Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Uma educação sentimental

08 de agosto de 2012 0

Cristóvão Tezza em seu apartamento em Curitiba. Foto: Guilherme Pupo, divulgação

Cristóvão Tezza era um romancista que havia obtido há muito o reconhecimento crítico com seus trabalhos – em 1998, Breve Espaço Entre Cor e Sombra recebeu o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; em 2005, O Fotógrafo foi um dos 10 finalistas do Portugal Telecom. Até que em 2007 Tezza se tornou um autor conhecido também pelo grande público com a publicação de O Filho Eterno, uma narrativa ficcional seca e desencantada sobre um pai e seu difícil processo de aceitação de um filho com Down. Declaradamente inspirado em circunstâncias pessoais, o livro tornou Tezzza um autor popular – até onde um escritor pode ser popular sem ser o Paulo Coelho, bem dito. A publicação de O Filho Eterno e sua repercussão levou Tezza a assumir uma coluna semanal na Gazeta do Povo, do Paraná. Esses dois eventos se relacionam com a publicação, agora, do ensaio O Espírito da Prosa, um livro no qual Tezza escava o passado em busca de sua formação pessoal e intelectual e como ela se refletiu em suas primeiras tentativas de escrever ficção, ainda equilibrada com a poesia – leia resenha do livro aqui.

Da experiência na imprensa, Tezza aproveitou a disciplina de escrever para jornal, exigindo portanto o máximo de clareza e transparência na linguagem para se comunicar com o leitor. O período escolhido para o estudo é aquele imediatamente anterior a O Filho Eterno – que começa em 1980, com o nascimento do filho do protagonista/espelho do autor. Pelos caminhos agora da reflexão intelectual não mediada pela narração, Tezza se dedica ao período anterior, evocando as experiências que contribuiram para sua formação como autor. Por telefone, de sua residência em Curitiba, Tezza concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora, na qual falou sobre seu livro de maior sucesso, o impulso que o levou a escrever O Espírito da Prosa, o desprestígio da forma romanesca na literatura nacional a partir dos anos 1970, o discurso da academia, entre outros temas:

Zero Hora – Qual foi a gênese do livro O Espírito da Prosa? Essa tentativa de refletir sobre a origem de seu impulso criador como romancista tem a ver com sua saída da universidade após duas décadas como professor?
Cristóvão Tezza –
Teve uma série de coisas envolvidas. Eu tinha um desejo inicial residual de escrever sobre o romance, refletir sobre a linguagem do romance e porque havia um preconceito contra a forma romanesca no Brasil de umas décadas para cá. Eu cresci em uma geração que olhava o romance como uma coisa ultrapassada. Eu tinha feito já um trabalho, que foi minha tese de doutorado, Entre a Prosa e a Poesia, na virada dos anos 2000, mas era um texto acadêmico, restrito, muito especializado, e eu queria fazer uma reflexão mais aberta. E quando comecei a pensar sobre isso e a escrever propriamente eu senti necessidade de me colocar na própria discussão e tentar responder por que escrevi os livros que escrevi, de onde veio minha filiação romanesca. E daí o livro foi avançando meio por instinto, fui fazendo um levantamento da minha geração, do ideário dos anos 1960 e 1980, e fui respondendo perguntas cujas respostas eu não tinha. Eu comecei com muita pergunta e pouca resposta, e o livro é uma investigação sobre o tema. Foi intuitivo, a partir de um primeiro projeto acabou tomando uma forma bastante diferente. E, claro, sair da academia me deu uma imensa liberdade até para falar da academia. Tem um monte de coisa aí. Acho que é também uma coisa de completar 60 anos. Chega um momento em que se quer fazer um balanço da própria trajetória.

