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Retratos poéticos - Ana Guadalupe

02 de junho de 2012 0

Quem leu a página central do Caderno de Cultura de hoje encontrou um pequeno panorama de 10 jovens poetas contemporâneos cuja produção resolvemos apresentar ao leitor do jornal. São autores na casa dos 20 e dos 30 anos, que vêm publicando a partir do nosso jovem milênio e formam uma rede mais de contatos do que propriamente de colaborações ou influências. Entrevistei uma boa parte deles (alguns não conseguiram responder minhas perguntas em tempo hábil), e portanto divido com vocês as íntegras dessas breves entrevistas para que os leitores do blogue conheçam a nova mocidade (adoro usar esse termo desde que meu amigo Gabriel Brust me disse, há uns anos, que parecia uma palavra de velho) poética.

Começamos por Ana Guadalupe. Nascida em Londrina (PR) em 1985, hoje reside em São Paulo. Em 2011, teve publicado seu livro de estreia, Relógio de Pulso (7Letras). Mantém o blog Roxy Carmichael Nunca Voltou:

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem, ou essa é uma questão que não está presente em seu projeto artístico?
Ana Guadalupe –
Acho que sou principalmente uma leitora entusiasmada da poesia brasileira contemporânea. Embora eu não conheça da mesma maneira a poesia escrita hoje em outros países, acredito que escrevemos ótima poesia aqui. O que escrevo deve ser uma resposta a esse carinho pelo que leio. Tento escrever poemas que eu gostaria de ler, enquanto também tento, claro, buscar aquilo que chamam de “voz própria”. Acho que a tradição está nos ecos do que li como vasculhadora de sebos e bibliotecas na juventude, e também como estudante do curso de letras. Tem o Modernismo bem presente, mas também tem rima e certa preocupação com a métrica, por exemplo. também tem muito dos livros independentes/locais de poesia que sempre gostei de ler, aqueles com pouca validade, mas que sempre têm umas pérolas. e muito da poesia que veio depois do modernismo, os “marginais” etc.

ML – Com quem dentre os  poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma. E quem são seus interlocutores entre os atuais poetas?
Ana –
Acho que a minha poesia está próxima de muitos dos poetas em atividade. Existem muitas semelhanças visíveis (tanto no tema quanto na forma) com os poemas de autores que eu gosto de ler, como a Bruna Beber, Alice Sant’anna, Angélica Freitas, Paulo Scott, Rafael Mantovani, etc. etc.

ML – Você já publicou ou participou (e ainda participa) em revistas e jornais de poesia, além da própria internet. A reunião em grupos nessas publicações, mesmo que não haja um sentido estético comum ou uma única direção criadora como nas revistas das antigas vanguardas, continua sendo uma forma de um poeta encontrar ressonância para seu trabalho?
Ana –
Claro! E acho também que deve ser maravilhoso pro leitor que só conhece a poesia brasileira até o Drummond, digamos, como acontece muito, ter contato com uma dessas antologias de vários poetas atuais e descobrir vários de uma vez.  Pode ser uma surpresa ver que existem tantos, produzindo tanto, e com linguagens tão variadas.

ML – Sua poesia em Relógio de Pulso mescla referências de “universos” distintos, como o pop, alta literatura, dicções antiquadas, versos curtos e incisivos. Parece buscar também atingir o leitor emocionalmente. Você tenta um casamento entre a poesia mais cerebral e a comoção do leitor, comunicar-se com ele (algo que movimentos poéticos do século XX de certo modo recusariam)?
Ana –
Nunca tinham analisado minha poesia dessa forma, e gosto bastante, porque essa é mais ou menos a minha intenção, sim. Acho que tenho uma preocupação “cerebral” com vários aspectos do poema, especialmente o ritmo e a métrica, que talvez resultem numa “dicção” repetitiva. Também tento evitar sobras, tanto na forma quanto no conteúdo. Tenho tentado cada vez mais, depois do primeiro livro, chegar a uma unidade de tema mais rígida em cada poema, por exemplo. e o ritmo e a simetria continuam sendo preocupações constantes. No entanto, acho que dá pra unir essas tentativas de “exatidão” à inclinação de falar (bobagens, até) com o leitor. Gosto dessa mistura de complicação e simplicidade. eu, como leitora, consigo apreciar poesia engenhosa e também poesia divertida, comovente, coloquial; e não sou tão fã de poesia totalmente racional ou acadêmica. acho que dá pra colocar essas coisas juntas.

ML – Você se sente uma artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Ana –
Sim, muito, mas acho que também são bem-vindos programas, propostas, experiências e discussões sobre o papel do poeta neste momento, por exemplo.

Um poema de Ana Guadalupe:
Passé composé

subiu as escadas
para perguntar sobre as palavras
derrubadas pelo meu sotaque

afirmei que meu amor é
enorme, um móbile
perdido entre arandelas;

disse que meu amor é
firme, retorna com maçãs
e canela das pernas;

se perguntasse sobre a
fertilidade, os perni-
longos, a falta de sorte,

responderia que meu amor é
forte, chacoalha as árvores
sempre que parte.

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