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Posts de julho 2012

Narrativas de Porto Alegre

31 de julho de 2012 0

Vista da Rua da Praia em foto do início do Século XX - Foto: Banco de Dados, ZH

Uma  cidade não se constrói apenas com pedra e asfalto, mas com representações.  Nesse sentido, examinar a maneira como os escritores retrataram Porto Alegre é também fazer um passeio elíptico pela imagem que a própria Capital faz de si mesma. É também reencontrar, ainda que na imaginação, uma Porto Alegre apenas entrevista nas ruínas urbanas que uma cidade em crescimento constante deixa atrás de si.

As representações urbanas da cidade no século 19 tendem a enfatizar seu caráter de sociedade paroquial, um lugar  que, embora grande em comparação às demais do Estado, ainda é uma comunidade de poucos habitantes e ritmo ameno. A concepção da Porto Alegre do século 19 e início do 20 como uma joia da Belle Époque é um clichê recorrente da literatura que se ocupou da cidade, e parece ter origem já nas obras daquele período, como no romance O Perdão, de Andradina de Oliveira (1878-1935), uma história de adultério que faz seus personagens passearem pela cidade em 1910, nascente metrópole com seus bondes, confeitarias chiques, fábricas, banda marcial e iluminação elétrica:

O bond parava de novo. Entrou um velho baixote, de roupa de brim pardo, chapéu de palha preto ficando russo, e um pala de inverno surrado.
– Ora, salvou-se uma alma do purgatório hoje! – exclamou outro velho, espigado, magro a mais não ser, com um pescoço de girafa, vermelho e pelancudo, olhos pretos, pequeninos e vivos, e sobrancelhas grisalhas, grandes, crespas. E como se fosse um poste enfiado num terno cor de cinza, atroou para o velhote:
– Então, seu Zé Silveira, sempre se resolveu a dar um nicolau à companhia Carris Urbanos, hein? – e apertou  fortemente a mão do outro que se sentara a seu lado, segurando sempre, ao ombro, o pala seboso. – É a primeira vez que o vejo de
bond.
– Caminhar a pé é bom para a saúde, seu Nicácio.
–  E para o bolso, seu Zé
.”
(O Perdão, Andradina de Oliveira)

Significativamente, Porto Alegre começa a ganhar espaço não só como pano de fundo, mas como cenário ficcional com caráter próprio, em simbiose com seus personagens, a partir dos anos 1930, quando a cidade também passa por um surto de expansão física e modernização urbana e tecnológica. Clarissa, de Erico Verissimo (1905 – 1975), um dos marcos dessa explosão urbana moderna na literatura do Estado, é de 1933. Os Ratos, de Dyonélio Machado (1895 – 1985), outro romance inaugural, é de 1935. O mesmo período de meados da década de 1930 testemunha a abertura da Avenida Borges de Medeiros e a construção do Viaduto Otávio Rocha – obras públicas de grande envergadura com as quais, lembra a arquiteta Cláudia Pilla Damásio em sua dissertação Porto Alegre na Década de 30: Uma Cidade Idealizada, Uma Cidade Real, a intendência municipal, de inclinação positivista, dedicava-se a um projeto de modernização de Porto Alegre. É o mesmo período em que Erico desenvolverá o seu “Ciclo de Porto Alegre”, inaugurado com Clarissa e encerrado com O Resto é Silêncio, de 1943.

– Embora se contem exemplos anteriores de literatura urbana, não é uma coisa significativa. A figura chave é mesmo a partir daquele momento. No Erico, com Clarissa, a cidade faz parte da experiência dos personagens, o modo como eles agem é condicionado pelos espaços do município em que atuam. A cidade no Erico não é só pano de fundo, é personagem – comenta a professora da UFRGS Regina Zilberman, autora de A Literatura no Rio Grande do Sul.

Erico apresenta uma visão ao mesmo tempo lírica e melancólica da cidade, descrita com a exuberância visual e plástica com que o autor construía os cenários de seus romances. É uma descrição de um autor maravilhado ele próprio com a Porto Alegre que se ergue a seu redor. Como apontou um dos primeiros críticos de Caminhos Cruzados, Dante Costa, a descrição que Erico faz da cidade “é uma espécie de exposição enternecida do quotidiano, com comentários e poesia. Assim como se o autor,de repente, se alçasse sobre a vida, e de uma distância breve, que permitisse a visão geral e também a sinuosidade dos detalhes, nos mostrasse o que acontece“.

Uma das cenas mais impactantes da obra de Erico vale-se desse mesmo recurso. É a morte de uma jovem no capítulo inaugural de O Resto é Silêncio, nascida de um suicídio real testemunhado pelo autor em 1941 na Praça da Alfândega:

Logo depois que o sol desapareceu, aquela praça ali no centro da cidade teve um minuto de esquisita beleza. As lâmpadas estavam ainda apagadas. Os anúncios de gás néon riscavam de coriscos coloridos as capotas dos automóveis parados junto da calçada. Quem olhasse para o lado do poente veria – silhuetas de casas, torreões, cúpulas, postes, cabos e armações de aço – uma escura massa arroxeada contra o gelo verde do horizonte.
Sons de buzinas distantes e de raras  vozes humanas subiam amortecidos na atmosfera de paina. Tinha-se a impressão de que os passantes esqueciam seus cuidados e propósitos, compreendiam que naquele instante eram apenas elementos dum quadro. Moviam-se sem pressa, numa calma silenciosa: andavam de leve, como que flutuando no ar.
Mas a cena durou apenas um rápido minuto. Acenderam-se os combustores, e de repente algo de inesperado aconteceu. Uma rapariga precipitou-se do décimo terceiro andar do edifício Império, deu uma viravolta no ar e caiu hirta e de pé contra as pedras  do calçamento, produzindo um ruído seco e agudo, que ecoou no largo como um tiro de pistola.

(O Resto é Silêncio, Erico Verissimo)

Dyonélio desce o olhar ao rés-do-chão para flagrar as figuras miúdas esmagadas pelo processo de urbanização. O crescimento de uma cidade capitalista nos moldes modernos exige uma multidão de trabalhadores anônimos engajados em sua construção – homens como o atormentado Naziazeno de Os Ratos. A Porto Alegre que emerge do romance é ao mesmo tempo mais difusa e mais crua do que a dos romances de Erico – poucas são as passagens de fato descritivas, e nenhuma delas com a exuberância plástica vista em O Resto é Silêncio ou Caminhos Cruzados. Dyonélio coloca o elemento central do capitalismo como o gatilho que faz se movimentar a trama de Os Ratos: o dinheiro, que não está só no centro do drama de Naziazeno, desesperado para arranjar dinheiro para o leite, mas em toda a cidade, repleta de comércio miúdo, operários, malandros, viradores e obras. Como afirma Cláudio Cruz em seu estudo fundamental sobre a literatura do período Literatura e Cidade Moderna, Dyonelio,”sem utilizar-se da descrição tradicional e empregando pequenas e breves indicações, situa firmemente suas ações em espaços bastante representativos da cidade real“:

É a segunda vez que consulta o relógio da Prefeitura esta manhã. Esse relógio, lá no alto, na torre, parece-lhe uma cara redonda e impassível…
Já pôs o pé na calçada do mercado. O ‘café do Duque’ fica na outra esquina. Toda essa calçada é uma sombra fresca e alegre, cheia de passos, de vozes. Quando defronta o portão central, abre-se-lhe, lá dentro, uma perspectiva de rua oriental, cheia de bazares, miragem remota de certas gravuras… ou de certas fitas… que viu. Não enxerga o Duque nos lugares habituais… E, entretanto, é a “hora dele”. Vai ficar por ali, pelas portas, alguns minutos.
Ele não poderá tardar. Nunca deixa de ir a esse café. Só por doença.
Naziazeno bem que sentaria.
Quem sabe?… talvez haja um conhecido nalguma mesa… Olha!… lá no fundo!… o Carvalho… Mas desvia vivamente a cara, faz que não vê o Carvalho. E esse seu gesto lhe traz à lembrança um gesto semelhante, essa manhã, com o Fraga… Está vendo, nitidamente, o Fraga na porta da casa, bronco e sorridente.
Ele, por sua vez,’teria’ de fazer-lhe uma cara de riso também. Depois, a mulher sabendo tudo pelas crianças e  contando-o ao marido… e o Fraga deixando cair quase até ao grosso ventre uns beiços moles de espanto…

(Os Ratos, Dyonélio Machado)

A elevação da cidade ao protagonismo da ficção gaúcha logo estabelece também as bases para um romance histórico que trate não do mítico passado guerreiro do pampa, mas da própria constituição do espaço urbano. É o que fará Darcy Azambuja (1903 – 1970), que passou à posteridade mais por sua trajetória como jurista e teórico do Direito – seus livros na área são reeditados até hoje, diferentemente de suas investidas na ficção. Seu Romance Antigo, publicado em 1940, reimagina, com minuciosa pesquisa, a Porto Alegre de 1816, ainda uma aldeota do reino português, em que a chegada de notícias do grande mundo dependia de viajantes e pregões rua afora:

Mandava o governador que a Câmara organizasse um bando, em que ele próprio se incorporaria, para anunciar à vila a morte da Rainha. Uma hora depois o extenso cortejo do bando saía do Palácio, na Praça da Matriz, entrada na Rua Pecados Mortais*, e descia para a Rua da Praia.
(…) Os sinos da Matriz, das Dores e dos Passos plangiam lugubremente no ar calmo da tarde de abril. Nas residências mais importantes, os postigos das janelas estavam cerrados; nas humildes, gente sem protocolo metia através das portas a cara curiosa para o
bando. Não raro, alguns apontavam a figura imponente do governador e diziam, numa admiração desrespeitosa: Olha, até o Diabo Coxo vai de charola!
Nos pontos mais centrais o
bando estacava, o andador da Igreja da Matriz fazia tatalar a matracar, o procurador
da Câmara adiantava-se e lia, em um pergaminho de onde pendiam longas fitas negras, a notícia da morte de D.Maria I, rainha de Portugal, Brasil e Algarves,que Deus chamou à Sua Santa Glória – Orai por ela.

