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Posts de maio 2012

A história do Metallica

30 de maio de 2012 9

Para o bem e para o mal, o Metallica tornou-se a maior banda de rock pesado do mundo, levando o heavy metal a rincões nunca antes explorados por um gênero de nicho. Agora, em Metallica – A Biografia (Editora Globo, 472 páginas, R$ 49,90), de Mick Wall, ela tem sua história contada por um sujeito que a conhece desde os primeiros ensaios, quando os então pirralhos James Hetfield e Lars Ulrich decidiram unir os riffs dos ingleses da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal) com a virulência do punk rock, até a explosão mundial nos anos 1990 e a polêmica com o Napster nos 2000.

Apesar da pompa de testemunha ocular que ele faz questão de ressaltar o tempo todo, Wall não poupa nada nem ninguém. Nem Ulrich, amigo pessoal do autor, escapa de ser o tempo todo referido como frio, manipulador e ganancioso _ ao mesmo tempo em que é apontado, com razão, como o maior responsável por levar o Metallica ao Olimpo da música. Wall já havia demonstrado postura semelhante em seu livro anterior, uma detalhista e elogiada reconstituição da trajetória do Led Zeppelin: Quando os Gigantes  Caminhavam Sobre a Terra (Larousse, 526 páginas, 2009. Tradução de Elvira Serapicos). Amigo de Jimmy Page por anos, Wall foi cortado das relações do guitarrista depois que o livro foi publicado. A tradução de Metallica – A Biografia é de Daniela Pires, Leandro Woyakoski e Marcelo Barbão.

>>> Leia mais sobre lançamentos recentes com a história de ídolos do rock aqui mesmo no Mundo Livro

O Getúlio de Lira Neto

29 de maio de 2012 3

Getúlio Vargas em seu gabinete no Palácio Piratini. Foto de Sioma Breitman

Getúlio Vargas (1882 – 1954) é um personagem tão invulgar no horizonte da política brasileira que praticamente qualquer grande biografia sobre figuras do Brasil no século 20 esbarra, em algum momento, no homem ou em seu legado. Getúlio tem amplo destaque em Chatô e Olga, de Fernando Morais. Também está em O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, entre tantas outras trajetórias. Textos já foram escritos defendendo o Brasil contemporâneo como um produto de Getúlio e sua trajetória. Agora que ele ganha nova biografia, escrita pelo jornalista Lira Neto, o enfoque do primeiro volume (de três previstos) é, a seu modo, diverso. O Brasil criado por Getúlio ficará para os próximos volumes, já que, neste capítulo inaugural, Lira Neto prefere enfocar Getúlio ele próprio como um produto do Rio Grande do Sul.

Getúlio, 1882 – 1930: Dos Anos de Formação à Conquista do Poder (Companhia das Letras, 664 páginas, R$ 52,50) concentra-se na primeira fase da vida do político de São Borja, do nascimento em 1882 à vitória na Revolução de 1930. O Vargas que emerge da biografia, escrita com a ginga narrativa que o autor já mostrou em Padre Cícero e O Inimigo do Rei, não é (ainda) o ditador do Estado Novo, o populista do “retrato do velho”, o industrializador, o homem envelhecido e acuado dos anos 1950. É o Vargas do Partido Republicano, ligado a uma família de históricas raízes castilhistas, filho de um rigoroso positivista – personagem cauteloso que, talvez por sua tendência à procrastinação, começará a se projetar nacionalmente mais tarde.

Lira Neto compõe a biografia de Getúlio em forma de mosaico. Embora siga de modo quase linear sua trajetória, o texto se aproveita de uma consequência da centralidade de Getúlio na história. Para dar um panorama multifacetado, o texto contrapõe relatos de dezenas de fontes sobre Getúlio: familiares, como Lutero e Alzira Vargas; relatos de opositores, como o general Gil de Almeida, comandante militar do Rio Grande destituído pela Revolução de 1930; depoimentos de aliados com quem manteve relações turbulentas, como João Neves da Fontoura; e os diários e cartas de Getúlio Vargas, também já publicados – embora a maior parte do material já tenha circulação em livro, há documentos inéditos. Isso atenua, ainda que não muito, a falta de grandes novidades.

– A ausência de testemunhas oculares ainda vivas foi suplantada pelo arquivo monumental do biografado e de pessoas próximas, como Oswaldo Aranha, todos sob a guarda do CPDOC da FGV.  Muita coisa ali, por incrível que possa parecer, ainda é inédito – diz Lira Neto.

Antes de virar ele próprio um substantivo, Getúlio foi destacado integrante das hostes do castilhismo e do borgismo – e Lira Neto esmiúça as relações políticas que o cercavam. Getúlio cresceu em uma família historicamente ligada aos republicanos – seu pai, o general Manuel Vargas, lutou de lenço branco no pescoço na Revolução Federalista. O temperamento conciliador se desenvolve em um Estado marcado por revoltas e pelas ditaduras positivistas de Castilhos e Borges. Talvez para o leitor do Rio Grande do Sul, imerso na história contada, já repisada em incontáveis livros, de ficção ou não, a impressão de falta de novidades se acentue, embora o livro valha como um novo ponto de vista expresso em um texto sedutor.

Um biógrafo trabalha com o que tem à disposição. No caso de Getúlio,o material para um voo sobre sua psique é restrito. Getúlio começou a escrever seus diários quando irrompeu a Revolução de 1930 – sabia, portanto, que àquela altura estava redigindo as atas de uma trajetória histórica. Suas cartas, também fonte da biografia, mostram um político tão hábil quanto dúbio. O que mostra por que escritores de ficção têm se sentido mais à vontade para invadir a mente de Getúlio do que seus biógrafos.

Os livros na novela Avenida Brasil

29 de maio de 2012 0

As cenas que ilustram esse post andam cada vez mais frequentes no horário nobre da TV brasileira.

Na novela das nove, Avenida Brasil, o personagem Tufão (Murilo Benício) está se tornando um homem letrado. Influenciado por Nina (Débora Falabella), o ex-jogador tem se interessado pela leitura e já devorou cinco livros indicados pela cozinheira (veja abaixo as sinopses das obras).

E os títulos sugeridos pela empregada não são aleatórios.

