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Os Ulisses de Joyce - Tradução e Reação

12 de junho de 2012 14

Como todo mundo a esta altura já sabe, Ulisses, a obra-prima do irlandês James Joyce, ganhou uma terceira tradução que, para mim muito surpreendentemente, está nas listas nacionais de mais vendidos – embora o Brasil seja campeão em tornar algumas coisas hype com um certo atraso. Como temos três traduções ainda em circulação de uma obra considerada para muitos ilegível (mais pro fim da semana farei um post desmistificando essa declaração, a propósito), achei que seria interessante comparar os inícios das três narrativas. A cena que Joyce descreve nesses primeiros parágrafos tornou-se uma das mais famosas da literatura e já estabelece desde o início um tom que percorrerá a obra como um refrão: humor, sátira, a junção do elevado e do profano. Malachi “Buck” Mulligan, beberrão folgado, sobe ao topo da Torre Martello, onde mora com Stephen Dedalus, e, usando a vasilha em que havia preparado sua espuma de barba faz uma imitação debochada da liturgia da missa católica ao entoar solene “Introibo ad Altare Dei” – que significa “Eu me aproximarei do altar de Deus”. Está aí a grande apresentação de Joyce para seu propósito ao longo do livro: pintar os elementos ligados à identidade da Irlanda (como o mar, a terra e o catolicismo) com um tom entre o galhofeiro, representado por Mulligan, e o solene, como o representado pelo depressivo e torturado Dedalus.

Vamos dar uma olhada primeiro na versão mais antiga à disposição, a do filólogo Antônio Houaiss, de 1966, tida como a mais rebuscada das três, pela riqueza vernacular de que o dicionarista Houaiss lança mão ao verter para o português as ousadias linguísticas do genial irlandês. A edição é da Civilização Brasileira – mas o meu exemplar, ao menos, é daqueles de capa azul baratinhos que resultaram de uma colaboração entre a Record e a Altaya nos anos 1990 para produzir uns livros clássicos com capa dura e papel bem leve e que eram inacreditavelmente baratos.

Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha. Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã. Elevou o vaso e entoou:
— Introibo ad altare Dei.
Parando, perscrutou a escura escada espiral e chamou asperamente:
— Suba Kinch. Suba, jesuíta execrável.
Prosseguiu solenemente e galgou a plataforma de tiro.
Encarando-os, abençoou, grave, três vezes a torre, o campo circunjacente e as montanhas no despertar. Então, percebendo Stephen Dedalus, inclinou-se para ele, traçando no ar rápidas cruzes, com grugulhos guturais e meneios de cabeça. Stephen Dedalus, enfarado e sonolento, apoiava os braços sobre o topo do corrimão e olhava friamente a meneante cara grugulhante que o bendizia, equina de comprimento, e a cabeleira clara não tosada, estriada e matizada como carvalho pálido.
Buck Mulligan mirou-se um instante sob o espelho e em seguida recobriu o vaso com vivacidade.
— Ao quartel! – disse peremptório.
Acrescentou, em tom predicante:
– Porque isto, ó bem-amados, é a autêntica Christina: corpo e alma, e sangue e chagas. Música lenta, por favor. Fechar os olhos, cavalheiros. Um instante. Uma pequena complicação com estes corpúsculos brancos. Silêncio, minha gente!
Escrutando de esguelha as alturas, emitiu um longo assobio grave de chamamento, deteve-se depois por instantes numa atenção extãtica, os brancos dentes iguais brilhando aqui e ali em pontos de ouro. Chrysostomos. Dois fortes silvos estrídulos responderam através da calma.
— Obrigado, meu velho — gritou animoso. — A coisa vai. Corte a corrente, sim?
Pulou da plataforma de tiro e olhou sério para o seu observador, arrepanhando pelas pernas as bandas soltas do roupão. A fornida cara sombreada e a soturna queixada oval lembravam um prelado, protector das artes, da Idade Média. Um sorriso divertido abrochou-lhe, calmo, aos lábios.
— A pilhéria que há nisso – disse jovial. – Esse seu nome absurdo, em grego antigo.