* Rua Bento Martins
(Romance Antigo, Darcy Azambuja)

Também Luiz Antonio de Assis Brasil se ocupará da Porto Alegre histórica em mais de um romance, particularmente no melancólico Um Quarto de Légua em Quadro, um relato antiépico das origens do povoamento da região, e Cães da Província, mordaz retrato que vai na contramão da autoimagem de uma Porto Alegre Belle Époque, como mencionado antes:

A cabeça da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul é um promontório elevado que avança rio adentro, no sentido Leste-Oeste, não mais. No lado norte, o mais protegido, aquele que as pessoas escolheram para morar, estão as casas de residência, as lojas, os arsenais, as boticas, os seleiros, os correeiros e toda gente que trabalha no ímpeto de formar aqui uma grande cidade, flor e orgulho do Império, reluzente marco da presença brasileira nestas meridionais solidões. As casas e as ruas esparramam-se a deus-dará, desobedecendo quase por método às ordens de um famoso capitão Montanha, homem que em certa era e certo dia disse: “Aqui vai ser a rua principal, depois as outras serão paralelas e perpendiculares”, aplastando a ignorância dos primeiros moradores com tantas palavras difíceis. Imagine, o capitão Montanha querendo ser um novo Rômulo que com seu arado demarcou os limites da velha Roma, no tempo das antiguidades. As ruazinhas espremem-se e se chocam, caindo a ribanceira bem ao modo português, as moradias correndo parelhas umas às outras e tão grudadas que da casa em frente se ouve o que se fala aqui, é só apurar os ouvidos.
(Cães da Província, Luiz Antonio Assis Brasil)

Outro autor que, mesmo afastando-se por vezes no tempo e no espaço, tornou Porto Alegre um tema recorrente de sua ficção foi Moacyr Scliar, que pintou a cidade com tons oníricos e humorísticos num bom número de seus romances e contos – mais especialmente A Guerra no Bom Fim, Os Mistérios de Porto Alegre, O Centauro no Jardim, O Exército de um Homem Só e Os Voluntários:

Se não me engano, eu achava aquilo tudo muito interessante, muito bonito, mas, se estou bem lembrado, naquele momento eu pensava em outra coisa, pensava mesmo era em mulher. 1952? 1953? Em mulher. Só em mulher. E poderia pensar em outra coisa? NaVoluntários da Pátria?
Eu ajudava meu pai no bar até as sete, oito horas da noite, e então ia jantar. A esta hora os operários, os caixeiros, os funcionários já tinham ido para casa. De seus quartos nos velhos sobrados as mulheres começaram a emergir. Caminhavam lentamente, equilibrando-se nos altos saltos; ou então postavam-se nas esquinas, encostadas, à parede. Ou ficavam sentados no interior de bares sombrios, os olhos reluzindo na semi-obscuridade. Aquilo regurgitava de mulheres. Um rápido exame da geografia sensual de Porto Alegre mostraria uma cidade ocupada por esse amável exército. Na Pantaleão Telles, junto à ponte de pedra em que os Farrapos travaram furiosas batalhas. Um numeroso contingente entrincheirado nas casinhas da Cidade Baixa. Na Azenha, Cabo Rocha era um importante reduto. No Cristal, Mônica reinava solitária e esplêndida, com seu luxo, seu Quarto de Espelhos.Mas havia ainda lugares mais fantásticos: O Cabaré das Normalistas, onde, segundo a lenda porto-alegrense,as moças deixavam cair a máscara da inocência.(…)
Delírio à parte, o principal contingente de mulheres estava no Centro, na Voluntários. Mulheres para todos os gostos e todos os preços, menos os que eu podia pagar.

(Os Voluntários, Moacyr Scliar)

Scliar, no entanto, não hesitava quando pensava que deveria desenraizar seu texto do espaço de Porto Alegre para reenraizá-lo em temas bíblicos e no passado da humanidade. Outros autores contemporâneos de Scliar também farão o mesmo, detonando um processo que pode ser traçado até a atual geração de criadores. Caio Fernando Abreu mergulha suas histórias em uma atmosfera pop que a seu modo rejeita o realismo – e, por tabela, a representação urbana tradicional, ainda que algumas histórias sejam ambientadas em pontos reconhecíveis da cidade. João Gilberto Noll, por sua vez, descreve pouco o ambiente externo em que seus heróis se movimentam. Também desloca com desenvoltura o espaço físico de seus romances – algumas de suas principais e mais aclamadas obras se passam fora de Porto Alegre, como A Fúria do Corpo (no Rio), Harmada (em um país fictício) ou Lorde (em Londres).

Encarando a Granta - parte 3

30 de julho de 2012 2

Até o momento o que me deixou mais desconcertado com a edição número 9 da Granta não foi a lista de seus participantes, e sim a ordem em que foram dispostos no decorrer do livro. Já elaborei várias teorias e, quando acho que consegui decifrar a intenção dos editores, quebro a cara. Em determinado momento pensei que talvez a ordem fosse menino-menina, como já observei, mas estava errado – o segundo bloco de resenhas foi majoritariamente masculino.

Entre o último post e este, pensei ter chegado ao fim do mistério: os autores estariam dispostos em ordem cronológica, com Laub, o mais velho, no início, mas depois me lembrei que Luísa Geisler, a mais nova dos selecionados, estava lá no primeiro bloco de quatro textos que resenhei, então não, também não foi assim que os autores foram dispostos. Por temas é que não foi, também, senão Laub, Galera e Leandro Sarmatz, por exemplo, deveriam ter sido agrupados mais próximos uns dos outros. Continua o mistério. Vamos então a mais um bloco de quatro contos da coletânea:

Noites de Alface, de Vanessa Bárbara
Vanessa Bárbara apresenta um fragmento de romance – e portanto, a análise dos propósitos do texto, como já comentamos, fica comprometida. A não ser em casos flagrantes como o trecho do Cuenca, sob o qual já escrevemos aqui na primeira resenha, não há como imaginar o que pode ser aquele fragmento no conjunto geral. Mas há textos nesta coletânea que encerram episódios íntegros, muitas vezes com um gancho de suspense para o próximo capítulo que desperta a curiosidade pelo restante ou que possibilitam o entendimento autônomo da narrativa (o conto de Galera é um deles). O de Vanessa não é assim. Ela narra o cotidiano incolor e algo melancólico de Otto, homem que, ao ficar viúvo, perde com a morte da companheira também a âncora social com o mundo (“Otto não havia convivido com os vizinhos senão por intermédio de Ada e agora estava ilhado naquele mar de insânia coletiva.”). A grande força deste conto está na maneira delicada como faz dos ambientes e cenários elementos importantes na própria condução da narrativa, mas como esse procedimento é conseguido por acumulação – no caso, de descrições e flashes de detalhes – às veze fica-se com a impressão de que um “drible a menos” teria beneficiado o conjunto. É exemplar disso o parágrafo de abertura:
“Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.” (p.127)
Depois de uma competente descrição do ambiente, Vanessa parece achar que precisa de uma última frase para deixar claro ao leitor – caso ele não tenha entendido, é a impressão que me passa – quanta solidão aquelas paredes encerram. E, talvez apegada aos próprios achados, ela se vale não de uma, mas de duas frases: /”As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam./ /”Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.”/ São ambas frases bonitas e bem sacadas, mas juntas, na sequência da descrição que Vanessa havia apresentado, têm seu efeito potencializado até derramar no fosso do piegas. Ao mesmo tempo, a narrativa vai e vem, conta como Otto era, como Ada era, como se conheceram, e essas idas e vindas parecem não ir a lugar algum – justamente por estarmos falando de um fragmento, e provavelmente um fragmento inicial. É um texto bem escrito, mas que teima em fugir da memória depois que se termina – aguardemos pelo romance completo.

A Mãe, de Chico Mattoso
Em Nunca Vai Embora, seu romance ambientado em Havana e publicado como parte da Coleção Amores Expressos, Chico Mattoso já havia provado que tinha a pegada ágil do bom narrador – aqui confesso meu juízo incompleto, eu não li Longe de Ramiro, seu livro de estreia. Mas, ao menos para mim, faltava ao autor a carpintaria do que narrar, de como fazer os episódios se conectarem de modo orgânico – o que é necessário mesmo para finais abertos como o que ele escolheu para o romance. A impressão se repete na leitura deste conto estruturado em três camadas, cada uma correspondente a uma seção numerada do texto. Na primeira, um narrador em terceira pessoa apresenta a história de um rapaz, Rodrigo, que vive imaginando a morte da mãe, o momento em que acontecerá, o modo, etc. Na segunda parte da narrativa, Rodrigo é mostrado em seu apartamento, em um momento de intimidade com a namorada – empolgado, ele mostra a ela um texto que escreveu (a primeira parte do conto, que recém havíamos lido) e ambos discutem a verossimilhança e a propriedade daquela ficção, entre goles de cerveja e vinho. Rodrigo sente o conflito de muitos autores, o de não conseguir transmitir para ela, sua leitora, o motivo para as escolhas que fez na construção daquele texto. Insinua-se também pela cabeça de Rodrigo a mesma dúvida que assombrava o personagem do texto: a antecipação da morte da mãe, posta desta vez em ficção e apresentada a outrem:
As coisas não funcionavam assim. Havia milhões de alternativas à sua disposição. guardar o texto, por exemplo. Esquecê-lo. Voltar a ele muito tempo depois, quem sabe quando a mãe tivesse efetivamente deixado este mundo. Mas não havia algo de cruel nesse cálculo? No fundo, qualquer tentativa de antecipação do evento lhe parecia ofensiva, e agora a própria ideia de ter escrito algo a respeito – e, pior, mostrado a outra pessoa – o enojava. ” (p. 138)
Na terceira seção do conto, encontramos Rodrigo no há muito antecipado funeral da mãe, anos mais tarde, onde ele vem a reencontrar Marina, a namorada da cena anterior – separados, cada um foi para um lado.  Ao se ver na situação antes imensamente antecipada, Rodrigo aparentemente não reage como achou que reagiria – ele reage pouco, na verdade, ainda amortecido pelo choque. É o que dá a entender o final.
Recontando-se a história, percebe-se a intenção do autor, mas a estruturação dos blocos não é eficiente em transmitir essa dissociação entre o real e o imaginado que está no centro da peça. Talvez a questão aqui seja de linguagem. Este já é o décimo texto da coletânea, metade do conjunto, e tirando até aqui três exemplos bem demarcados de autores com uma prosa que se distancia do meramente “bem escrito” - Laub, Galera e Cuenca – , todos são elegantes e de certo modo corretos, mas de tal modo semelhantes no modo como tratam seu objeto que começam a se confundir. Mattoso escava a psique de seu personagem com afinco, como Fúks já fizera, mas ambos mantém o registro da linguagem em uma neutralidade quase transparente – no que deveria sobressair a história, mas ambas as histórias apelam para a indefinição – que pode se tornar uma fórmula como qualquer outra se usada em demasia.

