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Posts de junho 2012

Breve comunicado

29 de junho de 2012 0

Amigos do blog, por uma questão de força maior, fica para segunda-feira que vem o post com o terceiro texto da série Bairrismo? Conta Outra. E para evitar novos atrasos da mesma natureza, resolvi transferir a seção para as segundas-feiras em definitivo. Quem quiser ler os próximos, já sabe: segundas-feiras no ar.

Abraço.

Dançaram os dragões e os leitores

28 de junho de 2012 0

Antes de ir, um último comentário. Como vocês puderam ler hoje à tarde na rede (clique aqui), a editora Leya divulgou um comunicado informando que a edição nacional de A Dança dos Dragões, quinto capítulo da saga Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin (tornada best-seller mundial depois da veiculação das duas temporadas da série A Guerra dos Tronos, na HBO), saiu sem o 26º capítulo.

Sim, um capítulo inteiro simplesmente desapareceu da edição – a série, para quem ainda não leu nenhum dos volumes, é contada em capítulos breves centrados no ponto de vista de um personagem a cada vez. Imagino que o fato de eles não serem numerados ajudou na lambança. Cada segmento traz como título o personagem sob cujo ponto de vista a história está sendo contada (já escrevemos aqui mesmo no Mundo Livro uma resenha mais detalhada dos primeiros volumes da série. Se quiser ler, clique aqui). Imagino que quem tenha revisado o livro teria percebido a falta de um “26″ depois de um “25″, o que não ocorreu, uma vez que esse capítulo em particular se chama O Soprado pelo Vento (a partir do 4º volume Martin começou a expandir ainda mais os pontos de vista introduzindo dezenas de [mais] personagens novos, alguns identificados apenas por epítetos misteriosos).

Não é a primeira vez que um problema ocorre na edição brasileira da obra. Em 2010, o próprio tradutor português, Jorge Candeias, manifestou sua confusão (clique aqui) pelo fato de a editora ter simplesmente resolvido pegar sua tradução (feita para Portugal, lembremos) e dar uma maquiada às pressas nos termos mais lusitanos para lançar o mesmo material no Brasil sem consulta alguma ao tradutor, criando discrepâncias e estranhezas que eram bastante perceptíveis até por quem não tivesse conhecimento desse fato.

O caso agora parece ainda mais bizarro, uma vez que um capítulo inteiro de um livro (cuja estrutura se faz justamente da interligação de fragmentos breves oferecendo diversos pontos de vista de uma mesma linha narrativa) sumiu. Não se trata também dos mil ou 500 exemplares de uma novela de 120 páginas de um autor em começo de carreira, mas de um alentado romance de 860 páginas dando continuidade a uma série que está há meses nos topos das listas de  best-seller, vinha sendo anunciado em pré-venda por todas as redes online há quase dois meses e, portanto, deve ter saído com uma primeira edição considerável, coisa de dezenas de milhares de exemplares.

Não é à toa que a Leya está fazendo o primeiro “recall” de livros que eu me lembre no Brasil. As principais redes online já retiraram o produto de catálogo, informando que nova edição estará pronta a partir de 1º de agosto.

Quem não quis encarar o volume em inglês, esperando pela tradução, dançou (mas não com os dragões) e vai ter que esperar.

Barulhinho Bond

28 de junho de 2012 0

E já que falávamos em espionagem no post anterior, vai aqui mais um post, motivado desta vez por eu ter visto, no cinema, esta semana, o trailer de Operação Skyfall, a próxima aventura de 007 nos cinemas, com estreia marcada para o dia 2 de novembro (não deixa de ser significativo que um filme com um Bond que mata geral venha a público no Dia de Finados). Na aventura, James Bond terá outra vez o rosto de Daniel Craig. Mas acredite, o sujeito aí em cima é, provavelmente, o mais próximo que você poderia chegar do rosto de de Bond se ele realmente existisse.

Explico: aproveitando a estréia do filme Cassino Royale, em 2006, a editora Record lançou uma nova tradução do livro de mesmo nome que deu origem ao filme e à série literária de Ian Fleming. Algumas coisas precisaram ser adaptadas do livro para o filme (o cenário da Guerra Fria não existe mais, e portanto Le Chiffre deixa de ser um espião soviético e vira um banqueiro internacional de terroristas, revolucionários e traficantes) e pequenas situações descritas foram sutilmente adaptadas. O primeiro encontro entre Bond e seu futuro interesse romântico, Vesper Lynd (vivida no filme pela irreal Eva Green), por exemplo, não se dá no avião que leva Bond ao cenário do desafio, e sim em um restaurante, apadrinhado pelo agente britânico atuante em Montecarlo, Mathis (que também participa do filme, tendo importância decisiva na trama). Após uma primeira conversa bem menos tensa do que a que Vesper e 007 têm no filme, Bond se levanta e sai do restaurante, deixando para trás Mathis e Vesper. É nesse momento que o agente se vira para a garota e pergunta o que ela achou dele. Ela responde com o que mais se parece com uma descrição física de Bond até ali:

Ela não olhou diretamente para ele ao responder:
– Ele é muito bonito, parece um pouco com Hoagy Carmichael, mas tem alguma coisa fria e cruel.