É uma versão na qual se nota uma unidade de tom entre as falas de Mulligan e a voz hierática do narrador muitos críticos naquela época e hoje apontam, inclusive, este como um dos equívocos que o pioneiro e desbravador Houaiss cometeu ao traduzir o texto: ignorar a diferença de tons e registros com que Joyce estruturou sua obra, não apenas formalmente como na própria sintaxe. Foi essa uma das coisas que a professora e tradutora Bernardina da Silveira Pinheiro pretendeu resgatar com sua tradução lançada em 2005, pela Objetiva. Ela mesma declarou que muito da prosa de Joyce preservava uma certa coloquialidade (principalmente nos diálogos e nos monólogos interiores dos personagens que deveria ser resgatada) que ela achava que deveria ficar clara na leitura. Até pela diferença com a de Houaiss, era uma versão bastante legível e menos exigente (ainda que Ulisses nunca vá deixar de ser exigente):

Majestoso, o gorducho Buck Muligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:
— Introibo ad altare Dei
Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:
— Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!
Solenemente, ele avançou para a plataforma de tiro. Olhou à volta e seriamente abençoou três vezes a torre, o terreno à volta e as montanhas que despertavam. Em seguida, avistando Stephen Dedalus, ele se inclinou em direção a ele e fez cruzes rápidas no ar, gorgolejando na garganta e sacudindo a cabeça.  Contrariado e sonolento, Stephen Dedalus apoiou os braços no último degrau da escada e olhou friamente para o rosto sacolejante e gorgolejante que o abençoava, para a cabeça eqüina e os cabelos claros sem tonsura, tingidos e matizados como carvalho descorado.
Buck Mulligan espreitou por um instante por baixo do espelho e depois cobriu o vaso rapidamente.
— De volta pro quartel! – disse implacavelmente.
E acrescentou, em tom sacerdotal:
— Pois isto, meus bem-amados, é a verdadeira cristina: corpo e alma e sangue e feridas. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, senhores. Um momento. Um pequeno problema com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todos!
Ele olhou de soslaio para cima e soltou um longo e lento assobio de chamada, depois fez por um momento uma pausa em atenção enlevada, com seus dentes iguais e brancos brilhando aqui e ali pontilhados de ouro. Chrisóstomo. Dois fortes assobios estridentes responderam através da calma.
— Obrigado, meu velho – gritou vivamente. — Isto é o bastante. Desligue a corrente, está bem?
Saltou fora da plataforma de tiro e olhou seriamente para o seu observador, juntando em volta das pernas as dobras soltas de seu penhoar. A cara rechonchuda e sombria e a queixada oval e taciturna lembravam um prelado, patrono das artes na idade média. Um sorriso agradável desabrochou em seus lábios.
– A ironia das coisas! – disse ele alegremente. – Seu nome absurdo, um grego antigo!

Pôr essas duas versões lado a lado é elucidativo de como duas traduções às vezes podem variar completamente os detalhes de uma cena ao ponto de duas versões de um gesto descrito no original não parecerem a mesma ação. No fragmento da tradução de Houaiss, Dedalus sobe ao topo da torre seguindo o espalhafatoso Mulligan, sonolento e de saco cheio do colega de moradia inconveniente (estamos apenas começando a descobrir o quanto, nesta cena). Ele apoia os braços “no topo do corrimão”. Já na versão de Bernardina, ele apoia os mesmos braços “no último degrau da escada” – ambas as ações são possíveis, mas não são a mesma coisa. Como a Torre Martello de Sandycove, em Dublin, onde a cena se passa, foi construída para ser um forte defensivo circular, não creio que as escadas por lá tenham corrimão, embora eu nunca tenha ido à tal da torre (que ainda existe e hoje é um museu) e só tenha encontrado fotos externas numa rápida pesquisa no Google. O original menciona que os braços de Stephen estão “on the top of staircase”, o que não ajuda muito, portanto, se algum dos gestis leitores que já esteve na torre em questão quiser dar uma esclarecida, agradeço.

