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Reencontros de leitura

01 de maio de 2012 1

Quanto eu tinha 15 anos, já era um adolescente que gostava de ler, mas não havia ainda dedicado praticamente nada de meu tempo à leitura de autores rio-grandenses (a própria categoria “autores rio-grandenses” não passava muito pela minha cabeça na época, meu colégio ao menos não chegou a abordar isso), com exceção do Tempo e o Vento – que eu havia lido mais por causa da série de TV que passara uns anos antes do que por indicação do colégio – e de A Balada do Falso Messias, de Moacyr Scliar.  Até que um dia uma professora distribuiu na aula algumas provas de vestibular da UFRGS e da UFSM para vermos como era. E a parte de literatura vinha cheia de perguntas sobre uma gente que eu nunca tinha ouvido falar: José Clemente Pozzenato, Tabajara Ruas, Pedro Geraldo Escosteguy e Josué Guimarães. Se eu tivesse que responder aquela prova valendo, estaria ralado.

Cabreiro com o que identifiquei como uma lacuna, resolvi, na saída do colégio, passar na Biblioteca Pública de São Gabriel (desde sempre um dos meus ambientes favoritos: ficava no andar de cima de um casarão antigo na praça central da cidade, com uma sala cheia de estantes em janelas que davam para a rua) e pegar o primeiro livro que eu achasse de algum daqueles nomes. Topei então com O Cavalo Cego, de Josué Guimarães – na verdade, eu topei com um monte de livros de Josué Guimarães, todos bem longos: Dona Anja, Camilo Mortágua, os dois de A Ferro e Fogo. Peguei O Cavalo Cego porque era o mais curto.

A leitura de O Cavalo Cego me faria voltar reiteradas vezes à biblioteca para apanhar os outros livros maiores que eu havia deixado para trás. Embora não tenha sido uma leitura de estreia, aquele magrinho livro de contos com pouco mais de 150 páginas havia sido uma espécie de iniciação.

O Cavalo Cego reúne seis contos unidos pela temática do fantástico e do sobrenatural, mas nada a ver com a atual profusão de zumbis e vampiros planejados para adolescentes. Era um horror adulto, no qual a morte, embora muitas vezes vista como não sendo um fim definitivo, era motivo de melancolia e sofrimento, físico ou emocional. Li os seis relatos numa rapidez assombrosa, e durante muito tempo conservei as histórias e os episódios comigo.  O conto que dá título ao livro era uma narrativa contata por um velho combatente das revoluções gaúchas a um homem mais jovem, um pesquisador ou repórter; A Visita, que abre o livro, era a lírica despedida entre um idoso e sua mulher já falecida. Uma Noite de Chuva tinha ares de Além da Imaginação ao narrar o horror de um homem que teme ter perdido a esposa em um acidente de carro. A Travessia focava uma chacina sobrenatural em outra das revoluções pampeanas. Renato, Meu Amor, era uma narrativa que explorava a perversidade infantil – na época soou bastante perturbadora.

Dia desses, um sábado em que passeava no centro da cidade, encontrei o livro em um sebo da Rua dos Andradas, a R$ 6 reais. A mesmíssima edição, com uma capa perturbadora de uma janela aberta em fundo preto com uma fantasmagórica figura entrevista através dela (essa que ilustra o post lá em cima). Tomado de carinho por aquela lembrança afetiva e incentivado pelo preço, comprei o exemplar e levei para casa.

De cara, uma surpresa: havia outro conto do qual eu havia me esquecido. Chamava-se O Elevador, e ao ver o título me lembrei de que fora a história que mais demorei a vencer naquela época. A releitura do livro foi ainda mais rapidamente assombrosa do que a daqueles meus juvenis anos. E embora desta vez eu visse muitos problemas nas histórias que haviam arrebatado o leitor ainda inexperiente que eu era na adolescência (a linguagem talvez o maior deles. Josué escrevia bem, com uma linguagem tomada de empréstimo de sua atividade jornalística, mas às vezes sua prosa perdia o brilho justamente por isso), conseguia também entender de cara o que havia me atraído tanto naquele primeiro contato.

Josué era um fabulista imaginativo, e conseguia colorir as descrições do que seus personagens viam e faziam de modo dinâmico, deixando na mente de seu leitor imagens vívidas. A Travessia narrava a dramática tentativa de uma tropa perseguida de atravessar o vau de um rio em busca de refúgio dos inimigos que os perseguiam. A descrição da fome, do cansaço e das condições desumanas da marcha forçada eram mesmo das que marcam:

– Vi matarem três bois. Jorrava tanto pus das feridas causadas pelas cangas durante a marcha que prefiro morrer de fome a enfiar na boca essa porcaria.

A Travessia e O Cavalo Cego me pareceram as narrativas mais bem realizadas nesta segunda leitura. A Visita revelou-se mais sentimental do que eu me lembrava. Calcado em diálogos, era um conto que parecia ter envelhecido muito mal, embora ainda preservasse certa ternura. Eu não me lembrava mais da história detalhada de Uma Noite de Chuva, mas ela me foi voltando à medida que eu lia e me dei conta de que a tentativa de estender o suspense para a revelação final se alongava em demasia. Renato, Meu Amor, ao contrário, parecia ainda muito bem estruturado. O Elevador era um conto que buscava estranhamento com um episódio que foge à lógica cotidiana, mas que parecia mais um exercício do que uma realização.

O livro era ruim? Não, nada disso, ainda é um belo livro. Talvez a segunda leitura não dissesse tanto sobre o que o livro era, mas sobre o leitor que me tornei – até porque O Cavalo Cego de fato não me parece figurar com destaque no próprio conjunto da obra de Josué. A Ferro e Fogo, Camilo Mortágua e Os Tambores Silenciosos talvez ocupassem os meus primeiros lugares, se me pedissem para fazer uma lista. Mas a coletânea ainda tinha as virtudes evidentes que me fizeram gostar dela da primeira vez, ainda que eu guardasse um retrato mais colorido dela na memória devido ao papel que teve na minha formação como leitor. Imagino que seja assim que nos afeiçoamos todos – a pessoas e livros.

P.S.: O dia começou com uma nota curiosa. Comprei o livro já faz algum tempo, e vinha protelando a escrita deste texto – tanto que nesse meio tempo a L&PM lançou uma nova edição, cuja capa vocês podem ver abaixo. Hoje, ao me preparar para vir para a Zero Hora, decidi, por um impulso, que seria um bom modo de aproveitar o feriado: finalmente falar do que havia pensado durante a releitura. Procurei o exemplar na estante na estante e trouxe para a redação. Ao chegar aqui, fui informado de que a viúva do escritor, Nydia Guimarães, faleceu nesta madrugada. Um toque quase tão sobrenatural quanto os do livro.

Comentários (1)

  • Claudio Antonio Pereira (Claudinho Pereira) diz: 19 de maio de 2012

    Obrigado pela lembrança!!!!!! Estou um bom tempo a procura do conto “Travessia”, agora descubro que é no livro “Cavalo Cego”. Agora vou para o Roteiro para transformar o conto em filme, gostei de como vc descreveu a narrativa do Josué,sou amigo da familia a muito tempo, falava com a Nydia sobre em qual livro estaria o conto, o que estava errado era a minha descrição do conto, confundia com o poço e etc.Abraços

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