Hoagy Carmichael
é o cidadão da foto acima, um pianista de jazz nascido em 1899 em Indiana, nos Estados Unidos, contemporâneo do mais conhecido (por quem, como eu, não é fã de jazz) Duke Ellington. Compositor de músicas que hoje são consideradas standards do repertório jazzístico, fez participações em cinema e alcançou o que se considera o ápice criativo depois de se mudar para Hollywood, na década de 1940. Ele morreu em 1981, na Califórnia, após um infarto e uma longa carreira que incluiu mais composições clássicas, canções para cinema e TV e até um papel dramático na série Laramie. E, como se vê na foto, o Bond cinematográfico que mais chega perto de se parecer com ele – e ainda assim não chega nada perto – é Sean Connery quando jovem.

Assista abaixo ao trailer de Operação Skyfall:

Os espiões que saíram dos livros

28 de junho de 2012 1

Gary Oldman na adaptação cinematográfica de "O Espião que Sabia Demais"

Fruto distinto do mesmo ramo em que floresceu a história policial, o romance de espionagem foi, durante os turbulentos anos do século XX, um dos gêneros de literatura de massa mais caros ao gosto do público. É importante, aqui, não confundir literatura de espionagem e literatura com espiões. A primeira é resultado de uma época bastante específica, ganhou corpo depois da segunda década do século passado e teve seu ímpeto drasticamente arrefecido pelo fim do Império Soviético. A segunda é bastante recorrente no folhetim literário do século 18 em diante – basta lembrar da mortífera e sedutora Milady de Os Três Mosqueteiros, os infortúnios do Prisioneiro de Zenda (1894), ou o acurado estudo psicológico feito por Joseph Conrad em O Agente Secreto (1907).

A literatura que passaria ao imaginário popular, contudo, como “romance de espionagem” tem raízes fincadas no fim da I Guerra, momento em que impérios ruíram, novas forças se posicionaram no tabuleiro político internacional e o mundo assistiu á emergência da União Soviética – O Agente Britânico (1928), de W. Somerset Maugham (ele próprio um integrante do Serviço Secreto britânico durante a guerra), é um dos exemplares mais significativos dessa época de estabelecimento dos moldes do gênero.

Com a Guerra Fria sucedendo à II Guerra, a literatura de espionagem se consolidou como gênero, bebendo na paranoia nuclear e retratando os combates de bastidores do conflito ideológico entre comunistas e capitalistas. Dois outros ex-agentes de inteligência consolidaram os caminhos do gênero nessa época. O primeiro foi Graham Greene, com romances críticos à estrutura dos serviços de informações, como O Cerne da Questão (1948), O Terceiro Homem (1949) e Nosso Homem em Havana (1958). A face mais pop dessa literatura do período foi representada nas cínicas e aventurescas histórias do agente 007 escritas por Ian Fleming a partir de Cassino Royale (1953), narrativas nas quais a Grã-Bretanha ainda é uma força relevante no cenário internacional e não mero apêndice americano, como ocorria no mundo “real”. Levado ao cinema, o James Bond de Fleming seria o herói definitivo da espionagem na Guerra Fria, com aventuras cada vez mais rocambolescas que terminariam por desenhar os clichês recorrentes do gênero: o agente charmoso e mulherengo que vive aventuras em terras exóticas e ambientes refinados, papa todas as mulheres e desvenda planos mirabolantes de dominação ou destruição mundial (a propósito, o escritor e editor Samir Machado de Machado vem realizando no seu blog uma “Maratona James Bond, com a publicação seriada de resenhas para cada um dos livros de Fleming. Clique aqui para ler).

John Le Carré surge, portanto, como uma resposta quase minimalista ao gigantismo e à megalomania de Bond. Antes mesmo do fim do conflito ideológico entre União Soviética e Estados Unidos, Le Carré já havia emergido como o grande renovador do gênero, com O Espião que Veio do Frio (1963) e O Espião que Sabia Demais (1974). Por incrível que pareça, dado o sucesso popular de suas tramas, um dos elementos de que Le Carré se vale para marcar sua diferença das tramas imaginativas das demais narrativas influenciadas por Bond é o tédio. Os espiões de Le Carré não vivem o cotidiano de glamour e aventura de 007, mas correm perigo em tediosas jornadas de espera, espreita e paciência.

