Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Encarando a Granta - parte 3

30 de julho de 2012 2

Até o momento o que me deixou mais desconcertado com a edição número 9 da Granta não foi a lista de seus participantes, e sim a ordem em que foram dispostos no decorrer do livro. Já elaborei várias teorias e, quando acho que consegui decifrar a intenção dos editores, quebro a cara. Em determinado momento pensei que talvez a ordem fosse menino-menina, como já observei, mas estava errado – o segundo bloco de resenhas foi majoritariamente masculino.

Entre o último post e este, pensei ter chegado ao fim do mistério: os autores estariam dispostos em ordem cronológica, com Laub, o mais velho, no início, mas depois me lembrei que Luísa Geisler, a mais nova dos selecionados, estava lá no primeiro bloco de quatro textos que resenhei, então não, também não foi assim que os autores foram dispostos. Por temas é que não foi, também, senão Laub, Galera e Leandro Sarmatz, por exemplo, deveriam ter sido agrupados mais próximos uns dos outros. Continua o mistério. Vamos então a mais um bloco de quatro contos da coletânea:

Noites de Alface, de Vanessa Bárbara
Vanessa Bárbara apresenta um fragmento de romance – e portanto, a análise dos propósitos do texto, como já comentamos, fica comprometida. A não ser em casos flagrantes como o trecho do Cuenca, sob o qual já escrevemos aqui na primeira resenha, não há como imaginar o que pode ser aquele fragmento no conjunto geral. Mas há textos nesta coletânea que encerram episódios íntegros, muitas vezes com um gancho de suspense para o próximo capítulo que desperta a curiosidade pelo restante ou que possibilitam o entendimento autônomo da narrativa (o conto de Galera é um deles). O de Vanessa não é assim. Ela narra o cotidiano incolor e algo melancólico de Otto, homem que, ao ficar viúvo, perde com a morte da companheira também a âncora social com o mundo (“Otto não havia convivido com os vizinhos senão por intermédio de Ada e agora estava ilhado naquele mar de insânia coletiva.”). A grande força deste conto está na maneira delicada como faz dos ambientes e cenários elementos importantes na própria condução da narrativa, mas como esse procedimento é conseguido por acumulação – no caso, de descrições e flashes de detalhes – às veze fica-se com a impressão de que um “drible a menos” teria beneficiado o conjunto. É exemplar disso o parágrafo de abertura:
“Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.” (p.127)
Depois de uma competente descrição do ambiente, Vanessa parece achar que precisa de uma última frase para deixar claro ao leitor – caso ele não tenha entendido, é a impressão que me passa – quanta solidão aquelas paredes encerram. E, talvez apegada aos próprios achados, ela se vale não de uma, mas de duas frases: /”As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam./ /”Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.”/ São ambas frases bonitas e bem sacadas, mas juntas, na sequência da descrição que Vanessa havia apresentado, têm seu efeito potencializado até derramar no fosso do piegas. Ao mesmo tempo, a narrativa vai e vem, conta como Otto era, como Ada era, como se conheceram, e essas idas e vindas parecem não ir a lugar algum – justamente por estarmos falando de um fragmento, e provavelmente um fragmento inicial. É um texto bem escrito, mas que teima em fugir da memória depois que se termina – aguardemos pelo romance completo.