ZH – Seu livro surge como uma peça singular no cenário nacional: o longo ensaio literário no qual o autor também se coloca como sujeito e personagem das reflexões que tece, um pouco à moda da tradição anglo-saxônica. O senhor acredita que essa forma ensaística também sofreria o mesmo preconceito no Brasil?
Tezza –
Acho que a coisa é meio cíclica. A sensação que tenho é que estamos em um momento de reflexão sobre o que significaram os anos 1970 e 1980 para a geração adulta que hoje chega aos 50, 60 anos. É o momento de você pensar, porque foram anos muito marcantes, no mundo inteiro, não só no Brasil, e cujas consequências sentimos até hoje em todas as áreas. Tudo nasceu naquele caldeirão. Eu tenho notado que está saindo um grande número de livros que tratam dessa retomada. Vi que o professor Luís Augusto Fischer, aí de Porto Alegre, lançou o Filosofia Mínima, que é uma pensata sobre a formação dele. O Zuenir Ventura lançou no Rio um romance autobiográfico para pensar esse período, ele que é autor de um clássico, o 1968: o Ano que Não Terminou. Talvez estejamos em um momento de fazer uma reflexão mais densa mesmo do que foi esse período e quais suas consequências.

ZH – Em O Espírito da Prosa o senhor argumenta que esse período, e a ideologia que influenciou a literatura da época, postulava um distanciamento radical do gênero romanesco, da forma tradicional. De alguma forma isso também se refletiu em um afastamento do assim chamado grande público, que antes acompanhava autores como Erico Verissimo, Jorge Amado, Fernando Sabino?
Tezza –
É, houve um choque, uma quebra de modelo na virada dos anos 1970, sobre a qual eu falo bastante no livro, e que tem vários aspectos. Um deles foi o ideário do rompimento com a tradição como um valor em si. Você não podia fazer nada que lembrasse o passado, e uma das coisas que entraram nesse pacote de demolição foram as formas tradicionais romanescas, o realismo romanesco. Houve uma parada, e emergiu um grande deslumbramento pelas formas da literatura, porque era uma coisa da moda da época, um canto de sereia muito forte. E também, por uma combinação de fatores estritamente brasileiros, a discussão da literatura se refugiou completamente na universidade, você praticamente não tinha voz alternativa. E a universidade bebeu na fonte desse formalismo com muita força. Desse deslumbramento inicial, cresceu a ideia de que a literatura era ela mesma seu próprio objeto. E isso foi distanciando cada vez mais a produção brasileira do seu leitor. Até porque era uma literatura que desprezava a imagem do leitor. E isso foi se esgotando como projeto estético no final do século. Por duas razões: pelo esgotamento teórico desses pressupostos, que perderam razão de ser no fim do século 20, e porque uma nova geração de escritores já filhos da internet, fruto de um outro sistema de referências, começou a surgir de maneira muito forte. Por isso acho que no Brasil hoje há uma revitalização das formas romanescas.

ZH – Vivemos então a era da recuperação do romance?
Tezza –
Não gosto de falar em “romance” porque parece que estou falando do romance do Balzac, mas da prosa como o espaço da literatura que conversa com o tempo presente de uma forma direta, clara e contrastante. Hoje se tem uma revitalização muito grande disso. Está aparecendo um grande número de bons jovens romancistas, o que mostra que o tempo está mudando. É uma outra situação que está surgindo. Não é também uma questão de jogar pedra no passado, dizer que aquilo foi um grande equívoco. A história avança meio cegamente, você tem valores que as circunstâncias vão jogando de um lado para outro. Uma das questões que eu queria responder no meu livro era por que isso aconteceu no Brasil muito especificamente. Por que ali entre os anos 1970 e 1980 o romance praticamente desapareceu no Brasil. Claro que você tem nomes intermediários, nomes da geração mais antiga, como o Moacyr Scliar e outros herdeiros de uma tradição romanesca anterior. Mas dos novos nomes, desapareceram.

