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Encarando a Granta - parte final

14 de agosto de 2012 0

Chegamos ao fim da empreitada – ao menos EU cheguei – sem ter a menor ideia do critério utlizado para dispor os escritores nas páginas do volume da Granta dedicado aos 20 jovens autores brasileiros. Via mensagem privada no Facebook, um leitor deste blog (que terá sua identidade preservada justamente por ter declarado que não queria ser exposto), arriscou uma hipótese: “Arrisco um palpite: como o do Michel Laub tem sido considerado o melhor por muita gente (eu prefiro o da Laura Erber, que é justamente o segundo, e isso só confirma a minha tese) e o da Tatiana Salem Levy é unanimemente considerado o pior, me parece que foi a ordem classificatória mesmo“.

Pois é, é uma hipótese a se considerar, mas creio que é inválida por dois motivos: pelo alto grau de subjetividade de uma seleção como essa. Se a classificação fosse elaborada por mim, por exemplo, o conto de Luisa Geisler estaria mais para trás, o do Leandro Sarmatz viria mais para frente, e o do Vinícius Jatobá, como veremos neste último episódio da série, teria de ser um dos primeiros. Acho que a coisa foi mais na base do sorteio, mesmo, e não se pode dizer que não houve precedentes. fui consultar o número 7 da revista (a do Inverno de 2011, dedicado aos Melhores Jovens Escritores em Espanhol), e vi que a ordem era tão aleatória quanto – o que por si só já estabeleceria um padrão e tranquilizaria minha porção aristotélica obsessivo-compulsiva se o primeiro número da revista no Brasil (a da Primavera de 2007, com Os Melhores Jovens Escritores Norte-Americanos) não tivesse distribuido os escolhidos por ordem alfabética de sobrenome. Vou, então, tomar a decisão mais sábia: desistir de entender a ordem dos contos e voltar à leitura deles.

Agradeço a quem leu até aqui tanto este post quanto os demais, provando que o assunto poderia ser discutido para além das pressões do noticiário diário e sua presa ávida de fatos do dia – a coletânea já saiu faz um mês, a Flip já acabou faz tempo, etc… Este último post também demorou porque confesso que este último bloco, justamente por ser o último, foi aquele no qual tive mais dificuldades para dizer qualquer coisa sobre os textos – dos quatro, três não me impressionaram em quase nada, e não diferiam tanto assim dos demais sobre os quais já havia apontado outras ressalvas. Mas, por questão de justiça não podia encurtar demais as resenhas. Vamos, então, sem mais delongas, aos últimos textos desta Granta:

Fragmento de um Romance, de Carola Saavedra
O título deste texto pode ser lido de duas formas: a história é um pedaço de um romance, uma narrativa romanesca que a autora de Toda Terça e Flores Azuis está escrevendo, e é também um fragmento de um romance, um entrecho de uma aproximação romântica entre os dois personagens principais.  Uma jovem de nome Lena atende um pedido de sua irmã, Maike, para que recepcione um escritor estrangeiro que vai ficar alguns dias hospedado no apartamento dela (dela Maike). A moça vai, contrariada, entregar a chave para o visitante e lá encontra um rapaz bonito que em nada se parece com a imagem que ela faz de um escritor: “Por algum motivo, na minha cabeça um escritor era um homem de meia-idade, muito magro e com fundas olheiras contornando o olhos. E óculos. Escritores usavam óculos. Nisso ele se adequava ao escritor da minha imaginação, mas era só.
Quando ambos se conhecem parece haver uma atração mútua. Ela entrega as chaves, apresenta o apartamento e, quando está para sair, ele a convida para tomar alguma coisa em algum lugar próximo. Já que ela apresentou o apartamento, poderia apresentar parte da cidade. Ela aceita. Ambos começam uma longa conversa pontuada de subentendidos e despontuada gramaticalmente: Saavedra não marca com sinais gráficos as separações entre quem está falando o quê, mas como o diálogo é o de duas pessoas que acabaram de se conhecer, e, portanto, breve e entrecortado, a autora consegue manejar a conversa tecnicamente sem que o leitor se perca.  Lena é hostess em um restaurante, profissão que a irmã deplora. Também parece alguém sem muita certeza do que quer da vida. O escritor ainda não teve livros traduzidos no país da protagonista (em momento algum é dito em que país ambos estão, mas os nomes das duas irmãs e o frio que faz na rua quando ambos saem sugere um lugar qualquer da Europa), e por aí vai. No final, instala-se uma dúvida quanto ao que a protagonista narrou até ali ao homem que acabou de conhecer – algo que provavelmente será desenvolvido quando a narrativa ganhar corpo, mas me deixou curioso pelo resto, se é que haverá resto e este não é um conto que se encerra assim mesmo.
Talvez meu maior problema com o texto seja sua indeterminação, não apenas geográfica, mas narrativa. Tudo é neutro e bem escrito, mas por demais artificial, um registro que, embora ágil e até leve em alguns momentos, não parece levar a lugar algum nem permite que os personagens elevem-se acima de um retrato caricatural.