Outro gesto que se torna diferente de acordo com a tradução é a olhada que Mulligan dá depois de sua encenação de bênção logo após Stephen surgir na escadaria. Em Houaiss ele “mira-se um instante sob o espelho” – o que para mim é segurar o espelho de mão em uma posição alçada e olhar-se. Já em Bernardina, ele espreita por baixo do espelho antes de cobrir o vaso de barbear – o que me parece mais condizente com o resto da cena. O espelho está sobre a vasilha e ele o ergue para espreitar por baixo, antes de cobrir a vasilha como se precisasse prender seja lá o que estivesse lá dentro. Outra encenação de brincadeira perfeitamente adequada ao temperamento bufão de Mulligan. Note também a sutil modificação da última frase do trecho. Mulligan mofa de Stephen por seu sobrenome, Dedalus. Houaiss traduz por “em grego antigo” — o que está correto, mas dista do original, no qual Joyce diz textualmente “an ancient Greek”. Dedalus não é apenas um nome “em grego antigo”, mas o DE um grego antigo, Dédalo, o pai de Ícaro, construtor mítico do labirinto (vai aqui mais uma piscadela de Joyce ao leitor, não apenas pelo mito de Odisseu ser grego como pelo fato de que o motivo da cidade como labirinto vai percorrer todo o livro).

Vamos olhar então a terceira versão, a de Caetano Galindo, que está saindo agora, 2012, pela Companhia das Letras:

Solene, o roliço Buck Muligan surgiu no alto da escada, portando uma vasilha de espuma em que cruzados repousavam espelho e navalha. Um roupão amarelo, com cíngulo solto, era delicadamente sustentado atrás dele pelo doce ar da manhã. Elevou a vasilha e entoou:
— Introibo ad altare Dei.
Detido, examinou o escuro recurvo da escada e invocou ríspido:
— Sobe, Kinch. Sobe, seu jesuíta medonho.
Altivo ele se adiantou e subiu na plataforma de tiro redonda. Olhou à volta e abençoou sério por três vezes a torre, o campo em torno e as montanhas que acordavam. Então, percebendo Stephen Dedalus, ele se inclinou em sua direção e fez cruzes rápidas no ar, arrulhando sua garganta e sacudindo a cabeça.  Stephen Dedalus, contrafeito e sonolento, apoiava os braços no alto da escadaria e olhava frio o arrulhante rosto balouçante que o abençoava, equino por seu comprimento, e o cabelo claro intonso, com matiz e textura de pálido carvalho.
Buck Mulligan espiou um instante sob o espelho e então cobriu rápido a vasilha.
— De volta à caserna, disse peremptoriamente.
Acrescentou, em tom sacerdotal:
— Pois isto, ó mui estimados, é a genuína Christina: corpo chagado, alma e sangue. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, cavalheiros. Um momento. Probleminha aqui com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todo mundo.
Ele olhou de canto ao alto e soltou um longo assobio baixo, um chamado, então suspendeu-se um instante em enlevada atenção, regulares dentes brancos brilhando cá e lá em pontos dourados. Chrysostomos. Dois assovios fortes e estridentes cruzaram a calmaria.
— Obrigado, meu camarada, ele gritou bruscamente. Está mais do que bom. Corte a corrente, por favor.
Saltou da plataforma e olhou sério seu vigia, recolhendo pelas pernas as pregas frouxas do roupão. O rosto roliço na sombra e a mandíbula oval melancólica evocavam um prelado, patrono das artes na Idade Média. Um sorriso agradável rompeu calado seus lábios.
– Brincadeira, ele disse, alegre. Esse teu nome absurdo, um grego antigo!