— Tem a ver com a fase do personagem, com a trama e com as intenções de Nina. É uma forma de ela dar “toques” sobre a forma como ele conduz sua vida, a infidelidade de Carminha (Adriana Esteves) e outros temas — conta o autor João Emanuel Carneiro.

Ex-jogador virou amante da literatura
graças à cozinheira Nina,
que tenta com as obras
abrir seus olhos sobre a vida que leva

Como Tufão não imagina as reais intenções de Nina, ele está aproveitando a oportunidade para se tornar um homem melhor.

— Nina levou um frescor para aquela casa. Ela, por si só, já intriga os moradores na mansão e instiga a curiosidade. Tufão caiu nessa teia. O interesse pela leitura é uma prova concreta desse efeito emocional e psicológico. Ele está tentando se tornar uma pessoa mais interessante, quer se aproximar de Nina, ao menos intelectualmente — analisa o autor, que acena com a possibilidade de o exjogador começar a escolher os livros que gostaria de ler.

No caderno TV Show de Zero Hora, publiquei há duas semanas uma matéria sobre o assunto. Os leitores do caderno e telespectadores da novela mandaram emails comentando que adoram essa iniciativa do autor da trama, pois ajuda também a divulgar a literatura no horário nobre. Por isso, o blog Mundo Livro lista os clássicos que já foram citados na novela.

MADAME BOVARY
De Gustave Flaubert

Mulher que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental se casa com médico apaixonado, mas entediante. Muito angustiada e frustrada, busca no adultério a forma de achar a liberdade e a felicidade. Uma busca fadada a tragédia e decadência. O livro provocou escândalo quando de seu lançamento, em 1857, e levou seu autor Gustave Flaubert (1821-1880) aos tribunais, processado por obscenidade. No Brasil, há mais de uma tradução disponível em livrarias ou sebos: a de Fúlvia L. Moretto para a editora Nova Alexandria; a de Sérgio Duarte para a antiga coleção de bolso da Ediouro; a de Ilana Heinelberg para a coleção de bolso da L&PM. A mais recente é a de Mário Laranjeira para a Companhia das Letras, publicada no selo Penguin da editora. Clique aqui para ler uma comparação entre algumas delas aqui mesmo no blog Mundo Livro.

A METAMORFOSE
De Franz Kafka
Jovem que sustentava a família trabalhando como vendedor acorda certo dia e se vê transformado em um grande inseto. Na história, a nova condição do personagem vai além da modificação física – que impede o jovem Sansa de se comunicar com sua família. O protagonista vai se transformando inteiro em um inseto, com alteração de comportamentos, atitudes e sentimentos, e de outrora o provedor da família vai se tornando um peso para os parentes, mesmo para a irmã de quem tanto gostava. A tradução mais conhecida é a de Modesto Carone para a Companhia das Letras, mas há também a de Celso Cruz, para a Hedra e a de Marcelo Backes, para a L&PM.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
De Machado de Assis.
Já morto, um homem de família rica decide escrever a sua autobiografia ao além-túmulo, do enterro até a sua infância e juventude. Livre das convenções sociais e dos pruridos de consciência devido à morte, Brás Cubas não tem pejo de esmiuçar o que havia de mais patético em sua vida e de ser cruel e irônico consigo próprio e com todos os que o cercaram ao longo da vida. Sátira impiedosa com um protagonista que, mesmo fruto da melhor elite nacional, vive uma vida medíocre que passa sem deixar grandes marcas devido à leniência e à acomodação do personagem em vida.

DOM CASMURRO
De Machado de Assis.
Amargurado e recolhido a um casarão que transformou em uma cópia exata de sua casa de infância, um homem rancoroso repassa a história de sua vida e a sua paixão por uma vizinha de infância, Capitu, com quem o rapaz, um filho mimado de família rica, casa apesar da má-vontade inicial da mãe. Após a morte do melhor amigo, Bentinho, o protagonista, começa a desconfiar de que Capitu e o falecido eram amantes. Consumido pelas suspeitas, o protagonista supõe, inclusive, que o próprio filho seja fruto da traição da mulher – o que contribui para o isolamento derrotado em que o leitor o encontra no início da história. Outra das obras-primas que tornaram Machado de Assis um dos maiores escritores brasileiros. Como se encontra em domínio público, a obra tem edição por praticamente todas as grandes editoras brasileiras: L&PM, Globo, BestBolso, Nova Fronteira (na imagem ao lado, com comentários dirigidos ao estudante assinados por Maria Helena Rouanet)

A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS
De Sigmund Freud
O psicanalista afirma que os sonhos podem ser entendidos, contrariando a teoria científica de sua época, que admitia que ossonhos ocorrem a partir do registro mental do indivíduo, mas são ininteligíveis.

O próximo título a ser incluído nas leituras de Tufão será O PRIMO BASÍLIO, de Eça de Queiroz, mais uma dica de Nina para o patrão. Em crise com Carminha, após descobrir que ela é mãe biológica de Jorginho (Cauã Reymond) e o jogou no lixão, Tufão diz à vilã que a obra “é sobre uma mulher que traía o marido, mas acaba perdoando ela no final”. A megera, esperta, aproveita a deixa: “Tá vendo como todo casal passa por crises imensas? Se existe amor de verdade, não importa o erro que o outro cometeu“.

A Rede e os Livros: uma conversa com Ronaldo Lemos

28 de maio de 2012 0

Ronaldo Lemos. Foto: Cris Isidoro, Divulgação

Ainda no assunto da polêmica entre a Associação Brasileira de Direito Reprográfico e os defensores e apoiadores do site Livros de Humanas, tirado do ar por determinação da Justiça de São Paulo, fomos ouvir um dos principais especialistas em Direito e univerdo digital do Brasil, Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. Lemos prepara ele próprio para breve o lançamento de um livro que já sairá, em papel (coedição entre a PUCRS e a editora gaúcha Sulina), sob licença do selo Creative Commons, que permite modalidades de uso e reprodução não comercial de uma obra artística ou intelectual. Lemos nos falou sobre o substrato jurídico da polêmica, numa entrevista cuja íntegra pode ser lida abaixo:

Mundo Livro – O senhor está acompanhando o caso do site Livros de Humanas? Acha que a interdição do espaço virtual e a subsequente reprovação por parte de artistas e professores pode vir a se tornar um problema de relações públicas para a entidade?
Ronaldo Lemos
– Li, sim, sobre a suspensão do site. Há na verdade um problema de relações públicas que é também um problema jurídico, porque o site foi retirado contendo livros que podem não estar cobertos pelos direitos representados pela ABDR como entidade. O repertório total do site tem livros sobre os quais ela não comprovou nenhum direito de representação.

