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17 segundos que duram para sempre

22 de maio de 2012 2

Firpo derruba o campeão Jack Dempsey. Pintura de George Bellows (1925)

Segundos Fora, de Martín Kohan, que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um romance de 250 páginas, ou seja, nada excepcional em termos de extensão. O que é fascinante nessa obra – que, embora esteja ganhando oportunidade só agora nas estantes nacionais, é anterior ao romance Ciências Morais, já lançado por aqui (leia texto aqui mesmo no blogue) – é como nessas páginas ele consegue harmonizar não uma, mas quatro histórias que por vezes parecem se desdobrar em quase uma dezena de livros e modos de narrar.

O eixo narrativo de Segundos Fora se desenvolve ao redor da reconstituição de um evento histórico real, a luta de boxe realizada em 1923 entre Luis Ángel Firpo, boxeador argentino conhecido como “O Touro dos Pampas”, e o campeão mundial dos pesos-pesados, o americano Jack Dempsey. A luta tem um significado simbólico na história do esporte na Argentina semelhante às tragédias de 1950 e 1982 no futebol brasileiro, e por um motivo bem simples: Firpo esteve a 17 segundos de ser o novo campeão, depois que um de seus poderosos socos enviou Dempsey não à lona, mas para fora dela – o americano caiu do ringue, como na imagem que ilustra este post,  uma pintura do artista George Bellows (1882 – 1925) reconstituindo o episódio. Dado o inusitado do fato, o juiz perdeu a contagem automática que deveria ter sido iniciada com a queda do boxeador, e Dempsey teria ficado 17 segundos fora do ringue, não os 10 regulamentares do esporte. Ao voltar para a luta, Dempsey, que estava melhor na luta, nocauteou o adversário.

Segundos Fora tem exatamente 17 capítulos – o equivalente ao tempo que Dempsey teria ficado fora do ringue. Em cada um desses capítulos, a narrativa salta entre diversos pontos de vista: o do atordoado Jack, caindo segundo a segundo; o do árbitro, que, perdido nos próprios pensamentos, deixa escapar o momento da contagem; o do fotógrafo atingido pela queda do campeão. Outro plano narrativo se desenvolve cinquenta anos depois do fato, em um jornal da Patagônia no qual dois repórteres estão trabalhando para uma edição especial de aniversário do periódico, recuperando um evento notável de cada área ocorrido cinquenta anos. O setorista de artes, Ledesma, reconstitui a passagem por Buenos Aires em 1923 de Strauss, para reger um programa em que se prevê uma sinfonia de Mahler. A Verani, o homem dos esportes, cabe a histórica luta. E nos jornais do período, ambos e o colega de jornal Roque, o narrador, encontram os indícios de uma morte misteriosa ocorrida na mesma noite da luta, cinquanta anos antes. Outra fatia narrativa ainda lança a história para o nosso tempo, passados anos da época em que Verani e Ledesma, em diálogos hilários, discutem sobre as diferenças entre suas respectivas áreas: Ledesma tentando a todo custo inculcar no aparentemente simplório Verani o gosto pela música clássica – e aqui temos outra camada: digressões musicais-biográficas sobre Mahler e sua amizade com Strauss. .

Por e-mail, Martín Kohan concedeu a entrevista que vocês podem agora ler na íntegra aqui no blog:

Zero Hora – Segundos Fora parece referir-se a um tema também presente em seus livros anteriores Duas Vezes Junho e Ciências Morais: a reconstrução de momentos simbólicos da Argentina (a Copa do Mundo, uma escola de elite, uma luta lendária). É seu propósito investigar a mitologia que a Argentina construiu a respeito de si mesma?
Martín Kohan –
Os mitos me interessam porque são cristalizações de sentido. E porque neles, ainda que exista uma base empírica, a dimensão puramente imaginária prevalece sobre a dimensão estritamente real. Nesse sentido eu os acho particularmente estimulantes para a literatura. Os mitos nacionais me interessam duplamente, porque agregam a tudo isso uma instrumentação pelo Estado que lhes dá função política. Interessa-me escrever na contramão, tratando de revisar e reverter tudo isso: fazer os sentidos estabelecidos chocarem-se com uma outra ordem de significado que começa a produzir o romance.

ZH – O romance se ocupa de um episódio real: o boxeador nacional Juan-Ángel Firpo poderia ter obtido o título mundial se não fosse dado ao oponente um tempo irregular para a volta ao ringus. É sua maneira de abordar também um sentimento não apenas argentino mas também latino-americano de ser sempre vítima de injustiça ou trapaça?
Kohan –
Isso é parte dessa mitologia de que falávamos. Uma maneira de ser, ou seja, de nos imaginarmos. Por exemplo, nos imaginamos destinados a um futuro de grandeza. E quando essa grandeza é frustrada, vem a necessidade de ativar a imaginação do espólio, ou ainda das conspirações dedicadas a frear ou frustrar o que deveria ser potência e grandeza. O esporte habitualmente condensa e expressa muitos desses mecanismos de imaginação coletiva nacional. A luta entre Dempsey e Firpo, e mas precisamente os 17 segundos que Dempsey passa caído fora do ring funcionam exatamente assim. Por isso os elegi como coluna vertebral do romance.