Embora a central de inteligência britânica seja chamada nos romances de espionagem “clássicos” de Le Carré de “O Circo”, a violência em seus livros não é circense nem pirotécnica – e sim irrompe a intervalos em histórias nas quais as intrigas e contradições nos gabinetes são tão decisivas quanto os tiroteios em campo. Seus personagens são funcionários públicos da máquina estatal de inteligência surgida com o fim da II Guerra, vitimados às vezes pelas balas do inimigo, às vezes pelas maquinações dos colegas de andar (particularmente o problemático 5º andar onde se reúne a cúpula do “circo”). Essa diferença fica clara também nas adaptações cinematográficas – o ótimo O Espião que Sabia Demais é um filme de arte europeu perto de qualquer um dos Bonds, mesmo os mais brutais exemplares estrelados por Daniel Craig.

Aliada à qualidade de Le Carré, um dos poucos autores de gênero que escrevem com sofisticação literária, é essa natureza da espionagem como serviço público, como um jogo complexo de conspirações nas quais os interesses maiores estão ocultos até mesmo dos peões em combate no tabuleiro, que fez a literatura de Le Carré se reinventar com mais sucesso do que a de um Fredrick Forsyth – cujo último que li, O Afegão, era constrangedor. Com a globalização do crime, Le Carré soube também globalizar suas tramas mantendo a complexidade – antecipou o papel do mundo árabe no concerto internacional com A Garota do Tambor (1982), e elevou as grandes corporações ao papel de ameaças em O Jardineiro Fiel (2001).

E agora sai no Brasil seu livro mais recente, Nosso Fiel Traidor (Tradução de Mauro Gama. Record, 350 páginas, R$ 39,90) no qual Le Carré parece fazer uma síntese possível do que o tempo fez com seus principais temas. Durante férias em Antígua, dois estudantes universitários britânicos são procurados por Dima, um russo que se declara especialista em lavagem de dinheiro e promete entregar todos os ligados ao esquema se os jovens conseguirem do governo britânico proteção para ele e para sua espalhafatosa família. Acionado, o serviço secreto britânico entra em ação  – mas Dima quer a presença dos dois britânicos com quem teve o primeiro contato, o que leva os jovens até Paris para encontrar outra vez o misterioso personagem. Estão lá os diálogos, o suspense calcado mais numa iminente sensação de perigo do que em espetaculares cenas de ação, ligações com o crime organizado internacional, os russos como elemento de ameaça. Uma atualização muito interessante que John Le Carré faz de tudo o que veio trabalhando desde os anos 1960, provando que o grande cronista do mundo da espionagem ainda não perdeu a mão.

O que você está lendo, Cíntia Moscovich

27 de junho de 2012 0

Cíntia Moscovich. Foto: Arivaldo Chaves, ZH

O blog inaugura hoje nova seção semanal, perguntando a escritores, jornalistas, editores, professores e intelectuais o que eles andam lendo e o que recomendam. Para começar a série O Que Você Está Lendo?, resolvi procurar a minha amiga e ex-colega de Zero Hora Cíntia Moscovich. Porto-alegrense, autora de Anotações Durante o Incêndio (leia um texto e um conto do livro aqui), A Arquitetura do Arco-Iris, Por Que Sou Gorda, Mamãe?, entre outros.

Ela poderá ser lida em breve na coletânea Bem-Vindo, organizada por Fabrício Carpinejar, na qual autores escrevem contos inspirados nos nomes sonoros e evocativos de cidades brasileiras. Luiz Ruffato, Marçal Aquino e Altair Martins também estão no volume (leia mais aqui). Cíntia também foi anunciada esta semana como integrante da delegação de 20 escritores brasileiros convidados pela organização da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México,  para um painel com o tema Ler um país é conhecê-lo. Ela estará na Feira entre os dias 24 a 29 de novembro, ao lado de nomes como Milton Hatoum e Michel Laub.

O que você está lendo, Cíntia Moscovich?

Acabo de ler Enquanto Água, do Altair Martins, segundo livro dele editado pela Record. Com capa linda de Leonardo Iaccarino e imagens de Rodrigo Pecci, o livro reune 18 contos (que contos!), todos eles, conforme anuncia o título, com histórias que envolvem água. De fato, são contos fluídos, líquidos, bons de serem lidos.  Quem, como eu, vem há muitos anos acompanhando a trajetória do Altair, sabe que a linguagem é um dos pontos fortes do moço (mas não só). Nesse Enquanto Água, há uma espécie de, digamos, simplificação (embora jamais seja esse o termo), mas nunca usando o recurso a  facilitações ou concessões. Aqui, a  linguagem se submete bem mais ao enredo/história, embora o autor mantenha aqueles achados metafóricos e imagéticos que o caracterizam e que fazem o leitor tirar o chapéu. Recomendo a leitura, ainda mais nesses dias de frio e estiagem.