ML – O fato de todo o site ter sido tirado do ar mosta que a Justiça ainda não encontrou a medida justa e sutil para julgar demandas típicas da contemporaneidade altamente tecnológica?
Lemos –
A questão principal é que a lei de direitos autorais brasileira é uma das mais restritivas do mundo. Ela praticamente veda quaisquer condutas que não a compra integral do livro. Ela proíbe inclusive a disponibilização dos chamados “livros órfãos”, aqueles fora de catálogo há muito tempo, esgotados ou com representações incertas ou que não se pode encontrar. Em outras leis de outros países, há exceções que incluem a liberdade de publicação de livros nessa categoria.

ML – Mas faltou para o Judiciário exigir a comprovação de que a ABDR tem direito de representação para todas as obras no site, não? Preferiu-se a proibição integral do que  uma mais trabalhosa análise obra a obra.
Lemos –
O uso do judiciário para tirar do ar livros que você nem sequer prova que detém os direitos é muito preocupante. A ABDR representa um grupo específico e tem direito de pedir a retirada de qualquer material coberto por lei que esteja sob sua representação. O que está na lei tem de ser coberto, assim como livros que o autor ou a editora não desejam compartilhar têm de ser retirados se assim for a vontade de seus legítimos titulares. A questão que fica são livros que poderiam estar em domínio público, livros já previamente autorizados por seus autores ou editores ou que não fazem parte do catálogo da ABDR. É como se eu fosse acionar um direito que não me pertence. Se as pessoas puderem mover ações com relação a direitos que elas não têm, abre-se um precedente muito perigoso

ML – É hora de repensar a lei do Direito Autoral no Brasil?
Lemos –
O conflito principal ocorre pela ausência de possiblidades de acesso eletrônico legal. Esses mesmos livros que a ABDR tirou do ar, as pessoas não têm como acessar. Um dos aspectos a discutir é se a existência desses serviços de venda digitalmente também não desestimularia a necessidade de existência de sites como esses. Se o preço fosse bom e fácil, o site não teria razão de ser.

ML – Defensores do site também argumentam que um curso universitário exige leituras que seriam financeiramente inviáveis e que a comunidade intelectual sabe disso, que há um acordo tácito quanto aos xerox que qualquer universidade mantém, com pastas para os professores, mas na internet a ABDR parece ir à forra desse contexto. Qual sua opinião?
Lemos –
Nesse caso a questão é comercial. Se você vai a outros países, os alunos têm acesso a livros garantidos porque há outras modalidades de licenciamento de direitos. No Brasil, o único meio de acesso legal permitido comercialmente ao conteúdo de um livro é comprar o livro integral pelo preço de capa, enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, já é possível a universidade pagar pro rata, percentualmente, por um determinado número de páginas que pretende indicar em seus currículos. Para um aluno ler as 10 páginas de um livro que o professor reuniu em um polígrafo no Brasil, ele tem de desembolsar pelo livro inteiro, e o licenciamento parcial que vigora nos Estados Unidos é muito mais flexível no sentido de assistir a essas demandas. Essas 10 páginas poderiam muito bem ser pagas.

ML – Há esperanças de alguma mudança dada a atual situação do Ministério da Cultura e suas medidas que vão na direção oposta da gestão anterior da pasta?
Lemos –
Esse é o grande problema. Comparada com outras legislações de outros países, a lei de Direito Autoral no Brasil ficou como a Quinta Pior do mundo no que consiste à produção e difusão de conhecimento em um levantamento da organização Consumers International.  É uma lei desequilibrada que estava em processo de reforma, mas a troca de gestão na Cultura paralisou o processo.

A rede e os livros: as manifestações a favor do Livros de Humanas

28 de maio de 2012 0

Foto: Daniela Xu/ Pioneiro

Como mencionamos no último post, há uma polêmica atualmente no ar envolvendo a ABDR, entidade que representa editoras, e uma corrente de apoio ao site Livros de Humanas, retirado do ar por uma notificação da Justiça de São Paulo. Imediatamente a suspensão do site, acusado pela entidade de fazer pirataria digital, gerou uma série de adesões espontâneas a um movimento em apoio ao Livros de Humanas, qualificado por seus defensores como “biblioteca digital”, e contrário aos poderes que a ABDR se arroga como representante de todo o mercado editorial (uma vez que muitas editoras não são filiadas à entidade). Professores, escritores e até editoras vieram a público para protestar contra a decisão que tirou o blog do ar e discutir mudanças nas leis brasileiras de Direitos Autorais – uma das mais restritivas do mundo. As manifestações em apoio ao Livros de Humanas estão sendo reunidas em um único endereço na internet, o Direito de Acesso.

Outra das manifestações me defesa do blog Livros de Humanas veio de artistas, escritores e professores que resolveram disponibilizar livros recentemente lançados de graça, em versões em PDF, em endereços da rede, numa manifestação voluntária de apoio ao site e de relativização dos direitos autorais. Um dos primeiros a se erguer nessa iniciativa foi o poeta Eduardo Sterzi, que disponibilizou no portal Scribd uma cópia de seu livro Aleijão, para ler e baixar. Outros intelectuais também fizeram o mesmo, como os poetas Angélica Freitas (que jogou na rede seu livro de estreia, Rilke Shake) e Ricardo Domeneck (seu  mais recente livro, Cigarros na Cama, está aqui) e a escritora Verônica Stigger, que publicou me rede seu elogiado Os Anões (aqui).

