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Encarando a Granta - parte 4

06 de agosto de 2012 1

A própria natureza deste projeto provoca seu atraso. A Granta, é óbvio, já está lida, mas faltou-me ao longo da última semana tempo para redigir os textos dos dois blocos faltantes, e por isso este está entrando no ar só agora. Se eu tivesse me restringido a escrever uma breve impressão de cada conto, seria mais fácil, mas tenho tentado me deter em cada história para fazer uma leitura que vá além do conjunto clássico “resumo/opinião/ressalva” que costuma ser a tônica da maioria das resenhas. Se tenho conseguido, não cabe a mim julgar. Apesar da demora, contudo, vamos ao quarto e penúltimo bloco de textos sobre os contos selecionados para a polêmica Granta:

A Febre do Rato, de Javier Arancibia Contreras
Recentemente o cineasta Cláudio Assis lançou seu terceiro longa-metragem, que tem o mesmo nome deste conto – o que achei peculiar. Fui consultar meu colega Daniel Feix, crítico de cinema e um dos blogueiros do blog amigo Cineclube ZH, e ele comentou que, ao conversar com Assis em um festival, ouviu a explicação de que “febre do rato” é uma expressão comum em Pernambuco para se referir a alguém fora do seu estado normal, descontrolado. O equivalente a “surtado”, por exemplo. Como Contreras nasceu na Bahia, provavelmente uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas curiosamente o título pode ser lido nessa acepção quando aplicado ao conto. E em outra, bem mais literal, também. O protagonista é um tradutor:
Mas não um desses triviais, de idiomas monótonos e insípidos como o inglês. Traduzo obras diretamente de idiomas incomuns, gramaticalmente complexos e pouco eufônicos como os escandinavos. No entanto, intimimante, meu maior orgulho, e tenho mesmo o ego inflamado por isso, é ser considerado o único profissional  competente e gabaritado do país a traduzir qualquer obra diretamente do mais misterioso, dialetal e literário idioma eslavo, o russo.“, ele declara, com pedantismo risível – imagino, por ser um leitor otimista, que essa afetação ridícula seja uma construção intencional do autor para contrabalançar a atmosfera opressiva e misantrópica do conjunto, claramente uma dilução dos momentos mais abissais de Dostoiéwski (a menção ao russo não é gratuita). O tradutor volta para uma casa em uma localidade afastada. Está com “uma perna quebrada e a outra com hematomas por quase toda a sua extensão” e só consegue se locomover de muletas. A casa está mal cuidada e deserta, porque a mãe do personagem, a única habitante do lugar, morreu recentemente – isso e um fiasco que o misantropo protagonista aprontou no velório têm relação como  atual estado alquebrado do sujeito. E, o mais importante, o tradutor não está sozinho, algo que descobriremos junto com ele.
Há dois pontos bastante positivos a apontar no conto, ambos resultados de uma elogiável habilidade técnica: Javier Contreras narrar de modo o mal estar físico, quase de modo a contaminar o leitor com a dor ou o incômodo do personagem. Outro mérito é o uso sábio e consistente do suspense. Infelizmente, contudo, o final acena com a mais batida das resoluções: o apelo ao onírico.

