Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Retratos poéticos - Ricardo Domeneck

03 de junho de 2012 2

Outro dos poetas com quem conversamos em nosso balanço da novíssima geração da poesia contemporânea é Ricardo Domeneck, 35 anos, paulista de Bebedouros e hoje residente em Berlim. Domeneck já publicou Carta aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005), A cadela sem Logos (Cosac Naify, 2007), Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify, 2009), Cigarros na Cama (Berinjela/Modo de Usar & Co., 2011) e Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Ricardo Domeneck -
Eu não acredito em “sombras” da tradição. Quando um poeta começa a trabalhar e formar-se, há uma série de poetas ditando os parâmetros de qualidade, ou, simplesmente por serem populares, aqueles com os quais começamos a aprender o que pode ser poesia. Acho difícil que um poeta de minha idade possa ter escapado de lições (seja do que quer fazer ou não quer fazer) de poetas como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes ou João Cabral de Melo Neto. Mas em algum momento, é claro, por afinidades que poderíamos chamar de espirituais, estéticas ou outro nome, alguns de nós tomamos certos poetas por mestres eleitos. O que talvez não passe de uma paixão especial por certos autores. Para mim, na Língua Portuguesa, tenho uma admiração gigantesca por autores como Murilo Mendes, Mario Cesariny e Hilda Hilst.

ML – A sua poesia, ao menos a que li, é marcada por um lirismo conciso que parece casar o pop e o elevado com muita clareza de enunciação e de prosódia. Aceitas, em teus poemas, uma dimensão comunicativa da obra? Teus versos tentam se comunicar com o universo interior do leitor?

Domeneck –
O que você diz talvez possa se aplicar a livros meus como Cigarros na cama (2011) e Ciclo do amante substituível (2012), como a alguns poemas de Carta aos anfíbios (2005), mas em um livro como Sons: Arranjo: Garganta (2009) eu pratiquei propositalmente uma espécie de curto-circuito comunicativo, buscando o que se poderia chamar de “efeito anti-paráfrase”. Uma expressão como “dimensão comunicativa” é muito complicada numa discussão sobre poesia. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein escreveu que “ainda que redigido na linguagem da comunicação, não é usado no jogo de linguagem da comunicação”. Minha crença, recorrendo aos termos de Jakobson, é de que a função poética da linguagem não oblitera necessariamente a função referencial. O clichê usado por muitos poetas sobre a poesia como “dizendo indizível” é um absurdo mistificado (em geral por pura auto-mistificação). Eu acredito que o campo do poeta é o dizível. O que não significa entregar-se ao fácil.

ML – Você se sente um artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Domeneck –
As vanguardas do século XX tampouco tinham um projeto político unificado. Eram plurais. No Brasil isso segue, em geral, a visão de Haroldo de Campos, de que as vanguardas eram primordialmente utópicas. As vanguardas germânicas, por exemplo, eram em minha opinião muito mais distópicas que utópicas, como é o caso do expressionismo e do dadaísmo. Eu acredito que todo projeto artístico tem implicações políticas, mesmo que não sejam apresentadas num manifesto Explícito..

ML – Com quem dentre os escritores/poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma, ou mesmo quem são teus interlocutores entre os atuais poetas?
Domeneck –
Meus interlocutores principais no Brasil são muitas vezes poetas com visões bastante diferentes das minhas. Às vezes, opostas. Sempre mantive um diálogo e debate com Érico Nogueira, e talvez não haja dois poetas mais diferentes entre si. Também mantenho um diálogo com Dirceu Villa, e tenho grande afinidade estética com Angélica Freitas e Marília Garcia. Mas este diálogo é tão intenso quanto o que tenho com certos poetas estrangeiros, como o argentino Ezequiel Zaidenwerg e o catalão Eduard Escoffet. Na Alemanha, onde moro, meus diálogos mais intensos são com Odile Kennel (poeta e também minha tradutora para o alemão) e com Johannes CS Frank, poeta e meu editor aqui em Berlim.

Um poema de Ricardo Domeneck
(De Cigarros na Cama)

Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.

Comentários (2)

  • Ma diz: 9 de junho de 2012

    Oi, eu queria saber se voce conhece algum site que eu possa comprar o livro, Cigarros Na Cama? Estou desejando ele na minha estante e desejo mais ainda ler ele. rs

Envie seu Comentário