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Alegorias marcianas

08 de junho de 2012 0

Imagem da adaptação em HQ de "Crônicas Marcianas', de Dennis Calero

E morreu, no dia 5 de junho, Ray Bradbury.

Mesmo que não fosse o autor do clássico distópico Farenheit 451, ainda que não tivesse escrito centenas de obras entre contos, romances e roteiros, Bradbury mereceria, mesmo assim, um lugar de honra no panteão dos grandes escritores universais por ser o criador de um dos livros fundamentais da ficção científica: As Crônicas Marcianas.

Diferentemente de tantos autores que falam do futuro enfatizando e detalhando os aspectos tecnológicos dos universos que imaginam, Bradbury, já devidamente alcunhado “o poeta da ficção científica” preferia escrever sobre os aspectos humanos da exploração do espaço.

Em As Crônicas Marcianas, livro escrito entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1950, o autor transpõe para um futuro então quase distante (o começo do século 21) algumas das questões mais importantes do seu próprio tempo: a Guerra Fria, o racismo, o imperialismo, a industrialização e os problemas ecológicos.

No livro, uma série de contos e microcontos interrelacionados, a colonização de Marte pelos terráqueos é apresentada em linguagem singela e poética. É quase infantil o quadro pintado por Bradbury, que mostra foguetes enormes partindo para o espaço carregados de tábuas e pregos para construir as primeiras cidades na nova colônia ou levando padres para catequizar os marcianos nativos.

As histórias apresentadas nas crônicas são histórias sobre pessoas. Pessoas como os primeiros viajantes que chegam ao planeta vermelho e deparam com os últimos estertores de uma civilização milenar decadente, que ajudam, quase sem querer, a extinguir.

Pessoas como o astronauta Spender, que se revolta contra os próprios colegas de expedição humanos ao vislumbrar o contraste entre a sabedoria ancestral da cultura marciana e os modos rudes e grotescos da sua própria tripulação.

Pessoas como Benjamin Driscoll, que, tal e qual o Johnny Appleseed do folclore americano, assume a missão de partir pelas planícies inóspitas de Marte a plantar sementes e mais sementes de árvores.

Pessoas como Sam Parkhill, o feliz proprietário de uma barraca de cachorros-quentes destinada a fechar antes mesmo de ser inaugurada, já no período de declínio da colônia terráquea e da própria humanidade.

O futuro imaginado por Bradbury no livro, apesar de estar embebido em pessimismo, traz, lá no fundo, a visão otimista do autor a respeito do indivíduo: aquela ideia, presente em outras obras suas, de que é possível que a humanidade dê certo se começarmos tudo de novo, com um grupo de pessoas boas em um lugar ainda não contaminado pela maldade.

O recado dado na última história de As Crônicas Marcianas, o excelente conto O Piquenique de Um Milhão de Anos, revela a intenção do escritor de nos dizer que tudo que lemos até a página final é uma alegoria – e que os marcianos somos nós.

Descanse em paz, Ray.

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