Mandei para Eduardo Sterzi algumas perguntas sobre sua participação no movimento. A íntegra da entrevista pode ser lida abaixo:

Mundo Livro – Você disponibilizou para download, em apoio ao site Livros de Humanas, seu livro mais recente, Aleijão. O que o levou a essa iniciativa?
Eduardo Sterzi –
Há tempos, simpatizo e, na medida do possível, apoio o site Livros de Humanas, no qual reconheço uma das mais democráticas bibliotecas públicas do nosso país. Conheço vários estudantes e professores brasileiros e estrangeiros que encontraram nessa biblioteca textos fundamentais para a realização de suas dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos e livros: textos esgotados ou simplesmente não encontráveis nas bibliotecas físicas dos lugares onde moram. Eu mesmo já digitalizei e enviei links de vários textos, meus e alheios, para serem disponibilizados no Livros de Humanas. Como professor universitário, frequentemente indico textos a meus alunos; entre deixar esses textos num “xerox” em que só eles teriam acesso e deixá-los disponíveis na internet para que todos que os estejam procurando possam lê-los, qual é a melhor opção? Oferecer o Aleijão [que é, na verdade, meu penúltimo livro; o último é Cavalo sopa martelo] em apoio ao site foi um gesto modesto, que, para minha satisfação, foi seguido por vários outros autores comprometidos com a causa da plena difusão da cultura e do conhecimento, como Veronica Stigger, Angélica Freitas, André Vallias, Idelber Avelar, Eduardo Viveiros de Castro e Ricardo Domeneck, entre outros. Gostaria de lembrar que, com este gesto, apenas busco ser coerente com uma disposição que já está expressa numa nota que fiz acompanhar meus últimos livros, Aleijão (2009) e Cavalo sopa martelo (2011): “O autor permite a reprodução parcial ou integral deste livro por qualquer meio, desde que sem objetivos comerciais”.

ML – Outros autores também estão fazendo o mesmo, pode-se falar de uma campanha da classe criativa por uma flexibilização das normas determinadas pela atual lei de direitos autorais em vigor?
Sterzi –
Sim, felizmente está ocorrendo uma mobilização de alguns autores, tanto de ficção quanto das chamadas ciências humanas, em prol da plena difusão do conhecimento e da cultura, que passa, claro, pela flexibilização das leis atuais sobre direitos autorais – os quais, na verdade, deixemos claro, têm hoje muito pouco a ver com os autores. Basta lembrar que as entidades que protestam em nome dos “direitos autorais” nada fazem para garantir que os autores recebam a porcentagem mínima de 10% estabelecida por lei. Há várias editoras, inclusive entre as grandes, que pagam apenas 5% do valor de um livro vendido a seus autores. E, pior que isso, há todo um mercado de editoras que cobram dos autores para publicar seus livros. Só aceito discutir direitos autorais, sem aspas, com entidades que reconheçam tal situação e demonstrem estar fazendo alguma coisa para mudá-la. Quanto à mobilização dos autores, só lamento que seja ainda muito tímida, que muitos escritores prefiram ignorar esta questão – como, de resto, preferem ignorar qualquer questão política. E esta, a questão do livre compartilhamento da cultura, é uma questão política fundamental dos nossos dias, que nos diz respeito diretamente. Virar as costas para ela me parece algo vergonhoso.

ML – Os autores da ação impetrada pela ABDR contra o blog Livros de Humanas argumentam que a disponibilização do conteúdo online fere a lei dos direitos autorais. Os apoiadores, por sua vez, o definem como uma biblioteca online. A solução da polêmica passa pela reforma da lei?

Sterzi – Sim, é preciso reformar a lei, que é irreal. Não esqueçamos que vivemos num país que não dispõe de bibliotecas físicas compatíveis com a sua estrutura de ensino e no qual algumas editoras cobram preços verdadeiramente extorsivos por seus livros. Há um descompasso trágico entre o desejo de conhecimento e cultura de nossos estudantes e pesquisadores e os meios de que dispõem para satisfazer tal desejo. Foi essa carência de boas bibliotecas que levou à formação de toda uma estrutura alternativa de fotocópias, cujas matrizes são realizadas, na maioria das vezes, a partir de livros dos acervos pessoais dos professores. Vale lembrar que o Livros de Humanas surgiu de uma situação específica envolvendo a central de fotocópias do prédio de Letras da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP): de um dia para outro, a cópia de uma página, que custava R$ 0,10, passou para R$ 0,15. Ou seja, já se trata de uma alternativa à alternativa. Temos que revisar as leis de direitos autorais, mas temos também de criar uma política consistente de formação de bibliotecas públicas – e, sobretudo, precisamos discutir os preços dos livros no Brasil. Também temos de ver com clareza, na discussão sobre “direitos autorais”, o papel das editoras de livros didáticos na perseguição aos sites de livre compartilhamento. A ABDR, que move o processo contra o Livros de Humanas, está dominada por tais editoras. O livro didático é um negócio milionário em nosso país, um negócio cujo principal financiador são os governos federal, estaduais e municipais. O que o Ministério da Educação tem a dizer sobre o assunto? Nem falo do Ministério da Cultura, que, na atual administração, com os lamentáveis vínculos entre a ministra e o ECAD, sofreu um terrível retrocesso em relação à administração anterior, de Gilberto Gil-Juca Ferreira.

ML – A disponibilização online ajuda ou prejudica a carreira de um livro – ou talvez não tenha influência tão determinante nem em um sentido nem em outro?
Sterzi –
Talvez tenhamos de distinguir, antes de tudo, duas concepções de “carreira de um livro”. Se acreditamos que o fundamental na carreira de um livro seja sua leitura pelo maior número possível de pessoas, a disponibilização online só pode ajudá-la. Se, porém, acreditamos que o essencial seja converter o número de leitores em valores monetários, a situação não é tão clara. No entanto, temos o testemunho de autores como Paulo Coelho, que dizem que passaram a vender mais livros depois que tiveram suas obras disponibilizadas na internet. Há também o caso da editora Hedra, que, depois que deixou alguns de seus livros disponíveis integralmente no Google Books, passou a vender mais exemplares. Eu mesmo, que, como a imensa maioria dos poetas e ensaístas, estou longe de ser um grande vendedor (embora tenha dois livros com primeiras edições esgotadas, Prosa e Cavalo sopa martelo), percebo que a maioria dos leitores que me contam ter comprado meus livros o fizeram depois de ter lido ao menos algum de meus textos na internet. Para além de qualquer discussão comercial, o importante, porém, é perceber que o livre compartilhamento veio para ficar, porque ele é a realização de um ideal de busca do conhecimento e de comunhão cultural que sempre esteve na base dos grandes momentos de afirmação de nossa humanidade. Estamos diante de uma nova Renascença, de um novo Iluminismo – nada menos do que isso. Pouco me importa que esse livre compartilhamento ajude ou prejudique as vendagens de meus livros ou de qualquer livro. Pouco deveria importar também aos autores conscientes de sua função no mundo, aqueles que sabem, como bem disse o cineasta Jean-Luc Godard, que um autor não tem direitos: tem deveres.