ZH – Seu romance é um livro múltiplo. Apesar de relativamente curto, fala sobre boxe, Mahler, o passado tumultuado da Argentina, narra eventos separados entre si por 50 anos e também cria grandes diálogos entre dois personagens centrais. Foi para dar conta dessa multiplicidade que o senhor escolheu uma estrutura fragmentada de narrativa?
Kohan –
Decidi que aquela história deveria ser escrita em épocas diferentes e com diferentes perspectivas. Em vez do relato linear e ordenado das histórias totais, pensei em uma história desmontada, no sentido em que se desmonta um quebra-cabeças, que tem de ser reconstituído. Por isso se sobrepõem na história diversos tipos de investigação: histórica, jornalística, policial, como tentativas para remontar um enredo e um significado que tivessem sido feitos em pedaços.

ZH – O senhor também inclui uma trama que parece saída de um romance policial: a morte misteriosa de um homem em um hotel em 1923 e as investigações de dois jornalistas sobre o caso, décadas mais tarde. Essa foi sua maneira de abordar, ainda que obliquamente, a “busca por culpados” da qual a sociedade argentina tem se ocupado nos últimos anos?
Kohan –
Não pensei a questão criminal do romance em relação aos temas políticos dos últimos anos. Eu a pensei em outra direção: o contraste de um mundo refinado e contido, o da música clássica, com o mundo da violência popular transformada em espetáculo, que é o caso do boxe. No meio, um assassinato. Sobre qual lado recairão as suspeitas? Onde deve se encontrar o culpado?

ZH – Seu livro fala de música e boxe, duas formas de arte, uma dedicada à beleza e outra à violência. Misturar ambas no romance é uma indicação de o senhor vê um pouco de uma na outra?
Kohan –
Às vezes vejo essos mundos mesclados, contaminando-se, comunicando-se. Mas outras vezes eu os vejo em uma oposição inconcilável: o mundo da assim chamada alta cultura só percebe ferocidade na cultura popular, e o mundo popular só encontra exclusão e elitismo no mundo da alta cultura. Escrevi Segundos Fora a partir da premissa da incomunicabilidade, através desses dois personagens, Ledesma e Verani, tentando se entender e entrar em acordo. Mas que no fim falam sem se escutar ou se ouvem sem se entender.

ZH – Pela perspectiva do leitor, parece que o senhor se divertiu muito ao escrever os diálogos entre Ledesma e Verani, que chegam a ter autonomía dentro de la narrativa. Quando elaborou o plano do livro já tinha tal circunstância em mente ou os diálogos foram ganhando terreno na estrutura à medida que escrevia?
Kohan –
Eles faziam parte de um plano prévio, como quase tudo que escrevo. E isso pela questão de que falávamos antes: a hipótese de que diferentes culturas “diálogam” ou que os diferentes mundos culturais “conversam”. Determinei que uma parte do romance se converteria essa metáfora em uma cena literal: um diálogo verdadeiro, onde a sedução é verdadeira, a tensão é verdadeira, o mal-entendido é literalmente um mal-entendido.

ZH – O livro inclui uma descrição detalhada da queda de Jack Dempsey e salta entre vários pontos de vista: o do boxeador caído, o do fotógrafo e do juiz que testemunham a queda. Também há uma detalha reconstrução da vida de Mahler e sua amizade com Richard Strauss. Qual o retalho foi o mais difícil de agregar a essa cortina?
Kohan –
Cada parte teve para mim sua dificuldade e seus atrativos. E associo dificuldade com atrativo, diria até que os uno. Porque me interessa a literatura que apresenta desafios ao leitor.

Comentários (2)

  • Roberta Bertinni diz: 23 de maio de 2012

    Eu sinto muito! Um blog q pode ser lido, neste site regional e limitado, entregue ao ostracismo…Nota-se que a sociedade gaúcha é muito rasteira, ao contrário das mentiras q a gauchada tenta demonstrar ao Brasil. Basta q se leia os comentários postados nos blogs q têm alguma frequência – o holofote, de fofocas catadas na internet sobre a gentalha que gravita em torno do sucesso ñ conseguido e que nem aqui estão, pois se gaúcho quer fazer sucesso, tem q ir para o Rio ou SPaulo e os sobre futebol, que só falam dos dois times locais, ‘ad nauseam’ – para q fique patente a ignorância, a boçalidade, a idiotice dos leitores destes. Gramática, ortografia e nexo são coisas desconhecidas deste povo façanhudo, como diz o hino do estado. Hoje mesmo, o ZH , o maior jornal do estado, noticia que uma mulher em estado de putrefação foi achada em seu tugúrio, com ferimentos de faca no pescoço, e que o crime não deve ser recente!!!!! Se a vítima já está apodrecendo é mais q lógico q o crime ñ aconteceu ontem!!!! Mas, continue em seu labor, blogueiro dileto! Quem sabe, dentro de alguns séculos, a população gaúcha não chegue ao seu nível intelectual

  • Mundo Livro » Arquivo » Meu primeiro e-book diz: 14 de dezembro de 2012

    [...] Velocidade Simultaneamente a Carcereiros, comecei a ler Segundos Fora, romance bem interessante de Martín Kohan, em versão impressa. Pois desde que o autor argentino [...]

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