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O Getúlio de Lira Neto

29 de maio de 2012 3

Getúlio Vargas em seu gabinete no Palácio Piratini. Foto de Sioma Breitman

Getúlio Vargas (1882 – 1954) é um personagem tão invulgar no horizonte da política brasileira que praticamente qualquer grande biografia sobre figuras do Brasil no século 20 esbarra, em algum momento, no homem ou em seu legado. Getúlio tem amplo destaque em Chatô e Olga, de Fernando Morais. Também está em O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, entre tantas outras trajetórias. Textos já foram escritos defendendo o Brasil contemporâneo como um produto de Getúlio e sua trajetória. Agora que ele ganha nova biografia, escrita pelo jornalista Lira Neto, o enfoque do primeiro volume (de três previstos) é, a seu modo, diverso. O Brasil criado por Getúlio ficará para os próximos volumes, já que, neste capítulo inaugural, Lira Neto prefere enfocar Getúlio ele próprio como um produto do Rio Grande do Sul.

Getúlio, 1882 – 1930: Dos Anos de Formação à Conquista do Poder (Companhia das Letras, 664 páginas, R$ 52,50) concentra-se na primeira fase da vida do político de São Borja, do nascimento em 1882 à vitória na Revolução de 1930. O Vargas que emerge da biografia, escrita com a ginga narrativa que o autor já mostrou em Padre Cícero e O Inimigo do Rei, não é (ainda) o ditador do Estado Novo, o populista do “retrato do velho”, o industrializador, o homem envelhecido e acuado dos anos 1950. É o Vargas do Partido Republicano, ligado a uma família de históricas raízes castilhistas, filho de um rigoroso positivista – personagem cauteloso que, talvez por sua tendência à procrastinação, começará a se projetar nacionalmente mais tarde.

Lira Neto compõe a biografia de Getúlio em forma de mosaico. Embora siga de modo quase linear sua trajetória, o texto se aproveita de uma consequência da centralidade de Getúlio na história. Para dar um panorama multifacetado, o texto contrapõe relatos de dezenas de fontes sobre Getúlio: familiares, como Lutero e Alzira Vargas; relatos de opositores, como o general Gil de Almeida, comandante militar do Rio Grande destituído pela Revolução de 1930; depoimentos de aliados com quem manteve relações turbulentas, como João Neves da Fontoura; e os diários e cartas de Getúlio Vargas, também já publicados – embora a maior parte do material já tenha circulação em livro, há documentos inéditos. Isso atenua, ainda que não muito, a falta de grandes novidades.

– A ausência de testemunhas oculares ainda vivas foi suplantada pelo arquivo monumental do biografado e de pessoas próximas, como Oswaldo Aranha, todos sob a guarda do CPDOC da FGV.  Muita coisa ali, por incrível que possa parecer, ainda é inédito – diz Lira Neto.

Antes de virar ele próprio um substantivo, Getúlio foi destacado integrante das hostes do castilhismo e do borgismo – e Lira Neto esmiúça as relações políticas que o cercavam. Getúlio cresceu em uma família historicamente ligada aos republicanos – seu pai, o general Manuel Vargas, lutou de lenço branco no pescoço na Revolução Federalista. O temperamento conciliador se desenvolve em um Estado marcado por revoltas e pelas ditaduras positivistas de Castilhos e Borges. Talvez para o leitor do Rio Grande do Sul, imerso na história contada, já repisada em incontáveis livros, de ficção ou não, a impressão de falta de novidades se acentue, embora o livro valha como um novo ponto de vista expresso em um texto sedutor.

Um biógrafo trabalha com o que tem à disposição. No caso de Getúlio,o material para um voo sobre sua psique é restrito. Getúlio começou a escrever seus diários quando irrompeu a Revolução de 1930 – sabia, portanto, que àquela altura estava redigindo as atas de uma trajetória histórica. Suas cartas, também fonte da biografia, mostram um político tão hábil quanto dúbio. O que mostra por que escritores de ficção têm se sentido mais à vontade para invadir a mente de Getúlio do que seus biógrafos.

Comentários (3)

  • fernando diz: 11 de junho de 2012

    lembrando que Olga é do Fernando Morais, e não do Ruy Castro.

  • Mundo Livro » Arquivo » Um trecho para hoje – Getúlio diz: 6 de novembro de 2012

    [...] das páginas 176, 177 e 178 do primeiro volume da biografia Getúlio, do jornalista Lira Neto (leia resenha do livro aqui). Também biógrafo de Padre Cícero, de José de Alencar e de Maysa, Lira Neto lançou em maio a [...]

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