A Mãe, de Chico Mattoso
Em Nunca Vai Embora, seu romance ambientado em Havana e publicado como parte da Coleção Amores Expressos, Chico Mattoso já havia provado que tinha a pegada ágil do bom narrador – aqui confesso meu juízo incompleto, eu não li Longe de Ramiro, seu livro de estreia. Mas, ao menos para mim, faltava ao autor a carpintaria do que narrar, de como fazer os episódios se conectarem de modo orgânico – o que é necessário mesmo para finais abertos como o que ele escolheu para o romance. A impressão se repete na leitura deste conto estruturado em três camadas, cada uma correspondente a uma seção numerada do texto. Na primeira, um narrador em terceira pessoa apresenta a história de um rapaz, Rodrigo, que vive imaginando a morte da mãe, o momento em que acontecerá, o modo, etc. Na segunda parte da narrativa, Rodrigo é mostrado em seu apartamento, em um momento de intimidade com a namorada – empolgado, ele mostra a ela um texto que escreveu (a primeira parte do conto, que recém havíamos lido) e ambos discutem a verossimilhança e a propriedade daquela ficção, entre goles de cerveja e vinho. Rodrigo sente o conflito de muitos autores, o de não conseguir transmitir para ela, sua leitora, o motivo para as escolhas que fez na construção daquele texto. Insinua-se também pela cabeça de Rodrigo a mesma dúvida que assombrava o personagem do texto: a antecipação da morte da mãe, posta desta vez em ficção e apresentada a outrem:
As coisas não funcionavam assim. Havia milhões de alternativas à sua disposição. guardar o texto, por exemplo. Esquecê-lo. Voltar a ele muito tempo depois, quem sabe quando a mãe tivesse efetivamente deixado este mundo. Mas não havia algo de cruel nesse cálculo? No fundo, qualquer tentativa de antecipação do evento lhe parecia ofensiva, e agora a própria ideia de ter escrito algo a respeito – e, pior, mostrado a outra pessoa – o enojava. ” (p. 138)
Na terceira seção do conto, encontramos Rodrigo no há muito antecipado funeral da mãe, anos mais tarde, onde ele vem a reencontrar Marina, a namorada da cena anterior – separados, cada um foi para um lado.  Ao se ver na situação antes imensamente antecipada, Rodrigo aparentemente não reage como achou que reagiria – ele reage pouco, na verdade, ainda amortecido pelo choque. É o que dá a entender o final.
Recontando-se a história, percebe-se a intenção do autor, mas a estruturação dos blocos não é eficiente em transmitir essa dissociação entre o real e o imaginado que está no centro da peça. Talvez a questão aqui seja de linguagem. Este já é o décimo texto da coletânea, metade do conjunto, e tirando até aqui três exemplos bem demarcados de autores com uma prosa que se distancia do meramente “bem escrito” - Laub, Galera e Cuenca – , todos são elegantes e de certo modo corretos, mas de tal modo semelhantes no modo como tratam seu objeto que começam a se confundir. Mattoso escava a psique de seu personagem com afinco, como Fúks já fizera, mas ambos mantém o registro da linguagem em uma neutralidade quase transparente – no que deveria sobressair a história, mas ambas as histórias apelam para a indefinição – que pode se tornar uma fórmula como qualquer outra se usada em demasia.

Temporada, de Emílio Fraia
Cheguei ao fim de Temporada, de Emílio Fraia, e voltei à página de apresentação para verificar se havia ali alguma informação que estabelecesse o texto como um fragmento de uma narrativa maior. Numa narrativa estruturada em  quatro partes numeradas, o mesmo personagem é mostrado em dois momentos cruciais: como jovem e promissor tenista amador, residindo em Londres, e mais tarde, como uma sombra lesionada, proprietário de uma espécie de pousada de segunda linha que recebe a improvável e mesmo inconveniente visita de um desembargador em férias. É um texto disperso, que desperdiça no vazio bons momentos de tensão sem chegar a resolução alguma. Mesmo para um conto que trabalhe com o subentendido, há diferenças entre o escritor que não amarra tudo de modo preciso, deixando frinchas e espaços a serem preenchidos pelo leitor, e o escritor que parece não ter amarrado nada, só deixado tudo espalhado pela garagem. Fraia escreve bem, e o leitor é levado pela narrativa sem protestar – a não ser no ocasional e reiterado uso de dois pontos, não apenas antes de longas enumerações (um dos artifícios bem sacados de estilo do conto) mas de adjetivos banais como em “A Goldsmiths fica em New Cross e ir a Hampstead todos os dias não é o que se pode chamar de: empolgante.” Entretanto, é sincera e tocante a cena em que o personagem, em um apartamento vazio, desaba diante da vida aparentemente estruturada que leva, mas isso não parece coordenado com o resto, e assim é com todos os microfragmentos desse conto já fragmentado: o desembargador hóspede quer comer no jantar um porco que viu na estrada, e os empregados saem a procurá-lo. A caçada ao porco lembra o protagonista de sua temporada em Londres, quando ele e um colega planejavam capturar uma raposa que rondava o alojamento. Depois, ele é mostrado procurando um novo lugar para morar, já que a noiva está de passagem marcada para vir encontrá-lo. Depois ainda, ele trava conversa, em um pub, com uma jovem que vira jogando numa quadra adjacente à que treinava, e segue-se uma clara aproximação. Nenhum desses plots se resolve, e o texto é curto demais para que tal forma se justifique. Se for um fragmento de uma narrativa maior, conseguir me deixar curioso pelo resto, mas acho que tal menção deveria estar expressa no livro, como aliás está em todos os demais casos. Como não está, tratei o texto como um conto – e como conto ele é desconexo e desperdiça bons momentos em uma narrativa frouxa.