Galindo parece entender os gestos que havíamos mencionado na comparação entre as duas outras versões da maneira como Bernardina as compreendeu. Ele prefere o topo da escadaria, uma tradução literal, mas Mulligan espia por baixo do espelho. O nome também é o de “um grego antigo”. Galindo também elabora uma versão mais atenta a ressonâncias poéticas no texto. A primeira frase de sua tradução é mais curta em comparação com a Bernardina, tentando talvez emular a brevidade da sentença original de Joyce, e tem apenas duas vírgulas, ao contrário das quatro que truncavam a versão de Houaiss. Em vários momentos ele ordena as palavras de modo a conseguir repetições de sons, aliterações, rimas internas. Se ele não tem como preservar “mild morning air”, tasca um “cíngulo solto”. Sem o “long low whistle” do original, ele vai de “regulares dentes brancos brilhando”. Parece também uma versão que busca uma síntese entre as duas, não hesitando em usar alguns vocábulos raros (como o cíngulo em questão) ou em limar os travessões que separam as falas das indicações narrativas (algo que o original de fato não tem). Mas também consegue ser mais plástico e musical em uma descrição passível de entendimento com atenção.

Para termos de comparação, o original de Joyce:

Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed. A yellow dressing gown, ungirdled, was sustained gently-behind him by the mild morning air. He held the bowl aloft and intoned:
— Introibo ad altare Dei.
Halted, he peered down the dark winding stairs and called up coarsely:
— Come up, Kinch. Come up, you fearful jesuit.
Solemnly he came forward and mounted the round gunrest.
He faced about and blessed gravely thrice the tower, the surrounding country and the awaking mountains. Then, catching sight of Stephen Dedalus, he bent towards him and made rapid crosses in the air, gurgling in his throat and shaking his head. Stephen Dedalus, displeased and sleepy, leaned his arms on the top of the staircase and looked coldly at the shaking gurgling face that blessed him, equine in its length, and at the light untonsured hair, grained and hued like pale oak.
Buck Mulligan peeped an instant under the mirror and then covered the bowl smartly.
— Back to barracks, he said sternly.
He added in a preacher’s tone:
— For this, O dearly beloved, is the genuine Christine: body and soul and blood and ouns. Slow music, please. Shut your eyes, gents. One moment. A little trouble about those white corpuscles. Silence, all.
He peered sideways up and gave a long low whistle of call, then paused awhile in rapt attention, his even white teeth glistening here and there with gold points. Chrysostomos. Two strong shrill whistles answered through the calm.
— Thanks, old chap, he cried briskly. That will do nicely. Switch off the current, will you?
He skipped off the gunrest and looked gravely at his watcher, gathering about his legs the loose folds of his gown. The plump shadowed face and sullen oval jowl recalled a prelate, patron of arts in the middle ages. A pleasant smile broke quietly over his lips.
— The mockery of it, he said gaily. Your absurd name, an ancient Greek.

Comentários (14)

  • Celene Maria Brandão diz: 12 de junho de 2012

    A comparação sempre se extrai alguma diferença. Bom método.

  • Rogério Antônio Lorenzi diz: 12 de junho de 2012

    Só consegui entender o livro com a ajuda deste filme que ajuda a identificar muitos detalhes, incluindo o corrimão da escada.
    http://youtu.be/TOhPcy1lV7c
    A propósito, escolhi a tradução da Bernardina.

  • Jonathas diz: 13 de junho de 2012

    Tomo a liberdade de fazer um modesto, mas relevante jabá.

    Na edição abaixo da revista Scientia Traductionis, da UFSC, foram publicados artigos meus e de dois outros colegas, analisando as três traduções brasileiras do Ulysses. Os artigos são reformulações dos nosso relatórios de Iniciação Científica, realizada sob orientação do Caetano.

    A mim coube estudar a tradução da Bernardina, que achei a pior de todas.

    Gosto da edição do Houaiss, que conseguiu um resultado louvável, principalmente considerando as condições em que trabalhou: pouco tempo disponível, acesso reduzido à fortuna crítica joyciana etc.

    Mas minha preferência é pela tradução do Caetano, o primeiro dos três tradutores a levar em conta uma concepção efetivamente romanesca ao tocar o projeto. Além disso, o fato de que ele possuísse uma experiência prévia razoável como tradutor (que Houaiss e Pinheiro não tinham), além da tradução dele ter sido produzida no contexto de um estudo de maior fôlego sobre Joyce – uma tese de doutorado – são pontos que depõem bastante a favor da tradução do Caetano.