Violeta, de Miguel del Castillo
Há pontos de contato flagrantes entre este conto e o de Julián Fuks – são ambos visões dos anos de chumbo na América Latina recuperadas pelo ponto de vista de descendentes dos perseguidos políticos, como parecem ser os próprios autores. Na tradição com conto que dribla seu leitor começando a falar de uma coisa para que depois se perceba que o centro da narrativa é outro, o narrador em primeira pessoa começa a recordar um primo de seu pai chamado Miguel Angel, desaparecido durante o período das ditaduras militares do continente, nos anos 1970. “Meu nome de batismo, portanto, é uma homenagem“, diz o texto a certo momento, borrando deliberadamente as fronteiras entre o autor e o narrador. À medida que a narrativa avança, percebe-se que o centro não é o desaparecido Miguel, e sim sua mãe, Violeta, que primeiramente se lança a uma busca desesperada pelo filho e mais tarde vai morar com a irmã, avó do narrador, até sumir-se em um asilo, vitimada pelo Alzheimer. Permeando esse fio condutor, há as relações do narrador com essa história familiar, a noção de que o pai do narrador, primo do desaparecido, sentia vergonha por estudar em um colégio militar enquanto o irmão sonhava uma revolução. Talvez por lidar com questões de memória seja intencional que o narrador se perca com relação ao fato principal, o desaparecimento de Miguel. Diz ele no primeiro parágrafo:
Miguel Angel foi um dos primos do meu pai, tupamaro, que desapareceu na ditadura uruguaia
Depois, ao esmiuçar esse desaparecimento, o narrador conta que Miguel…:
No Chile, tornou-se chofer da embaixada da Finlândia e extraditava uruguaios com a ajuda da namorada finlandesa, a ditadura também por lá, imagino que foi por isso que se refugiou na Argentina, o Partido por la Victoria del Pueblo, a prisão. Dias depois, seria colocado no segundo voo da morte: todos os presos políticos dentro do avião, a rampa de lançamento abrindo e logo todos no ar girando…
Pra mim, pelo menos, ficou no ar em qual das ditaduras afinal o rapaz desapareceu, se no Uruguai ou na Argentina. Pode ser que o autor tenha se passado, ou pode ser um erro do narrador imaginado intencionalmente pelo escritor, uma vez que pare da narrativa é estruturada em um pastiche de António Lobo Antunes: frases e diálogos fora do tempo da narrativa que irrompem no meio do narrado, fazendo a memória invadir o conto. É um procedimento que Antunes transformou em estilo de mestre em livros como Ontem Não Te Vi em Babilónia ou Eu Hei de Amar uma Pedra, mas que me parece deslocado neste texto de Miguel del Castillo, uma vez que a narrativa não se sustenta com esse artifício em toda a sua extensão, e sim apenas em seus capítulos centrais, tornando o conjunto algo desconjuntado, apesar de bem escrito.

Natureza-Morta, de Vinícius Jatobá
Antes mesmo de chegar a este conto, já havia lido manifestações quase unânimes de que este texto de Jatobá, de quem não havia lido nada ainda na seara da ficção, era uma das grandes surpresas do volume. Ao lê-l0, entendi por quê. Natureza-morta começa, como entrega o título, com sua referência a um gênero de representação pictórica de coisas inanimadas, com uma descrição de uma casa abandonada e já em ruínas:
“Vês a casa e seu tempo, a casa, e apenas ela, embora ainda existam teus segredos e teus medos e silêncios trancados na opacidade mineral das portas fechadas e das janelas travadas, teus medos e silêncios implorando por uma fresta para que escapem de seu inverno que se promete eterno e abandonem o rumor grave da acumulação cerrada a que estão cativos sem seus donos e vês, vês a casa, não fujas nem ignores…”
Interrompo a transcrição aqui, porque a descrição prossegue, sem pontos finais, por mais meia página, quando então começa o outro eixo que estrutura este conto: uma narrativa em primeira pessoa – que também não fará uso de ponto final. Jatobá alterna as descrições da casa, estática, morta, inanimada, pronta para ser demolida, com as vozes em primeira pessoa de seus antigos habitantes: uma mãe, Vera; um pai, Paulo; e um filho, Pedro. Vera, costureira, economiza com seu trabalho até o casal comprar um terreno onde será construída a casa. Paulo é um guarda civil que mais tarde passa a policial e quase põe a unidade familiar a perder com infidelidade conjugal. Pedro cresce e toma como esposa uma mulher que a mãe desaprova. A cada alternância de pontos de vista entre os personagens, mais um detalhe da casa abandonada vai sendo adicionado para marcar a transição da narrativa – uma estrutura que a partir de determinado  ponto parece mais atrapalhar do que ajudar, uma vez que as vozes crescem em complexidade e qualidade à medida que o conto avança, e as descrições parecem mais truncar o leitura do que contribuir para ela. Ainda assim, em termos formais, o conto de Jatobá é um dos que mais ousam no volume (embora uma ousadia derivativa, uma vez que Faulkner é uma presença perceptível).  A construção textual é marcante e precisa – com exceção do início, quando ele usa duas vezes em contextos muito próximos, na mesma página, o adjetivo “mineral” – a primeira foi no trecho que vocês leram ali em cima. Depois, logo no início da fala de Vera, a primeira personagem com voz no conto, que declara: “Paulo apenas me observava, calado, altivo, mineral, orgulhoso”. Repetição de termos tão exóticos tão próximos sempre é uma quebra na fluência da leitura, e neste caso a fluência é importante. Ainda assim, é um conto muito bem construído e tem a vertigem que é marca dos bons exemplares do gênero.