Faíscas, de Carol Bensimon
O texto é um fragmento da narrativa de estrada que a autora está escrevendo e, diferentemente de outros textos desta coletânea, não tem grande autonomia se lido sozinho – o que é sempre uma pista de como uma narrativa longa se desenhará quando pronta: um fluxo do qual é difícil destacar um fragmento ou uma sucessão de episódios que mantêm relativa autonomia. Mesmo com tal caráter, o fragmento é interessante e consegue despertar a curiosidade pelo que deve vir depois mesmo sem o apelo a um “gancho” no final, como o conto de Antônio Xerxenesky. Uma jovem embarca em uma viagem de carro pela BR-116 com uma amiga, outrora inseparável, mas com quem a relação anda meio estremecida devido a uma não muito explicitada briga “que continua pairando sobre nós”, nas palavras da protagonista – o conto é narrado em primeira pessoa. Ambas se reencontram após terem passado temporadas nos Exterior – a protagonista, em Paris; a amiga, Júlia, em Montreal – e se lançam ao que há anos imaginam como uma “viagem sem planejamento”: um rodar errático pelo interior do Rio Grande do Sul até cidades escolhidas a esmo desdobrando-se o mapa.
É uma viagem fruto de um momento claramente posterior ao impulso beatnik e seus ecos brazucas: o de “lançar-se na descoberta da real identidade de seu chão natal“. Para ambas, ao menos até este ponto, o que parece valer é a noção de movimento e o ineditismo do destino, mais do que qualquer contato humano. Um sinal disso é que, embora engajadas no que chamam de jornada sem planos, portanto supostamente aberta ao acaso, ambas se sentem agredidas e incomodadas quando, ainda no início da viagem, são abordadas por um homem que vê a protagonista apanhar Júlia em frente a seu hotel. Trajando bombachas (o traje típico do gaúcho no imaginário cristalizado pelo tradicionalismo), o sujeito bate no vidro pelo lado do motorista e aponta, em tom acusatório: “Essas tuas botas são de homem”. As “botas” são coturnos Doc Martens, signo de “atitude” cosmopolita na atual sociedade de consumo, o que se choca com a visão de mundo daquele homem que ainda mantém no corpo, em Porto Alegre, calças para o trabalho rural. Um encontro nada sutil entre o moderno e o tradicional que marca o tom do romance, ou melhor, do fragmento: duas garotas de mentalidade urbana e contemporânea se lançam a uma viagem pelo “interior profundo”, onde provavelmente serão, na maior parte do tempo, criaturas deslocadas emitindo códigos que serão lidos pelo avesso. Torço para que o que vem depois aborde isso em algum momento.
Na questão formal, embora dona de uma prosa que avança elegante, Carol às vezes se excede nas imagens. O uso de metáforas é sempre uma arte complexa, porque se busca a tradução de uma situação ou imagem em termos de outra, supostamente mais familiar ao leitor, ou completamente oposta, para fins de comédia ou ironia. O problema que vejo é quando tais imagens vêm aos pares, às vezes cumprindo, cada uma, uma dessas funções. Em um contexto realista (é o registro de Carol no texto, e por “realista” me refiro a um texto que ambienta sua história no mundo concreto sem se valer de elementos suprarreais ou sobrenaturais), isso alonga a frase desnecessariamente e, ao contrário de somar, potencializando os efeitos, ameniza-os, por divisão, por passar a impressão de que o narrador, que em tese deveria saber ao menos de suas próprias impressões, é um indeciso – falo do narrador, não da autora. Como no fim do parágrafo abaixo:
“Não era mais a mesma rua, quer dizer, era a mesma rua, mas no lugar das casas de meus amigos de infância – onde eles estavam agora? – tinham erguido um prédio. Assustava-me pensar que as preferências estéticas de alguém podiam estar resumidas naquele mastodonte branco de dezessete andares, que se destacava na quadra como uma mulher nua em uma congregação de freiras ou como uma freira no I Encontro Brasileiro dos Praticantes do Poliamor”
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Ou na flagrante indecisão também deste trecho, que claramente se expande em um detalhe colateral como forma de ralentar a ação mas parece se alastrar demais em sua indeterminação que se esforça para ser específica:
“Ele era a única pessoa que havia sobrado de todo aquele burburinho do início, além de dois funcionários usando quepes típicos de quem manobra carros, mas que sem dúvida pareciam remeter a outra coisa, talvez a dois garotos fantasiados para um baile de carnaval da Sociedade Amigos de Tramandaí”

Teresa, de Christiano Aguiar
Um conto breve e fragmentado no qual Christiano Aguiar ganha alguns pontos já de saída por ser um dos poucos textos cujos personagens e trama se afastam do “protagonista burguês” (ou seja: classe média, com boa formação intelectual ou emprego bem-remunerado, muitas vezes ligado ao ofício da escrita) que povoa toda esta antologia, como vocês mesmo puderam ler. A Teresa do título é uma nordestina pobre que casa-se com um homem que depois vai tentar a vida em São Paulo enquanto ela espera. Teresa é desdobrada, em uma narrativa algo cubista, em quatro planos: o casamento na juventude, a velhice em companhia do filho, uma tragédia que vai sendo gradativamente revelada à medida que se sucedem parágrafos repetitivos nos quais a cada vez um novo elemento de uma cena vai sendo descortinado. O quarto plano é a narrativa bíblica de Elias, contada pela própria Teresa.
Cada fragmento se vale de uma técnica: a vida de Teresa e de seu marido Petrúcio em algum ponto não determinado no Nordeste descrita com sobriedade lírica; a vida de Teresa mais velha na casa do filho narrada em tons de realismo mágico; a cena trágica repleta de redundâncias que se somam como refrões e a narrativa de Elias em tom solene e hierático, como compete aos textos sagrados. A história de Elias, embora aparentemente deslocada e gratuita no início, se encerra em tom de parábola que ecoa a situação de Teresa na velhice – ainda que bem bolado, esse recurso não é indispensável para a arquitetura do conto, o que me parece perigosamente com excesso.
Curiosamente, a forma como Teresa é mostrada em sua vida com o filho me lembrou três outros textos mais antigos que talvez seu autor sequer tenha lido: Uma História de Borboletas, de Caio Fernando Abreu, Os Tambores Silenciosos, de Josué Guimarães, e Carta a Senhora em Paris, de Cortázar. Não na prosa, especificamente, mas na forma como um elemento sobrenatural ordena e dá sentido à narrativa, em tons diversos para cada autor.
É uma peça ousada – e por isso mesmo elogiável. Ainda que o resultado final na montagem de tantos fragmentos diferentes seja algo desconjuntado, vale a ambição que moveu o autor ao mesclar registros e facetas.

