encontra a editora agraciada junto ao seu autor (não esqueçamos que não só Ferreira Gullar ganhou R$ 150 mil, mas que também a José Olympio arrebatou R$ 30 mil). Também não consigo me lembrar de prêmio algum que acabe incluindo entre os patrocinadores de sua festa de entrega (no caso, o coquetel) um dos próprios ganhadores. Isto é promiscuidade – não há outra palavra.

ZH –  Você menciona que Antônio Carlos Secchin, um dos integrantes do júri, é um dos prefaciadores do livro vencedor, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar. Crê que isso tenha influenciado a decisão final do júri?
Sterzi –
É impossível afirmar que o fato de Secchin ser um dos prefaciadores do livro premiado influenciou na decisão do júri. Mas acredito que, seja ele mesmo, sejam os organizadores do prêmio, alguém deveria ter percebido que havia aí um impedimento ético. O que se pode supor, com alguma segurança, é que pelo menos um dos votos dos jurados já tinha uma clara tendência, uma vez que o comprometimento de Secchin com a obra de Gullar não se limita à redação do prefácio do seu último livro, mas é antigo, constante e intenso, a ponto de, em janeiro de 2002, o crítico ter viajado até Estocolmo para apresentar à Academia Sueca a candidatura do poeta ao Nobel (cf. p. ex. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u21150.shtml). Lembro ainda que não se trata do primeiro júri de que Secchin participa e do qual Gullar sai como vencedor. Isto já aconteceu no Prêmio Camões de 2010. “Naturalmente”, naquela ocasião, foi o mesmo crítico a telefonar para Gullar para lhe dar a notícia… (cf. p. ex.
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,ferreira-gullar-ganha-o-premio-camoes,559893,0.htm).
Friso que não vejo nenhum problema no comprometimento de um crítico com determinado autor que ele admire especialmente. O que acho complicado é que este comprometimento passe a envolver dinheiro público e instituições que deveriam agir com a máxima transparência possível. Fico extremamente incomodado com o fato de que isto se dê justo com o Instituto Estadual do Livro, órgão pelo qual tenho o orgulho de ter publicado o meu primeiro livro, Prosa, em 2001.

ZH – Você anunciou a sua renúncia no dia 16 de março. Por que não na época do anúncio da premiação?
Sterzi
– Porque, como disse na primeira resposta, só recebi o convite para a cerimônia no dia 16.

