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As Primeiras Palavras

19 de abril de 2012 5

Já li escritores afirmarem em entrevistas que o mais difícil ao escrever um livro é achar a primeira frase. Acho que é uma declaração válida com mais frequência no jornalismo, pois o lide, o parágrafo inicial de um texto, é, para muitos, uma das últimas coisas que a mente aceita liberar quando se está aflito na frente da máquina ou do terminal. Outros colegas com quem já trabalhei não conseguem escrever nada antes de ter o primeiro parágrafo para orientar-lhe as ideias nos caminhos futuros do texto.

Não é o meu caso. Escrevo muito rápido mesmo para os padrões de um jornalista porque não tenho essa necessidade de iniciar do começo, e sim posso escrever primeiro uma frase que sei que estará lá no meio da matéria e partir dela. Daí muitas vezes o pensamento se organiza para frente e para trás e eu vou completando. Não é um processo isento de falhas, mas nada no jornalismo diário é isento de falhas. E pra mim funciona muito melhor porque quando chego ao momento de redigir o lide, já estou com toda a matéria escrita, e fica mais fácil, assim, pensar numa frase de mais impacto que possa dar conta do que vem depois.

Com isso não digo que a primeira frase não é importante, pelo contrário. Ela é essencial, tanto que na literatura as primeiras frases de maior impacto sempre foram alvo de minha particular afeição. Sempre gostei de anotar. por curiosidade e por curtição, as primeiras frases de romances e contos cuja leitura me foi grata, ou até mesmo das obras das quais não gostei mas que prometiam muito pela frase inicial. Há que se dizer que a idéia não é exclusiva minha, a maioria das pessoas que conheço já fez ou ainda faz isso em algum momento, e mesmo a ideia de anotar as primeiras frases de clássicos já foi aplicada no romance Buffo & Spallanzani, pelo mestre Rubem Fonseca. O blogueiro e escritor Sérgio Rodrigues tem uma série inteira no seu Todoprosa sobre “começos inesquecíveis”. Mas isso não impede que, numa época em que o blogueiro aqui está de férias, e portanto atualizando o blog para vocês pelo simples prazer de fazê-lo, ele possa replicar a ideia ao seu modo, como na breve seleção feita abaixo (é breve porque vai que outra hora resolvo dar continuidade acrescentando algumas?).

Últimas instruções de uso deste post: quando a frase é extraída de um romance,  o nome do livro está informado após o nome do escritor. Quando, no caso de um conto, o nome do livro for o mesmo da história, bastará um “idem”. Quando não, o primeiro nome designa o conto, e o ultimo, o nome da obra de onde ele foi retirado. E aqui não transcrevi parágrafos iniciais, e sim as primeiras frases – naquela definição básica que todo mundo aprendeu na escola, a frase como algo que finaliza com o ponto, o que explica porque algumas são mais longas do que outras. Essa minicoletânea também não tem o propósito de afirmar, espero que a dedução seja óbvia, que um bom romance necessariamente precisa ter uma grande primeira frase. Há inícios de romance cujos parágrafo inicial vai crescendo em impacto e beleza pela justaposição do que as frases seguintes têm a dizer/negar sobre a primeira. É apenas um reconhecimento àqueles romances que têm tais frases.

La candente mañana de febrero em que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonia que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de la Plaza Constitución habían renovado no sé qué aviso de cigarrillos rubios; el hecho me doló, pues comprendi que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que esse cambio era el primero de una serie infinita.
Jorge Luis Borges (El Aleph - idem)

Tinha ele 6 pés de altura, menos 1 ou 2 polegadas, talvez, forte, espadaúdo, avançava direito para a agente, um pouco curvado, olhar fixo, a cabeça para a frente, como um touro quando vai investir.
Joseph Conrad (Lorde Jim)

Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos, de que falarei mais adiante.
Fiódor Dostoiéwski (Os Irmãos Karamázov)

Faço questão de assegurar com toda a clareza que absolutamente não tenho a intenção de colocar minha pessoa num lugar de destaque ao escrever algumas palavras acerca de mim mesmo e de minhas próprias atividades, antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkünh, a primeira e certamente muito provisória biografia do saudoso homem e genial músico, que o destino terrivelmente assolou, engrandecendo-o e derribando-o
-Thomas Mann (Doutor Fausto).