Turismo literário

27 de junho de 2012 3

Algumas excentricidades do mapa brasileiro inspiraram o escritor Fabrício Carpinejar a fazer um convite a colegas das letras: criar histórias de ficção ambientadas naquelas cidades de belos e misteriosos nomes. O resultado está em Bem-vindo: Histórias com as Cidades de Nomes mais Bonitos e Misteriosos do Brasil (Bertrand Brasil, 126 páginas, R$ 25). A coletânea reúne 10 autores e desbrava Saudades, Encruzilhada do Sul, Descalvado, Brejo da Madre de Deus, Milagres, Espera Feliz, Amparo, São José dos Ausentes, Brasília e Ouro Preto. Quem assina o prefácio é o jornalista Roberto Pompeu de Toledo – a partir de um texto dele, Carpinejar teve a ideia para o projeto. O poeta gaúcho pensou, então,no livro que gostaria de ler. Escalou seus contistas preferidos – Lygia Fagundes Telles e Sergio Faraco estão lá – e pediu que escolhessem os endereços para as suas tramas, não necessariamente relacionadas a seus Estados de origem.

Altair Martins e Cíntia Moscovich, no que o organizador classifica como um “bairrismo manso”, optaram por paragens da terra natal: ele ficou com Encruzilhada do Sul, ela selecionou São José dos Ausentes. Cíntia se pautou por dois temas indissociáveis da localidade serrana: a solidão, estampada no nome, e o frio, que a classifica regularmente entre as mais geladas do sul do país. A escritora concebeu para a cidade que jamais visitou o enredo de uma quase inexistente relação entre pai e filho.

– Pensei na solidão maior. O cara está numa solidão desgraçada. O único afeto disponível é o do cachorro – explica.

Paulista de Cravinhos, João Anzanello Carrascoza também se aventurou por um destino desconhecido: Saudades, no Oeste de Santa Catarina, serviu não apenas de cenário. O conto Passos descreve a plenitude e a fugacidade do reencontro de um casal. “Para não me acostumar a tanta ternura – que depois eu iria desejar sempre, e sofreria por não tê-la –, afastei-me”, registra o marido.

– O nome me desafiou a escrever algo que tivesse também a ver com a cidade.Estava dentro da perspectiva literária em que atuo, não fugi do meu trajeto: é o mundo das relações, o mundo familiar,das pessoas frente a frente – define Carrascoza.

Carpinejar consegue vislumbrar novos volumes com a mesma proposta. Trata-se de um livro, segundo ele, que nasce com fertilidade. Na prosa moderna,especialmente a partir do americano William Faulkner, a cidade passa a ser um componente fundamental da literatura de ficção. – É uma maneira de despertar a curiosidade do viajante. E todo leitor é um viajante.

Leia abaixo um trecho de cada conto publicado na antologia:

Encruzilhada do Sul – RS
Diante da igreja de Encruzilhada, Santa Bárbara, a padroeira, Irene olhou para o relógio mas não viu as horas. Ainda não entendia se viera até ali por Luciana ou se por ela própria. O medo e a curiosidade a empurravam, e, no fundo, precisava ser outra e estar onde estava por si mesma.
Unha e Carne, de Altair Martins

São José dos Ausentes – RS
O velho tinha aquele espanto com as coisas do céu. Com a ameaça de furacões e tormentas, com a possibilidade de geada ou neve, com a perspectiva de calor ou rajadas de vento. Dizia:
_ Vai chover.
Ou:
_ Vai fazer frio.
Ou:
_ A pressão atmosférica baixou.

São José dos Ausentes, de Cíntia Moscovich

Saudades – SC
Entramos, em silêncio, era tão bom estarmos juntos de novo, o toque de minha mão em seu ombro dizia, claramente, acima de qualquer gentileza, Esta é minha mulher e estou aqui por ela, e eu sabia que, deixando-me fechar a porta, quando então se sentaria no sofá para conversarmos um instante, ela, seguindo à frente, dizia, Este é o meu homem e ele voltou pra mim.
Passos, de João Anzanello Carrascoza

Milagres – BA
E, de repente, experimentou uma urgência em revolver sua história, abandonada nalgum recôndito escuro da oficina, em meio ao lixo acumulado atrás da bancada, na admirável bagunça daqueles intermináveis dias e noites, em que, sintonizando programas de música antiga no rádio, relembrava, calças curtas, suaves mãos afagando seus cabelos anelados, o silêncio dos pastos infindos, o latido do Peralta na mata… E depois… a solidão… a amargura…
Milagres, de Luiz Ruffato

Brasília – DF
– O futuro esta aqui – ele diz, enchendo o peito. – Um novo país está nascendo nesta cidade.
Eu balanço a cabeça, enquanto como o meu pão de queijo e bebo o meu café.
– Um país onde todos terão oportunidade, onde ninguém mais passará fome, ninguém mais precisará pedir esmola nas ruas. Um país de gente feliz, um país de paz e prosperidade. Um país, enfim, que é o país com que todos nós, os brasileiros, um dia sonhamos.
Eu balanço a cabeça.

