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Bairrismo? Conta outra – Olavo Amaral

01 de junho de 2012 3

O escritor Olavo Amaral. Foto: Ney Amaral, Divulgação

Como prometi na semana passada, inauguro hoje nossa nova série do blog: Bairrismo? Conta Outra (o título era provisório, mas como não me ocorreu nada melhor durante a semana, acaba de se tornar definitivo). De 15 em 15 dias, vamos publicar aqui uma resenha de algum recente livro de contos de autor nascido ou radicado no Rio Grande do Sul.
Inauguramos a série com o volume Correnteza e Escombros, de Olavo Amaral (7letras, 140 páginas, 2012).

Acho que escolhemos um bom objeto de estreia, porque o grande problema de se falar tão detalhamente sobre livros de contos recentemente lançados é que os leitores, ou seja, a maioria de vocês aí do outro lado, provavelmente não terão lido o tal livro para matizar a minha leitura com suas próprias interpretações (lembrem-se de que esta série tem justamente o intuito de apresentar leituras de obras que podem ter sido alvo apenas de notas ou textos curtos por aí afora). Mas no caso de Correnteza e Escombros, o livro está disponível para leitura online.

Amaral estreou na literatura com a coletânea Estática, publicada pelo Instituto Estadual do Livro como parte de sua Coleção 2000. Médico de formação e nascido em Porto Alegre, hoje é radicado no Rio de Janeiro. Correnteza e Escombros foi lançado este ano em papel (sob o selo Creative Commons) e está na rede, na íntegra, para leitura online no endereço www.olavoamaral.com.br. A ideia do autor é que os leitores apareçam por lá, leiam o livro e façam comentários, postem imagens e vídeos que dialoguem com os nove contos da obra. Logo, quem quiser ler antes ou depois desta resenha, esse é o caminho.

Um último par de esclarecimentos antes de irmos adiante, logo abaixo:

1 - Vou tentar não entregar muito da trama, mas numa leitura atenta, as histórias, obviamente, serão comentadas para além do mero resumo. Quem achar que isto afetará seu prazer de leitura, leia o livro primeiro, já que, ao menos neste caso, há essa opção.

2 - Não vou ficar toda hora escrevendo “na minha opinião” ou “ao menos para mim, como leitor” neste texto. Esta é uma resenha assinada por mim, então é claro que qualquer opinião é minha _ salvo no caso de citações de terceiros.

Correnteza e Escombros, conto a conto:

A primeira coisa a se ressaltar é a maturidade técnica de Olavo Amaral. Correnteza e Escombros apresenta nove narrativas nas quais a prosa, segura e consistente, engendra situações perturbadas por elementos suprarreais _ algumas se enquadrariam no que se poderia chamar de “fantástico”, outras são apenas histórias que fogem do realismo sem fazer disso um projeto, e portanto qualificar o livro todo de “fantástico” seria um erro. Vamos nos deter brevemente conto a conto:

Antes dos contos nomeados no índice, o livro abre com uma vinheta de duas páginas em que se lê o relato de uma enchente a tomar a cidade, derramando-se e inundando de tal modo que o narrador (o conto é em primeira pessoa) e sua amada também nela se dissolvem, no fim. Primeiro ela. Depois ele, que se entrega à enchente como uma tentativa de encontrá-la. No tom seguro entre o lírico e o fantástico, o texto apresenta ecos de Mergulho I, conto de Caio Fernando Abreu incluído no livro Pedras de Calcutá – e que apresenta um mote semelhante. A dissolução do humano é um mote que voltará em outros contos.

