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Encarando a Granta - parte 2

25 de julho de 2012 2

Ao digitar o post anterior destas críticas da Granta, cheguei a pensar que havia uma ordem na maneira como os editores resolveram distribuir os autores e que era óbvia o tempo todo: alternância entre homens e mulheres. Bom, também não é essa a intenção, como os quatro contos analisados neste bloco deixam claro – continuamos a apresentar as resenhas na ordem em que os contos aparecem no livro. Continua, ao menos para mim, o mistério da ordem dos autores: foi no sorteio, foi pela ordem da terceira vogal de cada nome, foi por cor clubística? Cartas para a redação. Vamos a mais quatro contos da Granta:

Tólia, de Ricardo Lísias
Em mais um texto da coletânea com um pé na metaficção, Lísias narra a história de um homem que, após uma década dedicado à literatura como profissão, desiste da escrita (mais uma forma de autoanálise do que vocação, ele reitera) e volta ao xadrez profissional, que praticou na adolescência, como uma tentativa de entender a si mesmo e diminuir a inadequação de seu ser ao mundo (ele não dorme direito e se irrita com qualquer barulho, até mesmo os produzidos pelo próprio corpo).  Numa viagem à Rússia para estudar xadrez diretamente na pátria oficial do jogo, o personagem se mete em uma confusão e termina fazendo contato com uma seita mística que postula o silêncio e a comunhão espiritual para a comunicação entre si e entre a própria natureza.  A metaficção, aí, não reside só no fato de o personagem ser um escritor, e sim de o personagem – que não tem nome – ter parte de sua biografia decalcada da vida do autor. Dois títulos de livros escritos pelo personagem citados na história, Cobertor de Estrelas e O Livro dos Mandarins, são os de livros do próprio Lísias.
Há um humor tortuoso na narrativa que por vezes se aproxima da gurizice, como se diz na minha terra: os integrantes da seita só comunicam entrando em transe meditativo para despertar o “olho interno” – vai ser o maldoso sou eu, também. Assim como em O Livro dos Mandarins e O Céu dos Suicidas, Lísias faz de uma viagem (ou de seu anseio) um pretexto para uma sátira: a obsessão do personagem e da seita por conseguir uma forma de comunicação que prescinda da palavra, se lida a sério, soa com a afetação que já apontei na primeira resenha: a de reclamar da inutilidade da literatura escrevendo literatura – literatura é a técnica a serviço de uma visão de mundo, e se a sua visão de mundo desdenha a técnica e a expressão, o mais honesto seria abolir completamente a expressão. Mas Lísias é um escritor que já antes se valeu da ironia como elemento de humor, e por isso prefiro ler o conto como uma bem urdida sátira justamente a essa visão. Em termos formais, não há tanta ousadia como nos fragmentários ou reiterativos romances anteriores, mas isso pode ser tributado à brevidade exigida do conto. Como uma obra extremamente cerebral, contudo, ela se não tenta seduzir leitor algum.

Apneia, de Daniel Galera
O texto de Galera na Granta é um trecho de seu romance a ser lançado em breve, Barba Ensopada de Sangue, mas mantém unidade quando lido sozinho – se fosse um conto resumido apenas naquilo que está no livro, não seria mal compreendido. É também um dos textos mais longos da coletânea. São vinte páginas, estruturadas durante a maior parte de sua extensão em diálogo e na narração de um personagem diretamente para o outro – há intervenções apenas pontuais de um narrador em terceira pessoa. Um pai e um filho, durante um dia escaldante em Porto Alegre, conversam longamente, todo o diálogo circundando a pergunta fundamental feita pelo filho ao chegar para visitar o pai: por que ele está com um revólver na mesinha que tem ao seu lado. Antes de finalmente responder essa pergunta, o pai desvia o assunto para a vida de outra pessoa, seu próprio pai, avô do outro personagem, assassinado em circunstâncias não bem explicadas em uma vila de pescadores em Garopaba. A relação do homem do revólver com seu pai e com seu filho é o eixo que estrutura o conto (outro olhar nesta coletânea sobre as relações familiares diretas).
Construir um texto composto em sua maior parte por diálogos é um desafio por mais de um motivo. Se um diálogo se estende além da conta, o leitor pode perder o fio da meada de quem está falando o quê, com prejuízos do entendimento ao final. Se o conto é um longo diálogo com poucas intervenções, pode dar a impressão de ser um roteiro audiovisual, não prosa. Escrever um longo diálogo significa que o escritor terá que dotar os dois personagens que estão falando de vozes autônomas, sob pena de a linguagem pasteurizar a única forma que um texto dialógico tem para dar individualidade aos falantes sem recorrer à narração em terceira pessoa: síntaxe e vocabulário. Galera se esmera mais no segundo: o vocabulário do homem do revólver é idiossincrático, coloquial mas não caricato, usa a conjugação do pronome na segunda pessoa com verbo na terceira (“Tu vai fazer”) sem que isso soe nem artificial nem afetado (ao menos para mim – quem não é do Rio Grande do Sul talvez ache esquisito. Aceito comentários). E o pai enrolador é também um grande contador de histórias, razão pela qual, mesmo quando a prosa desvia para longe do que parecia ser o assunto principal acompanhamos a narrativa voando, quase sem tropeços ou tédio (esse é outro problema de contos com diálogos: se o personagem for chato, tem-se a mesma dificuldade de prestar atenção no que ele está falando que se teria numa conversa real). Não é um texto irretocável, contudo. Depois de tanto falar sobre os perigos do diálogo na construção de uma história, constato surpreso que alguns tropeços de linguagem cometidos por Galera não estão na voz dos protagonistas, mas sim na parte em que o narrador em terceira pessoa assume o comando e dispara lugares-comuns e frases feitas como “tornou-se um sedentário convicto (p. 82) ou “Um cansaço imenso cai sobre seus ombros de repente” (p. 94).
Para além de qualquer questão formal, contudo, está-se diante de um texto comovente – o final, que atinge o leitor com emoção mas sem sentimentalismo, não deixa de reiterar aquele que vem sendo o “grande tema” da literatura de Galera: a vida e a identidade como uma construção do ser humano, resultado de escolhas cujas responsabilidades devem ser assumidas com estoicismo.

