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Posts de abril 2012

Coisas para fazer no fim de semana

27 de abril de 2012 0

Neste sábado, coincidem o último dia da FestiPoa Literária e o segundo (e também último) dia da Odisseia de Literatura Fantástica, uma tentativa de pôr a literatura de gêneros (não confundir com “gênero” no sentido maculino/feminino) no mapa de Porto Alegre. A programação da FestiPoa pode ser lida no site oficial da festa, aqui. A da Odisseia, o mesmo, no portal do evento, aqui.

Que bola dividida, hein, escolher entre alguns dos eventos que se sobrepõem na programação. Este seu blogueiro, por exemplo, viverá seu dia de maratonista participante.

Neste sábado, às 10h30min, no Auditório Luís Cosme da Casa de Cultura Mario Quintana, participo como mediador de uma mesa de debates entre o escritor e crítico Miguel Sanches Neto e o professor João Cezar de Castro Rocha sobre A Consciência da Crítica Literária Brasileira.

Depois, à tarde, às 15h, no Memorial do Rio Grande do Sul (ainda bem que é tudo no Centro), vou mediar outro debate, entre Taize Odelli e Luiz Ehlers, sobre Crítica literária e o Fantástico.

Com o cachê nababesco que receberei pelos dois eventos, seguramente devo superar os R$ 170 mil dos quais o Gabriel O Pensador abriu mão. Quem quiser protestar por isso vaiando o blogueiro, será bem vindo nas duas palestras. Espero vocês leitores lá

Crimes revisados

20 de abril de 2012 0

Antes que a escola americana de policiais acostumasse os leitores – e mais adiante os cinéfilos e telespectadores – a detetives durões que mergulham no uísque e desbaratam os crimes com os punhos, o romance policial mais “tradicional” era protagonizado por tipos excêntricos, observadores geniais que resolvem o caso na base do raciocínio, mas que seriam triturados em um simples passeio na rua. É a essa linhagem que pertence o peculiar Daniel Hernández, revisor editorial que por vezes colabora com a polícia em casos desconcertantes, como os reunidos em Variações em Vermelho, do escritor argentino Rodolfo Walsh (Tradução de Sergio Molina e Rúbia Prates Goldoni, Editora 34, 240 páginas).

Repórter iluminado e escritor de precisão clínica, Walsh (1927 – 1977) é um nome de ponta das letras latinoamericanas, embora sua produção ficcional tenha sido abreviada pelos esforços dedicados à militância política contra duas ditaduras argentinas e pelo seu assassinato pelas forças de repressão. Militante da esquerda peronista, Walsh é também autor de um clássico do jornalismo investigativo: Operação Massacre, que reconta uma chacina ordenada pela ditadura do general Aramburu em 1955. O livro ganhou edição recente no Brasil pela Companhia das Letras. Emboscado em 1977, já na ditadura dos militares que ele próprio denunciou veementemente, Walsh foi assassinado e seu corpo nunca foi encontrado.

À parte sua atividade jornalística como autor de contundentes romances-reportagens, Walsh construiu uma carreira como contista – no ano passado a mesma 34 editou Essa Mulher e Outros Contos” Fascinado pelo gênero policial, editou antologias e criou seus próprios contos de mistério e crime – os cinco protagonizados pelo revisor Daniel Hernández, um tipo pacato, tímido e extremamente míope (um alter ego bem pouco disfarçado do próprio autor), foram reunidos em Variações em Vermelho, publicado em 1953, quando Walsh contava apenas 26 anos.

As debilidades físicas de Hernández não o tornam um investigador menos eficaz. Já no título Variações em Vermelho remete, não por acidente, ao Estudo em Vermelho de Sherlock Holmes, marcando sua filiação a um tipo de literatura protagonizada mais pelo cérebro do detetive do que por suas armas ou seus músculos. As histórias protagonizadas por Daniel Hernández são exemplos inventivos do policial de feição mais “clássica” – do tipo que o lingüista Tzvetan Todorov, que vem este ano a Porto Alegre para o  Fronteiras do Pensamento, classifica como “romance-jogo”. Mais do que narrativas, são desafios intelectuais que o autor lança ao leitor, criando tramas de crime que flertam com o quebra-cabeça, exigindo do detetive não apenas o esclarecimento de quem cometeu o assassinato, mas também de como ele pôde ser cometido.

