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Nelson, centenário além do óbvio ululante

23 de agosto de 2012 0

Nelson Rodrigues, cujo nascimento completa 100 anos hoje. Foto: Banco de Dados

Faça como Olegário, o marido obsessivamente desconfiado da peça A Mulher sem Pecado, e questione muito do que já ouviu a respeito de Nelson Rodrigues. Para marcar o centenário de nascimento do maior dramaturgo moderno brasileiro, celebrado hoje, pesquisadores e encenadores desfazem mitificações e revelam novos aspectos de sua obra, que reúne 17 peças de teatro, além de contos, romances, crônicas (ou ensaios) e textos publicados em livro postumamente. É um sinal de que os discursos críticos sobre Nelson, aos poucos, deixam de ser o óbvio ululante – para usar uma de suas mais célebres expressões – que se tornaram há tempos: seria irônico demais para o sujeito que disse que toda unanimidade é burra. Aos poucos, descortina-se um Nelson além do reacionário, moralista ou simplesmente tarado, como já foi chamado.

Sim, foi uma revolução sem precedentes no teatro.Mas não é correto acreditar que o palco apareceu para Nelson como uma inspiração desvinculada de seu tempo. A inovação deve ser entendida, em parte, pelo diálogo com as comédias de costume de grande apelo popular no Rio de Janeiro das décadas de 1930 e 40,as quais Nelson conhecia bem.“Isto eu confesso”, declarou em uma entrevista em 1967, citando nomes hoje praticamente esquecidos do público.“Eu tinha ódio do Joracy Camargo, por causa do sucesso de Deus lhe Pague, ódio do Raimundo Magalhães Jr.,por causa do Carlota Joaquina, tudo anterior a mim. Mas não importa, eu incluía o passado no meu presente, no meu ressentimento. Qualquer sujeito que tivesse, quisesse ter ou tivesse tido algum êxito teatral dava-me uma irritação de extrema malignidade, não perdoava”. O depoimento está reproduzido no livro Nelson Rodrigues por Ele Mesmo (Nova Fronteira), organizado pela filha Sonia Rodrigues e lançado este ano.

Tania Brandão, crítica de teatro e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), afirma que os paralelos com modernos e revolucionários como o americano Eugene O’Neill (1888 – 1953) e o italiano Luigi Pirandello (1867 – 1936) têm sido suficientemente explorados. É preciso, segundo ela, situar Nelson no teatro nacional.

– Tradicionalmente se parte da ideia de que ele zerou a dramaturgia brasileira, que liquidou o passado e se impôs com violência contra um teatro de sala de visitas, de sentimentalismo barato – explica. – Pode surgir uma nova luz se lembrarmos das comédias açucaradas, feitas para as famílias, e percebermos como Nelson as subverte. A Madame
Clessi
, de Vestido de Noiva, tem uma função dramática que se aproxima da dama galante, um dos tipos das comédias da época. Só que ele a caracteriza como uma prostituta.

É difícil apontar culpados. Nelson foi o maior ficcionista de sua vida (“Eu fiz cinicamente a minha falsa biografia”). Várias de suas boutades foram levadas a sério por leitores com menos presença de espírito, e muito do que merecia atenção foi tomado como galhofa. Ao contrário do que ainda se acredita, ele não leu pouca dramaturgia, tampouco era distante das salas de espetáculo. Um Inimigo do Povo, de Ibsen, foi uma das “mais deslumbrantes experiências vitais”, assim como a Electra de O’Neill.“Depois disso então, por uma questão de decoro pessoal”, declarou, “passei a ler muito teatro”. Veio Shakespeare. Fora da dramaturgia, Dostoiévski o impressionava sobremaneira.

Tema de pesquisa de uma vasta produção bibliográfica nas áreas de teatro, literatura e, cada vez mais, antropologia, sociologia e história, a obra de Nelson ainda tem flancos a serem preenchidos, como lembra Alexandre Pianelli Godoy, historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp):

– Há poucas abordagens sobre as encenações das peças teatrais e seus significados históricos. É um trabalho ainda a ser feito, bem como sobre o repertório de leituras de Nelson Rodrigues – aponta o pesquisador, que publicará, ainda este ano, o livro Nelson Rodrigues – O Fracasso do Moderno no Brasil (Alameda/Fapesp).

