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Um romancista histórico

01 de agosto de 2012 0

O escritor Gore Vidal

Admirado pela sua verve e sátira, pela mente aguçada e pela agilidade com que se exprimia, dando vazão a uma visão de mundo decepcionada com o que seu país se tornou, o americano Gore Vidal corre o risco de passar á história mais como personagem do que como autor. Seus livros, best-sellers e referência para uma época, hoje são menos citados quando se fala na grande literatura americana do século 20. Não é uma análise distante daquela que o próprio Vidal tinha de sua obra – ele mais de uma vez havia se referido a seu lugar na história americana como uma contrafação de Somerset Maugham, autor de livros com apelo de público em determinada época mas sem reconhecimento crítico. As razões para isso seriam desde o desprestígio dedicado à sátira – e Vidal foi um grande satirista – até o estranhamento provocado pela declarada ambivalência sexual do autor – em um dos ensaios de De Fato e de Ficção, no qual analisa A Vida dos Doze Césares, de Suetônio, Vidal afirma seu credo de que a “orientação natural” da maioria dos seres humanos seria a bissexualidade, reprimida desde a origem.

O crítico Harold Bloom arrisca uma explicação para esse lugar ainda incerto de Gore Vidal na literatura americana em um trecho de seu O Cânone Ocidental:

O romance histórico parece ter sido permanentemente desvalorizado. Gore Vidal certa vez me disse, com amarga eloqüência, que sua ostensiva tendência sexual lhe negara status canônico. O que parece mais provável é que as melhores ficções dele (com exceção do sublimemente afrontoso Myra Breckinridge) são famosos romances históricos – Lincoln, Burr e vários outros – e esse subgênero não tem mais direito à canonização, o que ajudaria a explicar o destino sombrio do exuberantemente inventivo Ancient Evenings [Noites Antigas], de Norman Mailer, uma maravilhosa anatomia da impostura e decadência que não poderia sobreviver à sua colocação no Antigo Egito do Livro dos Mortos. A história escrita e a narrativa de ficção se separaram, e nossas sensibilidades parecem não poder mais acomodá-los um ao outro.
(O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, pp. 28-29)

Vidal, contudo, deve ter ao menos uma boa parte de seu trabalho reavaliado no futuro, seus ensaios e obras de não ficção. Com Palimpsesto, seu livro de memórias lançado em 1995, ele se situou entre os maiores cultores do gênero em língua inglesa. Em homenagem ao autor, falecido hoje, republico aqui duas resenhas de dois aspectos do livro, escritas por Luiz Zini Pires e Tuio Becker quando da publicação da edição nacional do livro, pela Rocco, em 1996:

Fofocas antigas

Texto de Luiz Zini Pires

Gore Eugene Luther Vidal Junior navega tranqüilo nos seus 71 anos. O veterano escritor, intelectual discutido, peça lustrosa da complicada engrenagem intelectual americana, 40 livros, 22 romances, nove livros de ensaios, um de contos, cinco peças de teatro e mais de uma centena de roteiros para cinema, mira o espelho.Vê rugas. De óculos, observa o passado. Escreve.
Todos os grandes amigos, testemunhas da sua geração, se foram. Ele diz que os que se entupiram de álcool partiram um pouco antes. Os passageiros da maconha viajaram depois. Vidal é um dos últimos. Pode ser anunciado como um dos grandes escritores americanos vivos.
Vidal é um septuagenário forte. Ativo. Caminha e anda pelo planeta. Não fuma. Cuida do nível do colesterol com lentes de aumento. Seleciona a alimentação, mas bebe quase meia garrafa de uísque escocês a cada noite. Especialmente quando está em Ravello (e está quase sempre lá), na sua espetacular casa na costa italiana, onde mora há 30 anos. Foi na Itália, talvez o país mais fascinante da Europa viva, que este neto de senador e filho de um dos inventores das companhias aéreas dos Estados Unidos começou a gerar Palimpsesto – Memórias. As lembranças dos primeiros 39 anos da vida de Gore Vidal foram escritas entre 1993 e 1994. O livro ganhou as livrarias americanas no final do ano passado.
Vidal parece uma pessoa honesta. É conhecido assim. Elogiado. O nome de batismo da biografia, que chega atrasada ao Brasil, foi pinçada da palavra grega palímpsestos. Significa antigo material de escrita, pergaminho. O papel que é usado, apagado e reutilizado. Como é um grande ficcionista, um inspirado contador de histórias, Vidal jamais saberia escolher as palavras exatas, corretas, para des-crever o seu passado. Usou então as monumentais facilidades da ficção. Escritores do primeiro time têm estas facilidades.
O título do livro é um mapa, indício de caminho. Palimpsesto prova que a maioria das biografias dos grandes escritores é inventada apenas para divertir os leitores e promover discussões em bares. Raros se preocupam em revelar suas verdadeiras identidades. Não precisam, não querem e, às vezes, não devem.
Vidal lembra apenas aquilo que deseja lembrar. Não confessa nada. Guarda os segredos numa caixa-forte suíça. Prefere falar dos outros. Gosta de ficar num canto, estabelecido na poltrona mais confortável, ilhado num mar da melhor comida e da boa bebida, observando amigos e inimigos. Prefere estudar. Escrever.
Homossexual e democrata, inteligente e bem-educado, conhecido como o homem que tem respostas para todas as perguntas, Vidal fez uma coleção de inimigos poderosos dentro do establishment norte-americano. É um alvo ambulante, porém sua blindagem é de aço. Tem resistido aos ataques. A couraça é resistente.
As 400 páginas da biografia revelam alguns dos seus desafetos preferidos. Gente que ele tenta transformar em lixo. Pó. Às vezes, o livro lembra uma máquina de lavar, lubrificada com sabão em pó. Vidal maneja os botões e lava a roupa suja, imunda. Passa uma rasteira no dramaturgo Tennessee Willians. Joga pedras nos beats. Enterra Jack Keroauc. Disseca Allen Ginsberg.
Outros nomes famosos, atores, atrizes, escritores, políticos e milionários fazem fila nas páginas maldosas de Vidal. Jacqueline Kennedy é lembrada logo na página nove. É apresentada como a mulher que levantou o vestido no banheiro de uma histórica casa da Virgínia e ensinou a uma inocente jovem como é que se faz uma indispensável ducha pós-sexo. John Kennedy está na lista de Vidal como o homem que manteve mais de mil relações sexuais – isto uma década antes de assumir a Presidência dos EUA. Assim, de fofoca em fofoca, muitas delas envolvendo pessoas já mortas, o autor vai apresentando seu mundo superficial. Mantém o ritmo até a última página. Nem a família, muito menos a mãe, a quem odeia, escapam. Todos são lembrados. Atacados, um por um.
Escritor, Vidal esqueceu de comentar, discutir, a sua própria e excelente obra. Grave erro. Seus livros é que interessam. A seleção de mexericos vale pouco. Talvez na segunda parte de Palimpsesto, aquela que deve recomeçar em 1969, nos ofereça mais luz. Ligue uma clara e reveladora luz elétrica.