A primeira e mais longa das cinco novelas, A Aventura das Provas de Prelo, apresenta Hernández e o que um revisor editorial teria a dizer à polícia em uma investigação de homicídio. Um revisor é encontrado morto debruçado sobre a escrivaninha de trabalho em sua casa. Uma garrafa de uísque sobre a mesa e a arma usada para esfacelar a cabeça da vítima, oculta sob o braço do cadáver, parecem reforçar a hipótese de suicídio – praticamente confirmada com a descoberta de um caso conjugal da mulher da vítima. A chave para a solução do crime será descoberta por Daniel, colega de trabalho do defunto, ao examinar as provas impressas de um livro que o morto se dedicava a revisar.

Daniel é o típico investigador diletante, disposto a colaborar com o policial de carreira encarregado dos casos – o delegado Jiménez, também recorrente nas cinco histórias. Como diz o próprio Walsh no prefácio: “…de todas as faculdades de que D.H. se valeu na investigação de casos criminais eram faculdades desenvolvidas ao máximo no exercício diário de sua profissão: a observação, a minuciosidade, a fantasia (tão necessária, v.g., para interpretar certas traduções ou obras originais e sobretudo essa estranha capacidade de colocar-se simultaneamente em diversos planos que o revisor tarimbado exerce quando vai atentando, em sua leitura, para a limpeza tipográfica, o sentido, a boa sintaxe e a fidelidade da versão.”

Walsh também acena com uma piscadela ao construir o mistério de modo a que os mais atentos dentre seus leitores teriam condições de solucioná-los antes do fim se sua imaginação corresse na mesma direção que a do autor.  O argentino cria exercícios clássicos da literatura de crime. No conto que dá nome ao livro, um assassinato parece ter sido cometido sem que o autor do crime tivesse entrado ou saído do atelier trancado de um artista. Assassinato à Distância encontra Hernández  imerso em uma tarefa aparentemente impossível: provar que um suicídio ocorrido muito tempo antes foi na verdade um homicídio. Em A Sombra de Um Pássaro, a chave para a morte de uma esposa infiel, um crime sem testemunhas, pode estar no pátio da casa vizinha. O quinto conto é também uma ousadia formal: cinco páginas, breves, com a história narrada em frases curtas e repetitivas que lembram um poema ou uma canção.

Não apenas na primeira narrativa, estreitamente ligada ao ofício do personagem Hernández, mas nas demais, Walsh faz de seu investigador um leitor atento dedicado a ler as pistas de crimes cometidos na realidade. E provoca o leitor do livro a ser tão ágil e atilado quanto o investigador.

As Primeiras Palavras

19 de abril de 2012 5

Já li escritores afirmarem em entrevistas que o mais difícil ao escrever um livro é achar a primeira frase. Acho que é uma declaração válida com mais frequência no jornalismo, pois o lide, o parágrafo inicial de um texto, é, para muitos, uma das últimas coisas que a mente aceita liberar quando se está aflito na frente da máquina ou do terminal. Outros colegas com quem já trabalhei não conseguem escrever nada antes de ter o primeiro parágrafo para orientar-lhe as ideias nos caminhos futuros do texto.

Não é o meu caso. Escrevo muito rápido mesmo para os padrões de um jornalista porque não tenho essa necessidade de iniciar do começo, e sim posso escrever primeiro uma frase que sei que estará lá no meio da matéria e partir dela. Daí muitas vezes o pensamento se organiza para frente e para trás e eu vou completando. Não é um processo isento de falhas, mas nada no jornalismo diário é isento de falhas. E pra mim funciona muito melhor porque quando chego ao momento de redigir o lide, já estou com toda a matéria escrita, e fica mais fácil, assim, pensar numa frase de mais impacto que possa dar conta do que vem depois.

Com isso não digo que a primeira frase não é importante, pelo contrário. Ela é essencial, tanto que na literatura as primeiras frases de maior impacto sempre foram alvo de minha particular afeição. Sempre gostei de anotar. por curiosidade e por curtição, as primeiras frases de romances e contos cuja leitura me foi grata, ou até mesmo das obras das quais não gostei mas que prometiam muito pela frase inicial. Há que se dizer que a idéia não é exclusiva minha, a maioria das pessoas que conheço já fez ou ainda faz isso em algum momento, e mesmo a ideia de anotar as primeiras frases de clássicos já foi aplicada no romance Buffo & Spallanzani, pelo mestre Rubem Fonseca. O blogueiro e escritor Sérgio Rodrigues tem uma série inteira no seu Todoprosa sobre “começos inesquecíveis”. Mas isso não impede que, numa época em que o blogueiro aqui está de férias, e portanto atualizando o blog para vocês pelo simples prazer de fazê-lo, ele possa replicar a ideia ao seu modo, como na breve seleção feita abaixo (é breve porque vai que outra hora resolvo dar continuidade acrescentando algumas?).

