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Feminino e agridoce

04 de junho de 2012 4

Se, como dizem – e até muitas mulheres o dizem –, o feminino é o gênero dos detalhes, faz sentido que o retrato que o cronista Joaquim Ferreira dos Santos faz dele nos textos breves de Minhas Amigas (Editora Objetiva, 207 páginas, R$ 39,90) seja fragmentário. O livro reúne uma centena de textos sobre mulheres contemporâneas e suas desventuras sentimentais e amorosas.

Todos os textos começam, como um refrão, com a frase “tenho uma amiga” – artifício que remete, voluntariamente ou não, ao recentemente lançado Uma Mulher, coletânea de contos breves do húngaro Péter Esterházy que também aborda inúmeras variações da identidade feminina e na qual todos os fragmentos se iniciam com “Há uma mulher”, seguido da variação entre “ela me ama” e “ela me odeia”. Também como na obra do húngaro, não fica claro no emaranhado de textos de Joaquim Ferreira dos Santos se ele está se referindo a uma centena de mulheres diferentes ou aborda a cada vez novos aspectos de um grupo menor de mulheres. As comparações entre ambas as obras, contudo, terminam por aí. Se o livro de Esterházy é um apanhado lírico, abismal, por vezes claustrofóbico de uma infinidade de situações conjugais, Joaquim Ferreira dos Santos não trai sua vocação de cronista e encharca seus pequenos retratos de leveza mesmo quando os pinta em tons agridoces.

Cronista de O Globo e autor de Em Busca do Borogodó Perdido e da biografia Leila Diniz: Uma Revolução na Praia, Ferreira é um colunista de imprensa declaradamente tributário do estilo manemolente e cheio de gingado da grande crônica carioca (tenham seus autores nascido no Rio ou não, como o recifense Nelson Rodrigues). É esse estilo entre o alegre e o compassivo que o autor usa para cem breves histórias de mulheres não nomeadas, indo do estereótipo mais recorrente (a ciumenta incurável que cheira as camisas do marido em busca de uma hipotética traição; a que perdoa traições recorrentes e ainda casa com o amado infiel) até ternuras sutis e insuspeitadas extraídas da voragem do mundo contemporâneo (a que topa qualquer swing mas tenta na verdade converter o companheiro à perversão extrema da monogamia que assiste à TV no sofá)

Ferreira dos Santos tem a manha de escrever um texto que se lê como se tivesse sido fácil escrevê-lo, e trata suas amigas, reais e imaginárias, com evidente carinho – não isento de um certo sexismo involuntário em algumas de suas caracterizações. Ao fim da leitura, contudo, alguns dos retratos permanecem não pelo que tragam de específico, mas porque, como um competente esboço, seus traços amplos deixam espaços em branco suficientes para que leitoras se identifiquem – e leitores as reconheçam na centúria de idiossincrasias apresentadas, compondo um painel afetuoso da mulher contemporânea.

Comentários (4)

  • Roberta Bertinni diz: 5 de junho de 2012

    Li seu post pois sou leitora, há vários anos, do JF dos Santos. Tanto de suas, quase sempre, saborosas crônicas nos jornais, como de seu livros, que ñ são, apenas, os que vc citou. Gosto de lê-lo. O homem tem verve e mais que tudo, naturalidade ao escrever. Ele escreve facilmente – com graça e estilo – e é lido com prazer e sempre e muito por seus inúmeros apreciadores. Não entendi sua ligação deste livro com o do Esterházy – tentou matar dois coelhos numa cajadada só ou tentou denegrir a originalidade do brasileiro? Detesto isto de “remeter’ como lembrar…Soa tão tacanho. Parece texto de jornalistazinho do interior falando de vinhos, de comidas, do aroma das flores…Se é que vc me entende! Mas, vc é vc e eu sou eu…O motivo deste meu comentário é alertá-lo sobre a grafia de “malemolente” – termo bem carioca, parece até onomatopéia. Vc escreveu manemolente…Vc ñ tem gingado nenhum, mesmo! Um carioca diria que vc é um mané. Daí…

  • Roberta Bertinni diz: 5 de junho de 2012

    VC já reparou que vc está se tornando um títere em minhas mãos? Eu toco, vc dança…Não me enfastie, por favor! Tente perceber meus intuitos velados, caso contrário vc tornar-se-á um fantoche esquecido num canto qualquer! E, para quem escreve tanto para ñ ser lido por ninguém, eu deveria ser considerada uma amiguinha dileta!

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