    Segue o link da revista, com os artigos: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/scientia/issue/view/1590

  • Maurício diz: 14 de junho de 2012

    Joyce é assim…Não é prazeroso lê-lo de cabo a rabo, mas lê-lo pode ser usado como prova de erudição e cultura. Traduzí-lo, então, um doutorado. Eu, que sou muito exigente com o que leio, li-o no original. “Traduttore, Traditore.” Vejam o caso do Caetano Galindo. Transmudou-se num gongórico e usou até de um cíngulo litúrgico ao invés de apenas seguir o mestre e dizer que o roupão estava aberto, flutuante ao ar matutino. Pedantismo? Leiam Joyce no original, na língua na qual foi escrito. E tentem lê-lo por diletantismo. Viu, como Ulysses é um clássico? Até aqui neste páramo embolorado causa rebuliço. Mas, a nova versão ñ venderá quase nada. Ulysses é um livro que se compra em sebos, para jamais ser lido totalmente. É mais usado como livro-desodorante por universitários feiosos, de cabelos ensebados, caipiras e completamente infelizes, que tentam parecer eruditos…

  • Roberta, ou Gabriel, ou Maurício diz: 14 de junho de 2012

    Eu incomodo vc, blogueiro bem nutrido? Não posso viver sem passar por aqui! Sem postar um comentário, mesmo com meus recalques indeléveis…Mas, exercer o poder que exerço sobre um vivente tão bem fornido de carnes e de cultura, regala-me! Eu toco, vc dança! Como um macaquinho de realejo das antigas pracinhas de cidadezinhas baldias. Um beijinho embuçado.

  • Marcelo Xavier diz: 15 de junho de 2012

    Maior surra literária que eu já tomei.

  • Gley Riviery diz: 17 de junho de 2012

    Achei o artigo comparativo de muito bom gosto, e apesar de ainda preferir a tradução de Houaiss (com todos os pesares, é a única que ainda me remete a uma certa sonoridade do original). Acho também que o caráter inventivo de Houaiss em sua tentativa é mais respeitoso à essência criativa do original do que uma mera conversão pasteurizada, como foi a de Bernardina, por exemplo (que se prende demais ao enredo, o que não é de forma alguma o aspecto mais importante de ‘Ulisses’). A opção de Houaiss pela erudição em tempo integral no texto também o poupou de algumas inconsistências de linguagem que eu sinto na nova tradução de Galindo, que quis buscar algumas estruturas semelhantes às de Joyce, mas resultou em trechos incômodos de ler (como o supracitado ‘cíngulo’).

    Eu caio no lugar-comum ao dizer que ‘Ulisses’ é impossível de se traduzir em um só livro; quem quiser entender melhor o conceito – se não puder ler o original – leia então as três traduções, pois cada uma focou em uma das camadas que fazem esta obra complexa tão importante para a literatura ocidental.

    No mais, parabéns novamente pelo texto. É a primeira vez que visito este blog, mas retornarei certamente.

    Em tempo: excelente resposta a Roberta/Gabriel/Maurício, que aparentemente se dá/dão importância demais. Eu posso afirmar categoricamente que ler ‘Ulisses’ é prazeroso, pois li-o inteiro em uma livraria (pois não podia comprá-lo à época, nos meus 19 anos), e ainda por cima sem conhecer nada da fama e da história que circundam a obra. Quando eu li, para mim era apenas um livro, mas que me conquistou desde a primeira frase. E continua como o meu favorito de todos os tempos.

  • Stone diz: 22 de abril de 2014

    Parabéns! Bela demontração sobre as dificuldades enfrentadas pelos tradutores na desafiadora tarefa de manter a fidedignidade com o texto original.

  • leandro diz: 16 de maio de 2014

    Só há uma tradução pra Ulisses:
    Houaiss.

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