Últimas instruções de uso deste post: quando a frase é extraída de um romance,  o nome do livro está informado após o nome do escritor. Quando, no caso de um conto, o nome do livro for o mesmo da história, bastará um “idem”. Quando não, o primeiro nome designa o conto, e o ultimo, o nome da obra de onde ele foi retirado. E aqui não transcrevi parágrafos iniciais, e sim as primeiras frases – naquela definição básica que todo mundo aprendeu na escola, a frase como algo que finaliza com o ponto, o que explica porque algumas são mais longas do que outras. Essa minicoletânea também não tem o propósito de afirmar, espero que a dedução seja óbvia, que um bom romance necessariamente precisa ter uma grande primeira frase. Há inícios de romance cujos parágrafo inicial vai crescendo em impacto e beleza pela justaposição do que as frases seguintes têm a dizer/negar sobre a primeira. É apenas um reconhecimento àqueles romances que têm tais frases.

La candente mañana de febrero em que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonia que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de la Plaza Constitución habían renovado no sé qué aviso de cigarrillos rubios; el hecho me doló, pues comprendi que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que esse cambio era el primero de una serie infinita.
Jorge Luis Borges (El Aleph - idem)

Tinha ele 6 pés de altura, menos 1 ou 2 polegadas, talvez, forte, espadaúdo, avançava direito para a agente, um pouco curvado, olhar fixo, a cabeça para a frente, como um touro quando vai investir.
Joseph Conrad (Lorde Jim)

Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos, de que falarei mais adiante.
Fiódor Dostoiéwski (Os Irmãos Karamázov)

Faço questão de assegurar com toda a clareza que absolutamente não tenho a intenção de colocar minha pessoa num lugar de destaque ao escrever algumas palavras acerca de mim mesmo e de minhas próprias atividades, antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkünh, a primeira e certamente muito provisória biografia do saudoso homem e genial músico, que o destino terrivelmente assolou, engrandecendo-o e derribando-o
-Thomas Mann (Doutor Fausto).

Aqui estamos de novo sozinhos.
Louis-Ferdinand Céline (Morte a Crédito)

José Palacios, su servidor más antiguo, lo encontró flotando en las águas depurativas de la bañera, desnudo e com los ojos abiertos, y creyó que se habia ahogado.
- Gabriel García Márquez (El General en su Labirinto)

Eu estava num daqueles bairros chinfrins perto da avenida Central, ali pelas quadras que ainda não foram totalmente ocupadas pelos negros.- Raymond Chandler (Adeus, Minha Adorada)

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro PáramoJuan Rulfo (Pedro Páramo)

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, foi a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo e nada tínhamos, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas das suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação. - Charles Dickens (Um Conto de Duas Cidades)

O maxilar de Samuel Spade era longo e ossudo, seu queixo um V proeminente sob o V mais flexível da boca.
Dashiell Hammett (O Falcão Maltês)

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lembrava-lhe sempre o destino dos amores contrariadosGabriel García Márquez (O Amor nos Tempos do Cólera)

Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou. – F.S. Fitzgerald (O Grande Gatsby).

Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação.- Guimarães Rosa - (A Terceira Margem do Rio)

A tumba era grande, sólida, deveras imponente: uma espécie de templo entre o antigo e o oriental, como se via nos cenários da Aída e de Nabucco, em voga nos teatros de ópera até poucos anos atrásGiorgio Bassani (O Jardim dos Finzi-Contini)

Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.
- Graciliano Ramos (Angústia)

A narrativa nos manteve suspensos junto ao fogo; e não fosse a observação, demasiado evidente, de que era sinistra, tal como, em essência, deve ser toda história contada em noite de Natal numa casa velha, não me lembra qualquer outro comentário, até que aconteceu alguém dizer que aquele era o único exemplo do qual tivera notícia, onde um tal castigo havia recaído na cabeça de uma criança.Henry James (A volta do Parafuso)

De um hospital particular para doentes mentais, nas proximidades de Providence, em Rhode Island, desapareceu há pouco tempo uma pessoa extraordinariamente singularH.P. Lovecraft (O Caso de Charles Dexter Ward)

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar.
João Ubaldo Ribeiro (Viva o Povo Brasileiro)

Para começar, vamos dar-lhes notícias do protagonista.Norman Mailer (Os Exércitos da Noite)

