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Turismo literário

27 de junho de 2012 3

Algumas excentricidades do mapa brasileiro inspiraram o escritor Fabrício Carpinejar a fazer um convite a colegas das letras: criar histórias de ficção ambientadas naquelas cidades de belos e misteriosos nomes. O resultado está em Bem-vindo: Histórias com as Cidades de Nomes mais Bonitos e Misteriosos do Brasil (Bertrand Brasil, 126 páginas, R$ 25). A coletânea reúne 10 autores e desbrava Saudades, Encruzilhada do Sul, Descalvado, Brejo da Madre de Deus, Milagres, Espera Feliz, Amparo, São José dos Ausentes, Brasília e Ouro Preto. Quem assina o prefácio é o jornalista Roberto Pompeu de Toledo – a partir de um texto dele, Carpinejar teve a ideia para o projeto. O poeta gaúcho pensou, então,no livro que gostaria de ler. Escalou seus contistas preferidos – Lygia Fagundes Telles e Sergio Faraco estão lá – e pediu que escolhessem os endereços para as suas tramas, não necessariamente relacionadas a seus Estados de origem.

Altair Martins e Cíntia Moscovich, no que o organizador classifica como um “bairrismo manso”, optaram por paragens da terra natal: ele ficou com Encruzilhada do Sul, ela selecionou São José dos Ausentes. Cíntia se pautou por dois temas indissociáveis da localidade serrana: a solidão, estampada no nome, e o frio, que a classifica regularmente entre as mais geladas do sul do país. A escritora concebeu para a cidade que jamais visitou o enredo de uma quase inexistente relação entre pai e filho.

– Pensei na solidão maior. O cara está numa solidão desgraçada. O único afeto disponível é o do cachorro – explica.

Paulista de Cravinhos, João Anzanello Carrascoza também se aventurou por um destino desconhecido: Saudades, no Oeste de Santa Catarina, serviu não apenas de cenário. O conto Passos descreve a plenitude e a fugacidade do reencontro de um casal. “Para não me acostumar a tanta ternura – que depois eu iria desejar sempre, e sofreria por não tê-la –, afastei-me”, registra o marido.

– O nome me desafiou a escrever algo que tivesse também a ver com a cidade.Estava dentro da perspectiva literária em que atuo, não fugi do meu trajeto: é o mundo das relações, o mundo familiar,das pessoas frente a frente – define Carrascoza.

Carpinejar consegue vislumbrar novos volumes com a mesma proposta. Trata-se de um livro, segundo ele, que nasce com fertilidade. Na prosa moderna,especialmente a partir do americano William Faulkner, a cidade passa a ser um componente fundamental da literatura de ficção. – É uma maneira de despertar a curiosidade do viajante. E todo leitor é um viajante.

Leia abaixo um trecho de cada conto publicado na antologia:

Encruzilhada do Sul – RS
Diante da igreja de Encruzilhada, Santa Bárbara, a padroeira, Irene olhou para o relógio mas não viu as horas. Ainda não entendia se viera até ali por Luciana ou se por ela própria. O medo e a curiosidade a empurravam, e, no fundo, precisava ser outra e estar onde estava por si mesma.
Unha e Carne, de Altair Martins

São José dos Ausentes – RS
O velho tinha aquele espanto com as coisas do céu. Com a ameaça de furacões e tormentas, com a possibilidade de geada ou neve, com a perspectiva de calor ou rajadas de vento. Dizia:
_ Vai chover.
Ou:
_ Vai fazer frio.
Ou:
_ A pressão atmosférica baixou.

São José dos Ausentes, de Cíntia Moscovich

Saudades – SC
Entramos, em silêncio, era tão bom estarmos juntos de novo, o toque de minha mão em seu ombro dizia, claramente, acima de qualquer gentileza, Esta é minha mulher e estou aqui por ela, e eu sabia que, deixando-me fechar a porta, quando então se sentaria no sofá para conversarmos um instante, ela, seguindo à frente, dizia, Este é o meu homem e ele voltou pra mim.
Passos, de João Anzanello Carrascoza

Milagres – BA
E, de repente, experimentou uma urgência em revolver sua história, abandonada nalgum recôndito escuro da oficina, em meio ao lixo acumulado atrás da bancada, na admirável bagunça daqueles intermináveis dias e noites, em que, sintonizando programas de música antiga no rádio, relembrava, calças curtas, suaves mãos afagando seus cabelos anelados, o silêncio dos pastos infindos, o latido do Peralta na mata… E depois… a solidão… a amargura…
Milagres, de Luiz Ruffato