F para Welles, de Antônio Xerxenesky
Em 1985, uma assassina profissional recebe uma incumbência que a leva a adquirir familiaridade com a obra cinematográfica de Orson Welles para poder cumprí-la. Já no título, percebe-se a volta de Xerxenesky à narrativa pós-moderna a que vem se dedicando desde Areia nos Dentes. F para Welles é uma referência ao título original do filme de Welles Verdades e Mentiras, de 1973 (F for Fake, ou “F de Falso”, em tradução livre). No filme, Welles discute a natureza das mentiras na arte ao abordar a história de um falsificador de quadros húngaro. No conto, Xerxenesky também se vale de um personagem à margem da lei, embora, como este é um fragmento de romance, eu não tenha tido uma noção muito cristalina do que ele está discutindo, mas me parece a natureza redutora, arbitrária e inevitavelmente mentirosa das narrativas. Como diz a personagem Ana X., uma assassina brasileira e com um sobrenome “esquisito e incomum” começado com X (a letra da indeterminação, e também a inicial do sobrenome “esquisito e incomum” do próprio escritor):
Reluto a falar de meu pai, pois tenho medo de que isso seja visto como o meu Rosebud: a chave de entendimento para a história de minha vida.
O registro da prosa é paródico: Ana X. fala de modo tão douto e professoral, discorrendo sobre a filmografia de Welles, as sensações provocadas pelo LP Rio, do Duran Duran, A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, que não parece um personagem de verdade – e como personagem de caricatura exacerbada, não parece uma mulher, o que pode ser intencional, uma vez que o retrato farsesco pode se tornar legítimo quando dissociado do clichê mais associado à farsa. A dissociação entre discurso e intenção também é bem tramada: embora se justifique o tempo todo (talvez um tantinho mais do que devia) tentando não apresentar uma imagem demasiado simples de si mesma, a personagem não interrompe em momento algum sua narrativa – a não ser quando precisa dar conta de um episódio definidor de sua relação com o pai. Nesse momento, a personagem altamente articulada e direta em suas colocações prefere rodear certos atos inomináveis por meio de elipses – uma delas, em tom e intenção, é bastante similar, curiosamente, ao episódio fundamental da narrativa de Michel Laub nesta mesma Granta. Essas fissuras no tom caricato do discurso não deixam de ser interessantes: pelo que a própria pr0tagonista conta, ela é uma profissional da morte, e no entanto a morte é apresentada como além do discurso, que por sua vez se espraia sem fronteiras sobre temas amplos.  Isso se o próximo capítulo não revelar que este trecho em particular é uma história escrita por alguém, como em Areia nos Dentes. O que vale é que o final, suspendendo a narrativa em um gancho com ares de thriller – outro gênero presente na colagem paródica que forma a narrativa –me deixou curioso pelo resto.

Leia também:

>>> Encarando a Granta – parte 1

>>> Encarando a Granta – parte 2

Comentários (2)

  • Mundo Livro » Arquivo » Encarando a Granta – parte 4 diz: 6 de agosto de 2012

    [...] >>> Encarando a Granta – parte 3 Início [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Encarando a Granta – parte final diz: 14 de agosto de 2012

    [...] >>> Encarando a Granta – parte 3 [...]

Envie seu Comentário