Tudo no mundo começou com um sim
Clarice Lispector (A Hora da Estrela)

O que mais há na terra, é paisagemJosé Saramago (Levantado do Chão)

Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco – James Joyce (Retrato do Artista Quando Jovem)

A iniciação amorosa em um mundo veloz

12 de abril de 2012 0

Primeira Vez e Muitas Vacas (Record, 114 páginas), o mais recente romance do porto-alegrense Marcelo Carneiro da Cunha, é uma reflexão sobre a solidão de uma adolescência desesperada por ser gregária. Cunha narra no livro a história de Vita, uma jovem angustiada com a virgindade  – ela e um grupo de amigas fizeram um pacto de não chegar ao final do ano sem descobrir afinal o que há de tão initeressante no sexo. A vida pessoal da moça não vai lá muito equilibrada: os pais se separaram (o pai trocou a mãe por uma mulher bem mais jovem, alvo do ressentimento de Vita), a vida no colégio é difícil como qualquer tempo passado na escola, as inseguranças da época parecem que nunca vão entrar em foco ou controle. Até que o convite de uma prima para que Vita vá visitá-la no interior do Estado pode marcar a passagem da jovem para o mundo adulto com menos traumas do que ela provavelmente previa.

Escritor de bem-sucedidos livros dirigidos para o público infantojuvenil (como a série Duda e o livro que deu origem ao longa-metragem Antes que o Mundo Acabe) e de obras adultas que abordam a onipresença do sexo na vida contemporânea, Cunha cruza as duas vertentes ao narrar as angústias de Vita pela voz dela mesma, uma voz jovem e inteligente, sarcástica e por vezes sentimental. O escritor concedeu, por telefone, de São Paulo, cidade onde está radicado há cinco anos, a seguinte entrevista sobre o livro:

Zero Hora – Neste mais recente livro você faz uma espécie de casamento, formal e temático, das duas vertentes de sua carreira de escritor, literatura adulta e infanto-juvenil. É um livro que sai pela linha adulta da Record, não no selo juvenil, mas tem a voz de uma protagonista adolescente descobrindo a sexualidade. É uma síntese?
Marcelo Carneiro da Cunha –
Eu diria que é mais uma convergência. Se eu pego um personagem como o de meu livro anterior, Nem Pensar, um garoto de 12 anos, a própria narrativa, o olhar, acaba sendo de um menino pré-adolescente. Em Depois do Sexo, que tem um personagem adulto, a narrativa do cara empurra para o mundo adulto. Uma garota de 14, 15, anos, justamente nessa fase de transformação, a voz dela converge, ela vai ter questões do mundo adulto se abrindo para ela com muita força, com um olhar que tem um pé aqui, outro pé lá pela própria transição da idade. Acho que é essa a diferença. È a primeira vez que eu construo um personagem nessa faixa.

ZH – E o que o levou a apostar desta vez em um personagem com essas características, de cruzamento entre o que você faz na literatura juvenil e o que você faz na literatura adulta?
Cunha –
Esse universo acaba sendo chamado de juvenil por uma categoria de mercado. Porque se for pensar, no momento em que o governo compra livros, é um grande comprador de livros para as escolas, há uma preocupação cada vez maior, e uma preocupação correta, não politicamente correta, sobre o que se pode e o que não se pode comprar para um público jovem. É óbvio que para evitar uma série de problemas o próprio comprador acaba buscando nessa categoria de mercado um texto um pouco mais seguro, digamos. Acho que é isso o que faz essa divisão de juvenil e não juvenil. Porque o personagem em si tem de tudo dentro dele. É só ouvir um garoto falando numa situação aqui e noutra ali e ele se torna tranquilamente mais ou menos juvenil de acordo com a circunstância. Mas voltando à escolha do personagem: meu segundo livro, Praia da Ferrugem, é sobre uma menina que tem um namorado mais velho que quer ir com ela num feriado para a praia. E a narrativa se encerra quando está começando essa última noite dela no feriado com o namorado, em que ela está sentindo se vai ou não vai rolar. E é justo para aquele personagem narrar até aquele ponto, não porque naquele momento eu queria evitar a questão do sexo, mas porque me pareceu mais rico tangenciar, fazer a personagem se perguntar: o que eu faço agora? Dá para imaginar que Praia da Ferrugem, que é de 1988, e Primeira Vez e Muitas Vacas, de 2012, têm apenas uma noite de diferença entre eles, para valer.