ZH – Esse período ao qual o senhor se refere marca também a ascensão do conto como o grande gênero contemporâneo no Brasil. O senhor vê relação entre as duas coisas?
Tezza –
Em certo sentido, porque o conto gerou muito fortemente não uma expressão da prosa, como era com Rubem Fonseca ou Dalton Trevisan, mas uma espécie de laboratório textual. O conto nos anos 1970 e 1980 parecia uma pipeta de laboratório para você fazer exercícios de metalinguística, metaficção, poesia, ou seja, a prosa não entrava, o cenário estava vedado a ela.

ZH – O senhor falou agora há pouco em revitalização da tradição narrativa por meio dos bons romances de autores jovens – e também foi do júri que elegeu os polêmicos 20 nomes da edição brasileira da revista Granta. Essa sua crença na revitalização vai contra opiniões contundentes emitidas recentemente, como a de Alcir Pécora, que vê com desencanto uma literatura que ainda apela, conformada e sem metalinguagem, para o “romanesco”, hoje desgastado.
Tezza –
Dizer que o romanesco já morreu é uma grande bobagem. Não estou aqui respondendo diretamente ao Pécora, não vá dizer isso. Eu não li o artigo dele. Mas o que estou dizendo é que você tem todos os pontos de vista. Eu acho que a universidade esgotou o discurso. O discurso mais visível de raiz acadêmica hoje sobre literatura é uma visão requentada do movimento formalista dos anos 1920, que decretou, o que para aquele momento era muito interessante, que o material da literatura é a linguagem. Isso gerou uma utopia de que se você rompe as formas da linguagem você ao mesmo tempo quebra a representação do mundo e faz uma coisa nova. Havia uma obsessão absolutamente centrada na questão formal da literatura. O que eu leio na universidade hoje quando se refere à questão literária é uma espécie de formalismo requentado, incapaz de pensar em formas do presente, em como o discurso romanesco se renova permanentemente, e que volta um século para buscar os pressupostos do que é a boa literatura.

ZH – Ao mesmo tempo, já ouvi e li de autores da nova geração afirmarem que ainda existe a necessidade de jovens escritores passarem pela academia, quase como uma saída de emergência de legitimidade, como se fora daquele ambiente não houvesse espaço viável de reconhecimento. O senhor vê algo semelhante?
Tezza –
Acho que sim, também por questão de sobrevivência. A universidade acaba sendo um bom refúgio para quem escreve, como foi para mim a vida inteira. Você tem ali uma espécie de refúgio para sobreviver e ter tempo para fazer literatura. O que acho muito perigoso é a força do hábito. Você entra em dois mundos mais ou menos antagônicos: um deles é a pressuposição de verdade do discurso científico, que é a alma da universidade e deve ser mesmo, a universidade é um lugar de produção de ciência, produção de reconhecimento objetivo do mundo; e o outro é o espírito da criação artística de qualquer tipo, muito especificamente a literária, que precisa de liberdade, funciona em outro vetor. Então de repente ao se ver envolvido no discurso acadêmico, você acaba corroendo a própria produção em função de fazê-la corresponder ao modelo. Eu falo isso intuitivamente, porque um dos cuidados que eu tomei ao longo de meus 20 anos na universidade foi nunca dar aula de literatura, sempre fui professor de Língua Portuguesa. Sempre quis manter distância da literatura justamente temendo isso aí. Mas é claro, se você leva uma vida inteira dentro da universidade, você acaba afetado.

ZH – O senhor, em
O Espírito da Prosa, reconstitui as suas primeiras experiências literárias, avaliando duramente o que considera seus primeiros fracassos. O senhor parece buscar os elementos que o transformaram na pessoa capaz de escrever os livros que escreveu mais tarde. É essa a intenção?
Tezza –
Quando eu comecei a mexer no baú de velharias da minha memória, eu não estava tão interessado em saber no que eu fracassei nos primeiros livros do ponto de vista técnico, mas com que sistema de valores eu estava trabalhando para escrever o que escrevi. A literatura não é apenas um jogo formal, em que você domina uma técnica e daí conta uma história ou faz literatura. Ela sintetiza uma visão de mundo e esse ponto de vista narrativo que você institui quando escreve recebe ecos poderosos do meio-ambiente cultural. Eu queria, então, levantar de onde haviam vindo as ideias do romance O Terrorista Lírico ou dos contos de A Cidade Inventada, e fui lá buscar uma arqueologia do ideário que eu estava tentando imitar ou recriar. O escritor começa como leitor, você lê algumas coisas e em algum momento você decide: eu posso fazer parte desse universo. Os primeiros textos naturalmente são imitações, você vai pegar o que você leu por aí até descobrir a própria voz. Você vai se transformando como pessoa e sua literatura também vai se transformando.

