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Vamos descongelar os subzeros

15 de agosto de 2012 0

Antes mesmo do lançamento oficial da Granta, Geração Subzero, uma coletânea de autores “congelados pela crítica mas adorados pelos leitores” foi impressa (ao menos é essa a definição que o livro traz no subtítulo impresso em sua capa). Em um lance inteligente de marketing, a obra se apresentava desde o ensaio de seu organizador, Felipe Pena, como uma resposta provocadora ao que a Granta e outras tentativas de hierarquização do ambiente literário contemporâneo representavam: os autores também são em número de 20, como na seleção da revista estrangeira, e o título é uma referência direta à Geração Zero Zero organizada no ano passado por Nelson de Oliveira.

O ensaio introdutório do organizador Felipe Pena é um combatente armado disparando generalidades para mais de um lado e enchendo-se de ressalvas a cada linha como autodefesa, senão vejamos: “É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico”. Mais adiante, Pena até enumera os autores contemporâneos que, segundo ele, buscam “uma história bem-contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor“. A definição entre aspas é tomada emprestada por Pena de uma entrevista do escritor Rodrigo Lacerda. Quando enumera os autores que seguem essa estratégia, Pena lista o próprio Lacerda, Fernando Molica, Tatiana Salem Levy, Homero Senna, Edney Silvestre, Bernardo Carvalho, Cristóvão Tezza, Livia Garcia-Roza e Sérgio Rodrigues.

Nada a objetar, concordo com ele, e incluiria ainda outros como Michel Laub, Daniel Galera, Carol Bensimon, Max Mallmann. Miguel Sanches Neto, Alexandre Plosk, Paulo Scott, entre outros (falo do Scott narrador, não do poeta). O que me faz desconfiar de sua primeira afirmação, quando com essa lista cobrimos boa parte dos autores de interesse no momento e ainda deixamos muita gente de fora, por esquecimento. Quem são, portanto, esses que formam a “grande parte da nossa ficção”? Pena não diz. Esse é o primeiro ponto problemático de seu ensaio, que diz não pretender “desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e, às vezes, justos) pelos cadernos de cultura do país”. A afirmativa é retórica, como o tom depreciativo da sentença deixa claro, e aí seria melhor e mais apropriado dar nome aos bois de uma vez.

Levando a questão da literatura brasileira ensimesmada como parâmetro a não seguir, ele aponta um preconceito da crítica (que existe, já começamos concordando) com a literatura de entretenimento, para a qual a coletânea organizada por ele é um veículo: “O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento. Mais adiante ele define os termos: “Em literatura, entretenimento é sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo. // É esse o conceito de entretenimento que defendo para a ficção brasileira. Tenho a impressão de que todas as outras artes já o utilizam desta forma, mas a literatura ainda parece padecer da velha dicotomia entre o erudito e o popular“.

Chegamos ao ponto relativamente válido do ensaio, e que poderia ter sido abordado na origem, nos poupando de umas três páginas de ataque à crítica, à academia, à literatura brasileira, etc, etc. Curiosamente, ao fazer uma defesa tão eloquente do entretenimento, Pena prefere citar nomes estrangeiros como Nick Hornby e David Sedaris sem nunca mencionar, por exemplo, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Tony Bellotto ou Tabajara Ruas, cultores do policial e da ficção de pegada pulp, ou Luis Fernando Verissimo, cronista de leitura em todo Brasil. Ou melhor, a citação a Hornby e a Sedaris é do escritor João Ximenes Braga, mas Pena concorda com ela. Mas o que o organizador do livro pretende é um espaço para o reconhecimento crítico da literatura de entretenimento (é o que está expresso na oposição “crítica-leitores” do subtítulo, apesar dos ataques ao pedantismo acadêmico e à insistência no ponto de que essa literatura é amada pelo público). Bueno, pretendo fazer minha parte nesse processo repetindo aqui com a Geração Subzero a experiência que fizemos com a Granta: uma série de resenhas em bloco, texto a texto, dos 20 contos do livro. E vamos ler o livro de acordo com seus próprios pressupostos. Os contos ali incluídos são obras que têm como prioridade declarada o entretenimento. Então os leremos assim, mas lembrando que mesmo o entretenimento tem regras: uma das principais delas o domínio técnico. Cinema de entretenimento é cinema tecnicamente superior, muitas vezes, a filmes de arte feitos na raça. Um show de Ivete Sangalo ou de Daniel tem produção mais vistosa e mais esmero em luz e movimento do que João Gilberto com um banquinho no meio do palco, para usar como exemplo as “outras artes” que Pena evoca.

Vamos só fazer diferente desta vez: eu não teria paciência para outros cinco blocos de textos com quatro resenhas. Vamos fazer quatro capítulos com cinco contos analisados em cada um. Os autores reunidos na coletânea são Juva Batella, Pedro Drummond, André Vianco, Thalita Rebouças, Eduardo Spohr, Luiz Bras, Luiz Eduardo Matta, Sérgio Pereira Couto, Estêvão Ribeiro, Raphael Draccon, Ana Cristina Rodrigues, Julio Rocha, Helena Gomes, Carolina Munhoz, Vera Carvalho Assumpção, Martha Argel, Janda Montenegro, Delfin, Eric Novello e Cirilo S. Lemos

Stay tuned.

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