Valdir Peres, Juanito e Poloskei, de Antonio Prata
À semelhança de Lísias, Prata é conhecido por textos de humor – embora o tipo de humor praticado por ambos não possa ser mais diverso. Lísias é um satirista sarcástico, enquanto Prata opera no humor mais “convencional” de costumes e imprensa. Neste conto, entretanto, Prata não é o humorista de suas crônicas de jornal, e sim um contista no qual o humor ainda está presente, mas mesclado a uma certa melancolia que subjaz a uma peculiar história de amadurecimento. Em uma vizinhança suburbana no início dos anos 1980, um grupo de garotos da vizinhança testemunha a escalada de uma “disputa por status” entre dois garotos, Henrique e Rodrigo. Em uma comunidade na qual, como narra o autor no início do conto, “de início, todos na rua tinham o mesmo poder aquisitivo e os bens per capita resumiam-se a uma bicicleta, uma bola de futebol, uma caixa de Playmobils, peças para montar e outras quinquilharias”, o fato de  Rodrigo ganhar um carrinho de controle remoto perturba o equilíbrio. A cada presente de Rodrigo, Henrique ganha outro, algo melhor, até um deles enfrentar a inapelável derrota.
A prosa é segura, seu tom, se não se eleva, também não se compromete. Para além de qualquer ímpeto de saudosismo (o título faz referência a figurinhas fáceis do álbum da Copa de 1982, que em São Gabriel chamávamos de “buchas”, mas não sei se essa gíria é compreendida por todo mundo), um dos grandes destaques do texto é sua bem sacada relação entre o amadurecimento contemporâneo e a sociedade de consumo: nesta crônica de fim da infância suburbana, o que marca o ingresso no mundo adulto não é a construção de uma identidade primária, mas a descoberta, bem menos inocente, das diferenças de poder aquisitivo dos pais de cada um. E poderia ser diferente numa infância imersa na sociedade de consumo? Talvez fosse necessário apenas um olhar mais crítico a esse fenômeno, dado que o tom é memorialístico, e o narrador hoje teria condições de elaborar melhor questões que seu “eu” infantil não teria percebido, mas talvez aí o conto fosse outro, sem garantia de ser melhor do que já está.

O Jantar, de Julián Fuks
Mais uma história na qual o autor deliberadamente acena ao leitor com pontos de contato metaficcionais entre sua própria trajetória e o que está contando. Um brasileiro de nome Sebastián, filho de argentinos exilados (até aqui um personagem semelhante ao autor, até na rima na última sílaba do nome) visita em Buenos Aires uma tia de fumos aristocráticos e opiniões reacionárias, para o “jantar” que dá título ao livro. Terá que decidir se cede aos ditames da boa educação ou a suas convicções ideológicas no decorrer do diálogo com a tia, numa atmosfera de perigo incerto. É um mote interessante de condução irregular. Os primeiros parágrafos, que dão o tom do livro, são particularmente trucados por torções exóticas de sintaxe e lugares-comuns, como nos trechos abaixo:
Que aquilo a que chamamos terror também se irradia em tantas formas menores, pensa, tantos atos indistintos de aparência inócua, tantas circunstâncias sutis provocando discretos pavores
As pernas não fraquejam, ele tem os pés sólidos, as roupas sóbrias, apenas ressaltam sua corpulência, seu porte avantajado”. (p. 113 ambos os trechos).
A primeira frase já deixa claro que, no meio de uma cena de tensa domesticidade, Fuks pretende criar uma narrativa de horror – e em certas passagens, vencidas as dificuldades dos parágrafos iniciais, ele tem pleno sucesso. É crescente a tensão provocada pelo desconforto de Sebastián na imensa e antiquada casa da tia, durante o frugal ainda que requintado jantar. Uma atmosfera primeiro de incerteza e depois de pesadelo vai se alastrando paulatinamente, mas sua extensão talvez demasiada enfraquece o conjunto, que resulta muitas vezes disperso e truncado. Um detalhe final, contudo, escolhido para amplificar o horror, soa gratuito e  artificial, mais efeito do que resultado, porque não destoa da atmosfera construída para a narrativa – não há indícios pregressos que justifiquem o que ocorre, apenas a transferência, talvez, do pesadelo metafórico para o plano da realidade ficcional.

Leia também:

>>> Encarando a Granta, primeira parte


Comentários (2)

  • Mundo Livro » Arquivo » Encarando a Granta – parte 3 diz: 10 de agosto de 2012

    [...] >>> Encarando a Granta – parte 2 Início [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Algumas notas barbudas diz: 27 de dezembro de 2012

    [...] O título pensado anteriormente para esta narrativa, já li em algum lugar, acho que na própria Granta, era Apneia (foi esse o nome dado a um dos capítulos iniciais do romance, publicado na seleção [...]

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