Godoy defende que é preciso compreender a mitologia criada pelo autor em torno de si como parte, e não como explicação da obra:

– Outra confusão é estabelecer uma relação direta e um pouco “chapada” entre as tragédias familiares pelas quais passou e sua produção teatral e jornalística. Seu repertório “trágico” vinha certamente do trabalho com o jornalismo policial exercido desde de muito jovem no jornal de seu pai, entre os anos 1920 e 1930, no Rio de Janeiro. É legítimo estabelecer paralelismos entre vida e obra, mas, na maioria das vezes, tende a empobrecer e comprometer a análise estética e histórica.

E que vida, diga-se: nasceu no Recife, quinto dos 15 filhos que o deputado e jornalista Mário Rodrigues e Maria Esther Falcão teriam. Aos quatro, mudou-se com a família para o Rio. Com 13, começou a trabalhar como repórter policial. Aos 17, viu um irmão, Roberto, ser assassinado em plena redação. Outro, Paulo, morreu com a mulher e os filhos no desabamento de um prédio em 1966. Antes, em 1963, a filha Daniela nasceu cega, fato marcante na vida do  dramaturgo e escritor. Outro de seus filhos, batizado com o nome do pai, foi preso e torturado durante a ditadura militar, mesmo que Nelson tivesse relação pessoal com o general Médici.

A trajetória no teatro foi duradoura: a primeira peça, A Mulher sem Pecado, estreou em dezembro de 1942; a última, A Serpente, em março de 1980, ano de sua morte, em 21 de dezembro. Textos como Anjo Negro e Senhora dos Afogados foram proibidos em 1948. Foi em 1951 que começou a publicar no jornal Última Hora a coluna A Vida como Ela É... Mais uma vez, despistava – com o título irônico – os leitores apressados: nada é menos realista do que sua ficção. A coloquialidade da dicção dos personagens no teatro contribuía para a falsa impressão.

– É uma linguagem à frente do seu tempo porque não se fecha em um estilo realista, psicológico. Tem uma força poética, teatral muito forte. Os diálogos são construídos da forma mais coloquial possível, mas não buscam reproduzir a realidade – afirma Angela Leite Lopes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tradutora de Nelson Rodrigues para o francês. – São os novos artistas que estão trabalhando, no teatro, esse aspecto de maneira mais clara.

Assim, Nelson realizou a revolução. Estruturada em planos simultâneos, Vestido de Noiva desafiou as convenções teatrais em voga no país em 1943. Álbum de Família gerou escândalo com personagens incestuosos: foi escrita em 1945, proibida no ano seguinte e liberada apenas em 1965 (a estreia foi em 1967, no Rio). Seu teatro completo é uma sequência de clássicos do início ao fim. Mas ainda há o que ser redescoberto, afirma Luís Artur Nunes, diretor gaúcho radicado no Rio e em São Paulo:

– Vejo textos que são pouco montados. Me refiro mais especificamente a Viúva, Porém Honesta; Anti-Nelson Rodrigues e Perdoa-me por me Traíres. A desculpa frequentemente é que seriam textos menores. Não concordo. Acho que são textos que intimidam porque se articulam em chaves diferentes daquelas que encontramos no resto da obra. Jogam com a farsa, com a metalinguagem e com estruturas narrativas mais livres, desamarradas, quase anárquicas. E aí fica difícil de encontrar o tom adequado.

Sorte dos encenadores contemporâneos, que encontram um contexto mais apropriado do que nunca para se livrar das amarras das velhas convenções. Nada seria menos coerente do que ler Nelson Rodrigues com excesso de reverência.“Todas as vaias são boas, inclusive as más”, dizia ele.

Clóvis Massa, professor do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defende:

– O equívoco seria a pasteurização, ou seja, montar suas peças sempre da mesma forma. Hoje, não há a exigência de uma fidelidade. Os textos de qualquer autor podem ser subvertidos frente a uma encenação que coloca em tensão o que a dramaturgia propôs.

Entre os dualismos que marcaram a vida e a escrita de Nelson Rodrigues, ficou este: o reacionário era, na verdade, revolucionário.

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