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Italo Moriconi fala sobre a reedição de Mario Quintana

21 de agosto de 2012 0

O professor e poeta Italo Moriconi. Foto: Divulgação, Editora Objetiva

Crítico, professor da pós-graduação em letras na UERJ e ele próprio poeta, o carioca Italo Moriconi é o responsável pela nova edição da obra completa de Quintana, que marca a mudança do poeta para uma nova editora depois de décadas na editora Globo. A edição começa com a publicação de Canções, seguido de Sapato Florido e a Rua dos Cataventos; Apontamentos de História Sobrenatural e A Vaca e o Hipogrifo. Por telefone, do Rio de Janeiro, Moriconi concedeu a seguinte entrevista, na qual fala de seus critérios para a organização da obra, do papel de Quintana como poeta e das diferenças entre seu projeto e o da organizadora da republicação anterior, a professora Tânia Carvalhal.

Zero Hora – O senhor começa a republicação da obra integral de Quintana sem uma ordem cronológica, com três livros do início da carreira, condensados em um único volume (A Rua dos Cataventos, Canções e Sapato Florido) e dois outros livros dos anos 1970 (Apontamentos de História Sobrenatural e A Vaca e o Hipogrifo). Por que esta opção?
Italo Moriconi – O objetivo foi dar uma organização que chamasse a atenção para diferentes livros, para não ficarmos na sequência aparentemente lógica, que seria a cronológica, tentando dar uma visibilidade nova para os diversos livros do Quintana. Vamos fazer um jogo de colocar os livros iniciais com obras publicadas em um momento posterior da carreira dele para fazer um contraste. Sendo que um dos objetivos disso também foi valorizar a parte final da obra do Quintana do ponto de vista crítico. Creio que há uma necessidade de maior visibilidade dessa consistência poética dos últimos livros do Quintana.

ZH – Na apresentação de  Apontamentos de História Sobrenatural, Quintana já dizia que o próprio lançamento de seus livros seguira um plano que não era o da escrita do material. Também afirma: “O fato é que nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo”. O senhor concorda?
Moriconi –
Por um lado ele tem razão nisso: porque o estético cria uma equivalência atemporal entre os objetos. Então, uma obra completa de um autor, Shakespeare ou outro grande escritor, não interessa se um livro foi escrito no iníci ou no fim da vida, o que interessa é que são bons. Claro que se você for fazer um estudo biográfico da evolução da obra, a cronologia importa muito, mas do ponto de vista da leitura e da fruição, nem tanto. Agora, com relação a essa afirmativa do Quintana, a gente pode questioná-la. Esse destaque às obras finais do Quintana vai mostrar que ele teve sim uma certa evolução dentro de um parâmetro invariável, que é o do lirismo. Ele evoluiu como poeta, tanto na temática quanto na forma.

ZH – Já foi dito que o fato de Quintana ter se tornado um poeta imensamente popular possa ter afetado a recepção crítica de sua obra. O senhor concorda?
Moriconi –
Na verdade não. Porque a fortuna crítica de Quintana é vasta, ele sempre tem sido estudado na universidade. Talvez em alguns setores da crítica mais de Rio e São Paulo, mais ligados à herança concrecista e vanguardista, possa haver um desprezo crítico ao Quintana. Mas, se você for ver ali na realidade das coisas, ele sempre teve repercussão crítica. Inclusive Drummond escreveu sobre ele, ele sempre teve grande prestígio entre os grandes poetas brasileiros, foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras. Nos últimos anos, até porque ele faleceu já há 20 anos, com 80 de idade, houve um pequeno decréscimo, que acho que vai ser revertido com essa nova edição.

ZH – O senhor retomou questões de fixação de texto ou de versões?
Moriconi –
Quanto a isso não, porque a obra do Quintana já está muito bem mapeada, muito bem cuidada pela Elena Quintana. E ele já teve outras edições de obras completas antes. Não foi necessário um tabalho de arquivo maior.

ZH – E como o senhor diferencia o trabalho desta nova edição da obra completa daquele que havia sido feito na década passada pela professora Tânia Franco Carvalhal, que organizou a republicação dos livros de Quintana pela Globo e a edição integral da obra em um volume pela Nova Aguillar?
Moriconi –
A edição da Nova Aguillar é mais voltada para especialistas, porque é tudo em um livro só, com a fortuna crítica, então ela serviu de referência muito importante para mim. Sou um grande admirador do trabalho da professora Tânia Carvalhal, sou da geração que entrou para a associação de literatura comparada criada por ela e outros professores. Então eu considero que meu trabalho é uma continuidade, na qual estou bebendo nas águas de Tânia Carvalhal. Já a edição da Globo foi competente a seu tempo, mas agora estamos com a Alfaguara e pretendemos estar à altura das edições anteriores.

ZH – A simplicidade e a facilidade com que Quintana se comunicava com o público são apontadas pelo senhor como fundamentais para explicar a sua importância no sistema literário, como um autor que apaixona o leitor.
Moriconi –
Esse é um atributo dos grandes líricos. Você vê Gonçalves Dias, Olavo Bilac, são poetas que vêm de uma intuição popular e voltam a ela. O Quintana é mais um dessa tradição. Ele é um grande formador de leitor.

ZH – A lírica oscila em uma lâmina entre o sentimentalismo e a estética. O senhor acredita que o olhar da criança na poesia de Quintana tenha sido o ponto de equilíbrio para essa tensão?
Moriconi -
Isso mesmo. Ele olha para o mundo como se o estivesse vendo pela primeira vez, e essa é uma grande força da lírica do Quintana, esse olhar fresco sobre as coisas do mundo. E toda vez que a gente lê um poema dele, a gente recupera essa sensação. A força da poesia dele vem daí: ele permite essa experiência de uma visão primeira, e de uma primeira reflexão, quando você começa a pensar no tempo, na passagem do tempo, na morte, no como existe um elemento bonito e ao mesmo tempo melancólico nessa fugacidade do tempo, como as cidades e as vidas mudam… E ele coloca aqui como se fosse a primeira vez que estivesse tendo aquela revelação, tem algo de epinafia nos poemas. Isso é o que dá força aos grandes líricos, o lírico em “tom menor”, digamos, como o Bandeira dizia de si próprio que era um “poeta menor”: o lírico que fala diretamente a uma percepção muito imediata do que está em volta.

ZH – Essa concepção de “poeta menor”, contudo, foi usada algumas vezes como depreciativa em comparação a um grande metafísico como Drummond, por exemplo.
Moriconi –
Mas ela é muito importante, porque o “menor” aqui é como o tom menor em música. O “menor” não é geométrico ou matemático. E o tom menor é o tom de intimidade, e essa é outra força grande da poesia do Quintana, ele fala a partir de um território de intimidade absoluta.

ZH – Quintana foi um cantor de Porto Alegre, mas sua obra parece ter transcendido o regional e encontrado ressonância fora daqui. 
Moriconi –
Sim, porque o regional dele tem um fator universal. Na poesia dele, Porto Alegre já não é mais Porto Alegre, é Província, com “P” maiúsculo, pode ser na Alemanha, pode ser na Bolívia, pode ser em Singapura. Desde o início o regionalismo do Quintana não tem nada de regional.

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