O Rio Sua, de Tatiana Salem Levy
Admiro a obra de Tatiana Salem Levy – como já escrevi em uma resenha para A Chave de Casa, aqui. Não sei, contudo, o que pensar deste conto que parece mais um exercício para coisas que ela queria tratar em seu romance anterior, Dois Rios, do que uma obra autônoma e relevante. Uma jovem brasileira abandona o homem com quem mantinha uma relação, na Europa, e regressa ao Rio de Janeiro alguns dias antes do Ano Novo. Não parece haver um propósito definido, apenas uma “sede de redescoberta”. O fato é que ao trocar o cinza europeu pelo calor do Rio, a protagonista toma uma decisão que poderia ser temporária mas se revela definitiva. É um conto fragmentário: a protagonista narar sua volta ao Brasil, depois pula para o momento em que decidiu voltar, fala dos telefonemas difíceis e cada vez mais constrangedores trocados entre ela e o homem que ainda pensa ser seu namorado na  Europa, relata o reencontro com a cidade e intercala aforismos que tentam explicar a “natureza do carioca”. O problema é que, se pode-se acompanhar a história da jovem, seu reencontro com o Rio e seu desencontro com o amante europeu com algum interesse, o material paralelo é repleto dos chavões mais disseminados até para mim, que não sou carioca e nem conheço o Rio tão bem assim:
“Antes do despencar das águas, o Rio pulula, as pessoas fogem em desespero, os pássaros debandam em alvoroço, as baratas deslizam, frenéticas, os micos saltam de galho em galho, todos em busca de um abrigo, um teto qualquer. A cidade palpita de uma hora para outra quando a umidade alcança um nível insustentável, quando se saber que o clima quente, pesado e pegajoso vai desmanchar num temporal. E se, por sorte, você estiver num ambiente seguro, logo verá a força da natureza se impondo, soberana, lembrando-nos o quanto somos frágeis e passageiros“.
Ou ainda:
Teoria para a alegria carioca I: o suor lubrifica os músculos, faz-nos mover” – sobre isso em particular: se o suor fosse o segredo da alegria, você veria as pessoas mais alegres do universo no verão de Porto Alegre, quando o que ocorre é exatamente o contrário.
A jovem esteve uma vez no Rio com o homem que havia deixado na Europa. Ele se entusiasmara pelo lugar, enquanto ela, conhecedora do cenário, mirava tudo com certa má vontade. Até aceitando a paixão aventureira dele mas impondo o limite de jamais gostar do Carnaval. Pois é no Carnaval que ela se dá conta que sua relação com o antigo amante acabou, quando se vê diluída na massa amorfa da multidão:
O pânico começa a se instaurar e penso nos corpos organizados do outro lado do Atlântico, até que o ar falta ao cérebro, amolecendo os membros, e dou permissão ao meu corpo para fazer parte de uma massa anônima e se misturar a outros corpos até achar um que de fato lhe apeteça.”
Talvez esteja aí o grande problema do conto: a forma ingênua como revisita a batida dicotomia entre razão e paixão, entre consciência e corpo, relacionando-a respectivamente ao modo de ser europeu e carioca:
“Hoje, comparando um lugar ao outro, eu diria: a verdade nem sempre está nas palavras, mas o corpo nunca mente”.
Mesmo que o conto de João Paulo Cuenca incluído neste volume seja flagrantemente inferior no quesito da ourivesaria de linguagem, sua visão raivosa do Rio parece apresentar aqui e ali vislumbres de maior originalidade em comparação com este texto que tenta fazer o elogio da cidade mas não se afasta dos clichês.

Leia também:

>>> Encarando a Granta – parte 1

>>> Encarando a Granta – parte 2

>>> Encarando a Granta – parte 3

>>> Encarando a Granta – parte 4

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