A rede e os livros: três perguntas para a ABDR

28 de maio de 2012 0

Foto: Bruno Alencastro/ZH

Publicamos hoje em Zero Hora um texto sobre a recente polêmica envolvendo o blog Livros de Humanas, uma página na rede fundada por um estudante da USP que disponibilizava arquivos em PDF de livros de áreas como filosofia, teoria literária, sociologia. Por meio de uma ação judicial na Justiça de São Paulo, a entidade classista Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) conseguiu retirar o site inteiro do ar, pedindo primeiramente a antecipação de tutela à retirara de dois livros específicos, um publicado pela editora Forense e outra pela Contexto. Depois de obter o “sim” a sua pretensão, a ABDR conseguiu tirar o site inteiro do ar solicitando a extensão do que havia adquirido a todo o conteúdo do site, mais de 2 mil livros, alguns em domínio público e outros esgotados. Enviei um e-mail à ABDR e recebi as seguintes respostas do advogado da entidade, Dalizio Barros. Como a entrevista foi enviada pela caixa de “fale conosco” do site da associação e a resposta chegou em cima do laço para a publicação no jornal, não pude estender outras perguntas que se impunham das respostas às primeiras. Vocês podem lê-las na íntegra logo abaixo:

Mundo Livro – o que levou a ABDR a ingressar na justiça solicitando a retirada do site Livros de Humanas do ar?
Dalizio Barros –
a abdr tem um trabalho de identificação dos principais sites que disponibilizam obras intelectuais para download na rede sem autorização e os monitora através de notificações e etc., porém, quando se percebe uma demanda muito alta de conteúdo e de acessos e também de que os responsáveis pelos sites não atendem as notificações da entidade, a saída é buscar o socorro do poder judiciário para tentar cessar os prejuízos suportados pelas editoras;

ML – Em que grau está atualmente o processo? a retirada do site do ar foi concedida em liminar, não? Têm ideia de quando o mérito será julgado?
Barros –
O processo é bem recente e conseguimos há cerca de quinze dias a liminar para o site retirasse o conteúdo apontado do ar. Agora o processo está aguardando a manifestação em defesa pelos responsáveis do site. não há previsão de definição ainda.

ML – Uma campanha está sendo movida pela internet, com escritores disponibilizando suas obras na rede em apoio ao site. o que os senhores pensam dessa manifestação?
Barros –
A abdr representa algumas editoras (cerca de 90% do mercado) e somente pode falar por elas. os escritores que por ventura disponibilizem suas obras na rede provavelmente o fazem porque são independentes.

Pepetela e o outro lado das coisas

25 de maio de 2012 0

O escritor Pepetela. Foto: Sérgio Lima, Divulgação

Pepetela situa-se entre os autores que trazem consigo a sina da procura da identidade nacional, o que se coloca já a partir da “cartilha” para guerrilheiros adultos,  As aventuras de Ngunga, (1972). É o autor quem diz : “despojados que fomos da nossa História por séculos de obscurantismo, muitas vezes  nos  sonhando iguais aos outros, mas sempre temerosos da comparação, nada igualava as tradições da Europa a que tínhamos que ficar para sempre agradecidos porque  das trevas nos tirou, quando afinal as trevas vinham de lá…”

Pepetela nasceu numa região fronteiriça do reino de Benguela, onde terminava a cidade branca e começava o musseke, portanto produto, como sua própria cultura, da confluência da base africana com a influência euro-ocidental. É a partir desta posição que propõe, através de sua obra, a reescrita da história angolana, com a visão não apenas do ponto de vista da colonização, mas também daquelas populações que a viveram de fato. Trata-se da procura da identidade através da reunião dos elementos dispersos na memória coletiva. É como chegamos ao excelente livro que, agora, lança no Brasil, A Sul. O Sombreiro (Editora Leya, 364 páginas, R$ 44,90), onde volta, com um diálogo forte, tenso, irônico entre a história e a ficção. É com extrema habilidade que o autor nos conduz  ao princípio da colonização angolana, aos séculos 16 e 17, período do domínio espanhol sobre as terras lusas, construindo a urdidura sobre duas personagens, uma histórica, Manuel Cerveira Pereira, administrador do império e conquistador de Benguela, e uma ficcional, Carlos Rocha, um negro livre, talvez descendente do navegador Diogo Cão.

O primeiro, Pereira,  o legítimo representante da prepotência, da crueldade, da hipocrisia e da ganância do processo de colonização. Sabia como ninguém se movimentar entre conspirações e intrigas na corte, empolgando os reis com as grandes riquezas que lhes poderia oferecer, mas esquecendo-se de referir os lucros que teria com o comércio de escravos ou outros produtos. Na verdade, todos os colonizadores, inclusive os padres jesuítas e franciscanos, acobertados pela missão de converter as populações locais ao cristianismo, ambicionavam enriquecer rapidamente e sem grande trabalho.

O que poderia ser apenas um relato factual, ainda que interessante,  se enriquece com o cruzamento da história com o segundo personagem, Rocha, e nisso Pepetela é mestre. Esteticamente inquieto, o escritor brinca com a estrutura, no que diz respeito ao ponto de vista, o que está ligado à própria tradição oral africana, e na utilização de uma linguagem que transita  entre o Português e as línguas nacionais angolanas. É através do percurso de Carlos Rocha que a tradição emerge, quando, com o fiel Mulembe e um mosquete nas costas, abandona Luanda temendo que o pai, um alcoólatra que tudo perdera, o venda como escravo. É Carlos Rocha, ” o negro branco”, quem desvela, aos olhos do leitor, a paisagem africana e suas gentes, seus costumes, a rivalidade entre os reinos  Ndongo e Konga e os confrontos tribais e, é justamente numa tribo jaca, canibal, que ele encontra Kandalu,  a mulher a quem vem a amar e que o coloca  na divisa das diferenças culturais, seja pelo dote, um escravo a ser comido, seja pelo filho, que deveria ser morto no nascimento.