Aqui estamos de novo sozinhos.
Louis-Ferdinand Céline (Morte a Crédito)

José Palacios, su servidor más antiguo, lo encontró flotando en las águas depurativas de la bañera, desnudo e com los ojos abiertos, y creyó que se habia ahogado.
- Gabriel García Márquez (El General en su Labirinto)

Eu estava num daqueles bairros chinfrins perto da avenida Central, ali pelas quadras que ainda não foram totalmente ocupadas pelos negros.- Raymond Chandler (Adeus, Minha Adorada)

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro PáramoJuan Rulfo (Pedro Páramo)

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, foi a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo e nada tínhamos, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas das suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação. - Charles Dickens (Um Conto de Duas Cidades)

O maxilar de Samuel Spade era longo e ossudo, seu queixo um V proeminente sob o V mais flexível da boca.
Dashiell Hammett (O Falcão Maltês)

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lembrava-lhe sempre o destino dos amores contrariadosGabriel García Márquez (O Amor nos Tempos do Cólera)

Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou. – F.S. Fitzgerald (O Grande Gatsby).

Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação.- Guimarães Rosa - (A Terceira Margem do Rio)

A tumba era grande, sólida, deveras imponente: uma espécie de templo entre o antigo e o oriental, como se via nos cenários da Aída e de Nabucco, em voga nos teatros de ópera até poucos anos atrásGiorgio Bassani (O Jardim dos Finzi-Contini)

Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.
- Graciliano Ramos (Angústia)

A narrativa nos manteve suspensos junto ao fogo; e não fosse a observação, demasiado evidente, de que era sinistra, tal como, em essência, deve ser toda história contada em noite de Natal numa casa velha, não me lembra qualquer outro comentário, até que aconteceu alguém dizer que aquele era o único exemplo do qual tivera notícia, onde um tal castigo havia recaído na cabeça de uma criança.Henry James (A volta do Parafuso)

De um hospital particular para doentes mentais, nas proximidades de Providence, em Rhode Island, desapareceu há pouco tempo uma pessoa extraordinariamente singularH.P. Lovecraft (O Caso de Charles Dexter Ward)

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar.
João Ubaldo Ribeiro (Viva o Povo Brasileiro)

Para começar, vamos dar-lhes notícias do protagonista.Norman Mailer (Os Exércitos da Noite)

Tudo no mundo começou com um sim
Clarice Lispector (A Hora da Estrela)

O que mais há na terra, é paisagemJosé Saramago (Levantado do Chão)

Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco – James Joyce (Retrato do Artista Quando Jovem)

Comentários (5)

  • angela francisca mendez de oliveira diz: 19 de abril de 2012

    Adoro o início do livro Lolita, de nabukov:
    Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
    escrevi em meu blog um post sobre inícios de livros:
    http://culturadetravesseiro.blogspot.com.br/2009/04/como-iniciar-um-livro.html

  • Lúcia Streck diz: 20 de abril de 2012

    “Hoje, minha mãe morreu ou talvez ontem, não sei bem”. Já é clichê mas captura o leitor a frase de Camus, no seu “O Estrangeiro”.

  • Francine Ramos diz: 27 de abril de 2012

    Na semana passada li um livro de Amós Oz que fala sobre os “dez brilhantes inícios de clássicos da literatura universal”, é bom. Outro que também trata desse tema é “Para Ler
    Como um Escritor”, de Francine Prose, outra pérola de livro. Ambos estão sempre por perto, não resolvem o problema da primeira frase, mas inspiram e iluminam ideias.

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