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Letícia e sua Lolita

14 de junho de 2012 1

A autora Letícia Wierzchowski em sua casa. Foto: Fernando Gomes, ZH

Leticia Wierzchowski lançou esta semana o 19º livro de sua carreira – com Neptuno, que teve sessão de autógrafos na quinta-feira, na Livraria Cultura, são 13 títulos adultos e seis infantis. O romance apresenta uma história de amor de trágico desfecho, repleta de referências literárias que indicam os autores preferidos da escritora gaúcha enquanto leitora. Logo no começo da narrativa, informa-se que M., o protagonista, cometeu um assassinato – o jovem vai em busca de um advogado e faz a confissão. Dali em diante, a narrativa apresenta os protagonistas e a cidade que empresta seu nome ao título – uma praia pequena, familiar, pouco turística.

No centro de tudo, a paixão que M. sempre pela jovem June – Leticia a  aponta June como sua Lolita, fazendo alusão à mais famosa personagem do russo Vladimir Nabokov.

Seguindo a referência, confira, a seguir, trechos de Neptuno e de Humbert Humbert (o protagonista de Lolita)  descrevendo suas meninas:

E June tinha sardas, minúsculas sardas douradas que pareciam pó de ouro. A boca era carnuda, cor de romã, e escondia pequenos dentes brancos e afiados. Dentes que tinham deixado a sua marca no braço de M., o desenho oblongo e pontilhado, arroxeado e estranho como um hieroglifo desconhecido de alguma civilização há muito esquecida.
De resto, June era uma menina crescida demais. Tinha um corpo delgado, de onde brotavam promessas. Ela andava suave e cadenciadamente. E tinha aquelas pernas longas, perfeitamente lisas… Na fotografia que eu vi, a única que M. possuía, June era como um desses bichinhos silvestres e raros, e um brilho de ingênua teimosia ardia nas suas retinas azuis. Era como se ela soubesse; era como se ela soubesse e, mesmo assim, quisesse pagar para ver.

Neptuno

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado. Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins – os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam este emaranhado de espinhos.

Lolita

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » Os vencedores do Prêmio Açorianos 2012 diz: 11 de dezembro de 2012

    [...] LONGA Neptuno, de Leticia Wierzchowski [...]

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