Temporada, de Emílio Fraia
Cheguei ao fim de Temporada, de Emílio Fraia, e voltei à página de apresentação para verificar se havia ali alguma informação que estabelecesse o texto como um fragmento de uma narrativa maior. Numa narrativa estruturada em  quatro partes numeradas, o mesmo personagem é mostrado em dois momentos cruciais: como jovem e promissor tenista amador, residindo em Londres, e mais tarde, como uma sombra lesionada, proprietário de uma espécie de pousada de segunda linha que recebe a improvável e mesmo inconveniente visita de um desembargador em férias. É um texto disperso, que desperdiça no vazio bons momentos de tensão sem chegar a resolução alguma. Mesmo para um conto que trabalhe com o subentendido, há diferenças entre o escritor que não amarra tudo de modo preciso, deixando frinchas e espaços a serem preenchidos pelo leitor, e o escritor que parece não ter amarrado nada, só deixado tudo espalhado pela garagem. Fraia escreve bem, e o leitor é levado pela narrativa sem protestar – a não ser no ocasional e reiterado uso de dois pontos, não apenas antes de longas enumerações (um dos artifícios bem sacados de estilo do conto) mas de adjetivos banais como em “A Goldsmiths fica em New Cross e ir a Hampstead todos os dias não é o que se pode chamar de: empolgante.” Entretanto, é sincera e tocante a cena em que o personagem, em um apartamento vazio, desaba diante da vida aparentemente estruturada que leva, mas isso não parece coordenado com o resto, e assim é com todos os microfragmentos desse conto já fragmentado: o desembargador hóspede quer comer no jantar um porco que viu na estrada, e os empregados saem a procurá-lo. A caçada ao porco lembra o protagonista de sua temporada em Londres, quando ele e um colega planejavam capturar uma raposa que rondava o alojamento. Depois, ele é mostrado procurando um novo lugar para morar, já que a noiva está de passagem marcada para vir encontrá-lo. Depois ainda, ele trava conversa, em um pub, com uma jovem que vira jogando numa quadra adjacente à que treinava, e segue-se uma clara aproximação. Nenhum desses plots se resolve, e o texto é curto demais para que tal forma se justifique. Se for um fragmento de uma narrativa maior, conseguir me deixar curioso pelo resto, mas acho que tal menção deveria estar expressa no livro, como aliás está em todos os demais casos. Como não está, tratei o texto como um conto – e como conto ele é desconexo e desperdiça bons momentos em uma narrativa frouxa.

F para Welles, de Antônio Xerxenesky
Em 1985, uma assassina profissional recebe uma incumbência que a leva a adquirir familiaridade com a obra cinematográfica de Orson Welles para poder cumprí-la. Já no título, percebe-se a volta de Xerxenesky à narrativa pós-moderna a que vem se dedicando desde Areia nos Dentes. F para Welles é uma referência ao título original do filme de Welles Verdades e Mentiras, de 1973 (F for Fake, ou “F de Falso”, em tradução livre). No filme, Welles discute a natureza das mentiras na arte ao abordar a história de um falsificador de quadros húngaro. No conto, Xerxenesky também se vale de um personagem à margem da lei, embora, como este é um fragmento de romance, eu não tenha tido uma noção muito cristalina do que ele está discutindo, mas me parece a natureza redutora, arbitrária e inevitavelmente mentirosa das narrativas. Como diz a personagem Ana X., uma assassina brasileira e com um sobrenome “esquisito e incomum” começado com X (a letra da indeterminação, e também a inicial do sobrenome “esquisito e incomum” do próprio escritor):
Reluto a falar de meu pai, pois tenho medo de que isso seja visto como o meu Rosebud: a chave de entendimento para a história de minha vida.
O registro da prosa é paródico: Ana X. fala de modo tão douto e professoral, discorrendo sobre a filmografia de Welles, as sensações provocadas pelo LP Rio, do Duran Duran, A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, que não parece um personagem de verdade – e como personagem de caricatura exacerbada, não parece uma mulher, o que pode ser intencional, uma vez que o retrato farsesco pode se tornar legítimo quando dissociado do clichê mais associado à farsa. A dissociação entre discurso e intenção também é bem tramada: embora se justifique o tempo todo (talvez um tantinho mais do que devia) tentando não apresentar uma imagem demasiado simples de si mesma, a personagem não interrompe em momento algum sua narrativa – a não ser quando precisa dar conta de um episódio definidor de sua relação com o pai. Nesse momento, a personagem altamente articulada e direta em suas colocações prefere rodear certos atos inomináveis por meio de elipses – uma delas, em tom e intenção, é bastante similar, curiosamente, ao episódio fundamental da narrativa de Michel Laub nesta mesma Granta. Essas fissuras no tom caricato do discurso não deixam de ser interessantes: pelo que a própria pr0tagonista conta, ela é uma profissional da morte, e no entanto a morte é apresentada como além do discurso, que por sua vez se espraia sem fronteiras sobre temas amplos.  Isso se o próximo capítulo não revelar que este trecho em particular é uma história escrita por alguém, como em Areia nos Dentes. O que vale é que o final, suspendendo a narrativa em um gancho com ares de thriller – outro gênero presente na colagem paródica que forma a narrativa –me deixou curioso pelo resto.

Leia também:

>>> Encarando a Granta – parte 1

>>> Encarando a Granta – parte 2

Guerra à deriva

30 de julho de 2012 0

O Baependy, navio afundado pelo U-507 na costa brasileira. Foto: Reprodução

Texto de Léo Gerchmann

Muito já se falou da astúcia de Getúlio Vargas, que vendeu caro a entrada do Brasil na II Guerra Mundial e, em troca, recebeu o apoio americano para alavancar a indústria brasileira, com a Companhia Siderúrgica Nacional. Também muitas e justas homenagens foram feitas aos militares que colocaram o Brasil do lado certo da História ao combater na Itália e ajudar os aliados a soterrar o nazifascismo. Pouco se falou, porém, do motivo que fez o povo clamar pela entrada no confronto. E nada poderia ser mais apropriado: foi um submarino alemão, o U-507, que “afundou o Brasil na II Guerra Mundial”, em 1942.

Só por essa breve introdução ao assunto, pode-se constatar o que há de mais atraente no livro U-507 – O Submarino que Afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, do jornalista gaúcho Marcelo Monteiro. Com prefácio de Luis Fernando Verissimo, a obra já vale pela síntese contida no próprio título. Em meio a uma guerra, é natural que os dramas humanos se vejam jogados para uma análise futura. No calor dos disparos de fogo, os feitos grandiosos ganham força, em detrimento das individualidades tidas como pouco importantes em momentos como esses.

A questão é: quando parte-se para a busca do universo de cada individualidade, pode-se gerar uma emoção diferente. E, se a grandiloquência se justifica, vamos a ela. Os números chocam ao mostrar, com toda a sua frieza, que 607 pessoas morreram nos ataques do submarino alemão U-507 a cinco navios brasileiros: Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará. Tudo isso no nosso Nordeste, às margens das costas da Bahia e de Sergipe. Por ironia, no front de guerra, em território italiano, morreram 465 militares brasileiros. No livro, há momentos em que o leitor é chamado a presenciar remotamente o drama de 70 anos atrás:

“De relance, a algumas dezenas de metros, Dálvaro vê alguma coisa sair da água e voltar rapidamente para o fundo.
– Ué, um coqueiro de cabeça para baixo? – diz o jovem, tentando entender o que acaba de enxergar nas águas – na verdade, o periscópio do U-507. (…)
Segundos depois, sem imaginar o que está acontecendo, Homero vê o torpedo aproximar-se do casco:
– Olhe que peixe enorme.
Mal termina a frase, e o projétil atinge o navio em cheio, abaixo da escotilha do porão número três, próximo à popa, onde estão as baleeiras. Um estrondo ensurdecedor toma conta da cabine do Itagiba

O texto, daqueles que puxam o leitor ao natural, colocando-o na cena da trama, também pode fazê-lo refém cativo, conseguindo uma proeza. Além de contar dramas de vítimas, faz o que pode ser definido como “segundo resgate”, recupera histórias de pessoas que já haviam sido fisicamente retiradas do mar de sangue que se tornou a costa brasileira naquele 1942 em que o Eixo, integrado por Alemanha, Itália e Japão, começava a perder a guerra, e a humanidade vinha à tona para respirar aliviada.

O Brasil ajudou nesse respiro, três anos antes de o conflito chegar ao fim. E contou com o irônico impulso de um monstro de aço que o agrediu. O submarino alemão, sob as ordens do comandante Harro Schacht, espreitava suas presas, os navios, feito uma fera de tocaia. E as abordou sem piedade com seus torpedos disparados entre 15 e 17 de  agosto de 1942, provavelmente com a intenção de barrar a rota para a borracha que as embarcações conduziam e que era artigo de luxo em tempos de guerra.

Um dos eixos do livro, talvez o mais significativo pela simbologia que carrega, é a história das meninas Walderez  Cavalcante, 4 anos, e Vera Beatriz do Canto, 5. As duas são sobreviventes do navio Itagiba. Walderez se salvou flutuando dentro de um caixote de leite condensado Moça. Vera chorou a perda do seu bonequinho – o brinquedo, avariado, ainda teve a roupa utilizada como tecido para a confecção de uma bandeira da paz. E sua mãe chegou a ter uma premonição do que ocorreria.

(…) Noêmia enxergara um navio negro, com um número 13, no qual todos os passageiros e tripulantes vestiam roupas pretas, dos pés à cabeça. Ao guardar seus pertences no camarote B, cedido pelo comandante José Ricardo Nunes (…), ela volta a se assustar: olhando bem, aquele B se parece muito com um 13 – com os lados afastados. O dia é 13 de agosto, e o Itagiba parte justamente do armazém 13, às 13h

Walderez e Vera posaram juntas para fotos em 1942. Reencontraram-se em uma reunião articulada pelo autor Marcelo Monteiro em 8 de maio de 2011. Walderez, que chegou a dizer que conversou com um peixe e que o peixe recomendou que ficasse calma, viveu momentos que muitos definiram como milagre.

“(…) Na correria para abandonar a pequena embarcação que afunda rapidamente, um dos náufragos coloca a menina de apenas quatro anos dentro de uma caixa de madeira de transporte de Leite Moça vazia. Walderez não entende o que está se passando. A caixa, milagrosamente, flutua em meio ao mar de aflição”

Nisso, o pai de Walderez, Octavio Cavalcante, já a imagina morta. Momento de intensa emoção. Desesperado, ele diz, chorando:

– Se minha filha não sobreviver, também não tenho razão para seguir vivendo.

O comandante do iate Aragipe, que resgatou os náufragos do Itagiba, fica condoído. Manoel Balbino dos Santos, seu nome. Pede a todos os presentes que comecem uma busca. E se dá, então, um instante de magia, inesquecível:

“(…) Minutos depois, alguém enxerga, ao longe, algo que parece ser um destroço. Balbino decide verificar de perto. Ao aproximar-se do objeto, a surpresa e a alegria tomam conta. (…) A pequena Walderez boia, sã e salva, dentro de uma caixa (…)”

Um dos méritos da meticulosa apuração feita por Monteiro é que ainda foi possível ouvir depoimentos de  sobreviventes lúcidos das tragédias ocorridas em 1942. O autor teve a feliz ideia de intercalar depoimentos de sobreviventes com trechos do diário de bordo do submarino – não faltavam, é claro, definições das vítimas como “negros” e “mulatos”. A crueldade do nazismo estava às nossas margens.

“(…) No momento em que o iate Aragipe seguia para o litoral, levando cerca de 150 náufragos do navio Itagiba, o comandante admite que até pensou em utilizar as metralhadoras e as armas de deck contra a inofensiva embarcação, carregada de homens, mulheres e crianças recém-resgatadas – uma clara violação aos princípios humanitários mais elementares até mesmo em tempos  de guerra. (…) A decisão de não usar as metralhadoras não foi tomada por escrúpulos humanitários, mas puramente por uma impossibilidade técnica (…)”

O autor faz uma boa descrição da época. Depreende-se a precariedade dos meios de comunicação. Hoje, a história seria contada de forma mais minuciosa e instantânea. Por exemplo: o canto dos soldados que haviam se misturado ao público do Itagiba, todo o clima dos navios que viriam a ser abatidos, com seus romances, idiossincrasias, brincadeiras, crianças, jogos de xadrez, carteados, camaradagens, decepções. Toda uma vida.