Você Tem Dado Notícias?, de Leandro Sarmatz
Philip Roth é uma influência, até mesmo uma sombra para Leandro Sarmatz, como já ficou claro na primeira parte de seu livro de estreia, a coletânea de contos Uma Fome. Esta peça em primeira pessoa não é diferente, tanto no olhar que lança para a vida como um processo que chega ao fim quanto na raiva que transborda dessa constatação, como no primeiro parágrafo, em que é impossível não ouvir ao fundo ressonâncias de Homem Comum, Animal Agonizante ou Fantasma Sai de Cena:
“Não interprete uma vírgula do que estou dizendo. Não é o caso de bancar o talmudista. Só tenho a dizer que estou morrendo, tenho câncer, briguei com todo mundo lá fora. Estou cansado. O tique-taque do relógio indica: é o fim.”

Estabelecido já desde o início que Roth é uma presença neste texto, nosso próximo movimento, naturalmente, não é ficar apontando minuciosamente suas aparições, e sim buscar os pontos de seus exorcismos. Em palavras mais simples: ver que uso Sarmatz faz desse modelo e até que ponto ele é uma armadura engessante ou um trampolim.
Você Tem Dado Notícias? é narrado por um pai irresponsável em um duro acerto de contas com um filho, um interlocutor silencioso percebido apenas pelas furiosas invectivas do narrador. Na situação de “fim de vida” narrada no primeiro parágrafo, o pai egoísta não tem mais freios morais ou sociais para levar em consideração e consegue ser abertamente brutal em sua exposição de motivos para os caminhos que tomou na vida. Em conflito permanente com a família da mulher com quem se casara ainda muito jovem, o narrador abandona a família, parte em uma jornada que considera de libertação mas que a narrativa claramente identifica como de isolamento. Em suas memórias de raivoso delírio, também revisita sua infância, a tumultuada relação com a cultura e a religião judaica, com o sogro, um empresário judeu, com a mulher com quem casou, aparentemente plena de ideia libertários mas que se acomoda fácil em um casamento tradicional, e o tardio “desbunde” regado e sexo e drogas depois do fim de seu casamento.
Como eu disse, Roth está presente desde o começo, embora esta narrativa em particular pegue bem mais leve no sexo e em suas decrições do que seu modelo. O mergulho aprofundado na consciência do personagem também deve muito ao seu mestre de Newark. Mas a narrativa não deixa de, a seu modo, seguir o progresso do protagonista. Assim como ele pula fora da cultura institucional judaica para se lançar em uma viagem tardia de imersão no “espírito do tempo”, o conto vai se decalcando de Roth à medida que história segue o personagem para fora do ambiente judaico que o formou e se lança sobre a realidade brasileira algo tumultuada dos anos 1970, acrescentando algo pessoal e até certo ponto original na mistura. O ápice dessa evolução se dá em um melancólico episódio no qual o protagonista, entusiasmado pela descrição que uma de suas namoradas faz de um refúgio comunal no interior, viaja até o lugar para encontrar um sítio decadente, mal cuidado e repleto de drogados caídos pelos cantos. Esta cena em particular ecoou em mim como um pastiche à brasileira da viagem a um kibutz empreendida pelo protagonista de Caixa Preta, de Amoz Oz, outro texto repleto de matrimônios infelizes, paternidade ausente e identidade judaica.

Leia também:

>>> Encarando a Granta – parte 1

>>> Encarando a Granta – parte 2

>>> Encarando a Granta – parte 3

Comentários (1)

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