Uma figura que merece destaque é o aventureiro inglês Battell, exímio contador de histórias, que, ao voltar para a terra natal, escreve um livro de memórias. Da mesma forma, não há como ignorar o narrador que insiste em interromper a narrativa, para apresentar sua versão, crítica e irônica, da história que, então, se conta.
É como Pepetela se reafirma  em A Sul. O Sombreiro, como o maior romancista de Angola e da tradição angolana, revelando, com olhos críticos jogados no passado,  causas que nos podem iluminar o presente angolano e africano.

Texto de Jane Tutikian, escritora e diretora do Instituto de Letras da UFRGS

Arranjando mais trabalho

24 de maio de 2012 0

Obra "Leitura", de Iberê Camargo

Estive em Erechim recentemente, para um encontro intitulado “Partilhando leituras”, atendendo ao gentil convite dos organizadores, os professores Gerson Severo e Paulo Bittencourt, do campus local da Universidade Federal da Fronteira Sul (quem quiser ter um relato de como foi, clique aqui, no blog do projeto, e leia um texto escrito por Andrei Vanin). Uma das coisas que me foram perguntadas e sobre as quais falei durante a conversa é o critério que usamos para que um livro seja matéria no Segundo Caderno.

Ao responder, comentei que tentamos um equilíbrio entre o interesse jornalístico e o literário. Um livro que se torna um fenômeno precisa ser lido em algum momento. Um autor de reconhecida importância, nacional e internacional. E que, dada a ênfase que a Zero Hora dá ao cenário local, buscamos sempre, quando o espaço, o tempo, as circunstâncias assim permitem, falar de autores locais.  A ideia é achar um equilíbrio entre o autor estrangeiro publicado por editora blockbuster com mídia em massa e o escritor que está começando agora, não tem uma poderosa estrutura de divulgação e tem, portanto, menor possibilidade estatística de receber uma leitura pública em jornal ou revista. Porque a leitura é uma parte essencial do processo de um livro.

Voltei de Erechim com essa explicação na cabeça.  E me lembrei de um projeto que cheguei a acalentar há dois anos e que havia posto na geladeira por um tempo devido ao surgimento do Gaúchão de Literatura, que no fundo tinha proposta semelhante.Acho que entusiasmado pela acohida recebida em Erechim, resolvi tirá-lo da gaveta.

Sabe quantos livros de contos são publicados a cada ano? Eu não sei, mas ajudei o Rodrigo Rosp e a Lu Thomé a fazer no levantamento prévio dos concorrentes do Gauchão no ano de 2010, e chegamos a uns 60 livros no período de dois anos  – provavelmente deixando passar uns quantos. É uma produção caudalosa que é impossível de acomodar em qualquer lugar, ainda mais no espaço restrito do jornal de papel. Ainda mais que o conto hoje é uma forma literária que passa provavelmente por uma saturação semelhante à que se seguiu ao boom dos grandes contistas dos anos 70 e 80. Muita coisa sendo produzida, etc.

Daí vou tentar dar minha contribuição pessoal aqui no blog. Com este post, anuncio que damos início à série “Bairrismo? Conta outra” - o título é provisório. De 15 em 15 dias publicarei aqui neste espaço uma resenha detalhada de um livro de contos escrito por autor gaúcho de publicação recente.  Vamos às inevitáveis perguntas:

Por que contos? pelos motivos explicitados anteriormente, contos não parecem ter tanto espaço quanto romances – inclusive no meu próprio trabalho, como percebi analisando o blog. Logo, vamos dar um espaço para essa contarada toda.

Por que de 15 em 15 dias? Você leria um livro em menos tempo do que isso? Com certeza. Você leria um livro em menos tempo do que isso sem interromper todas as coisas que você precisa fazer numa jornada de oito horas de trabalho e ainda tendo que ler vários outros livros no processo tentando não perder sua vida nisso? Duvido.

Por que no blog e não no jornal? No blog eu tenho mais espaço e depende só de mim.

Quem é que vai ler isso? Não sei. Talvez só o autor do livro, talvez nem ele.  Talvez você que tenha curiosidade por saber o que anda sendo produzido.

Fiquem atentos então à semana que vem, quando publicarei a primeira resenha.


17 segundos que duram para sempre

22 de maio de 2012 2

Firpo derruba o campeão Jack Dempsey. Pintura de George Bellows (1925)

Segundos Fora, de Martín Kohan, que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um romance de 250 páginas, ou seja, nada excepcional em termos de extensão. O que é fascinante nessa obra – que, embora esteja ganhando oportunidade só agora nas estantes nacionais, é anterior ao romance Ciências Morais, já lançado por aqui (leia texto aqui mesmo no blogue) – é como nessas páginas ele consegue harmonizar não uma, mas quatro histórias que por vezes parecem se desdobrar em quase uma dezena de livros e modos de narrar.

O eixo narrativo de Segundos Fora se desenvolve ao redor da reconstituição de um evento histórico real, a luta de boxe realizada em 1923 entre Luis Ángel Firpo, boxeador argentino conhecido como “O Touro dos Pampas”, e o campeão mundial dos pesos-pesados, o americano Jack Dempsey. A luta tem um significado simbólico na história do esporte na Argentina semelhante às tragédias de 1950 e 1982 no futebol brasileiro, e por um motivo bem simples: Firpo esteve a 17 segundos de ser o novo campeão, depois que um de seus poderosos socos enviou Dempsey não à lona, mas para fora dela – o americano caiu do ringue, como na imagem que ilustra este post,  uma pintura do artista George Bellows (1882 – 1925) reconstituindo o episódio. Dado o inusitado do fato, o juiz perdeu a contagem automática que deveria ter sido iniciada com a queda do boxeador, e Dempsey teria ficado 17 segundos fora do ringue, não os 10 regulamentares do esporte. Ao voltar para a luta, Dempsey, que estava melhor na luta, nocauteou o adversário.

