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Pensador entre dois mundos

25 de julho de 2012 0

O poeta e filósofo Antonio Cicero. Foto: Divulgação, Civilização Brasileira

 

AS FLORES DA CIDADE

Há flores pelo caminho através
da cidade à cidade: naturais,
em canteiros e em árvores, talvez,
mas quase todas artificiais
nos cabelos dos bebês, em cachorros
mimados, em vitrines e revistas
femininas, em cartazes e
outdoors,
e – de novo naturais – em floristas,
camelôs na calçada e, sobretudo,
nas mãos do entregador de flores, cujo
olhar esverdeado sobre as rosas
é puro absinto e tudo nos deslembra,
lançando-nos dúvidas hiperbólicas
sobre o próprio destino a uma hora dessas.

Filósofo, poeta e compositor, Antonio Cicero vem a Porto Alegre na próxima sexta-feira para uma conferência às 17h30min, na Sala Álvaro Moreyra, do Centro Municipal de Cultura (Erico Verissimo, 307), como parte da programação do 7º Festival de Inverno, realizado ao longo desta semana.  Vai falar sobre letra e música na obra de Caeatano Veloso e Gilberto Gil. Além de Cícero, outros nomes grandes nomes estão realizando oficinas, cursos e palestras na área da literatura e das humanas. Lira Neto esteve na cidade ontem para falar sobre sua biografia de Getúlio Vargas. O argentino Martín Kohan, escritor e teórico da literatura, ministrará uma palestra sobre Cortázar. A programação completa pode ser vista no portal oficial do evento na internet: www.portoalegre.rs.gov.br/festinverno.
Cícero recentemente lançou Poesia e Filosofia (Civilização Brasileira), um ensaio que aborda as especifidades das duas formas de expressão. Também está lançando seu primeiro livro de poemas em uma década, Porventura (Record), de onde foi retirado o trecho que vocês leem acima. Ele concedeu a seguinte entrevista por e-mail:

Zero Hora – A obra de Caetano já foi algumas vezes analisada como um sopro de ímpeto anárquico ligado ao tempo presente, em contraposição a Chico Buarque, de trajetória mais ligada à tradição do samba e de trabalho de feição mais lírica e formalmente mais convencional. O senhor concorda com essa contraposição? E que espaço Gilberto Gil ocuparia nesse suposto eixo de força com Chico em um extremo e Caetano no outro?
Cicero
- Junto com Caetano, Gil esteve no olho do furacão do Tropicalismo. Ouça-se, por exemplo, Domingo no Parque ou Volks-Volkswagen Blue. E o Gil que conheceu a contracultura (ouçam-se O Sonho Acabou e Expresso 2222) também se encontrava muito distante de Chico Buarque. Isso não quer dizer que eles fossem antagônicos.A parceria de ambos, Cálice, mostra o oposto. Mas a trajetória de Gil sempre esteve muito mais próxima da de Caetano do que da de Chico.

Zero Hora – Muito se tem falado sobre uma suposta crise da forma da canção na música brasileira e, no entanto, Caetano, um dos autores que o senhor vai analisar em sua vinda a Porto Alegre, lançou dois discos recentes que o recolocam como um dos grandes persecutores da novidade no cenário musical brasileiro. A canção está em crise de fato ou o diagnóstico é apressado?
Cicero -
Não creio que esteja em crise. O que ocorre é apenas que o surgimento de manifestações musicais que não podem ser classificadas de canções – como as que derivam do rap – relativizam a importância da canção. Antes disso,a música popular era praticamente composta de canções. Agora, ela divide esses recursos com outras formas musicais.

Zero Hora – No livro Banalogias (2007), Francisco Bosco reflete que a diferença entre um poema e uma letra de música é que esta última teria “uma finalidade compartilhada: o objetivo da letra de música é pôr de pé a canção, letra e música são os fios com que se tece o corpo final da canção”. O corolário da afirmação é que a análise de uma sem a outra será sempre fraturada ou limitada. Como alguém que já trabalhou no processo de musicar sua própria poesia, o senhor compartilha esse entendimento?
Cicero –
Basicamente, sim. Há muito tempo afirmo que a letra de música é heterotélica, isto é, não tem sua finalidade em si própria, mas na canção de que faz parte, enquanto que o poema livresco é autotélico, isto é, tem sua finalidade em si próprio. Assim, não se pode dizer, como muitos diziam antigamente, que a letra boa é aquela que se sustenta sozinha, sem a música. Não: a letra boa é aquela que faz parte de uma boa canção. Por outro lado, é claro que há letras que podem ser lidas como poemas; e há poemas que viram letras de músicas, de modo que não se pode generalizar. É preciso considerar caso por caso.

Zero Hora – O imbricamento entre letra e música nas canções de Gil é de algum modo diverso daquele percebido nas músicas de Caetano?
Cicero
- Penso que ambos fazem perfeitamente aquilo que se propõem. Nesse ponto, não há superioridade nenhuma de um sobre o outro.

Zero Hora – Em uma entrevista com Caetano Veloso, Ana de Oliveira postula a participação de ambos na Tropicália nos seguintes termos: “Gil, a antena. Caetano, a liderança“. No caso de artistas com uma colaboração tão prolífica quanto os dois, é possível separar seus papéis dessa forma?
Cicero
- Eu diria que os dois foram antenas. Na verdade, não creio que, na música brasileira, jamais tenha havido antenas – receptoras ou transmissoras – mais eficazes que a de Caetano. Quanto à liderança de Caetano, ela sempre foi reconhecida pelo próprio Gil.

Zero Hora –  Caetano e Gil de algum modo influenciaram um jeito de fazer canção (e de escrever uma letra para ela) ainda em vigor? Ou a radical originalidade de seu trabalho não lançou bases para o que se poderia chamar uma”escola”?
Cicero
- Caetano fez de tudo, de modo que não há nenhum único jeito associado a ele. Já o estilo musical – em particular o violão – de Gil influenciou muita gente. Marina Lima, por exemplo, sempre reconheceu a importância musical do toque de Gil no seu trabalho.

Zero Hora – O senhor está lançando um livro no qual defende as especificidades de linguagem da poesia em relação à filosofia e vice-versa. Seria assim também com a canção, para retomar o verso irônico de Caetano “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível/ Filosofar em alemão”?
Cicero
- Ao dizer que só é possível filosofar em alemão, o verso de Caetano está de fato citando, de modo irônico, como você mesmo diz, uma ideia de Heidegger. Mas veja: uma ideia incrível é, literalmente, uma ideia em que não se pode acreditar. E é uma ideia em que não se pode crer porque é uma ideia indemonstrável. Mas uma ideia incrível é também uma ideia maravilhosa.Pois bem, se você tem uma ideia que, apesar de indemonstrável, é maravilhosa, então é melhor fazer com ela uma canção do que uma filosofia. E quem diz isso concorda com minha tese de que poesia e filosofia não devem ser confundidas.

Zero Hora – Quem conhecesse seu trabalho como poeta e como um pensador com formação em filosofia pensaria que o senhor concilia as duas formas em seu trabalho, mas é exatamente o inverso o que o senhor dá a entrever em seu livro Poesia e Filosofia. O senhor vê em si duas instâncias de atividade, o poeta e o filósofo, que não se mesclam quando atuam?
Cicero
- Sim. Costumo dizer que, em mim, o poeta vai embora quando o filósofo aparece; e que o poeta nem aparece quando é o filósofo que está presente.

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