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Pepetela e o outro lado das coisas

25 de maio de 2012 0

O escritor Pepetela. Foto: Sérgio Lima, Divulgação

Pepetela situa-se entre os autores que trazem consigo a sina da procura da identidade nacional, o que se coloca já a partir da “cartilha” para guerrilheiros adultos,  As aventuras de Ngunga, (1972). É o autor quem diz : “despojados que fomos da nossa História por séculos de obscurantismo, muitas vezes  nos  sonhando iguais aos outros, mas sempre temerosos da comparação, nada igualava as tradições da Europa a que tínhamos que ficar para sempre agradecidos porque  das trevas nos tirou, quando afinal as trevas vinham de lá…”

Pepetela nasceu numa região fronteiriça do reino de Benguela, onde terminava a cidade branca e começava o musseke, portanto produto, como sua própria cultura, da confluência da base africana com a influência euro-ocidental. É a partir desta posição que propõe, através de sua obra, a reescrita da história angolana, com a visão não apenas do ponto de vista da colonização, mas também daquelas populações que a viveram de fato. Trata-se da procura da identidade através da reunião dos elementos dispersos na memória coletiva. É como chegamos ao excelente livro que, agora, lança no Brasil, A Sul. O Sombreiro (Editora Leya, 364 páginas, R$ 44,90), onde volta, com um diálogo forte, tenso, irônico entre a história e a ficção. É com extrema habilidade que o autor nos conduz  ao princípio da colonização angolana, aos séculos 16 e 17, período do domínio espanhol sobre as terras lusas, construindo a urdidura sobre duas personagens, uma histórica, Manuel Cerveira Pereira, administrador do império e conquistador de Benguela, e uma ficcional, Carlos Rocha, um negro livre, talvez descendente do navegador Diogo Cão.

O primeiro, Pereira,  o legítimo representante da prepotência, da crueldade, da hipocrisia e da ganância do processo de colonização. Sabia como ninguém se movimentar entre conspirações e intrigas na corte, empolgando os reis com as grandes riquezas que lhes poderia oferecer, mas esquecendo-se de referir os lucros que teria com o comércio de escravos ou outros produtos. Na verdade, todos os colonizadores, inclusive os padres jesuítas e franciscanos, acobertados pela missão de converter as populações locais ao cristianismo, ambicionavam enriquecer rapidamente e sem grande trabalho.

O que poderia ser apenas um relato factual, ainda que interessante,  se enriquece com o cruzamento da história com o segundo personagem, Rocha, e nisso Pepetela é mestre. Esteticamente inquieto, o escritor brinca com a estrutura, no que diz respeito ao ponto de vista, o que está ligado à própria tradição oral africana, e na utilização de uma linguagem que transita  entre o Português e as línguas nacionais angolanas. É através do percurso de Carlos Rocha que a tradição emerge, quando, com o fiel Mulembe e um mosquete nas costas, abandona Luanda temendo que o pai, um alcoólatra que tudo perdera, o venda como escravo. É Carlos Rocha, ” o negro branco”, quem desvela, aos olhos do leitor, a paisagem africana e suas gentes, seus costumes, a rivalidade entre os reinos  Ndongo e Konga e os confrontos tribais e, é justamente numa tribo jaca, canibal, que ele encontra Kandalu,  a mulher a quem vem a amar e que o coloca  na divisa das diferenças culturais, seja pelo dote, um escravo a ser comido, seja pelo filho, que deveria ser morto no nascimento.

Uma figura que merece destaque é o aventureiro inglês Battell, exímio contador de histórias, que, ao voltar para a terra natal, escreve um livro de memórias. Da mesma forma, não há como ignorar o narrador que insiste em interromper a narrativa, para apresentar sua versão, crítica e irônica, da história que, então, se conta.
É como Pepetela se reafirma  em A Sul. O Sombreiro, como o maior romancista de Angola e da tradição angolana, revelando, com olhos críticos jogados no passado,  causas que nos podem iluminar o presente angolano e africano.

Texto de Jane Tutikian, escritora e diretora do Instituto de Letras da UFRGS

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