Segundos Fora tem exatamente 17 capítulos – o equivalente ao tempo que Dempsey teria ficado fora do ringue. Em cada um desses capítulos, a narrativa salta entre diversos pontos de vista: o do atordoado Jack, caindo segundo a segundo; o do árbitro, que, perdido nos próprios pensamentos, deixa escapar o momento da contagem; o do fotógrafo atingido pela queda do campeão. Outro plano narrativo se desenvolve cinquenta anos depois do fato, em um jornal da Patagônia no qual dois repórteres estão trabalhando para uma edição especial de aniversário do periódico, recuperando um evento notável de cada área ocorrido cinquenta anos. O setorista de artes, Ledesma, reconstitui a passagem por Buenos Aires em 1923 de Strauss, para reger um programa em que se prevê uma sinfonia de Mahler. A Verani, o homem dos esportes, cabe a histórica luta. E nos jornais do período, ambos e o colega de jornal Roque, o narrador, encontram os indícios de uma morte misteriosa ocorrida na mesma noite da luta, cinquanta anos antes. Outra fatia narrativa ainda lança a história para o nosso tempo, passados anos da época em que Verani e Ledesma, em diálogos hilários, discutem sobre as diferenças entre suas respectivas áreas: Ledesma tentando a todo custo inculcar no aparentemente simplório Verani o gosto pela música clássica – e aqui temos outra camada: digressões musicais-biográficas sobre Mahler e sua amizade com Strauss. .

Por e-mail, Martín Kohan concedeu a entrevista que vocês podem agora ler na íntegra aqui no blog:

Zero Hora – Segundos Fora parece referir-se a um tema também presente em seus livros anteriores Duas Vezes Junho e Ciências Morais: a reconstrução de momentos simbólicos da Argentina (a Copa do Mundo, uma escola de elite, uma luta lendária). É seu propósito investigar a mitologia que a Argentina construiu a respeito de si mesma?
Martín Kohan –
Os mitos me interessam porque são cristalizações de sentido. E porque neles, ainda que exista uma base empírica, a dimensão puramente imaginária prevalece sobre a dimensão estritamente real. Nesse sentido eu os acho particularmente estimulantes para a literatura. Os mitos nacionais me interessam duplamente, porque agregam a tudo isso uma instrumentação pelo Estado que lhes dá função política. Interessa-me escrever na contramão, tratando de revisar e reverter tudo isso: fazer os sentidos estabelecidos chocarem-se com uma outra ordem de significado que começa a produzir o romance.

ZH – O romance se ocupa de um episódio real: o boxeador nacional Juan-Ángel Firpo poderia ter obtido o título mundial se não fosse dado ao oponente um tempo irregular para a volta ao ringus. É sua maneira de abordar também um sentimento não apenas argentino mas também latino-americano de ser sempre vítima de injustiça ou trapaça?
Kohan –
Isso é parte dessa mitologia de que falávamos. Uma maneira de ser, ou seja, de nos imaginarmos. Por exemplo, nos imaginamos destinados a um futuro de grandeza. E quando essa grandeza é frustrada, vem a necessidade de ativar a imaginação do espólio, ou ainda das conspirações dedicadas a frear ou frustrar o que deveria ser potência e grandeza. O esporte habitualmente condensa e expressa muitos desses mecanismos de imaginação coletiva nacional. A luta entre Dempsey e Firpo, e mas precisamente os 17 segundos que Dempsey passa caído fora do ring funcionam exatamente assim. Por isso os elegi como coluna vertebral do romance.

ZH – Seu romance é um livro múltiplo. Apesar de relativamente curto, fala sobre boxe, Mahler, o passado tumultuado da Argentina, narra eventos separados entre si por 50 anos e também cria grandes diálogos entre dois personagens centrais. Foi para dar conta dessa multiplicidade que o senhor escolheu uma estrutura fragmentada de narrativa?
Kohan –
Decidi que aquela história deveria ser escrita em épocas diferentes e com diferentes perspectivas. Em vez do relato linear e ordenado das histórias totais, pensei em uma história desmontada, no sentido em que se desmonta um quebra-cabeças, que tem de ser reconstituído. Por isso se sobrepõem na história diversos tipos de investigação: histórica, jornalística, policial, como tentativas para remontar um enredo e um significado que tivessem sido feitos em pedaços.

ZH – O senhor também inclui uma trama que parece saída de um romance policial: a morte misteriosa de um homem em um hotel em 1923 e as investigações de dois jornalistas sobre o caso, décadas mais tarde. Essa foi sua maneira de abordar, ainda que obliquamente, a “busca por culpados” da qual a sociedade argentina tem se ocupado nos últimos anos?
Kohan –
Não pensei a questão criminal do romance em relação aos temas políticos dos últimos anos. Eu a pensei em outra direção: o contraste de um mundo refinado e contido, o da música clássica, com o mundo da violência popular transformada em espetáculo, que é o caso do boxe. No meio, um assassinato. Sobre qual lado recairão as suspeitas? Onde deve se encontrar o culpado?

ZH – Seu livro fala de música e boxe, duas formas de arte, uma dedicada à beleza e outra à violência. Misturar ambas no romance é uma indicação de o senhor vê um pouco de uma na outra?
Kohan –
Às vezes vejo essos mundos mesclados, contaminando-se, comunicando-se. Mas outras vezes eu os vejo em uma oposição inconcilável: o mundo da assim chamada alta cultura só percebe ferocidade na cultura popular, e o mundo popular só encontra exclusão e elitismo no mundo da alta cultura. Escrevi Segundos Fora a partir da premissa da incomunicabilidade, através desses dois personagens, Ledesma e Verani, tentando se entender e entrar em acordo. Mas que no fim falam sem se escutar ou se ouvem sem se entender.

ZH – Pela perspectiva do leitor, parece que o senhor se divertiu muito ao escrever os diálogos entre Ledesma e Verani, que chegam a ter autonomía dentro de la narrativa. Quando elaborou o plano do livro já tinha tal circunstância em mente ou os diálogos foram ganhando terreno na estrutura à medida que escrevia?
Kohan –
Eles faziam parte de um plano prévio, como quase tudo que escrevo. E isso pela questão de que falávamos antes: a hipótese de que diferentes culturas “diálogam” ou que os diferentes mundos culturais “conversam”. Determinei que uma parte do romance se converteria essa metáfora em uma cena literal: um diálogo verdadeiro, onde a sedução é verdadeira, a tensão é verdadeira, o mal-entendido é literalmente um mal-entendido.

ZH – O livro inclui uma descrição detalhada da queda de Jack Dempsey e salta entre vários pontos de vista: o do boxeador caído, o do fotógrafo e do juiz que testemunham a queda. Também há uma detalha reconstrução da vida de Mahler e sua amizade com Richard Strauss. Qual o retalho foi o mais difícil de agregar a essa cortina?
Kohan –
Cada parte teve para mim sua dificuldade e seus atrativos. E associo dificuldade com atrativo, diria até que os uno. Porque me interessa a literatura que apresenta desafios ao leitor.