ZH – Mesmo que haja essa aproximação tão grande, a moça retratada no livro dos anos 80 tem alguma diferença da Vita deste livro, uma jovem hiperconectada, com um perfil mais semelhante ao dos jovens de hoje e suas redes?
Cunha -
Olhando para o que eu venho fazendo há mais de 20 anos, sempre o tema da minha literatura é ultracontemporâneo, e se desloca ao longo dessas duas décadas que estou trabalhando. Para aquela menina do Praia da Ferrugem, o “ficar” era a grande novidade. O ficar como um verbo que designava uma nova ação, um comportamento feminino de “eu quero e eu executo”, em 1987, 1988, isso era muito revolucionário. Essas meninas de agora, a questão é muito outra. Entrevistando garotas dessa faixa etária, minha sobrinha e outras meninas, percebi que a questão delas de fazer a passagem para o sexo é muito distinta. É uma questão de inserção, de como elas passam a participar desse jogo e em que termos. E elas descobrem – e acho que essa é a questão ultracontemporânea de agora -  que como as mulheres mudaram e os homens mudaram, os meninos dessa nova geração não são mais comprometidos com o desejo feminino, como eram antes. Então ao fazer o gesto de querer entrar  nesse mundo, ela não recebe de volta do outro lado um gesto correspondente: “ah, quer entrar, então vamos juntos, vamos ver como se faz”. Ela vai ter um cara que vai responder: “eu tenho outras questões, isso não tem nada a ver comigo, eu não preciso ajudar, eu tenho outras possibilidades, então para que eu vou bancar o custo emocional de iniciação de uma menina?”. Isso é muito novo, e me chamou a atenção. Me chamaram a atenção também os motivos que as garotas têm para fazer a passagem, como no caso da personagem do livro, para não ser a última da turma. Não tenho uma leitura, uma resposta para esse fenômeno, mas só uma observação. Porque com as redes sociais, as pessoas se preocupam profundamente com a sua reputação, mas em um sentido completamente distinto do que era a reputação há alguns anos. É uma reputação do tipo: “não quero que saibam que eu sou eventualmente frágil em alguma coisa”.

ZH – Mas essa situação de adolescentes compararem seu conhecimento sentimental e amoroso, e não quererem ser os últimos de um grupo a descobrir o sexo, não é algo bastante comum, datando de bem mais tempo antes das redes? A preocupação com a reputação também não assombra adolescentes há mais tempo?
Cunha -
A preocupação com a reputação parece ter invertido o sinal. Para uma garota, a reputação antes era de ser a virgem, preservar-se como a última virgem. Agora é o contrário: não se quer mais ser a última virgem. Isso é uma inversão de sentido. E a reputação desejada passa a ser a de uma imagem de qualidade: de ser bom, de  ser melhor, não ser fraco. E a questão da propagação também mudou. Antes tu tinha a tua turma e tu era “falado”. E hoje tu é descrito no Facebook. Esse potencialização da multiplicação da tua imagem torna a preocupação maior, talvez. É diferente como se constrói uma imagem e como se constrói uma reputação. E essa mudança do eixo moral é marcada também pelas expectativas quanto ao desempenho das meninas, que antes era uma preocupação muito masculina, e hoje é também uma preocupação feminina. Isso é novo: ter a imagem boa, de alguém que sabe. E saber nesse caso não é só ter a informação, porque a informação circula, é ter acesso à prática.

ZH – Sua protagonista no livro, Vita, resolve que vai tentar obter sua iniciação sexual em uma visita a parentes no interior, acreditando que sua imagem como uma moça vinda da Capital será melhor lá do que na cidade grande onde vive. É também uma viagem de algum modo no tempo, em direção a um tempo anterior mais simples?
Cunha -
Acho muito boa essa observação, porque o livro tem claramente esse sentido de um presente e de um passado, a oposição entre cidade grande e cidade pequena, um lugar em que ainda de alguma forma algumas coisas ainda se preservam de um certo jeito, apesar de a informação circular por lá também via redes. E na verdade é também uma viagem ao passado da própria família. É uma viagem de uma menina virando mulher e indo até onde estão outras mulheres da família. É quando ela se dá conta de que sua família é muito marcada por uma linha de mulheres fortes do passado, das quais ela é herdeira. Sim, ela se beneficia da aura de menina cosmopolita que uma moça da Capital tem e o valor que isso traz, mas ao mesmo tempo tenta se proteger com a distância. O que quer que aconteça naquela cidade, ela sempre pode voltar para casa com a imagem protegida pela distância. Isso de algum modo facilita essa transição dela