Você Verá, de Luiz Vilela

Descalvado – SP
Morávamos agora em Descalvado depois da mudança com o piano no gemente carro de boi e o caminhão com a cachorrada e mais a Leocádia e a Maria. No fordeco que o meu pai ganhou numa rifa seguimos nós, o pai, tia Laura e minha mãe comigo no colo. O carcereiro guiando, o único que sabia guiar.
Que se Chama Solidão, de Lygia Fagundes Telles

Amparo – SP
A casa do França cheirava a medicamento, disso também me lembro. Ele e a irmã padeciam de uma forma severa de asma. Respiravam assobiando, usavam bombinhas, não podiam com nenhum tipo de poeira. No futebol, ele ia sempre parar no gol por falta de fôlego. Foi, é possível afirmar com grande chance de acerto, um adolescente atormentado e infeliz. Numa receita válida para todos nós, vivia dizendo que a saída era dar o fora da cidade o quanto antes.
Noites Antigas de Amparo (Mentiras da Memória), de Marçal Aquino

Espera Feliz – MG
Foi numa quinta-feira úmida de 1997 que Hélvia pegou o primeiro ônibus do dia e retornou à sua cidade natal para se matar.
Aos 39 anos, 21 vividos em diferentes lugares do país e do mundo, ela estava convicta de sua decisão de voltar para aquele município modesto, situado em pleno maciço da Serra de Caparaó, na Zona da Mata mineira, a quase mil metros acima do nível do mar.

Espera Feliz, de Maria Esther Maciel

Brejo da Madre de Deus – PE
Mesmo assim, Francisco engatinhava em torno da rede onde o morto sentara pela última vez. Ia e voltava, zanzando como abelha na colmeia. Reconhecia a semelhança entre o cheiro silvestre do mel e a carne exalando os primeiros odores da putrefação. Catava os papéis incompreensíveis que jamais leria, escritos num saber alheio à sua existência de empregado doméstico, e guardava-os com sofreguidão. Parecia um Noé salvando espécies do dilúvio: mamíferos, batráquios, aves e répteis.
Sob Fina Camada de Terra, de Ronaldo Correia de Brito

Ouro Preto – MG
Da cama com dossel onde dormia, eu olhava ao redor e tinha a visceral sensação de pertencer eu mesmo a remotas estações que, no entanto, remanesciam palpáveis, vivas, como se a qualquer momento uma das portas fosse abrir-se para dar passagem ao padre Rolim, ao jovem Maciel, a Toledo Piza, Silvério dos Reis ou o soturno Barbacena, patéticos personagens daquele drama mineiro.
Epifania na Cidade Sagrada, de Sergio Faraco

Sadomasô romântico

26 de junho de 2012 0

A Intrínseca prepara para 1º de agosto o lançamento da versão em português de um dos sucessos mais impressionantes do mercado literário em todos os tempos. Cinquenta Tons de Cinza (480 páginas, R$ 39,90 a versão impressa e R$ 24,90 o e-book), primeiro romance da novata Erika Leonard, pseudônimo E.L. James, vendeu 10 milhões de exemplares em apenas seis semanas nos Estados Unidos. Por aqui, a editora dá a largada com tiragem inicial de 200 mil exemplares, algo raramente visto no mercado brasileiro.

Outros dois títulos compõem a trilogia: Cinquenta Tons Mais Escuros (512 páginas, R$ 39,90 e R$ 24,90, com lançamento em 15 de setembro) e Cinquenta Tons de Liberdade (544 páginas, R$ 39,90 e R$ 24,90, com lançamento previsto para 1º de novembro). Os direitos para a adaptação no cinema já foram adquiridos pela Focus Features, da Universal Pictures, por US$ 5 milhões.

Explica-se o furor em torno da novidade: a autora inglesa, que vive em Londres, apresenta a relação (fortemente erótica) entre Anastasia Steele, uma recatada moça de 22 anos, recém-saída da universidade, e Christian Grey, “bilionário charmoso, brilhante, atormentado, intimidante e enigmático” (uau!), segundo a descrição do release distribuído à imprensa. Consumida pelo desejo, Anastasia se submete às exigências sexuais impostas pelo amado, assinando um contrato que repassa a ele o controle completo de sua vida.

O primeiro volume já está em pré-venda nas principais livrarias do país. Pode-se encontrar também o texto original, em inglês. Mais informações no site www.cinquentatonsdecinza.com.br

O homem que viu o amanhã

25 de junho de 2012 0

O escritor Philip K. Dick

Texto de Luiz Domingues

Philip Kindred Dick não viu suas histórias serem levadas ao cinema. Nascido em Chicago, em 1928, o escritor morreu na Califórnia, vítima de ataque cardíaco, em março de 1982, três meses antes da estréia de Blade Runner. A coincidência acabou por impulsionar a venda das obras de Dick, que, em 1963, já ganhara o prêmio Hugo,um dos mais importantes da ficção científica, com O Homem do Castelo Alto, sobre um mundo onde os aliados haviam perdido a II Guerra.