“Quem parte leva
Saudades de alguém, que fica chorando de dor
Por isso não quero lembrar
Quando partiu meu grande amor”

Parece profecia. O livro é permeado por descrições de mortes. Por gente que viu companheiros sendo abocanhados por tubarões ou simplesmente se afogando  enquanto pediam desesperadamente por socorro ou, delirantes,  jogando-se ao mar. O horror cru e em minúcias, que fez  o Brasil abandonar a neutralidade oficial para adotar a “beligerância” – e, depois, a declaração de guerra ao Eixo. Era o inferno da guerra no nosso litoral.

“O mar revolto está coberto de destroços, fardos, pedaços de pau, malas, roupas e até o bumbo pérola rajado da bateria de Higino. Por todos os lados, homens, mulheres e crianças gritam, desesperados, por socorro. Alguns urram e desaparecem de supetão, puxados por tubarões. Para completar, há pequenos focos de incêndio em destroços que, banhados no óleo, seguem em chamas desde a segunda explosão”

“Homens, mulheres e crianças que estão dormindo ou tentando levantar-se de suas camas afogam-se em poucos
segundos e são sugados com a embarcação para o fundo do mar”

E houve solidariedade.

“- Não posso mais…Vou desistir… – diz um tripulante do Baependy, quase sem esperanças.
Ao mesmo tempo em que incentiva o companheiro de infortúnio, Lauro também se anima.
– Aqui! Aqui! Não desista! O náufrago, enfim, consegue agarrar-se à tábua de salvação. Exausto e ainda ofegante, agradece, ainda comovido, às palavras do novo amigo, que acabara de estender-lhe a mão”

Sim, há muita solidariedade, também por parte das populações ribeirinhas da Bahia e do Sergipe.Também é boa a descrição dos salvamentos e das surpresas de quem vê corpos mutilados e sobreviventes esfarrapados. Há o acolhimento em cidades como a baiana Mangue Seco, na divisa com território sergipano. E também a revolta. O povo exige nas ruas que o governo entre na guerra.Afinal, a guerra veio até o Brasil. O apelo popular se mostra na prisão de supostos “quinta-coluna” (colaboradores fascistas) e na depredação indiscriminada de casas comerciais. Havia um sentimento de vingança que se expandia país afora. E, especialmente para dois sobreviventes, essa vingança se tornou real, quando, em 1944, mais de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram à luta na Europa banhada pelo sangue:

“Entre os brasileiros,estavam os soldados Dálvaro José de Oliveira e Pedro Paulo de Figueiredo Moreira, sobreviventes do naufrágio do Itagiba que, depois de resgatados, juraram vingança às margens do Rio Una, em Valença”

Por fim, dois anos depois, conseguiram o que queriam


Encarando a Granta - parte 2

25 de julho de 2012 2

Ao digitar o post anterior destas críticas da Granta, cheguei a pensar que havia uma ordem na maneira como os editores resolveram distribuir os autores e que era óbvia o tempo todo: alternância entre homens e mulheres. Bom, também não é essa a intenção, como os quatro contos analisados neste bloco deixam claro – continuamos a apresentar as resenhas na ordem em que os contos aparecem no livro. Continua, ao menos para mim, o mistério da ordem dos autores: foi no sorteio, foi pela ordem da terceira vogal de cada nome, foi por cor clubística? Cartas para a redação. Vamos a mais quatro contos da Granta:

Tólia, de Ricardo Lísias
Em mais um texto da coletânea com um pé na metaficção, Lísias narra a história de um homem que, após uma década dedicado à literatura como profissão, desiste da escrita (mais uma forma de autoanálise do que vocação, ele reitera) e volta ao xadrez profissional, que praticou na adolescência, como uma tentativa de entender a si mesmo e diminuir a inadequação de seu ser ao mundo (ele não dorme direito e se irrita com qualquer barulho, até mesmo os produzidos pelo próprio corpo).  Numa viagem à Rússia para estudar xadrez diretamente na pátria oficial do jogo, o personagem se mete em uma confusão e termina fazendo contato com uma seita mística que postula o silêncio e a comunhão espiritual para a comunicação entre si e entre a própria natureza.  A metaficção, aí, não reside só no fato de o personagem ser um escritor, e sim de o personagem – que não tem nome – ter parte de sua biografia decalcada da vida do autor. Dois títulos de livros escritos pelo personagem citados na história, Cobertor de Estrelas e O Livro dos Mandarins, são os de livros do próprio Lísias.
Há um humor tortuoso na narrativa que por vezes se aproxima da gurizice, como se diz na minha terra: os integrantes da seita só comunicam entrando em transe meditativo para despertar o “olho interno” – vai ser o maldoso sou eu, também. Assim como em O Livro dos Mandarins e O Céu dos Suicidas, Lísias faz de uma viagem (ou de seu anseio) um pretexto para uma sátira: a obsessão do personagem e da seita por conseguir uma forma de comunicação que prescinda da palavra, se lida a sério, soa com a afetação que já apontei na primeira resenha: a de reclamar da inutilidade da literatura escrevendo literatura – literatura é a técnica a serviço de uma visão de mundo, e se a sua visão de mundo desdenha a técnica e a expressão, o mais honesto seria abolir completamente a expressão. Mas Lísias é um escritor que já antes se valeu da ironia como elemento de humor, e por isso prefiro ler o conto como uma bem urdida sátira justamente a essa visão. Em termos formais, não há tanta ousadia como nos fragmentários ou reiterativos romances anteriores, mas isso pode ser tributado à brevidade exigida do conto. Como uma obra extremamente cerebral, contudo, ela se não tenta seduzir leitor algum.

Apneia, de Daniel Galera
O texto de Galera na Granta é um trecho de seu romance a ser lançado em breve, Barba Ensopada de Sangue, mas mantém unidade quando lido sozinho – se fosse um conto resumido apenas naquilo que está no livro, não seria mal compreendido. É também um dos textos mais longos da coletânea. São vinte páginas, estruturadas durante a maior parte de sua extensão em diálogo e na narração de um personagem diretamente para o outro – há intervenções apenas pontuais de um narrador em terceira pessoa. Um pai e um filho, durante um dia escaldante em Porto Alegre, conversam longamente, todo o diálogo circundando a pergunta fundamental feita pelo filho ao chegar para visitar o pai: por que ele está com um revólver na mesinha que tem ao seu lado. Antes de finalmente responder essa pergunta, o pai desvia o assunto para a vida de outra pessoa, seu próprio pai, avô do outro personagem, assassinado em circunstâncias não bem explicadas em uma vila de pescadores em Garopaba. A relação do homem do revólver com seu pai e com seu filho é o eixo que estrutura o conto (outro olhar nesta coletânea sobre as relações familiares diretas).
Construir um texto composto em sua maior parte por diálogos é um desafio por mais de um motivo. Se um diálogo se estende além da conta, o leitor pode perder o fio da meada de quem está falando o quê, com prejuízos do entendimento ao final. Se o conto é um longo diálogo com poucas intervenções, pode dar a impressão de ser um roteiro audiovisual, não prosa. Escrever um longo diálogo significa que o escritor terá que dotar os dois personagens que estão falando de vozes autônomas, sob pena de a linguagem pasteurizar a única forma que um texto dialógico tem para dar individualidade aos falantes sem recorrer à narração em terceira pessoa: síntaxe e vocabulário. Galera se esmera mais no segundo: o vocabulário do homem do revólver é idiossincrático, coloquial mas não caricato, usa a conjugação do pronome na segunda pessoa com verbo na terceira (“Tu vai fazer”) sem que isso soe nem artificial nem afetado (ao menos para mim – quem não é do Rio Grande do Sul talvez ache esquisito. Aceito comentários). E o pai enrolador é também um grande contador de histórias, razão pela qual, mesmo quando a prosa desvia para longe do que parecia ser o assunto principal acompanhamos a narrativa voando, quase sem tropeços ou tédio (esse é outro problema de contos com diálogos: se o personagem for chato, tem-se a mesma dificuldade de prestar atenção no que ele está falando que se teria numa conversa real). Não é um texto irretocável, contudo. Depois de tanto falar sobre os perigos do diálogo na construção de uma história, constato surpreso que alguns tropeços de linguagem cometidos por Galera não estão na voz dos protagonistas, mas sim na parte em que o narrador em terceira pessoa assume o comando e dispara lugares-comuns e frases feitas como “tornou-se um sedentário convicto (p. 82) ou “Um cansaço imenso cai sobre seus ombros de repente” (p. 94).
Para além de qualquer questão formal, contudo, está-se diante de um texto comovente – o final, que atinge o leitor com emoção mas sem sentimentalismo, não deixa de reiterar aquele que vem sendo o “grande tema” da literatura de Galera: a vida e a identidade como uma construção do ser humano, resultado de escolhas cujas responsabilidades devem ser assumidas com estoicismo.

Valdir Peres, Juanito e Poloskei, de Antonio Prata
À semelhança de Lísias, Prata é conhecido por textos de humor – embora o tipo de humor praticado por ambos não possa ser mais diverso. Lísias é um satirista sarcástico, enquanto Prata opera no humor mais “convencional” de costumes e imprensa. Neste conto, entretanto, Prata não é o humorista de suas crônicas de jornal, e sim um contista no qual o humor ainda está presente, mas mesclado a uma certa melancolia que subjaz a uma peculiar história de amadurecimento. Em uma vizinhança suburbana no início dos anos 1980, um grupo de garotos da vizinhança testemunha a escalada de uma “disputa por status” entre dois garotos, Henrique e Rodrigo. Em uma comunidade na qual, como narra o autor no início do conto, “de início, todos na rua tinham o mesmo poder aquisitivo e os bens per capita resumiam-se a uma bicicleta, uma bola de futebol, uma caixa de Playmobils, peças para montar e outras quinquilharias”, o fato de  Rodrigo ganhar um carrinho de controle remoto perturba o equilíbrio. A cada presente de Rodrigo, Henrique ganha outro, algo melhor, até um deles enfrentar a inapelável derrota.
A prosa é segura, seu tom, se não se eleva, também não se compromete. Para além de qualquer ímpeto de saudosismo (o título faz referência a figurinhas fáceis do álbum da Copa de 1982, que em São Gabriel chamávamos de “buchas”, mas não sei se essa gíria é compreendida por todo mundo), um dos grandes destaques do texto é sua bem sacada relação entre o amadurecimento contemporâneo e a sociedade de consumo: nesta crônica de fim da infância suburbana, o que marca o ingresso no mundo adulto não é a construção de uma identidade primária, mas a descoberta, bem menos inocente, das diferenças de poder aquisitivo dos pais de cada um. E poderia ser diferente numa infância imersa na sociedade de consumo? Talvez fosse necessário apenas um olhar mais crítico a esse fenômeno, dado que o tom é memorialístico, e o narrador hoje teria condições de elaborar melhor questões que seu “eu” infantil não teria percebido, mas talvez aí o conto fosse outro, sem garantia de ser melhor do que já está.

