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Cony, cães, máquinas de escrever e navios

28 de agosto de 2012 0

Carlos Heitor Cony na Feira do Livro de Joinville em 2006. Foto: Kátia Nascimento, AN

Trabalhei na TV Manchete em um período em que eles queriam fazer teledramaturgia. O diretor, então, me pediu que eu escrevesse uma novela. Eu não quis. Mas fiz algumas sinopses: Dona Beija (1986), Kananga do Japão (1989), Marquesa de Santos (1984). Eu dava as ideias e contratava os diretores. Contratei a Glória Perez, o Wilson Aguiar Filho (1941 – 1991)… Dava ideias, mas me recusava a escrever. Tinha preguiça. Mas a vida continua, tem um processo, uma dinâmica. O tempo foi passando, o casamento acabou e eu passei a amar cachorros. Eu detestava cachorros, mas depois acabei descobrindo neles uma porção de virtudes. Há um tempinho, fiz uma crônica na Folha de S. Paulo comparando o cão à máquina de escrever. O computador é o gato. Porque a máquina de escrever é fiel, como o cachorro. E o computador é independente, tem vida própria, como o gato. A máquina só faz o que você pede, já o computador apaga umas coisas, aparecem outras que você não quer. Aparece um Papai Noel tocando um sininho. Às vezes, eu estou fazendo uma coisa séria e vem aquele Papai Noel batendo o sininho. Quem botou aquele Papai Noel ali? Não sei, é vírus. Minha máquina de escrever nunca teve vírus. Envelheceu dignamente. Só que, por causa desse texto, recebi e-mails desaforados, dizendo que cachorros são poluidores e não servem para nada. E eu fiquei indignado porque, afinal de contas, amava a minha cachorra. Quando voltei a escrever, dediquei meu livro à minha cachorra. Comecei quando ela ficou doente. Eu estava começando a mexer com o computador. Eu queria dormir, mas a cachorra não me deixava. E eu ligava o computador. Mas, quando ela percebia que eu queria desligá-lo, começava a gemer. Aí eu tinha que ligar o computador de novo. Eu escrevia de tudo, passei a limpo uma porção de coisas e, de repente, não tinha mais nada para passar a limpo. Eu dormia de dia e cuidava da cachorrinha à noite, e foi aí que recomecei a escrever. Foi assim que saiu o romance. Quando ela morreu, botei o ponto final. Não escrevi uma linha a mais. O Ruy Castro, uma pessoa muito extrovertida, leu e disse que estava muito bom. Levou para o Luiz Schwarcz, (o editor) da Companhia das Letras, e ele editou o Quase Memória, que teve um bom retorno. Com o dinheiro que ganhei com essa primeira edição, tomei um navio – gosto muito de navios – e levei um notebook. Escrevi O Piano e a Orquestra (1996). Depois me descobri, novamente, num brinquedo. Mas tem uma coisa: não é que eu vá parar de repente. Agora eu não posso, porque tenho vários compromissos. Trabalho muito sob encomenda. Há uma verdadeira demonização de quem escreve sob encomenda. Mas a arte ocidental foi quase toda feita de encomenda. A arte grega, a Renascença. Mozart morreu fazendo uma missa fúnebre de encomenda. Os Sertões foi uma obra encomendada. Coelho Neto e Olavo Bilac escreveram muitos livros – inclusive pornográficos – de encomenda.

O trecho acima foi extraído da entrevista de Carlos Heitor Cony concedida a José Castello em novembro de 2002 e publicada no jornal literário Rascunho. A entrevista é uma das conversas com escritores reunidas em As Melhores Entrevistas do Rascunho – Volume 2, que a editora gaúcha Arquipélago Editorial lança na quinta-feira, dia 30 de agosto, às 19h, na livraria Palavraria (Vasco da Gama, 165, Bom Fim). O lançamento terá bate–papo entre Luís Henrique Pellanda, organizador da compilação de entrevistas, e Ivan Angelo, que vai autografar seu livro de crônicas Certos Homens, da mesma editora – a atividade comemora os seis anos da casa publicadora.

O primeiro volume de As Melhores Entrevistas do Rascunho, publicado em 2010, é um dos mais saborosos livros de entrevistas sobre literatura disponíveis no pedaço (leia resenha aqui), com autores relevantes da produção contemporânea discorrendo sobre suas motivações para escrever, sua concepção de arte e literatura, a visão de mundo que preside sua escrita.

Agora, sai a segunda compilação de grandes entrevistas com escritores brasileiras publicadas pelo Rascunho. Como no primeiro volume, são 15 os entrevistados desta segunda coletânea. Participam, além de Cony e do próprio Ruy Castro por ele citado no trech0, Adriana Lunardi, Affonso Romano de Sant’Anna, Ariano Suassuna, Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Marcelo Backes, Miguel Sanches Neto, Raimundo Carrero, Rodrigo Lacerda, Ronaldo Correia de Brito, Sérgio Rodrigues, Silviano Santiago e Vilma Arêas.

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