Dick escreveu 36 romances e mais de cem contos. Entre as traduções para o português estão Loteria Solar (Ediouro), Minority Report (Record), O Homem Duplo (Rocco), Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Ubik, Vialis Valis (os três pela Aleph) e A Invasão Divina (Melhoramentos). O Caçador de Andróides (Andróides Sonham com Ovelhas Eletrônicas?), de 1963, foi publicado no Brasil 20 anos depois, pela Francisco Alves, e reeditado em 2007 pela Rocco. A coletânea de contos O Vingador do Futuro (E Nós Podemos Lembrar Você por Atacado) saiu em 1991, e mais tarde o mesmo conto foi republicado, com o título de Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável na coletânea Minority Report: a Nova Lei, desta vez batizada com o nome da adaptação para o cinema da vez.

No futuro imaginado por Dick, nada é o que parece ser. Seus personagens, repentinamente, vivem o impossível, têm o destino alterado e retorcido, perdem o controle e a compreensão da realidade. Debatem-se mais e mais, até encontrarem as fundações do que deve ser real. Mas que nem sempre é. Dick trabalha com uma frágil visão da realidade, a humanização das máquinas e visões polêmicas do futuro. Conflitos religiosos e sociais são freqüentes em seus livros, assim como invenções cibernéticas e seus efeitos sobre os homens. Sua obra é decididamente pessimista – parece não acreditar que um dia seremos capazes de usar com discernimento a tecnologia.

O escritor, que desconfiava das autoridades e simpatizava com a contracultura, tinha esquizofrenia paranoide e medo de lugares abertos. Casado cinco vezes, passou os anos 70 envolvido com drogas (como anfetaminas) e experiências religiosas: “Nós vivemos em uma sociedade na qual realidades falsas são manufaturadas pela mídia, pelos governos e pelas grandes corporações“, escreveu. Num mundo em que identidades e cartões de crédito são clonados por computadores e celulares, e-mails podem ser falsificados, câmeras nos vigiam e inovações tecnológicas nos impõem novos dilemas éticos e morais, as visões sombrias do futuro profetizadas por Philip K. Dick não parecem assim tão distorcidas.

A réplica dos androides

25 de junho de 2012 1

São significativas as diferenças de superfície e forma que separam O Caçador de Androides (Do Androids Dream of Electric Sheep?), o romance de Philip K. Dick, de O Caçador de Androides, o filme de Ridley Scott que está completando 30 anos hoje (a morte de Dick também ocorreu em 1982, no mês de março, antes de a obra estrear. Leia mais sobre ele no próximo post). No livro, que teve uma reedição no Brasil pela Rocco em 2007, com 256 páginas e tradução de Ryta Vinagre, a história se passa não em um futuro decadente, superpopuloso e coberto de neon, e sim um mundo sombrio assolado por uma permanente chuva de pó radiativo, resultado de guerras atômicas recentes.

O planeta Terra de K. Dick é uma espécie de gueto reservado aos pobres e aos perdedores, poucos são os que ainda vivem no planeta radioativo e com a fauna quase extinta – razão por que a posse de animais de verdade é um luxo caro, algo também mencionado no filme. Na edição original do livro, em 1968 (traduzida no Brasil pela Francisco Alves), a história se passava, textualmente, em 1992. Como 1992 chegou e se foi, as filhas de Dick, responsáveis pelo seu espólio, decidiram alterar o ano para 2021 (desta vez apenas no material paratextual, como orelha e contracapa) para que o livro não parecesse datado ou, pior, ultrapassado.

O número de fugitivos caçados por Rick Deckard também não é o mesmo. O caçador recebe a incumbência de recapturar seis de um grupo de oito androides – replicantes é um termo criado para o filme – fugitivos de Marte que já mataram um policial. No roteiro do filme, o número foi reduzido para cinco, um deles já neutralizado quando Deckard entra na história – e quando as câmeras começaram a rodar, pressões de orçamento limaram ainda mais um dos androides, ficando o número final em quatro: Roy (Rutger Hauer), Leon (Brion James), Pris (Darryl Hannah) e Zhora (Joanna Cassidy). Ainda assim, na edição original do filme, lançada há 30 anos, o letreiro inicial permanecia com a informação de que SEIS androides haviam fugido e que um havia sido destruído na chegada à Terra.

Os androides são escravizados em trabalhos que os humanos não poderiam realizar, como mineração em planetas de gravidade proibitiva para os terráqueos, e portanto a fuga não é injustificada, mas os humanoides do livro são mais frios, com menos “grandeza de alma”, digamos, do que os interpretados por Darryl Hannah, Sean Young e, principalmente, Rutger Hauer. São mais truculentos e, por não entenderem os processos que regem as emoções humanas, não são hábeis em imitá-las – essa diferença é responsável, também, por um dos elementos de aparência mais aleatória do filme: o teste que determina se uma pessoa é ou não replicante. Chamado de Voight-Kampff no livro (não me lembro se também no filme), o teste funciona com base em reações emocionais automáticas visíveis na dilatação da pupila. Certas perguntas do exame (tiradas literalmente do livro) são de tal sorte que provocariam horror em um humano, mas não em um androide.

