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O cerne e a superfície

19 de julho de 2012 0

Ou: como leremos a seleção da Granta

Embora jornalistas e escritores trabalhem com o texto e a maioria, em ambos os casos, diga que escreve para ser lido, há uma circunstância que os distingue acima de qualquer outra: o quanto a ideia de um leitor interfere na forma final do texto. O texto de jornal é eminentemente informativo, seu valor intrínseco está não no arranjo das palavras (embora essa devesse também ser uma preocupação mais frequente da maioria dos jornalistas) e sim no significado, no teor da mensagem. O autor de um texto literário pode imaginar um leitor ideal multifacetado a quem seus textos seriam endereçados, e esse autor no fim pode ser ele mesmo, ou uma confraria de amigos com valores estéticos e pessoais semelhantes, ou o que ele imagina serão os melhores leitores do futuro, ou os mais parecidos com ele próprio. A existência dessa ideia de leitor, contudo, não determina necessariamente o texto final a não ser no caso de escritores declaradamente comerciais.

Em um jornal, a norma prevê o texto como um signo o mais possível transparente – é o que se está contando que vale, e para dar forma ao que se quer escrever, toma-se como parâmetro um vocabulário comum a uma ideia preconcebida de leitor “médio”. Se a palavra ou o conceito parecer complexo demais para esse “leitor comum”, deve ser trocado por outro que seja tão preciso quanto possível mas ao alcance desse vocabulário médio. Torneios de sintaxe e quaisquer outros elementos que possam a vir prejudicar a clareza da mensagem também são evitados – enquanto o escritor pode, mesmo tendo em mente seu “leitor/interlocutor”, deixar isso de lado em nome do que considera a justa forma. Acho que uma das melhores representações ficcionais que já li dessa dicotomia é um conto engraçadíssimo escrito por Reginaldo Pujol Filho e incluído em seu livro Quero Ser Reginaldo Pujol Filho. Em um texto que é ao mesmo tempo sátira e homenagem a Mia Couto, um repórter brasileiro é enviado a Moçambique, recebendo sua primeira grande chance como correspondente internacional. Ao chegar lá, se vê às voltas com o pesadelo do jornalista em viagem: o laptop que o jornal forneceu dá pau. Por intermediação do guia, consegue comprar um notebook de segunda mão que antes havia pertencido a um escritor famoso do país. A partir daí, os despachos e reportagens redigidos no computador e enviados para o Brasil são recebidos na exata forma caricatural da prosa de Mia Couto, deixando o editor do jornal insano de confusão e raiva:

“Não sei o que dá no meu idioma, parece que minha gramática está ficando toda suja, da cor dessa terra. Parece-me assim, pois escrevo-lhe como desde sempre, mas recebes desde nunca o imagissonhado por mim. Pergunto-me se a África rouba-me o ser, se há uma almândega, donde os espíritos daqui carimbam minhas palavras – ou seriam palaves? Na falta d’um telefone, gravei uma testemunhação no computador, a qual envio-te para escutares e perceberes o trespassado comigo.”

Cada coisa em seu lugar, portanto. Um texto do Mia Couto, por mais valor literário que tenha, não poderia ser usado para passar uma notícia pontual sobre uma guerra civil. Pode sim mergulhar no cerne das consequências e dos fantasmas da guerra, como em Terra Sonâmbula, mas não seria uma reportagem para informar ao leitor quando o conflito começou, quantos mortos, o que dizem as agências humanitárias internacionais, etc. Logo, é uma noção arraigada do leitor que pauta o que é escrito em um jornal – e por tabela em seus espaços correlatos, como este blogue. Alguns dirão que por vezes alguns dos textos aqui publicados se puxam em contrariar o que acabei de escrever, mas ainda é uma certa ideia de leitor que determina o perfil um pouco diverso desta página para o restante do jornal impresso. Este é um espaço de leituras e leitores, e portanto os textos podem se dar ao luxo de ser mais longos – se não parecem muitas vezes tão mais cuidados, isso advém de outra peculiaridade do jornalismo diário: a pressa, mas isso é outra história.

Pensei nisso ao começar e leitura, esta semana, da revista Granta que tantas polêmicas suscitou desde o anúncio de seus participantes, durante a Flip, no início deste mês. Minha ideia era fazer uma resenha conto a conto mais ou menos nos moldes em que venho fazendo a atrasada seção Bairrismo? conta outra. O problema é que, devido à polêmica provocada pela escalação dos escritores, fiquei pensando se não deveria publicar textos em etapas, a cada leitura de duas ou três histórias da coletânea, abrindo espaço para uma crítica mais detalhada ao que menos foi falado até agora na controvérsia sobre quem são os escolhidos: os textos. Seria possível fazer isso – criticar três histórias já lidas do volume, por exemplo. Até porque cada uma delas despertou associações e questões que talvez merecessem um texto próprio cada um. Jonathan Franzen já escreveu, em um texto sobre a ficção de Alice Munro incluído no seu mais recente livro, Como Ficar Sozinho, que há um problema inerente à crítica de um livro composto por histórias curtas:

Com histórias curtas o desafio aos resenhistas é ainda mais extremo. Há alguma história em toda a literatura mundial cujo apelo possa sobreviver à típica sinopse? (Um encontro casual em um calçadão em Yalta une um marido entediado e uma dama com um cachorrinho… A loteria anual de uma cidadezinha revela-se a serviço de um propósito surpreendente… Um dublinense de meia-idade reflete sobre a vida e o amor ao deixar uma festa)

Em tempo: essa tradução aí de cima é minha porque escrevo sem o exemplar recente da Companhia nas mãos. Para quem sabe inglês, o texto original, uma resenha escrita para o New York Times, pode ser lido aqui.

Logo, talvez o mais justo com uma coletânea de contos e fragmentos que se propõe a mapear os “melhores jovens escritores do Brasil” fosse analisar mais detidamente cada conto, em uma série de posts dedicados a três ou quatro deles de cada vez. Mas aí esbarro naquela indefinição quanto ao que um eventual leitor desta página estaria esperando. Com tudo o que já se falou sobre a Granta em toda parte, estariam meus cinco leitores dispostos a mais seis ou sete posts sobre os contos do livro? Manifestem-se, por favor, na caixa de comentários. Vocês vão me ajudar a decidir: escrevo um post só ou amplio a análise em mais de um? Agora é com você

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