O Jantar, de Julián Fuks
Mais uma história na qual o autor deliberadamente acena ao leitor com pontos de contato metaficcionais entre sua própria trajetória e o que está contando. Um brasileiro de nome Sebastián, filho de argentinos exilados (até aqui um personagem semelhante ao autor, até na rima na última sílaba do nome) visita em Buenos Aires uma tia de fumos aristocráticos e opiniões reacionárias, para o “jantar” que dá título ao livro. Terá que decidir se cede aos ditames da boa educação ou a suas convicções ideológicas no decorrer do diálogo com a tia, numa atmosfera de perigo incerto. É um mote interessante de condução irregular. Os primeiros parágrafos, que dão o tom do livro, são particularmente trucados por torções exóticas de sintaxe e lugares-comuns, como nos trechos abaixo:
Que aquilo a que chamamos terror também se irradia em tantas formas menores, pensa, tantos atos indistintos de aparência inócua, tantas circunstâncias sutis provocando discretos pavores
As pernas não fraquejam, ele tem os pés sólidos, as roupas sóbrias, apenas ressaltam sua corpulência, seu porte avantajado”. (p. 113 ambos os trechos).
A primeira frase já deixa claro que, no meio de uma cena de tensa domesticidade, Fuks pretende criar uma narrativa de horror – e em certas passagens, vencidas as dificuldades dos parágrafos iniciais, ele tem pleno sucesso. É crescente a tensão provocada pelo desconforto de Sebastián na imensa e antiquada casa da tia, durante o frugal ainda que requintado jantar. Uma atmosfera primeiro de incerteza e depois de pesadelo vai se alastrando paulatinamente, mas sua extensão talvez demasiada enfraquece o conjunto, que resulta muitas vezes disperso e truncado. Um detalhe final, contudo, escolhido para amplificar o horror, soa gratuito e  artificial, mais efeito do que resultado, porque não destoa da atmosfera construída para a narrativa – não há indícios pregressos que justifiquem o que ocorre, apenas a transferência, talvez, do pesadelo metafórico para o plano da realidade ficcional.

Leia também:

>>> Encarando a Granta, primeira parte


O que você está lendo, José Castello?

25 de julho de 2012 0

O escritor José Castello em Porto Alegre. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Na seção O Que Você Está Lendo?, o depoimento de hoje é de José Castello, jornalista, crítico e escritor. Castello é autor da até hoje considerada fundamental biografia de Vinicius de Moraes: Vinicius – o Poeta da Paixão (Companhia das Letras, 1993). Voltaria ao poeta para traçar seu itinerário poético em Vinicius de Moraes: Geografia Poética (Relume/Dumará, 1996). Do mesmo ano é a biografia de João Cabral de Mello Neto, O Homem sem Alma (Rocco). Inventário das Sombras (Record, 1999) é outro de seus livros com perfis de autores como José Saramago, Nelson Rodrigues e Adolfo Bioy Casares, entre outros. Estreou na ficção em 2001, com Fantasma, um pastiche de suspense ambientado na Curitiba em que o autor vive. Em 2010, voltou à ficção com o elogiado Ribamar, vencedor na categoria romance da 53ª edição do Prêmio Jabuti de Literatura (leia entrevista sobre o livro aqui). É colunista dos jornais Rascunho e O Globo, no qual mantém o blog A Literatura na Poltrona (clique aqui).

O que você está lendo, José Castello?

Estou lendo Una Magia Modesta, de Adolfo Bioy Casares, em uma edição argentina da Temas Editorial. Na verdade, eu o estou relendo – para me ajudar a escrever um ensaio breve a respeito da relação – que considero essencial – dos escritores com a solidão. Muitos dos personagens de Bioy Casares são homens solitários, quase abandonados, que vivem acompanhados não só por seus fantasmas, mas sobretudo por suas fantasias. A fantasia guarda esse aspecto meio mágico: vinda do “nada”, ela é muito mais potente para preencher uma vida do que grande parte dos bens materiais. As criaturas de Casares sentem-me muito menos sozinhas do que muitas pessoas que circulam em meio a grandes multidões. Essa talvez seja a “magia modesta” que o próprio Casares manejava tão bem: transformar a solidão em companhia. Fazer da solidão um palco em que personagens secretos podem não apenas desembarcar, mas desempenhar histórias e conflitos que nos ajudam a viver. Descobri Adolfo Bioy Casares ainda muito jovem, em plena adolescência, e, desde então, nunca mais o parei de ler. Creio que essa é a quarta ou quinta vez que releio Una Magia Modesta, livro que recomendo com muito entusiasmo.

>>> Leia aqui outros depoimentos da série O que Você Está Lendo?

Pensador entre dois mundos

25 de julho de 2012 0

O poeta e filósofo Antonio Cicero. Foto: Divulgação, Civilização Brasileira

 

AS FLORES DA CIDADE

Há flores pelo caminho através
da cidade à cidade: naturais,
em canteiros e em árvores, talvez,
mas quase todas artificiais
nos cabelos dos bebês, em cachorros
mimados, em vitrines e revistas
femininas, em cartazes e
outdoors,
e – de novo naturais – em floristas,
camelôs na calçada e, sobretudo,
nas mãos do entregador de flores, cujo
olhar esverdeado sobre as rosas
é puro absinto e tudo nos deslembra,
lançando-nos dúvidas hiperbólicas
sobre o próprio destino a uma hora dessas.

Filósofo, poeta e compositor, Antonio Cicero vem a Porto Alegre na próxima sexta-feira para uma conferência às 17h30min, na Sala Álvaro Moreyra, do Centro Municipal de Cultura (Erico Verissimo, 307), como parte da programação do 7º Festival de Inverno, realizado ao longo desta semana.  Vai falar sobre letra e música na obra de Caeatano Veloso e Gilberto Gil. Além de Cícero, outros nomes grandes nomes estão realizando oficinas, cursos e palestras na área da literatura e das humanas. Lira Neto esteve na cidade ontem para falar sobre sua biografia de Getúlio Vargas. O argentino Martín Kohan, escritor e teórico da literatura, ministrará uma palestra sobre Cortázar. A programação completa pode ser vista no portal oficial do evento na internet: www.portoalegre.rs.gov.br/festinverno.
Cícero recentemente lançou Poesia e Filosofia (Civilização Brasileira), um ensaio que aborda as especifidades das duas formas de expressão. Também está lançando seu primeiro livro de poemas em uma década, Porventura (Record), de onde foi retirado o trecho que vocês leem acima. Ele concedeu a seguinte entrevista por e-mail:

Zero Hora – A obra de Caetano já foi algumas vezes analisada como um sopro de ímpeto anárquico ligado ao tempo presente, em contraposição a Chico Buarque, de trajetória mais ligada à tradição do samba e de trabalho de feição mais lírica e formalmente mais convencional. O senhor concorda com essa contraposição? E que espaço Gilberto Gil ocuparia nesse suposto eixo de força com Chico em um extremo e Caetano no outro?
Cicero
- Junto com Caetano, Gil esteve no olho do furacão do Tropicalismo. Ouça-se, por exemplo, Domingo no Parque ou Volks-Volkswagen Blue. E o Gil que conheceu a contracultura (ouçam-se O Sonho Acabou e Expresso 2222) também se encontrava muito distante de Chico Buarque. Isso não quer dizer que eles fossem antagônicos.A parceria de ambos, Cálice, mostra o oposto. Mas a trajetória de Gil sempre esteve muito mais próxima da de Caetano do que da de Chico.

Zero Hora – Muito se tem falado sobre uma suposta crise da forma da canção na música brasileira e, no entanto, Caetano, um dos autores que o senhor vai analisar em sua vinda a Porto Alegre, lançou dois discos recentes que o recolocam como um dos grandes persecutores da novidade no cenário musical brasileiro. A canção está em crise de fato ou o diagnóstico é apressado?
Cicero -
Não creio que esteja em crise. O que ocorre é apenas que o surgimento de manifestações musicais que não podem ser classificadas de canções – como as que derivam do rap – relativizam a importância da canção. Antes disso,a música popular era praticamente composta de canções. Agora, ela divide esses recursos com outras formas musicais.

Zero Hora – No livro Banalogias (2007), Francisco Bosco reflete que a diferença entre um poema e uma letra de música é que esta última teria “uma finalidade compartilhada: o objetivo da letra de música é pôr de pé a canção, letra e música são os fios com que se tece o corpo final da canção”. O corolário da afirmação é que a análise de uma sem a outra será sempre fraturada ou limitada. Como alguém que já trabalhou no processo de musicar sua própria poesia, o senhor compartilha esse entendimento?
Cicero –
Basicamente, sim. Há muito tempo afirmo que a letra de música é heterotélica, isto é, não tem sua finalidade em si própria, mas na canção de que faz parte, enquanto que o poema livresco é autotélico, isto é, tem sua finalidade em si próprio. Assim, não se pode dizer, como muitos diziam antigamente, que a letra boa é aquela que se sustenta sozinha, sem a música. Não: a letra boa é aquela que faz parte de uma boa canção. Por outro lado, é claro que há letras que podem ser lidas como poemas; e há poemas que viram letras de músicas, de modo que não se pode generalizar. É preciso considerar caso por caso.

Zero Hora – O imbricamento entre letra e música nas canções de Gil é de algum modo diverso daquele percebido nas músicas de Caetano?
Cicero
- Penso que ambos fazem perfeitamente aquilo que se propõem. Nesse ponto, não há superioridade nenhuma de um sobre o outro.

Zero Hora – Em uma entrevista com Caetano Veloso, Ana de Oliveira postula a participação de ambos na Tropicália nos seguintes termos: “Gil, a antena. Caetano, a liderança“. No caso de artistas com uma colaboração tão prolífica quanto os dois, é possível separar seus papéis dessa forma?
Cicero
- Eu diria que os dois foram antenas. Na verdade, não creio que, na música brasileira, jamais tenha havido antenas – receptoras ou transmissoras – mais eficazes que a de Caetano. Quanto à liderança de Caetano, ela sempre foi reconhecida pelo próprio Gil.

Zero Hora –  Caetano e Gil de algum modo influenciaram um jeito de fazer canção (e de escrever uma letra para ela) ainda em vigor? Ou a radical originalidade de seu trabalho não lançou bases para o que se poderia chamar uma”escola”?
Cicero
- Caetano fez de tudo, de modo que não há nenhum único jeito associado a ele. Já o estilo musical – em particular o violão – de Gil influenciou muita gente. Marina Lima, por exemplo, sempre reconheceu a importância musical do toque de Gil no seu trabalho.