ZH – Em O Espírito da Prosa o senhor fala que O Filho Eterno é um livro diverso do que vinha fazendo antes. Passados cinco anos e três livros, O Filho Eterno é uma obra que deixou de assombrá-lo?
Tezza – O Espírito da Prosa
é irmão gêmeo de O Filho Eterno. O Filho Eterno tem uma estrutura de ficção, é um romance estritamente sobre a relação entre pai e filho. Mas ficou um miolo ali que eu queria complementar, que era a fase anterior. Tanto que O Espírito da Prosa não toca em momento algum sobre aquela época reinventada n’O Filho Eterno. Ele para bem ali em 1980 e eu só falei de família no momento em que era relevante para entender o que houve comigo como escritor. Esse O Espírito da Prosa é um acerto de contas: uma volta objetiva na minha formação. E, claro, o domínio de linguagem que eu obtive com O Filho Eterno me ajudou muito no Espírito da Prosa, me livrou uma série de coisas. Mas também teve outra influência para esse O Espírito da Prosa que eu não havia pensado no início: o fato de que já há quatro anos estou escrevendo, pela primeira vez na vida, uma crônica semanal em um jornal daqui, A Gazeta do Povo. Eu nunca havia escrito para jornal, nunca havia tido essa experiência periódica de colunista da página 3 – a cada terça-feira eu tenho uma coluna de 2.8 mil toques. Essa experiência de jornal para mim foi fundamental para eu me liberar com a linguagem para escrever um texto como O Espírito da Prosa, no qual você assume pontos de vista, você faz um texto assertivo, você sai do mundo de composição da ficção, em que tudo é refratado, é um outro que fala, para aquela fala direta e objetiva sobre os fatos na vida e no mundo. Então essa experiência  de cronista tardio – eu só entrei para jornal depois dos 55 anos – me ajudou a escrever o ensaio. Foi uma das influências do ponto de vista formal, de linguagem, para eu me livrar dos cacoetes acadêmicos.

ZH – O senhor aborda questões ainda em debate na academia, sobre literatura e teoria literária, mas em um texto que busca ser inteligível por um público mais amplo.
Tezza –
Exatamente, uma linguagem de jornal, que um leitor qualquer possa ler sem precisar de notas de rodapé, referências, e almejando um leitor: não era um livro acadêmico, tinha de manter o leitor em mente o tempo todo. Esse é um livro arriscado.

ZH – É um livro arriscado em mais de um sentido, uma vez que o senhor fala de si mesmo, de sua própria experiência, da academia, de teoria literária, de literatura, com uma linguagem que não mastiga demais mas também não tem o léxico da academia. É um livro que pode ser elogiado, admirado e, por outro lado, criticado – e com os mesmos argumentos, não acha?
Tezza –
Sim, é possível. É verdade, eu abri todos os flancos ali. É uma conversa sobre literatura para leitores letrados. Não tive o medo de trabalhar com breves sugestões, de colocar no texto uma visão de conjunto e intuições que eu tenho e que eventualmente não estão bem formuladas aqui e ali. Agora, o eixo do texto, o meu ponto de vista sobre a literatura, está presente da primeira à última página: a questão central da importância da experiência pessoal da literatura. A questão formal é importante mas ela não pode esgotar a literatura.

Envie seu Comentário