ZH – Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?
Sterzi –
É certo que, no âmbito literário, cuja amplitude é relativa, inevitavelmente chegará um momento em que haverá relações entre jurados e concorrentes. Não só relações positivas, frise-se, mas também relações negativas – umas ou outras, nos mais diversos graus de comprometimento. Foi por estar consciente dessa quase inevitabilidade que, ao confirmar que o resultado da premiação era o que eu já previa, preferi não me manifestar a respeito e acabei aceitando a menção honrosa que me foi oferecida. Friso que, embora acredite que, pelas razões já expostas na minha segunda resposta (sobretudo o grau de comprometimento entre crítico e autor neste caso específico), havia um impedimento ético para a participação de Secchin no júri, não foi este o motivo de minha renúncia à menção honrosa. Questões éticas são sempre passíveis de discussão, dependem de escalas de valores compartilhadas ou não por uma comunidade, dependem até mesmo – como tu bem observas – das particularidades da constituição de uma determinada comunidade (aqui, por exemplo, o fato de ser relativamente restrita). Renunciei à menção honrosa por um fato muito objetivo, que foi a transferência da cerimônia de entrega do prêmio para outro estado que não aquele que promoveu o prêmio. Isto me pareceu uma falta de altivez e de dignidade indiscutíveis. Algo realmente inédito, diria até mesmo impensável no caso de outros prêmios promovidos por instituições ligadas a governos estaduais. Não vejo nisto senão um casuísmo deplorável. Pergunto-me: digamos que o agraciado tivesse sido qualquer outro autor que também alegasse medo de avião ou outro motivo para não ir a Porto Alegre receber o prêmio; o IEL também transferiria a cerimônia para a cidade em que este hipotético autor mora? O governador do Estado também se deslocaria para esta cidade? Não vamos longe: se o agraciado tivesse sido qualquer um dos ganhadores de menção honrosa, isto aconteceria? É evidente que não. Seria absurdo. E é absurdo. A isto se soma o fato de, no convite oficial para o evento, a editora premiada aparecer também como apoiadora, isto é, em bom português, como patrocinadora (e, portanto, dona) de parte da festa. É claro que a José Olympio tem todo o direito de promover um coquetel em homenagem ao seu autor. O que acho promíscuo é este coquetel tornar-se parte da própria cerimônia de premiação. Vejo aí uma promiscuidade lamentável, que também não comporta, a meu ver, muita discussão. Que a editora proponha tal coisa, tudo bem; que o IEL aceite, é um absurdo. Que eu me lembre, nos júris de que participei, nunca um houve uma situação como esta ocorrida no Prêmio Moacyr Scliar (até porque, que eu saiba, nenhum outro crítico brasileiro viajou a Estocolmo para apresentar a candidatura de outro escritor ao Nobel…), tampouco como as que mencionas (prefácio, homenagem ou menção nos agradecimentos). A maioria dos júris de que participei foi de concursos literários destinados a obras inéditas, em que não tínhamos acesso aos nomes dos autores. E, no único caso diverso, o Açorianos de 1997, não me lembro de haver nenhum problema dessa ordem.

Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?

A Anna deles e a minha...

18 de março de 2012 2

Tolstoi assim descreve Anna Karênina a certa altura de seu monumental romance de mesmo nome, em uma cena ocorrida em um baile. Em tempo, para quem não leu o romance: Anna Arkadiévna é a Anna do título mesmo, nomeada com o prenome de batismo e o patronímico (compreensivelmente, o mesmo de seu irmão Stiépan Arkadiévitch). No contexto da cena a seguir, a jovem Kitty citada no texto, que vê em Anna, grande dama chegada de Petersburgo, um modelo de elegância e cosmopolitismo, é a futura noiva do infausto Conde Vronsky, um belo e arrojado jovem que terminará se apaixonando pela protagonista. O amor de ambos precipitará uma tragédia (quem reclamar de spoiler com este comentário a respeito de um livro que está por aí há “só” 139 anos será desconsiderado, desculpe). Mas eu falava de Anna. Eis como ela é descrita na cena do baile:

Korsunski fez uma reverência, empertigou-se e ofereceu-lhe o braço para conduzi-la até junto de Anna Arkadievna. Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda do vestido dos joelhos de Krivine e voltou os olhos em busca de Ana. Esta não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Uma toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, como esculpidos em velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. Nos cabelos negros, sem postiços, ostentava uma grinalda de amores-perfeitos, combinando com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas Estava penteada com muita simplicidade. Apenas alguns caracóis de cabelo frisado na nuca e nas fontes se lhe eriçavam rebeldes. Em volta do pescoço bem torneado brilhava um fio de pérolas.

Leitores de Anna Karênina - falo por mim mesmo, mas já tive corroborada a impressão por um ou outro dos leitores devotos da obra – tendem a se apaixonar pela personagem, o que talvez seja o motivo pelo qual os mesmos leitores tendem a torpedear sem piedade as transposições da história para o cinema – muitas vezes com a maior das razões, como no filme de 1997, uma das adaptações literárias mais equivocadas de todos os tempos. Ao saber, portanto, que Joe Wright se preparava para filmar mais uma versão, em pós-produção neste momento em que escrevo, fiquei desconfiado. Wright já provou ser bom em reconstituição de época e adaptação literária, mas tem o péssimo hábito (compartilhado por vários diretores de elenco, sei lá por quê) de escalar Keira em papéis de época na primeira oportunidade que aparece. Keira Knightley, com seus braços de espaguete, se houvesse um mínimo de acurácia histórica, seria mais apropriada para viver uma tuberculosa terminal em algum sanatório saído de Os Miseráveis, mas eles insistem. Daí por que, mesmo sabendo que a moça tem um rosto bonito e muito clássico, não consegui me convencer a abrir espaço na Anna da minha imaginação para a que ela representa nas primeiras imagens do filme, como a divulgada abaixo:


Keira Kightley como Anna. Foto: Laurie Sparham, Focus Features, Divulgação


Desconstruindo o Chefão

15 de março de 2012 4

Conselho de guerra na família Corleone. Paramount: Divulgação

O Poderoso Chefão mudou não apenas o cinema. Quarenta anos depois do lançamento, o filme já rendeu homenagens, paródias, releituras, duas continuações e citações em produções de propósitos e qualidades tão diversas quanto o desenho animado Rugrats e a comédia romântica Mensagem para Você, passando por Simpsons e até produções brasileiras como um recente episódio de A Mulher Invisível. Mas a influência se expandiu para além da tela e se tornou um fenômeno social ao influenciar a própria Mafia que retratava. Diversos livros como The Godfather Effect, de Tom Santopietro, e Gomorra, de Roberto Saviano, narram o quanto a influência de O Poderoso Chefão se alastrou para os próprios mafiosos, que se comprazem em imitar os gestos, o vestuário e até os supostos códigos da “família”.

De acordo com a escritora alemã Petra Reski, essa não deixa de ser uma questão problemática: no momento em que o retrato dos mafiosos plantado no imaginário popular é tão glamouroso que os próprios gângsters querem imitá-lo, perde-se a referência da Máfia como a organização criminosa e cruel que de fato é. Esse é um dos tópicos abordados por Reski em seu estudo sobre os tentáculos do crime organizado Máfia: Padrinhos, Pizzaria e Falsos Padres (Tinta Negra, 2010, tradução de André Delmonte). Reski, alemã, defende em seu livro que a imagem folclórica da Máfia – incluindo aquela segundo a qual a organização é um problema exclusivamente italiano, e não do continente europeu – tem ajudado a Máfia a se expandir e a sobreviver. Devido justamente aos 40 anos de O Poderoso Chefão e o quanto o retrato elaborado por Coppola se entranhou no imaginário popular, entrevistamos Petra Reski. A entrevista foi realizada por e-mail e o titular deste blog aproveita para agradecer a inestimável intermediação com a agência literária da autora feita pela nossa jovem musa nerd Bruna Amaral, viajada blogueira do Intercambiando, atualmente residindo na Alemanha, em Berlim, onde participa do programa International Journalisten-Programme e trabalha no jornal Tagesspiegel. Abaixo, a entrevista:

Mundo Livro – A senhora é uma pesquisadora especialista na Máfia. É verdade que o seu interesse no tema começou com O Poderoso Chefão?
Petra Reski –
Quando eu  tinha vinte anos – uma estudante que havia lido O Poderoso Chefão – decidi viajar de carro de Kamen, pequena cidade na região alemã do Ruhr, na qual cresci, direto para Corleone, na Sicília  No início, muito tempo antes de começar a trabalhar como jornalista, meu interesse pelas coisas da máfia foi despertado pela história familiar de O Poderoso Chefão. A imoralidade nas famílias me interessa, e, no final, todas as histórias de máfia sempre foram histórias familiares. Assim, minha primeira aproximação correspondia ao tipo de ideia “romântica” da máfia – que ainda é bastante difundida em todo o mundo.  Devido à propaganda feita pela própria máfia. A máfia tem muito interesse em controlar sua imagem – para fazer as pessoas acreditarem que a organização é uma espécie de idéia romântica.