Zero Hora – O senhor está lançando um livro no qual defende as especificidades de linguagem da poesia em relação à filosofia e vice-versa. Seria assim também com a canção, para retomar o verso irônico de Caetano “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível/ Filosofar em alemão”?
Cicero
- Ao dizer que só é possível filosofar em alemão, o verso de Caetano está de fato citando, de modo irônico, como você mesmo diz, uma ideia de Heidegger. Mas veja: uma ideia incrível é, literalmente, uma ideia em que não se pode acreditar. E é uma ideia em que não se pode crer porque é uma ideia indemonstrável. Mas uma ideia incrível é também uma ideia maravilhosa.Pois bem, se você tem uma ideia que, apesar de indemonstrável, é maravilhosa, então é melhor fazer com ela uma canção do que uma filosofia. E quem diz isso concorda com minha tese de que poesia e filosofia não devem ser confundidas.

Zero Hora – Quem conhecesse seu trabalho como poeta e como um pensador com formação em filosofia pensaria que o senhor concilia as duas formas em seu trabalho, mas é exatamente o inverso o que o senhor dá a entrever em seu livro Poesia e Filosofia. O senhor vê em si duas instâncias de atividade, o poeta e o filósofo, que não se mesclam quando atuam?
Cicero
- Sim. Costumo dizer que, em mim, o poeta vai embora quando o filósofo aparece; e que o poeta nem aparece quando é o filósofo que está presente.

Enfim, encarando a Granta - parte 1

23 de julho de 2012 1

Pois bem, a maioria dos votos computados nos dois dias de nossa enquete informal defendeu a fragmentação do texto crítico sobre a Granta em mais de um post – alguns foram bastante específicos, como o Samir Machado de Machado, que sugeriu um conto por post. Mas acho que aí seriam 20 textos que, com minha facilidade de ser prolixo, encheriam o saco de todo mundo, até o meu. O único voto em favor de um texto único foi de peso, o da tradutora Denise Bottmann, mas vamos seguir os ditames democráticos e dividir nossa resenha da Granta em cinco textos abordando cada qual um bloco de quatro contos. No final, considerações sobre o conjunto.

Antes de prosseguirmos, um punhado de esclarecimentos que são redundantes mas, como eu conheço a internet bem o bastante, necessários:

1) Muito se tem falado, com a Granta como pretexto, na questão da legitimidade e na autoridade de quem escolhe e seleciona. Para estes textos, que fique bastante claro: as opiniões expressas na resenha são minhas (de quem seriam?), e a legitimidade que eu tenho para emití-las é a de alguém que efetivamente leu os textos (e que vem trabalhando com o texto literário como matéria-prima há um bom tempo). Não gostou? É seu direito. Não concorda? Mais direito ainda. Mas qualquer pergunta sobre “quem é você para falar tal coisa” será respondida ao estilo Mario Quintana: Sou eu, ué. Vale até para eventuais autores da lista.

2) Considerações extraliterárias sobre a relevância dos autores ou não só aparecerão, se aparecerão, no último texto. Estou lendo o livro como ele chegou até mim, com esses autores que estão ali. Vou ler o livro que tenho em mãos em vez de o livro que eu supostamente acho que deveria ter sido feito.

3) Full disclosure, dado que a Granta despertou uma certa “paranoia do compadrio”: embora mantenha, até como parte de meu ofício de jornalista, relações e diálogos cordiais eventualmente com mais de um autor incluso na coletânea (Daniel Galera, Michel Laub, Carol Bensimon e Antonio Xerxenesky, por exemplo), não sou, felizmente neste caso, o que se possa chamar de “amigo” de nenhum deles – a não ser na acepção que o facebook dá para a palavra. Os demais, conheço por texto, falei uma ou duas vezes na vida ou sequer sabia que existiam antes dos livros. Em determinada época, Leandro Sarmatz e eu trabalhamos na redação de Zero Hora no mesmo período, mas não tivemos o menor contato naquele tempo. Chegamos a conversar posteriormente, por questão profissional, mas só depois que ele deixou o jornal. Logo, não me sinto impedido ou desconfortável para analisar honestamente a obra de nenhum deles.

Vamos aos primeiros textos da coletânea, que, já na ordem, oferece um enigma ao leitor. Havia começado a ler o livro aleatoriamente, mas uma pessoa com quem conversei me alertou para algo que no princípio não me chamara particularmente a atenção: a própria ordem da coletãnea é uma idiossincrasia dos organizadores, uma vez que os autores não estão dispostos em sequência alfabética de nome, de sobrenome ou mesmo de título do conto. Resolvi ir então para o início do livro e percorrê-lo do início ao fim para ver se essa ordem descortina algo para mim.

Animais, de Michel Laub
A antologia abre com um texto que comprova que Laub, um dos autores mais experientes do grupo, encontrou não apenas uma voz literária, mas quem sabe uma forma para expressá-la. Nesta história, os animais de estimação que o narrador em primeira pessoa teve na infância servem de pretexto para o desdobramento de uma série de relações familiares e de convívio que expõem uma natureza perturbadora sob uma superfície aparentemente pacata. Essa tensão de uma brutalidade que irrompe em um cenário de domesticidade banal está expresso já na primeira frase: “Quando eu tinha onze anos, em Porto Alegre, meu cachorro Champion foi morto pelo dobermann do vizinho”.
A estrutura parece decalcada diretamente do romance anterior de Laub, Diário da Queda: capítulos breves e numerados que percorrem em espiral o eixo do episódio central narrado na primeira frase, ora acrescentando um detalhe a mais nos antecedentes e nas consequências da morte do cão, ora espraiando-se em digressões que revelam uma relação complexa mas afetuosa entre pai e filho (e relações entre país e filhos vem sendo um mote recorrente na ficção do autor). A presença de um segredo ligado aos elementos mais sombrios da psique do narrador, que era uma das pedras de toque de O Diário da Queda, está presente também neste texto, bem como o fato de a história se construir como uma recordação de um momento definidor no passado, o que o autor também fez em Longe da Água e O Segundo Tempo.
Estilisticamente, Laub vem se tornando, livro a livro, um craque na arte da negaça, o que parece atingir um “ponto ótimo” neste conto: suas frases longas vão se sucedendo como peças periféricas em um quebra-cabeça cuja imagem crucial (e desconcertante, ainda que sutil) só será expressa nos últimos segmentos. O autor domina a frase de modo elegante, alternando sentenças secas e sincopadas com orações que se encadeiam com habilidade e nas quais o leitor não se perde mesmo naquelas mais tortuosas que avançam por mais de um plano narrativo:
“O retrato no túmulo do meu pai é de quando ele tinha uns sessenta, e o sorriso é bastante típico dele, mas quando estou sozinho e tento lembrar não é uma pose específica que me vem à cabeça, nem a voz dele, porque as pessoas mudam de voz com a idade e nos últimos doze anos da vida dele tivemosmais conversas por telefone do que ao vivo.”
Por trabalhar na concisão do conto com a reiteração de temas e formas com que Laub já havia lidado em obras anteriores, Animais aparece como uma espécie de síntese do trabalho do escritor até aqui. E por ser o primeiro da coletânea, o uso que o autor faz da metaficção acaba se revelando um cartão de visitas para boa parte dos textos. O narrador é um escritor, e se refere a episódios e personagens de seus livros – e essas referências são retiradas diretamente de livros anteriores do próprio Laub, ajudando a borrar as fronteiras entre personagem e autor. Não é a primeira vez que Laub usa tal recurso, embora em outros livros ele não tenha sido tão explícito. É a primeira vez que esse recurso aparece em um conto da coletânea, mas acreditem em mim quando digo que não será a última.

Aquele Vento na Praça, de Laura Erber
Como eu havia comentado no post sobre os autores, eu já havia ouvido falar de Laura Erber de nome, mas não conhecia sua produção literária – até este momento dedicada à poesia. Sabia que era artista plástica, e essa origem fica clara neste conto, um relato no qual um artista plástico é contratado para visitar Bucareste, na Romênia, para recolher algumas obras não catalogadas de um artista anglo-romeno chamado Paul Neagu (que eu não sabia que existira de fato, confesso, fui ajudado nisso pelo Google) e lá encontra uma jovem pela qual se encanta – ela é filha do homem que ele foi encontrar, um antigo amigo de Neagu que mantém sob guarda trabalhos do artista censurados pelo regime de Ceausescu. A sinopse pode dar a entender uma história romântica banal, mas o conto não é isso, Laura constrói uma atmosfera elusiva e estranha por onde o artista se movimenta um tanto confuso e muitas vezes a contragosto.
Gosto de obras que dialogam com o universo das artes plásticas, coisas fantásticas já foram feitas com esse mote e esse contato. A epifania de Bergotte diante do detalhe de um muro amarelo em um quadro de Vermeer em A Prisioneira, de Marcel Proust; o pintor enlouquecido que expõe a própria mão amputada em uma passagem de 2066, de Roberto Bolaño; as plásticas descrições das obras fictícias de William Wechsler em O Que eu Amava, de Siri Hustvedt; a maneira como John Updike pula do romance à crítica de arte e de volta ao romance em Busca o Meu Rosto, etc, etc.
Talvez essa enumeração comparativa seja injusta com Laura Erber e seu texto de extensão bem mais curta, mas percebe-se na autora a motivação consciente de mergulhar o leitor no universo artístico, referência primordial da história, e em sua relação com a literatura usando metáforas e imagens que a todo momento remetem a outras formas de expressão artística. Incluem-se aí comparações visuais ou alusivas ao universo da pintura (“os cabelos mais perfumados do leste, os caravaggiescos cabelos de Martina Ptyx“), referências literárias (o velho Ptyx com quem o protagonista foi falar na Romênia dedica-se a copiar, à mão, palavra por palavra, à Pierre Menard, os romances de Balzac) e ao universo pop e à mídia (“A única coisa que eu sabia sobre o Cáucaso, além dos genocídios, vinha de uma canção de Loreena MacKennitt que falava de uma cavalgada noturna entre relâmpagos, árvores silenciosas e lua”). Claro que a fronteira entre esse tipo de construção imagética e o puro e simples namedropping que busca justificar-se com recorrências externas é tênue, e às vezes ela a ultrapassa com resultados desastrosos:
Havia um estranho magnetismo naquela moça, e não era a beleza, ou não era só a beleza, ela parecia ter saído diretamente de uma novela de Franz Hellens. Como se a qualquer momento fosse começar a dançar no meio das beterrabas, os agriultores formariam um coro em círculo e a realidade se converteria na realidade de um show de Diamanta Galás dirigido por Lars Von Trier.”
Esse registro da prosa, algo afetado, tende a cansar. Também acho estranho que um conto, logo um ordenamento literário de situações e efeitos, bata tanto, como este faz, na tecla da falta de significação – a inexistência a priori de uma “rede de significação” na realidade é um clichê contra o qual rebelar-se literariamente é difícil, pois como acusar a falta de uma rede de significação com uma peça artística, construção ela própria de uma rede de significados?