Brasília – DF
– O futuro esta aqui – ele diz, enchendo o peito. – Um novo país está nascendo nesta cidade.
Eu balanço a cabeça, enquanto como o meu pão de queijo e bebo o meu café.
– Um país onde todos terão oportunidade, onde ninguém mais passará fome, ninguém mais precisará pedir esmola nas ruas. Um país de gente feliz, um país de paz e prosperidade. Um país, enfim, que é o país com que todos nós, os brasileiros, um dia sonhamos.
Eu balanço a cabeça.

Você Verá, de Luiz Vilela

Descalvado – SP
Morávamos agora em Descalvado depois da mudança com o piano no gemente carro de boi e o caminhão com a cachorrada e mais a Leocádia e a Maria. No fordeco que o meu pai ganhou numa rifa seguimos nós, o pai, tia Laura e minha mãe comigo no colo. O carcereiro guiando, o único que sabia guiar.
Que se Chama Solidão, de Lygia Fagundes Telles

Amparo – SP
A casa do França cheirava a medicamento, disso também me lembro. Ele e a irmã padeciam de uma forma severa de asma. Respiravam assobiando, usavam bombinhas, não podiam com nenhum tipo de poeira. No futebol, ele ia sempre parar no gol por falta de fôlego. Foi, é possível afirmar com grande chance de acerto, um adolescente atormentado e infeliz. Numa receita válida para todos nós, vivia dizendo que a saída era dar o fora da cidade o quanto antes.
Noites Antigas de Amparo (Mentiras da Memória), de Marçal Aquino

Espera Feliz – MG
Foi numa quinta-feira úmida de 1997 que Hélvia pegou o primeiro ônibus do dia e retornou à sua cidade natal para se matar.
Aos 39 anos, 21 vividos em diferentes lugares do país e do mundo, ela estava convicta de sua decisão de voltar para aquele município modesto, situado em pleno maciço da Serra de Caparaó, na Zona da Mata mineira, a quase mil metros acima do nível do mar.

Espera Feliz, de Maria Esther Maciel

Brejo da Madre de Deus – PE
Mesmo assim, Francisco engatinhava em torno da rede onde o morto sentara pela última vez. Ia e voltava, zanzando como abelha na colmeia. Reconhecia a semelhança entre o cheiro silvestre do mel e a carne exalando os primeiros odores da putrefação. Catava os papéis incompreensíveis que jamais leria, escritos num saber alheio à sua existência de empregado doméstico, e guardava-os com sofreguidão. Parecia um Noé salvando espécies do dilúvio: mamíferos, batráquios, aves e répteis.
Sob Fina Camada de Terra, de Ronaldo Correia de Brito

Ouro Preto – MG
Da cama com dossel onde dormia, eu olhava ao redor e tinha a visceral sensação de pertencer eu mesmo a remotas estações que, no entanto, remanesciam palpáveis, vivas, como se a qualquer momento uma das portas fosse abrir-se para dar passagem ao padre Rolim, ao jovem Maciel, a Toledo Piza, Silvério dos Reis ou o soturno Barbacena, patéticos personagens daquele drama mineiro.
Epifania na Cidade Sagrada, de Sergio Faraco

Comentários (3)

  • Mundo Livro » Arquivo » O que você está lendo, Cíntia Moscovich diz: 27 de junho de 2012

    [...] poderá ser lida em breve na coletânea Bem-Vindo, organizada por Fabrício Carpinejar, na qual autores escrevem contos inspirados nos nomes sonoros [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » O Que Você Está Lendo, João Anzanello Carrascoza? diz: 4 de julho de 2012

    [...] dos participantes da recém-lançada coletânea Bem-vindo – Histórias com as Cidades de Nomes mais Bonitos e Misteriosos do Brasil (Bertrand Brasil, 126 páginas, R$ 25), organizada por Fabrício Carpinejar, o paulista João [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Jornada (ao) interior diz: 4 de dezembro de 2012

    [...] viagens da série "Beleza Interior"? Carpinejar _ Houve uma convergência. A antologia Bem-Vindo (leia mais aqui), que reúne dez contistas abordando cidades de batismo poético, surgiu antes de Beleza Interior. [...]

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