A enganosa simplicidade de Dalton Trevisan

21 de maio de 2012 1

O Prêmio Camões de Literatura é concedido anualmente desde 1989 a um escritor considerado luminar da literatura em português – seja português, brasileiro, angolano, moçambicano, cabo-verdiano… Já foi concedido ao longo desses mais de 20 anos a nomes como José Saramago, João Cabral de Melo Neto, Rubem Fonseca, Lobo Antunes, Ferreira Gullar, Eduardo Lourenço. A 24ª edição do Prêmio, em 2012, foi anunciada hoje para o mestre contista paranaense Dalton Trevisan (leia mais aqui), que vai receber pela distinção a bolada de 100 mil euros. O presidente do júri, o brasileiro Silviano Santiago, disse que a comissão resolveu conceder o prêmio a Dalton Trevisan por unanimindade.

Imagino que você saiba quem é o Dalton Trevisan. Imagino que você deveria saber, ao menos, mas se não sabe, qualquer pretexto para visitar a obra do homem é válido. Há várias edições recentes de seus livros mais marcantes, tanto pela Record quanto pela L&PM, e ele de tempos em tempos despacha uma obra nova lá de seu recanto sombrio em Curitiba, de onde só sai para passeios discretos e onde não permite que sua intimidade seja devassada.

Como Dalton Trevisan tem um estilo particular que ele cultiva como uma obsessão, qualquer livro pode ser um bom ponto de entrada para seu universo artístico. Por isso, aproveitando a concessão do prêmio, vou republicar aqui uma resenha escrita pelo jornalista Leandro Sarmatz para o livro 234 em 1997. É uma oportunidade também de variar o estilo desse blogue de quase-um-só.

Mão torta, olho vesgo, coração danado
Texto de Leandro Sarmatz

Joãozinho mata Maria — uma corruíra de sangue cantando no jardim. Pega um porrete e bate bem forte. Depois bebe, o cachacinha. Bebe e toca viola. Maria estrebucha bonitinha, a poça vermelha indo parar no ralo. João olha pra baixo. Quase nem sinal de vida da coitada. Tava grávida. Sofria dos nervos. Morreu suspirando: “Ai, que surra bem gostosa!”.

O parágrafo acima é uma imitação fuleira das ministórias do curitibano Dalton Trevisan, que está lançando mais uma daquelas reuniões de contos e haicais crudelíssimos, o conciso 234 (que é o número de histórias no livro). A arte de Dalton Trevisan, com o passar dos anos cada vez mais osso, a cada livro mais seca, menos rebarbativa, parece estarrecedoramente simples. Igualmente fácil (e ilusório) parece pegar emprestado seus tiques – os diminutivos, o clima trágico de bolero paranaense, a violência conjugal. Engano. Como Tchékhov, como Beckett, como o Kafka de Contemplação, Dalton Trevisan ilude o leitor com a sua difícil facilidade.

E olha que neste 234 o homem até fornece umas pistas para a compreensão de sua obra. A poética enxuta vem em forma de haicai daltontrevisaniano (!): “O melhor conto você escreve com tua mão torta, teu olho vesgo, teu coração danado“. Então é isso, pensa reconfortado o leitor do Vampiro de Curitiba. Agora tá fácil de manjar: DêTê escreve como quem tá morrendo, com a precariedade do bilhete de suicida. Será? Não será? O certo é que 234 radicaliza a empresa iniciada em Ah, É? e Dinorá, os dois últimos livros de Dalton (ambos de 1994) – estão lá os amantes torturados, os velhotes safados, as menininhas vorazes. Mas estão lá também a crítica a moderna Curitiba (“Pode vir alguma coisa boa de Curitiba?”, pergunta) e a obsessão dos últimos livros: o tema da traição de Capitu em Dom Casmurro.

Algumas das histórias de 234 podem ser lidas em seqüência, como um quase interminável conto cruel desfiado a cada página. Um puzzle. Fragmentadas, lidas ao acaso, as histórias quase fornecem argumento para aqueles que acham Dalton Trevisan um artista da fome, tributário de uma estética mínimalista. Não é. Que culpa ele tem de ter conseguido chegar no essencial? Não o “essencial” de Rubem Fonseca, por exemplo, em que a violência descrita com minúcia acaba tomando uma feição barroca, graças aos inúmeros detalhes biológicos que aparecem. O essencial de Dalton é mais exato: a linguagem não enfeita nem o gol de placa que é a história de um verdadeiro Jó brasileiro, logo nos primeiros contos do livro. “O Senhor conhece um tipo azarado?”, começa o sofredor a relatar. Esqueça a piedade, o coitadismo nacional. Não há um pingo de tinta de impressão gasto em capitulação. É cruel, sim. Mas sem alarde.

234 também tem alguns poemas de DêTÊ. É drummondiano, o Drummond pornô, menor, de O Amor Natural. Tem ecos rilkeanos. Um exemplo: “Botão de rosa / ó pura contradição / volúpia de ser o beijo de ninguém / sob tantos lábios“. Dalton só parece cansativo quando se presta a deplorar o atual estado de coisas de sua Curitiba natal. Parece babar a própria bile, o que é incomum em se tratando de um autor que, à Flaubert, parece querer pairar absoluto e invisível sobre a obra. Nos contos ele consegue. Nas próximas obras, se continuar aparando as arestas de sua literatura, Dalton Trevisan vai escrever um livro de umas poucas palavras. Vai desconcertar meio mundo. Poucos, aliás pouquíssimos, conseguem ler um bilhete de suicida impunemente.

Um conto do livro 234:

Bebedeira e ruindade, João expulsa de casa a família. Ao chegar doidão do boteco, atropela mulher e filhos. Mata um por um se não fugirem. Sempre de faquinha na cinta. Vive em guerra, ninguém sabe por quê. Estavam na cozinha comendo pinhão. Mais o Tito, dia de quebrarem milho na roça. Ele entra de faquinha na mão. Veio matar toda a família. Correm para fora a mulher e as crianças. Ele encara feio o vizinho e ameaça dar um talho. O outro saca o facão: ‘Epa, diabo. Não me conhece’.”