Fruto distinto do mesmo ramo em que floresceu a história policial, o romance de espionagem foi, durante os turbulentos anos do século XX, um dos gêneros de literatura de massa mais caros ao gosto do público. É importante, aqui, não confundir literatura de espionagem e literatura com espiões. A primeira é resultado de uma época bastante específica, ganhou corpo depois da segunda década do século passado e teve seu ímpeto drasticamente arrefecido pelo fim do Império Soviético. A segunda é bastante recorrente no folhetim literário do século 18 em diante – basta lembrar da mortífera e sedutora Milady de Os Três Mosqueteiros, os infortúnios do Prisioneiro de Zenda (1894), ou o acurado estudo psicológico feito por Joseph Conrad em O Agente Secreto (1907).
A literatura que passaria ao imaginário popular, contudo, como "romance de espionagem" tem raízes fincadas no fim da I Guerra, momento em que impérios ruíram, novas forças se posicionaram no tabuleiro político internacional e o mundo assistiu á emergência da União Soviética – O Agente Britânico (1928), de W. Somerset Maugham (ele próprio um integrante do Serviço Secreto britânico durante a guerra), é um dos exemplares mais significativos dessa época de estabelecimento dos moldes do gênero.
Com a Guerra Fria sucedendo à II Guerra, a literatura de espionagem se consolidou como gênero, bebendo na paranoia nuclear e retratando os combates de bastidores do conflito ideológico entre comunistas e capitalistas. Dois outros ex-agentes de inteligência consolidaram os caminhos do gênero nessa época. O primeiro foi Graham Greene, com romances críticos à estrutura dos serviços de informações, como O Cerne da Questão (1948), O Terceiro Homem (1949) e Nosso Homem em Havana (1958). A face mais pop dessa literatura do período foi representada nas cínicas e aventurescas histórias do agente 007 escritas por Ian Fleming a partir de Cassino Royale (1953), narrativas nas quais a Grã-Bretanha ainda é uma força relevante no cenário internacional e não mero apêndice americano, como ocorria no mundo "real". Levado ao cinema, o James Bond de Fleming seria o herói definitivo da espionagem na Guerra Fria, com aventuras cada vez mais rocambolescas que terminariam por desenhar os clichês recorrentes do gênero: o agente charmoso e mulherengo que vive aventuras em terras exóticas e ambientes refinados, papa todas as mulheres e desvenda planos mirabolantes de dominação ou destruição mundial (a propósito, o escritor e editor Samir Machado de Machado vem realizando no seu blog uma "Maratona James Bond", com a publicação seriada de resenhas para cada um dos livros de Fleming. Clique aqui para ler).
John Le Carré surge, portanto, como uma resposta quase minimalista ao gigantismo e à megalomania de Bond. Antes mesmo do fim do conflito ideológico entre União Soviética e Estados Unidos, Le Carré já havia emergido como o grande renovador do gênero, com O Espião que Veio do Frio (1963) e O Espião que Sabia Demais (1974). Por incrível que pareça, dado o sucesso popular de suas tramas, um dos elementos de que Le Carré se vale para marcar sua diferença das tramas imaginativas das demais narrativas influenciadas por Bond é o tédio. Os espiões de Le Carré não vivem o cotidiano de glamour e aventura de 007, mas correm perigo em tediosas jornadas de espera, espreita e paciência.
Embora a central de inteligência britânica seja chamada nos romances de espionagem "clássicos" de Le Carré de "O Circo", a violência em seus livros não é circense nem pirotécnica – e sim irrompe a intervalos em histórias nas quais as intrigas e contradições nos gabinetes são tão decisivas quanto os tiroteios em campo. Seus personagens são funcionários públicos da máquina estatal de inteligência surgida com o fim da II Guerra, vitimados às vezes pelas balas do inimigo, às vezes pelas maquinações dos colegas de andar (particularmente o problemático 5º andar onde se reúne a cúpula do "circo"). Essa diferença fica clara também nas adaptações cinematográficas - o ótimo O Espião que Sabia Demais é um filme de arte europeu perto de qualquer um dos Bonds, mesmo os mais brutais exemplares estrelados por Daniel Craig.
Aliada à qualidade de Le Carré, um dos poucos autores de gênero que escrevem com sofisticação literária, é essa natureza da espionagem como serviço público, como um jogo complexo de conspirações nas quais os interesses maiores estão ocultos até mesmo dos peões em combate no tabuleiro, que fez a literatura de Le Carré se reinventar com mais sucesso do que a de um Fredrick Forsyth - cujo último que li, O Afegão, era constrangedor. Com a globalização do crime, Le Carré soube também globalizar suas tramas mantendo a complexidade – antecipou o papel do mundo árabe no concerto internacional com A Garota do Tambor (1982), e elevou as grandes corporações ao papel de ameaças em O Jardineiro Fiel (2001).
E agora sai no Brasil seu livro mais recente, Nosso Fiel Traidor (Tradução de Mauro Gama. Record, 350 páginas, R$ 39,90) no qual Le Carré parece fazer uma síntese possível do que o tempo fez com seus principais temas. Durante férias em Antígua, dois estudantes universitários britânicos são procurados por Dima, um russo que se declara especialista em lavagem de dinheiro e promete entregar todos os ligados ao esquema se os jovens conseguirem do governo britânico proteção para ele e para sua espalhafatosa família. Acionado, o serviço secreto britânico entra em ação - mas Dima quer a presença dos dois britânicos com quem teve o primeiro contato, o que leva os jovens até Paris para encontrar outra vez o misterioso personagem. Estão lá os diálogos, o suspense calcado mais numa iminente sensação de perigo do que em espetaculares cenas de ação, ligações com o crime organizado internacional, os russos como elemento de ameaça. Uma atualização muito interessante que John Le Carré faz de tudo o que veio trabalhando desde os anos 1960, provando que o grande cronista do mundo da espionagem ainda não perdeu a mão.






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