Mundo Livro – Quarenta anos  passados de seu lançamento, O Poderoso Chefão é, mais do que  um grande filme, um fenômeno  cultural e popular. Na sua opinião, o que tornou o filme tão grande e influente no imaginário pop?
Petra – As pessoas adoram heróis imorais. Aquele que pode fazer tudo, sem ser punido. A máfia sabe dessa inclinação e tenta definir a sua imagem no mundo: ela faz com que as pessoas acreditem que a máfia é uma espécie de idéia romântica, uma espécie de associação popular ao estilo Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres. A literatura, os filmes estão cheios dessa ideia da máfia – que nunca correspondeu à realidade. Infelizmente, há um monte de jornalistas que ainda contribuem  para divulgar esta ideia romântica da máfia – ou porque esses jornalistas são pagos pela própria máfia ou porque são ignorantes.

Mundo Livro – Peter  Biskind, um escritor americano, diz em seu livro Easy Riders,  Raging Bulls que Copolla e sua equipe tiveram problemas com a máfia durante a produção do primeiro Poderoso Chefão.  A equipe de filmagem estava sob a pressão de Joe Colombo, um líder mafioso de uma associação ítalo-americana.  Depois de uma década,  como você menciona em  seu livro, O Poderoso Chefão já havia se tornado uma referência até para os próprios bandidos.  O que mudou?
Petra –
Na verdade, nada mudou, pelo menos não para melhor. Não há valores na máfia, toda a história sobre honra e respeito a leis é apenas uma invenção, um mito útil para os membros da máfia, que lhes dá algo em que acreditar. E um mito útil também para as pessoas na Sicília, na Calabria, na Campania: todos devem acreditar no caráter altruísta dos chefões da máfia. Hoje, a máfia influencia a política de países inteiros, como a Itália. E influencia economias inteiras, como a europeia. Isso foi possível pelo seu enorme poder econômico, resultado do tráfico de drogas, que foi lavado e investido na economia legal. A Máfia hoje é um problema a ser enfrentado. Mas, infelizmente, ainda é considerada como algo folcórico, como O Poderoso Chefão.

Mundo Livro – O enorme sucesso de O Poderoso Chefão gerou uma uma imagem que até mesmo a máfia decidiu imitar?
Petra –
Para a máfia é muito importante ser considerada como uma instituição com valores a preservar, caso contrário, não iria encontrar mais apoio na população local. É por isso que a máfia adorou filmes como O Poderoso Chefão, que a ajudou a espalhar sua imagem generalizada como um tipo de organização arcaica, baseada em valores arcaicos. A máfia sabia que precisava de uma imagem baseada em valores desde o início, quando ela decidiu copiar (e perverter) as regras da Igreja Católica: o homem precisa de algo para se acreditar Mas o único valor real no qual a máfia realmente acredita é a sobrevivência da própria máfia, a qualquer custo. Eles sempre mataram crianças e mulheres. E mães mataram até mesmo seus filhos por causa da máfia.

Mundo Livro – No mesmo Easy Riders, Raging Bull, Peter Biskind conta que ninguém queria investir em filmes de  máfia no período imediatamente antes de O Poderoso Chefão, porque The Brotherhood, uma produção com Kirk Douglas filmada em 1968, havia sido um imenso fracasso. Por que a Máfia desde então tem sido um assunto  tão fascinante?
Petra –
Porque O Poderoso Chefão não é contado como uma crua história policial, mas como uma história de família. Isso é o mais importante: todos temos famílias. E muitas vezes as famílias são mostradas com uma aura de imoralidade. Essa é a razão do sucesso. O Poderoso Chefão apresentou a máfia como uma saga familiar na qual um monte de gente poderia identificar semelhanças com sua própria família. Isso foi muito inteligente. Não só para o filme. Mas para a máfia, também. Até hoje, a grande maioria das pessoas considera a máfia como algo bom, talvez às vezes cruel, mas fascinante – como no filme. O Poderoso Chefão foi a melhor estratégia de relações públicas para a máfia em toda sua história. Ele influenciou a nossa maneira de entender a organização. Infelizmente.