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A enganosa simplicidade de Dalton Trevisan

21 de maio de 2012 1

O Prêmio Camões de Literatura é concedido anualmente desde 1989 a um escritor considerado luminar da literatura em português – seja português, brasileiro, angolano, moçambicano, cabo-verdiano… Já foi concedido ao longo desses mais de 20 anos a nomes como José Saramago, João Cabral de Melo Neto, Rubem Fonseca, Lobo Antunes, Ferreira Gullar, Eduardo Lourenço. A 24ª edição do Prêmio, em 2012, foi anunciada hoje para o mestre contista paranaense Dalton Trevisan (leia mais aqui), que vai receber pela distinção a bolada de 100 mil euros. O presidente do júri, o brasileiro Silviano Santiago, disse que a comissão resolveu conceder o prêmio a Dalton Trevisan por unanimindade.

Imagino que você saiba quem é o Dalton Trevisan. Imagino que você deveria saber, ao menos, mas se não sabe, qualquer pretexto para visitar a obra do homem é válido. Há várias edições recentes de seus livros mais marcantes, tanto pela Record quanto pela L&PM, e ele de tempos em tempos despacha uma obra nova lá de seu recanto sombrio em Curitiba, de onde só sai para passeios discretos e onde não permite que sua intimidade seja devassada.

Como Dalton Trevisan tem um estilo particular que ele cultiva como uma obsessão, qualquer livro pode ser um bom ponto de entrada para seu universo artístico. Por isso, aproveitando a concessão do prêmio, vou republicar aqui uma resenha escrita pelo jornalista Leandro Sarmatz para o livro 234 em 1997. É uma oportunidade também de variar o estilo desse blogue de quase-um-só.

Mão torta, olho vesgo, coração danado
Texto de Leandro Sarmatz

Joãozinho mata Maria — uma corruíra de sangue cantando no jardim. Pega um porrete e bate bem forte. Depois bebe, o cachacinha. Bebe e toca viola. Maria estrebucha bonitinha, a poça vermelha indo parar no ralo. João olha pra baixo. Quase nem sinal de vida da coitada. Tava grávida. Sofria dos nervos. Morreu suspirando: “Ai, que surra bem gostosa!”.

O parágrafo acima é uma imitação fuleira das ministórias do curitibano Dalton Trevisan, que está lançando mais uma daquelas reuniões de contos e haicais crudelíssimos, o conciso 234 (que é o número de histórias no livro). A arte de Dalton Trevisan, com o passar dos anos cada vez mais osso, a cada livro mais seca, menos rebarbativa, parece estarrecedoramente simples. Igualmente fácil (e ilusório) parece pegar emprestado seus tiques – os diminutivos, o clima trágico de bolero paranaense, a violência conjugal. Engano. Como Tchékhov, como Beckett, como o Kafka de Contemplação, Dalton Trevisan ilude o leitor com a sua difícil facilidade.

E olha que neste 234 o homem até fornece umas pistas para a compreensão de sua obra. A poética enxuta vem em forma de haicai daltontrevisaniano (!): “O melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado“. Então é isso, pensa reconfortado o leitor do Vampiro de Curitiba. Agora tá fácil de manjar: DêTê escreve como quem tá morrendo, com a precariedade do bilhete de suicida. Será? Não será? O certo é que 234 radicaliza a empresa iniciada em Ah, É? e Dinorá, os dois últimos livros de Dalton (ambos de 1994) – estão lá os amantes torturados, os velhotes safados, as menininhas vorazes. Mas estão lá também a crítica a moderna Curitiba (“Pode vir alguma coisa boa de Curitiba?”, pergunta) e a obsessão dos últimos livros: o tema da traição de Capitu em Dom Casmurro.

Algumas das histórias de 234 podem ser lidas em seqüência, como um quase interminável conto cruel desfiado a cada página. Um puzzle. Fragmentadas, lidas ao acaso, as histórias quase fornecem argumento para aqueles que acham Dalton Trevisan um artista da fome, tributário de uma estética mínimalista. Não é. Que culpa ele tem de ter conseguido chegar no essencial? Não o “essencial” de Rubem Fonseca, por exemplo, em que a violência descrita com minúcia acaba tomando uma feição barroca, graças aos inúmeros detalhes biológicos que aparecem. O essencial de Dalton é mais exato: a linguagem não enfeita nem o gol de placa que é a história de um verdadeiro Jó brasileiro, logo nos primeiros contos do livro. “O Senhor conhece um tipo azarado?”, começa o sofredor a relatar. Esqueça a piedade, o coitadismo nacional. Não há um pingo de tinta de impressão gasto em capitulação. É cruel, sim. Mas sem alarde.

234 também tem alguns poemas de DêTÊ. É drummondiano, o Drummond pornô, menor, de O Amor Natural. Tem ecos rilkeanos. Um exemplo: “Botão de rosa / ó pura contradição / volúpia de ser o beijo de ninguém / sob tantos lábios“. Dalton só parece cansativo quando se presta a deplorar o atual estado de coisas de sua Curitiba natal. Parece babar a própria bile, o que é incomum em se tratando de um autor que, à Flaubert, parece querer pairar absoluto e invisível sobre a obra. Nos contos ele consegue. Nas próximas obras, se continuar aparando as arestas de sua literatura, Dalton Trevisan vai escrever um livro de umas poucas palavras. Vai desconcertar meio mundo. Poucos, aliás pouquíssimos, conseguem ler um bilhete de suicida impunemente.

Um conto do livro 234:

Bebedeira e ruindade, João expulsa de casa a família. Ao chegar doidão do boteco, atropela mulher e filhos. Mata um por um se não fugirem. Sempre de faquinha na cinta. Vive em guerra, ninguém sabe por quê. Estavam na cozinha comendo pinhão. Mais o Tito, dia de quebrarem milho na roça. Ele entra de faquinha na mão. Veio matar toda a família. Correm para fora a mulher e as crianças. Ele encara feio o vizinho e ameaça dar um talho. O outro saca o facão: ‘Epa, diabo. Não me conhece’.”

Comentários (1)

  • Ricardo da Mata diz: 7 de junho de 2014

    Trevisan é lixo adolescente modernoso. No futuro não se lembrarão dele nem para falar mal…

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