Antes da Queda, de J.P. Cuenca
O texto apresentado por Cuenca para a antologia é o fragmento de um romance (outros autores fizeram o mesmo), e portanto, embora aqui se apresente como uma peça a ser analisada por si só, provavelmente será alterada e, em muitos casos, terá até mesmo sua qualidade reavaliada quando fizer parte de um conjunto maior no romance. Não vou apontar, portanto, como um defeito que tais textos por vezes não pareçam íntegros, não tenham autonomia ou não ofereçam a vertigem ou a unidade de efeito de um conto. Isso já está claro desde o início. Mas neste fragmento em particular, terminei com a sensação amarga de ver uma ideia muito boa e original sucumbir à deficiência dos recursos em que é expressa. Cuenca narra, em uma terceira pessoa que se mistura epidermicamente com a psique e com as opiniões do personagem, a trajetória de um homem que decide deixar o Rio de Janeiro depois de tê-lo visto passar por um renascimento urbano que, como sempre ocorreu no Brasil, privilegia uma classe de favorecidos em detrimento de uma massa de desvalidos. Há um tom de ficção científica distópica: por meio desse personagem Cuenca leva às últimas e desastrosas consequências o surto de desenvolvimentismo que o Brasil vive hoje, imaginando como seria reavaliar no futuro o atual momento se tudo descer outra vez ralo abaixo. Para isso, parte de eventos reais recentes e reimagina suas consequências até um ponto não especificamente mapeado no futuro. Para dar só um exemplo: a pacificação das favelas com o exército torna os espaços nos morros ambientes atraentes para uma classe artística e boêmia que começa a ocupar a região, revitalizando-a. Isso, ao mesmo tempo, encarece os aluguéis obrigando os moradores originais a se mudarem para subúrbios distantes.
Uma ideia fantástica (em mais de um sentido) e pouco usual em nossa literatura voltada mais para o presente e para a subjetividade de protagonistas urbanos. Mas tem um problema aí: Cuenca estrutura o texto em frases imensamente longas que perdem ritmo ou recorrem a uma profusão de preposições, conjunções e pronomes, nem sempre apropriados, verdadeiras pedras jogadas no caminho do leitor. Contemos, por exemplo, o número de “quês” apenas no primeiro parágrafo do conto:
“Jamais cometeu a indiscrição de admitir, principalmente a si mesmo, o medo que seu desejo de abandonar a cidade fosse recíproco – que ela desejasse abandoná-lo também. Ir embora por vontade própria seria bastante diferente do que ser expulso, do que capitular cabisbaixo frente a um adversário medíocre, ou, pior, do que ser visto como alguém em fuga. Até que ponto renunciar à terra natal não seria fruto de uma rejeição dos seus? É possível fugir sem ser covarde? Quaisquer que fossem as respostas, as próprias interrogações eram derrotas que não estava pronto para assumir.
Na diagramação do livro, esse parágrafo tem nove linhas – e oito “quês”.
Esse é apenas um detalhe dentro do quadro maior, em que a linguagem utilizada pelo autor não difere muito do tom irado e por vezes caótico dos articulistas de opinião ou dos leitores que escrevem cartas para jornais. Talvez ao analisar-se o romance como um todo, quando ele aparecer, essa opção se torne defensável, mas aqui se mostra equivocada, uma vez que o narrador se lança em diatribes tão intensas de suposta crítica social que parece esquecer do que está contando. Parece um panfleto sindical – e sem o uso irônico que Ricardo Lísias, por exemplo, para usar outro autor do livro, faz da prosa de manuais de gerenciamento em O Livro dos Mandarins.

O Que Você Está Fazendo Aqui, de Luisa Geisler
Talvez a exigência da Granta de ineditismo nos textos enviados para seleção tenha vitimado Luisa Geisler, uma vez que esta história me soou exatamente como o reflexo distorcido (e bem menos interessante) de outra história já publicada pela autora: Apenas este Réquiem para Tantas Memórias, conto que abre seu livro de estreia, Contos de Mentira. Em ambos, personagens viajantes vão perdendo controle da própria vida e talvez de sua própria sanidade à medida que se sucedem vertiginosamente dois signos específicos do personagem em trânsito: salas de embarque de aeroportos e escadas rolantes. Especificamente no conto O Que Você Está Fazendo Aqui, Luisa cria um personagem que é executivo ou contato de uma agência que, por força de seu trabalho, precisa viajar constantemente, pulando de Hong Kong numa semana para Camberra na outra e Hamburgo na seguinte, e assim por diante. Não fica claro exatamente o que esse personagem faz ou de que é a agência em que trabalha (imagino que seja essa mesma a intenção da autora), apenas que ele está sempre viajando, e transformou o deslocamento constante em um meio de fuga (foge da casa da mãe, onde as coisas são difíceis, foge de relações amorosas, foge de seu chefe, usando as viagens como desculpa para não atender o telefone).
A história do personagem é contada aos saltos, intercalados por frases interrogativas como “O que você deveria fazer?” ou “Para onde você está indo?“. A transição entre essas perguntas e a história do homem em trânsito (o nome dele é Lucas, mas sua construção é tão incolor que eu tive de voltar ao livro para confirmar – e talvez isso estivesse dentro da proposta, também) é feita pela apresentação do conceito (em alemão mesmo) Weltanschauung. Há várias formas de explicar o que isso quer dizer, a maioria delas longuíssima, mas fiquemos com a mais canhestra e breve: Weltanschauung é “visão de mundo”, um conceito cunhado por Immanuel Kant (1724-1804) em Crítica do Juízo para a definir a forma como os sentidos sintetizam nossa percepção do mundo e da natureza. Foi reutilizado por uma ampla gama de pensadores, de Fichte a Sartre. E o que está fazendo aqui? Imagino que pontuando, como refrão, os blocos de texto nos quais Lucas é apresentado “correndo pelos corredores” ou subindo e descendo escadas rolantes até perder gradativamente contato com sua própria “visão de mundo”. Cada frase, portanto, é como uma vinheta para o episódio na vida de Lucas que vem a seguir, mas aqui Luísa não consegue passar o recado tão bem quanto no conto anteriormente citado, Apenas este Réquiem para Tantas Memórias, no qual a progressiva desagregação da psique do personagem, um fotógrafo, diante da sucessão de aeroportos nos quais espera aviões como se preso em um limbo, era expressa também na inadequação da linguagem: o sujeito trocava até de idioma por se ver perdido no vácuo gelatinoso desses espaços sem tempo que são as salas de espera. Já Lucas parece não evoluir ou se transformar ao longo de toda a narrativa. Em tempo: a certa altura do conto da Granta, em um diálogo ríspido entre o chefe e Lucas, o patrão cita os problemas que a demora do protagonista em realizar uma tarefa vai acarretar ao prazo de um terceiro envolvido, um fotógrafo – pode até ser o mesmo personagem do conto anterior.
Por incrível que pareça, este conto da Granta se vale bem menos da repetição de estruturas que o anterior da autora, mas ainda assim soa mais repetitivo.


Uma terra devastada

20 de julho de 2012 0

A jornalista Adriana Carranca em entrevista no Afeganistão. Foto: arquivo pessoal

Texto de Laura Schenkel

Como o 11 de Setembro afetou o Afeganistão e seu povo? A pergunta é o fio condutor da repórter especial de O Estado de S. Paulo Adriana Carranca em O Afeganistão depois do Talibã (Civilização Brasileira, 2011). O leitor não deve se enganar com o título e pensar que a autora tem um pensamento simplista ou que parte do princípio de que o Talibã já não é importante no território afegão. A jornalista faz justamente o contrário: expõe todos os problemas deixados pelas consecutivas guerras no país, sobretudo pela chamada Guerra ao Terror, privilegiando a dimensão humana da realidade do Afeganistão.

Adriana se propõe a formar um mosaico a partir de personagens do Afeganistão, mostrando como o 11 de Setembro influenciou suas vidas e registrando suas opiniões sobre esses atentados, a ofensiva contra os talibãs, a Al-Qaeda e o islamismo. Ela esteve duas vezes no país, em 2008 e em 2011, e narra a história de seus entrevistados, que incluem um mulá talibã, uma viúva que perdeu os braços após a explosão de um homem-bomba e uma lutadora de boxe, entre outros. Na tentativa de se afastar de uma visão ocidentalizada, Adriana permeia os perfis com muitos dados econômicos e históricos. Sua escrita é bem construída e fluida, em alguns momentos dando mais espaço para impressões e sentimentos, em outros, priorizando números e estatísticas espantosos, jogando-os um após o outro, como que para chocar o leitor. Os personagens não são escolhidos ao acaso: são símbolos da realidade afegã e retratos de um país imerso em guerra e miséria. Ao se ter uma ideia da importância de muitos desses afegãos e de seu protagonismo na história do país – um dos capítulos é uma entrevista com a primeira candidata mulher à presidência nas primeiras eleições diretas realizadas no país e sua difícil empreitada na política –, o leitor se sente mais próximo ainda de uma realidade muito distante, que guarda “uma distância de mil anos” da nossa.

Com brilhantismo, a autora vai construindo uma imagem desse país tão diferente culturalmente, de forma a instigar o leitor a querer descobrir ainda mais. Hospital, centro de desabrigados, campo de refugiados e escola são alguns dos locais que ela visita para entrar em contato com os dramas individuais, que reproduzem o drama de tantos outros afegãos. A obra traz ainda dicas interessantes de livros, filmes e documentários. Aliás, um dos perfilados ficou famoso na literatura mundial. É Shah Rais, o homem que dá título ao best-seller O Livreiro de Cabul. Adriana lhe permite fazer um contraponto em relação à obra da jornalista norueguesa Asne Seierstad (leia aqui entrevista com a autora norueguesa em sua passagem por Porto Alegre, em 2007), mas observa com desconfiança a versão do afegão.

Ao longo do texto, a jornalista apresenta os fatos com ironia. Cita, por exemplo, que em quase uma década de conflitos, o número de civis mortos foi quatro vezes maior que o total de vítimas do ataque às Torres Gêmeas, e que, ao fim da caçada ao líder terrorista Osama bin Laden, descobriu-se que ele estava no vizinho Paquistão. Na sequência, destaca a avaliação que o presidente americano Barack Obama fez em discurso após a operação que culminou na morte de Bin Laden em Abbotabad: “A justiça foi feita”.

Ao inserir sempre dados para dar estofo às entrevistas, em alguns trechos o texto repete informações adiantadas em capítulos anteriores, o que pode incomodar o leitor atento. No intuito de demarcar as diferenças entre o novo e o velho Afeganistão, o livro acaba abusando dos termos “novo” e “velho”, batendo demais nessa tecla e sempre explicitando esses dois aspectos ao fazer comparações, de forma às vezes exagerada e desnecessária. Mas, de um modo geral, o texto é bem construído, organizado de forma interessante, mesclando perfis e história na medida, resultando em uma obra envolvente e impactante, interessante para todos que querem saber mais sobre o Afeganistão. O aspecto da repetição funciona, como um todo, para construir esse panorama do país e de sua população.