Por isso, inclusive, as perguntas parecem tão exóticas fora do contexto construído por K. Dick em seu mundo ficcional: no futuro de O Caçador de Androides, o romance,  os animais quase desapareceram do planeta Terra, como já dissemos. Ao mesmo tempo, houve a ascensão do Mercerismo, uma nova religião que substituiu o cristianismo. Em vez de Cristo, no futuro de Dick as pessoas cultuam o sacrifício de William Mercer, martirizado por motivos não muito claros, apedrejado enquanto tentava subir uma colina. Em vez de “rezar”, os terráqueos conectam-se a uma “caixa de empatia”, um dispositivo de realidade virtual no qual o fiel vivencia em primeira pessoa o martírio de Mercer, sofrendo na carne as pedras jogadas contra o homem santo.

Como Mercer ama tudo o que é vivo, os animais, cada vez mais raros, tornaram-se sagrados. Ter um animal em casa é essencial para o mercerismo, mas a maioria deles não existe mais, logo, os mais pobres fazem o que podem com réplicas robóticas de animais de verdade. Animais vivos são símbolos de status. Um dos motivos que levam Deckard, no livro, a aceitar a contragosto a missão de eliminar os replicantes fugitivos é justamente o valor da recompensa, que ele pretende usar para realizar o desejo de sua mulher (sim, ele é casado no livro, voltaremos a isso) de ter uma ovelha de verdade (com a recompensa ele acaba comprando um bode).  Portanto, no universo do livro O Caçador de Androides, as perguntas reveladoras têm a ver com animais, e foram transplantadas para o filme: o questionário sobre se Leon ajudaria um cágado virado com o casco para baixo no deserto, a questão que Deckard formula a Rachael sobre a posse de uma carteira de couro de crocodilo legítimo. Isso nunca comprometeu o entendimento do filme, claro, é apenas uma amostra de o quanto o enredo do livro é mais complexo e cheio de camadas.

E sim, há Rachael (Sean Young), e a sua linha narrativa é mais ou menos a mesma do filme: ela trabalha na poderosa corporação Tyrell e ela é uma replicante. Mas o fato de ela não saber de sua condição de replicante é uma sacada que aumenta a dramaticidade do filme, mas não existe no livro. Rachael sabe o que é: uma androide feminina atraente anteriormente usada como escrava sexual – e enviada a Deckard com um propósito obscuro que está longe da atração que ela sente pelo detetive no filme. O Deckard do livro é um homem derrotado de meia idade, sem o glamour jovem do galã Harrison Ford. Se o filme se encerrava com um tom otimista (que, depois veio-se a saber, era imposição dos produtores, e não de Ridley Scott, cuja “versão autoral” interrompe a história uma cena antes), o livro é melancólico, triste e desencantado, investigando por que o avanço tecnológico do tempo descrito não ajuda os homens a desenvolverem a empatia que é justamente a mais humana das características (uma das androides no livro chega a dizer que considera a compaixão humana a característica mais misteriosa e interessante da espécie).

Em uma coisa, no entanto, tanto o filme quanto o livro se assemelham: no olhar original que lançam aos clichês da história de mistério. O personagem de Dick é um ex-policial e caçador de recompensas empenhado na busca de um grupo de fugitivos. Como outros detetives dos livros do autor, contudo, as investigações de Deckard não revelam uma verdade que restabelece a ordem, como nos policiais convencionais, e sim algo que expõe as entranhas de uma realidade torta ou manipulada. Dick permanece atual no mundo contemporâneo porque sua ficção é visionária e seu texto tem o dom de mergulhar o leitor na atmosfera peculiar de cada livro. E talvez porque, ao contrário de grandes humanistas da ficção científica como Júlio Verne ou Isaac Asimov, Dick era um distópico. Onde Verne via progresso, ele via decadência. Onde Asimov via humanidade, ele vê paranóia e uma progressiva desumanização dos indivíduos.

>>> No blog Cineclube ZH, Marcelo Perrone escreve sobre os 30 anos de Blade Runner, o filme que influenciou de modo definitivo o cinema de ficção científica

Prisioneiro desde o ventre

21 de junho de 2012 0

Shin nasceu dentro de um campo de prisioneiros políticos na Coreia do Norte, onde viveu por 23 anos sem saber o que havia para o lado de lá de uma cerca elétrica que sempre frustrou qualquer tentativa de fuga. Na falta de definição mais precisa, foi provavelmente um milagre o que permitiu que escapasse em janeiro de 2005. Até hoje, não se tem notícia de alguém que tenha alcançado proeza semelhante.