Gore Vidal visita a cidade dos sonhos

Texto de Tuio Becker

Gore Vidal, como confessa em seu livro de memórias Palimpsesto, ganhou muito dinheiro em Hollywood, onde escreveu roteiros para a televisão e para o cinema. Mas nunca ficou satisfeito com o que viu na tela depois do filme pronto. Com exceção de Vassalos da Ambição, de Franklin Shaffner (1964), baseado em uma telepeça chamada The Best Man, que deu origem a uma obra teatral. O filme foi exibido no Festival de Cannes e o fato de o cartaz trazer os dizeres un film de Franklin Shaffner desagradou profundamente o autor. Vidal, apesar da teoria do diretor como autor do filme, divulgada internacionalmente pela revista francesa Cahiers du Cinéma, considera-se o verdadeiro auteur dos (poucos) filmes de que assinou o roteiro.
Em um de seus livros de ensaios, De Fato e de Ficção (Companhia das Letras), ele trata longamente sobre o assunto. Um certo despeito pontua as constantes referências à sua afeição pelo cinema e aos tempos, a partir de 1956, quando resolveu fazer dinheiro em Hollywood. O primeiro roteiro que Vidal assinou foi o de A Festa de Casamento, de Richard Brooks, tirado de uma telepeça de Paddy Chayefsky. Ele, entretanto, recusa o crédito de roteirista de Sedução da Carne, de Luchino Visconti. “Não só eu jamais escrevi seu roteiro como também nunca o assisti; mais isso não faz a menor diferença”, escreve. Assalariado da Metro Goldwyn Mayer, escreveu os roteiros de O Caso Dreyfuss, de José Ferrer (1958) e O Estranho Caso do Conde, de Robert Hamer (1959).
Vidal, que ficou famoso com a publicação de um de seus primeiros romances, A Cidade e o Pilar (1948), sobre um relacionamento homossexual, conta em torno da realização de Ben-Hur, de William Wyler (1959), inúmeras histórias mordazes. A mais conhecida delas é a do subtexto homoerótico que existe no sentimento de atração-repulsão entre o protagonista da história, vivido por Charlton Heston, e seu rival Messala (Stephen Boyd).
É o próprio escritor quem, em O Celulóide Secreto, documentário de Robert Epstein e Jeffrey Friedman (1995), conta como foi criada uma história sobre o possível relacionamento homossexual entre os dois personagens quando adolescentes. Boyd foi notificado por Vidal dessa intenção, mas Wyler teve medo de avisar Heston.
O filme, que temporariamente salvou a Metro da falência, detém até hoje o recorde de 11 Oscar. Nem Vidal nem Christopher Fry levaram os créditos pelo roteiro, tributado a Karl Tunberg. Vidal deita e rola ao relatar aspectos da filmagem na Cinecittá romana e de seus contatos com Federico Fellini, que, na época, preparava A Doce Vida (1961). O autor, que havia aparecido como ator em um filme experimental de Maya Deren (Ritual num Tempo Transfigurado, de 1946), fez, depois, uma participação em Roma de Fellini (1972). Seu fascínio pelas câmeras é notório, tendo dado o ar de sua graça em Bob Roberts, de Tim Robbins (1991) e em Com Mérito, de Alek Keshishian (1994). Mas recusou uma oferta de Gus Van Sant, para atuar em Garotos de Programa (1991). “Infelizmente, o papel que ele ideara para mim está fadado desaparecer na montagem“, anota.
Várias telepeças, peças e livros de sua autoria deram origem a filmes – Um De Nós Morrerá, de Arthur Penn (1958), Rabo de Foguete, de Norman Taurog (1960) e Homem e Mulher Até Certo Ponto, de Michael Sarne (1970). De Repente, no Último Verão, de Joseph L. Mankiewicz (1959), que ele adaptou da peça de seu amigo Tennessee Williams, é visto com desagrado.
O memorialista encerra seu Palimpsesto por volta de 1964. Rapidamente, ele comenta que sua telepeça The Left Handed Gun fora refilmada para a tevê, com Val Kilmer no papel antes vivido por Paul Newman, com o título de Gore Vidal’s Billy The Kid (1989). Mas suas experiências como roteirista em Paris Está em Chamas? (1966), Brutalidade Desenfreada (1970) e Calígula (1977) foram deixadas para um próximo livro.

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