Superfície
O conto abre com um súbito despertar de um personagem em meio a um ambiente que parece desconhecer:
Viu-se cercado de repente pelo terror do movimento. Não chegava a compreender ainda o que deixara do outro lado do vidro, mas olhar de volta para dentro do aquário trazia um misto de dor e nostalgia encharda de algo que ficava para trás.
O protagonista é exatamente isso: uma criatura de um aquário de exibição que certo dia se vê do lado de fora, tornado homem, observando o mundo silencioso e lento que deixou para trás inexplicavelmente. Sem muito traquejo, por instinto, vai incorporando a vida humana que lhe coube, mas sempre volta ao aquário com uma saudade funda do mundo que já habitou. O conto se passa em Paris, e é, ao revés, uma releitura de Axolotl, conto de Júlio Cortázar incluso na coletânea Final de Jogo, escrita quando o autor de O Jogo da Amarelinha vivia na capital francesa. Na história original, um homem se vê impelido todos os dias a ir ao mesmo aquário do Jardin des Plantes olhar os axolotl (uma espécie de salamandra mexicana, como na imagem abaixo)
Superfície é também é um conto belissimamente narrado, com uma prosa sólida e segura, mas o final, que deveria ser epifânico, parece diluir o impacto da atmosfera brilhantemente construída – talvez porque não deixa de ser uma reapresentação, ainda que muito competente, do clichê recorrente da arte como saída para a condição de “peixe fora d’água”, exatamente o inverso do que ocorria na história original. É um conto-homenagem que cresce ao se fazer uma leitura cruzada com a obra de Cortázar – e diminui bastante se encarado sozinho.
Uma curiosidade: o conto foi publicado na edição de 13 de fevereiro de 2010 no  Caderno Cultura da Zero Hora, e na época tinha outro título: Ltoloxa – a forma inversa de Axolotl, reforçando o conto de Amaral como espelho do de Cortázar. Também não sei por que motivo o autor o alterou, se pelo enigma estranho da palavra parecer pouco acessível ao público ou justamente por não querer vincular sua narrativa textualmente como um espelho do original – nada que eu não pudesse perguntar para ele por e-mail, também, mas aqui só registro o fato.

Trezentos e Um
Conto do gênero fantástico que aproveita um mote recorrente na literatura de horror, o do aposento que, aparentemente vazio, na verdade esconde uma armadilha à qual o protagonista é atraído. Um homem se hospeda em um hotel e é perturbado e intrigado pelos ruídos animais de um casal transando no quarto de cima, o “301″ do título. Já falei que Olavo Amaral narra muito bem, não? Aqui temos a comprovação desse fato, uma vez que as primeiras páginas criam uma tensão que o autor alimenta habilmente. Talvez seja justamente essa habilidade consciente a responsável pelo fato de que, apesar de bem urdido, é um conto que parece se estender além do necessário e perde força a meio do caminho por dilatar em demasia a situação original. Mas seu desfecho é impactante.
Foi um conto que me fez pensar, também, no quanto um livro de histórias avulsas depende diretamente de sua edição e ordenamento. Demorei a ser convencido pela proposta de Trezentos e Um porque ele começa de um modo tão semelhante ao conto anterior que soa repetitivo. Se em Superfície o protagonista se vê em tumulto em um ambiente estranho, em Trezentos e Um a primeira frase é “Acordou Cansado” – e a repetição de situações de “despertar” logo nos dois primeiros contos provoca uma impressão de narrativa formulaica que se revela injusta com o decorrer do livro, mas naquele momento foi inescapável.

Orinoco
Em um ano indeterminado do passado remoto das Américas, dois exploradores europeus naufragam na foz do Orinoco e são recebidos como deuses por uma tribo indígena local devido ao poder de fogo de suas armas (um conto recorrente dos primeiros contatos entre brancos e ameríndios). Aos poucos, um deles vai naufragando na loucura de assumir para si a divindade que os índios lhe atribuem. Também um conto longo, mas conduzido de modo mais seguro que o anterior. Ele ao mesmo tempo compartilha com o anterior Trezentos e Um um esqueleto básico: ambos narram, ao fim, a tragédia de um personagem que, mesmo contra a própria preservação, busca compreender uma situação que o aflige e o intriga – uma compreensão que só se oferecerá quando o protagonista for aniquilado como indivíduo e assimilado a uma força sobrenatural.