O livro apresenta de forma interessante aspectos da cultura islâmica. Como uma boa repórter, Adriana vai além de reproduzir informações. Para melhor compreender o Corão, ela entrevista o egípcio Helim Mohammed Nasr, nomeado um dos 21 sábios do Islã no mundo pela Liga Islâmica Mundial, a mais alta entidade muçulmana, a fim de entender o  islamismo e suas interpretações. Um ponto curioso, por exemplo, explica o surgimento das burcas: diferentemente do que muitos podem pensar, em sua origem a veste não tinha nenhuma relação com o islamismo, até porque antecede o início dessa religião. Era muito mais uma questão de moda. A burca foi idealizada por um rei para que as mulheres nobres da família real pudessem deixar o palácio sem serem vistas ou importunadas por plebeus. Todavia, outras mulheres que se julgavam tão nobres quanto a rainha e as princesas adotaram a roupa.

As condições de vida e a realidade das mulheres afegãs são bem exploradas ao longo da obra, como a dificuldade de acesso à educação, aos serviços de saúde, como funcionam os casamentos e a alta taxa de suicídios entre elas perante todas as dificuldades que enfrentam. Duas em cada três afegãs são vítimas de transtorno de estresse pós-traumático e depressão por causa dos sucessivos e intermináveis conflitos aliados à falta de perspectivas. Em um centro para mulheres queimadas visitado pela autora, pelo menos 30% das pacientes tentaram se matar por autoimolação.

Adriana demonstra muita coragem em trabalhar como repórter em um país em que estrangeiros são alvos de atentados. Mestre em Políticas Sociais pela London School of Economics, Adriana cobriu importantes acontecimentos no Irã, no Egito e em Israel, entre outros. É também coautora de O Irã sob o Chador, publicado em 2010 pela Editora Globo. A sólida carreira de repórter ajudou a autora a construir o livro-reportagem. E, sobretudo, é uma mulher que vai a um lugar onde, mesmo após a invasão estrangeira, a supremacia masculina permanecia soberana. Uma terra onde, na ausência do pai, o filho mais velho assume a chefia da família, mesmo se for criança, e as mulheres lhe devem obediência.  E é ele quem fica com a herança. Afinal de contas, as afegãs sequer podem ter propriedades em seus nomes.

O cerne e a superfície

19 de julho de 2012 0

Ou: como leremos a seleção da Granta

Embora jornalistas e escritores trabalhem com o texto e a maioria, em ambos os casos, diga que escreve para ser lido, há uma circunstância que os distingue acima de qualquer outra: o quanto a ideia de um leitor interfere na forma final do texto. O texto de jornal é eminentemente informativo, seu valor intrínseco está não no arranjo das palavras (embora essa devesse também ser uma preocupação mais frequente da maioria dos jornalistas) e sim no significado, no teor da mensagem. O autor de um texto literário pode imaginar um leitor ideal multifacetado a quem seus textos seriam endereçados, e esse autor no fim pode ser ele mesmo, ou uma confraria de amigos com valores estéticos e pessoais semelhantes, ou o que ele imagina serão os melhores leitores do futuro, ou os mais parecidos com ele próprio. A existência dessa ideia de leitor, contudo, não determina necessariamente o texto final a não ser no caso de escritores declaradamente comerciais.

Em um jornal, a norma prevê o texto como um signo o mais possível transparente – é o que se está contando que vale, e para dar forma ao que se quer escrever, toma-se como parâmetro um vocabulário comum a uma ideia preconcebida de leitor “médio”. Se a palavra ou o conceito parecer complexo demais para esse “leitor comum”, deve ser trocado por outro que seja tão preciso quanto possível mas ao alcance desse vocabulário médio. Torneios de sintaxe e quaisquer outros elementos que possam a vir prejudicar a clareza da mensagem também são evitados – enquanto o escritor pode, mesmo tendo em mente seu “leitor/interlocutor”, deixar isso de lado em nome do que considera a justa forma. Acho que uma das melhores representações ficcionais que já li dessa dicotomia é um conto engraçadíssimo escrito por Reginaldo Pujol Filho e incluído em seu livro Quero Ser Reginaldo Pujol Filho. Em um texto que é ao mesmo tempo sátira e homenagem a Mia Couto, um repórter brasileiro é enviado a Moçambique, recebendo sua primeira grande chance como correspondente internacional. Ao chegar lá, se vê às voltas com o pesadelo do jornalista em viagem: o laptop que o jornal forneceu dá pau. Por intermediação do guia, consegue comprar um notebook de segunda mão que antes havia pertencido a um escritor famoso do país. A partir daí, os despachos e reportagens redigidos no computador e enviados para o Brasil são recebidos na exata forma caricatural da prosa de Mia Couto, deixando o editor do jornal insano de confusão e raiva:

“Não sei o que dá no meu idioma, parece que minha gramática está ficando toda suja, da cor dessa terra. Parece-me assim, pois escrevo-lhe como desde sempre, mas recebes desde nunca o imagissonhado por mim. Pergunto-me se a África rouba-me o ser, se há uma almândega, donde os espíritos daqui carimbam minhas palavras – ou seriam palaves? Na falta d’um telefone, gravei uma testemunhação no computador, a qual envio-te para escutares e perceberes o trespassado comigo.”

Cada coisa em seu lugar, portanto. Um texto do Mia Couto, por mais valor literário que tenha, não poderia ser usado para passar uma notícia pontual sobre uma guerra civil. Pode sim mergulhar no cerne das consequências e dos fantasmas da guerra, como em Terra Sonâmbula, mas não seria uma reportagem para informar ao leitor quando o conflito começou, quantos mortos, o que dizem as agências humanitárias internacionais, etc. Logo, é uma noção arraigada do leitor que pauta o que é escrito em um jornal – e por tabela em seus espaços correlatos, como este blogue. Alguns dirão que por vezes alguns dos textos aqui publicados se puxam em contrariar o que acabei de escrever, mas ainda é uma certa ideia de leitor que determina o perfil um pouco diverso desta página para o restante do jornal impresso. Este é um espaço de leituras e leitores, e portanto os textos podem se dar ao luxo de ser mais longos – se não parecem muitas vezes tão mais cuidados, isso advém de outra peculiaridade do jornalismo diário: a pressa, mas isso é outra história.

Pensei nisso ao começar e leitura, esta semana, da revista Granta que tantas polêmicas suscitou desde o anúncio de seus participantes, durante a Flip, no início deste mês. Minha ideia era fazer uma resenha conto a conto mais ou menos nos moldes em que venho fazendo a atrasada seção Bairrismo? conta outra. O problema é que, devido à polêmica provocada pela escalação dos escritores, fiquei pensando se não deveria publicar textos em etapas, a cada leitura de duas ou três histórias da coletânea, abrindo espaço para uma crítica mais detalhada ao que menos foi falado até agora na controvérsia sobre quem são os escolhidos: os textos. Seria possível fazer isso – criticar três histórias já lidas do volume, por exemplo. Até porque cada uma delas despertou associações e questões que talvez merecessem um texto próprio cada um. Jonathan Franzen já escreveu, em um texto sobre a ficção de Alice Munro incluído no seu mais recente livro, Como Ficar Sozinho, que há um problema inerente à crítica de um livro composto por histórias curtas:

Com histórias curtas o desafio aos resenhistas é ainda mais extremo. Há alguma história em toda a literatura mundial cujo apelo possa sobreviver à típica sinopse? (Um encontro casual em um calçadão em Yalta une um marido entediado e uma dama com um cachorrinho… A loteria anual de uma cidadezinha revela-se a serviço de um propósito surpreendente… Um dublinense de meia-idade reflete sobre a vida e o amor ao deixar uma festa)

Em tempo: essa tradução aí de cima é minha porque escrevo sem o exemplar recente da Companhia nas mãos. Para quem sabe inglês, o texto original, uma resenha escrita para o New York Times, pode ser lido aqui.

Logo, talvez o mais justo com uma coletânea de contos e fragmentos que se propõe a mapear os “melhores jovens escritores do Brasil” fosse analisar mais detidamente cada conto, em uma série de posts dedicados a três ou quatro deles de cada vez. Mas aí esbarro naquela indefinição quanto ao que um eventual leitor desta página estaria esperando. Com tudo o que já se falou sobre a Granta em toda parte, estariam meus cinco leitores dispostos a mais seis ou sete posts sobre os contos do livro? Manifestem-se, por favor, na caixa de comentários. Vocês vão me ajudar a decidir: escrevo um post só ou amplio a análise em mais de um? Agora é com você

O que você está lendo, Silviano Santiago?

18 de julho de 2012 0

Silviano Santiago fala na abertura da Flip. Foto: Divulgação, Flip

Nosso convidado de hoje da série O Que Você Está Lendo? é o ficcionista e crítico Silviano Santiago. Mineiro de Formiga, onde nasceu em 1936, Santiago já enveredou pelo conto, pelo romance e pela poesia. Recebeu em 1981 o Prêmio Jabuti pelo romance Em Liberdade, uma “falsa continuação” para as Memórias do Cárcere do escritor Graciliano Ramos. Seu romance Heranças, de 2008, recebeu o Prêmio ABL de ficção no ano seguinte, e foi finalista do Portugal Telecom e (outra vez) do Jabuti. Sua ficção inclui ainda, entre outros, romances como Stella Manhattan, referencial anárquico nos anos 1980, O Falso Mentiroso,  e livros de contos como Keith Jarret no Blue Note.  Na seara da crítica, Santiago, é um dos grandes nomes da academia a refletir sobre nacionalidade e interpretação de identidades nacionais na literatura. Professor emérito da Universidade Federal Fluminense, publicou textos clássicos dos estudos literários, como Uma Literatura nos Trópicos, no qual desenvolveu o conceito de ”entre-lugar”, ainda hoje fundamental para o campo dos Estudos Culturais. No início de julho, foi um dos convidados de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty, com uma conferência sobre o homenageado Carlos Drummond de Andrade.


O que você está lendo, Silviano Santiago?

Por ter estado recentemente em Bogotá e ter-me surpreendido com a graça de uma cidade centauro, onde o velho e o novo se fundem, fui reler um conto de Guimarães Rosa que lá se passa. Páramo, conto inédito e dado como inacabado, hoje em Estas Estórias. Nocauteou-me. Rosa sai da geografia regional mineira, que tanto o encanta e lhe rende juros, para apreender – no degredo nas alturas dos Andes (1942-1944), que se seguiu aos 100 dias num campo de internamento nazista, em Baden-Baden, – o Nosso Tempo, para retomar o poema de Drummond em A Rosa do Povo. Apreende-o de maneira surpreendente e simbólica. A coação política no campo de internamento em Baden-Baden se casa à asfixia física causada pelo soroche, o mal das alturas. A dupla e trágica experiência dos tempos de guerra leva Rosa a criar um personagem tomado por crise psicótica. Caminha pelas ruas de Bogotá carregando às costas o seu duplo, “o homem com fluidos de cadáver”. Imperdível..

>>> Leia aqui outros depoimentos da série O Que Você Está Lendo?