Impossível apontar os cinco, 10 ou 20 trechos mais impactantes do livro que resultou de suas conversas com o jornalista Blaine Harden, repórter americano com passagens pelo jornal The Washington Post e pela revista The Economist. Fuga do Campo 14: A Dramática Jornada de um Prisioneiro da Coreia do Norte Rumo à Liberdade no Ocidente (Intrínseca, 232 páginas, R$ 24,90) é impiedoso com o leitor. A leitura choca por ser um relato minucioso de uma rotina de trabalhos excruciantes, dor, frio e fome – suplícios que seguem sendo impostos a milhares de coreanos no país de regime ditatorial mais isolado do planeta.

Shin, que depois da fuga caminhou até a China, passou um tempo na Coreia do Sul e mais tarde se estabeleceu nos Estados Unidos, presenciou o enforcamento da mãe e teve de se alimentar, nos momentos mais “felizes” de sua infância e adolescência, com os ratos que conseguia capturar em casa, nos campos e até na latrina.

Fuga do Campo 14, apesar da restritíssima mobilidade de seu protagonista, oferece também um panorama histórico do país durante o período de cárcere de Shin e sua família, com quem o garoto mal conseguiu firmar laços de afeto. O autor relaciona o drama dos prisioneiros e também a barbárie vivida do lado de fora – a idolaria forçada à dinastia Kim, a fome que arrasou a população na década de 1990 e as consequências mais duradouras, como o retardo mental causado por desnutrição infantil que incapacita cerca de um quarto dos recrutas potenciais das forças armadas norte-coreanas.

Antever o final, que já se conhece – o enredo sórdido só virou livro porque alguém escapou para narrá-lo –, é quase reconfortante. Proporciona uma espécie de alívio saber que o sacrifício, que parecia eterno, chegou ao fim. Mas Shin é apenas uma das centenas de milhares de vítimas que sucumbiram em condições semelhantes, de acordo com estimativas, imprecisas, de governos de países ocidentais e organizações de defesa dos direitos humanos. Sabe-se, inclusive, a localização dessas imensas jaulas de trabalhos forçados. São facilmente localizadas com o auxílio de ferramentas como o Google Earth, que disponibiliza a qualquer usuário de internet imagens captadas via satélite. Resta saber como resolver esse drama de contornos arcaicos – ainda que esse tipo de violência não seja justificável em qualquer época – em pleno século 21.

Trechos

Sua lembrança mais antiga é a de uma execução.
Ele caminhava com a mãe rumo a uma plantação de trigo perto do rio Taedong, onde guardas tinham arrebanhado vários milhares de prisioneiros. Alvoroçado pela multidão, o menino rastejou entre pernas adultas até a fileira da frente, onde viu um homem ser amarrado a um poste de madeira.
Shin In Geun tinha quatro anos, criança demais para compreender o discurso pronunciado antes do fuzilamento. Em dúzias de execuções em anos futuros, ele ouviria um guarda supervisor dizer à multidão que havia sido oferecida, ao prisioneiro prestes a morrer, a ‘redenção’ por meio do trabalho árduo, porém ele rejeitara a generosidade do governo norte-coreano. Para impedir o prisioneiro de amaldiçoar o Estado que logo lhe tomaria a vida, guardas enchiam-lhe a boca de seixos, depois lhe cobriam a cabeça com um capuz.
Naquela primeira execução, Shin viu três guardas fazerem pontaria. Cada um atirou três vezes. As detonações de seus fuzis aterrorizaram o menino, que caiu de costas. Mas ele se levantou depressa, a tempo de ver ser derramado um corpo frouxo, ensanguentado, enrolado num cobertor e jogado numa carroça
.”

***

Em sua maioria, os detentos trabalham na agricultura, na extração de carvão, na confecção de uniformes militares ou na fabricação de cimento, subsistindo com uma dieta de fome de milho, repolho e sal. Perdem os dentes, as gengivas ficam pretas, os ossos se enfraquecem, e, quando chegam à casa dos 40 anos, ficam arqueados na altura da cintura. Como recebem um conjunto de roupas uma ou duas vezes por ano, em geral eles trabalham e dormem vestindo trapos imundos, levando a vida sem sabão, nem meias, luvas, roupas de baixo ou papel higiênico. Jornadas de trabalho de 12 a 15 horas são obrigatórias até que os prisioneiros morram, em geral de doenças relacionadas à desnutrição, antes de completar 50 anos.

***

Além de fazer trabalhos físicos mais pesados, os alunos da escola secundária passavam mais tempo encontrando defeitos em si mesmos e nos outros. Escreviam em cadernos de palha de milho, preparando-se para as sessões de autocensura que aconteciam sempre depois do jantar. Todas as noites, cerca de 10 estudantes tinham de confessar alguma coisa.
Shin tentava se encontrar com os colegas antes dessas sessões para combinar quem diria o quê. Inventavam pecados que poderiam satisfazer os professores sem provocar punições draconianas. Shin lembra-se de confessar que comera milho encontrado no chão e que tirara um cochilo quando não havia ninguém olhando. Se os estudantes apresentavam espontaneamente um número suficiente de transgressões, as punições costumavam se limitar a um tapa na cabeça e uma exortação a trabalhar com mais afinco.