Precisamos seguir em frente
O tema do naufrágio retorna neste conto no qual dois náufragos, um homem e uma mulher, percorrem a costa ignota onde foram jogados com os destroços de seu barco. A história, contudo, não é o mais importante em uma narrativa na qual os dois personagens servem como signos metafóricos da condição humana. Estão ambos presos a um local ao qual chegaram sem que tivessem planejado por isso, ensaiam fugas inefetivas por meio de escaladas e caminhadas que os exaurem ou à entrega desesperada ao sexo como um intervalo fugaz dentro da necessidade constante de seguir adiante.

Voadores
Aqui o tom também é o de uma fábula metafórica, em uma das narrativas mais bem realizadas do livro. Duas cidades não nomeadas são localizadas em margens opostas de um desfiladeiro. Na cidade do narrador, os prédios são rente ao chão e os dias santos são comemorados em transes coletivos em cavernas que cortam a montanha que se ergue sobre o povado. Na margem oposta, a cidade dos “voadores” se ilumina e lança homens em balões aos céus para comemorar os mesmos dias santos. Um dia o narrador, um adolescente, encontra um bilhete no seu lado do abismo, enviado por alguém do outro lado, e ambos começam uma troca urgente de correspondências enviadas sobre o abismo. A relação de ambos e as vicissitudes impostas aos dois pela relação tumultuada de suas cidades espelha, em tom simbólico, as etapas da atração afetiva: fascínio, tentativa de contato e comunicação, decepção, animosidade levada pelas circunstâncias externas, violência, paz resignada e também decepcionante. Apesar do tom fabular, é na descrição profundamente humana dos sentimentos que o narrador vai descobrindo pelo estranho correspondente que reside o ponto forte do conto – e um dos momentos elevados do livro como um todo.

Dias do Plexo Solar
A temática da solidão e da perda é retomada neste tableau perturbador em que um homem rememora dias idílicos em que ele e a mulher amada viviam dias despreocupados em um galpão, dormindo, transando, nadando em curso d’água e se alimentando do leite dadivoso de uma vaca. Como nas histórias precedentes, a insanidade não tarda a se manifestar e transformar em escombros o fluir tranquilo da correnteza cotidiana (esse é um mote recorrente no livro, e essa unidade subjacente justifica plenamente o nome e o próprio projeto da obra). Devo, no entanto, confessar que as minhas próprias circunstâncias pessoais também interferem em minha apreciação da história. Li Dias do Plexo Solar em um momento particularmente tumultuado conciliando o fechamento de texto que precisava preparar para o jornal, e remei para chegar ao fim. A irrupção da insanidade do protagonista e seu gesto extremado ao fim da história não fizeram o menor sentido para mim, e tributo esse atropelo também às circunstâncias.

O Grande Teatro do Desejo
Se tive problemas para concluir o conto anterior, apesar de sua prosa de grande beleza, com este foi exatamente o contrário. Aponto esta narrativa como o grande conto do livro. Uma gema com elementos de ficção científica e narrativa erótica, mescla muito bem realizada de Philip K. Dick e Georges Bataille. Num futuro em que cidadãos pagam para realizar fantasias eróticas virtuais em células high tech no “Teatro do Desejo”, duas cápsulas apresentam um defeito que faz com que o homem e a mulher em seu interior vislumbrem a fantasia um do outro – um conto em que o tema da impossibilidade de comunhão com o objeto desejado ecoa O Erotismo, de Bataille (obra que, curiosamente, Daniel Galera também cita a sua maneira na cena inicial de seu Até o Dia em que o Cão Morreu). Há uma cena extraída diretamente de A História do Olho, do mesmo autor. O conto casa de modo orgânico e equilibrado o erótico de feição clássica com o mote da ficção científica, tem ritmo, sensualidade e humor. E imagens poderosas. Após terminar a leitura, fechei o livro para permanecer mais tempo com suas impressões reverberando em mim e só fui voltar às outras duas narrativas faltantes no dia seguinte.

Hidrocor
É um belo conto. A seu modo, menos ambicioso do que o anterior – e vem depois da melhor história do livro, então seu efeito acabou amenizado em minha leitura. Um jovem estende um mapa sobre a mesa da sala de jantar e vai traçando com hidrocor azul os seus caminhos habituais pela Cidade Baixa, bairro boêmio de Porto Alegre. À medida que o traço avança no mapa, também o protagonista avança pelas ruas do bairro até encontrar o risco em hidrocor vermelho representado por uma garota. É uma peça na qual o destaque é a capacidade de Olavo Amaral de realizar descrições de grande plasticidade e beleza – embora em alguns momentos do conto eu, que morei na Cidade Baixa por cinco anos e a frequentei regularmente por uma década, tenha me perdido em certos torneios do trajeto. Outro ponto incongruente é o momento em que, logo no início, o narrador abre o mapa de Porto Alegre sobre a mesa:
“Percorres os nomes dos bairros devagar, alinhando o centro da cidade ao da mesa.
Ora, Porto Alegre não tem o centro urbano localizado no centro do mapa – a cidade tem a conformação de um leque aberto, com o centro no vértice, e portanto vai ter mapa caindo da mesa, por um lado, e metade da mesa livre, pelo outro.

Arte
O último conto fecha um círculo com o primeiro, amarrando com firmeza e propriedade as narrativas do volume. Um artista plástico consagrado, cínico e misantropo, tenta disfarçar com divagações ácidas sobre o status quo do circuíto artístico o nervosismo que sente enquanto espera o anúncio, naquele dia, do resultado de um prêmio para o qual foi indicado. Ele acorda, bebe, cochila, espia os vizinhos pela janela, tudo isso enquanto critica outros artistas, a imprensa, a má formação dos jornalistas da área, equiparando coquetéis, instalações, bienais, os eventos e rituais da vidinha de circuito artístico a representações esvaziadas de sentido que acabam por substituir a arte verdadeira – uma noção de fundo que o final da história reitera. Um olhar algo ingênuo, redimido pela construção do personagem, um homem ao mesmo tempo aziago, decadente e vulnerável, retrato em tintas precisas. E a visão da arte como algo fora da vida artística complementa, a seu modo, o primeiro conto, no qual a arte é a solução para o desamparo do axolotl tornado homem – embora, para ser justo, este arranjo particular venha do conto original de Cortázar.
O início e o fim, um ecoando no outro, formam um conjunto superior a seus elementos individuais, coroando o livro como uma obra madura e interessante.

Ok, senhores, por hoje era isto. Teremos novo Bairrismo? Conta Outra, no dia 15 de junho.

Comentários (3)

  • marcel citro diz: 4 de junho de 2012

    Parabenizo o blog pela excelente iniciativa! Ganham os leitores com uma análise acurada do que vem sendo produzido no gênero aqui no RS, e ganham os autores uma resenha crítica, um verdadeiro Graal nestes tempos de achismos e cultura de almanaque. Dia 15 de junho estarei aqui de novo, para me inteirar dos novidades do conto

  • adriana Bandeira diz: 10 de junho de 2012

    Belíssimo texto!Faz com que eu mesma queira conhecer o livro, o bairro e a rua, esta outra que nos faz.O blog apresenta o estrangeiro da letra,e stq ue vive dentro de cada um.Paarbéns oa blog,ao livro e…escritores.Beijo grande

  • CLARICE MÜLLER diz: 10 de junho de 2012

    Como é bom ver uma obra sendo analisada com tanto apuro e respeito. Isso sim é que é crítica que desce redonda. Belo texto, Olavo. Belo texto, Carlos André. Com vocês, ganhamos todos.

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