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Posts de agosto 2012

Venda casada

31 de agosto de 2012 0

Texto de Marcelo Perrone

É um pacote recorrente esse do veja o filme e leia o livro e vice-versa. A bola da vez é o filme francês Intocáveis, fenômeno de público em seus país (20 milhões de espectadores, a segunda maior audiência de um filme nacional em todos tempos), que repete o sucesso mundo afora – fez mais de 10 milhões de público em outros países da Europa e estreou recentemente nos EUA, tendo como maior divulgadora Madonna, que alugou um cinema para exibi-lo a amigos. A versão americana, lógico, já foi anunciada, com Colin Firth como protagonista.

O filme assinado por Olivier Nakache e Eric Toledano adapta O Segundo Suspiro, o livro de memórias de Phillippe Pozzo di Borgo, um milionário de linhagem aristocrática que ficou tetraplégico após um acidente de parapente em 1993. Phillippe narra sua relação de amizade com o argelino Abdel Sellou, ex-detento que se tornou seu cuidador, assistente e grande amigo, apesar das grande diferenças sociais e culturais entre eles. Você pode ler mais mais sobre o filme clicando aqui. Di Borgo lançou O Segundo Suspiro em 2001, relançado no embalo de Intocáveis – a edição com a providencial capa que reproduz o cartaz do filme é a que chegou ao Brasil, pela Intrínseca.

Agora chega às livrarias brasileiras, poucos meses depois de sair na França, Você Mudou a Minha Vida, da Record, versão da mesma história sob o ponto de vista de Sellou Di Borgo assina o prefácio. Até chegar lá, Sellou revela na primeiro metade do livro passagens de sua vida até o encontro com o milionário. Nascido em Argel, ele chegou com a família a Paris em 1975 e cresceu na periferia da cidade, flertando com a marginalidade, caminho que, por vias tortas, o levou ao encontro que mudou sua vida.

Cony, cães, máquinas de escrever e navios

28 de agosto de 2012 0

Carlos Heitor Cony na Feira do Livro de Joinville em 2006. Foto: Kátia Nascimento, AN

Trabalhei na TV Manchete em um período em que eles queriam fazer teledramaturgia. O diretor, então, me pediu que eu escrevesse uma novela. Eu não quis. Mas fiz algumas sinopses: Dona Beija (1986), Kananga do Japão (1989), Marquesa de Santos (1984). Eu dava as ideias e contratava os diretores. Contratei a Glória Perez, o Wilson Aguiar Filho (1941 – 1991)… Dava ideias, mas me recusava a escrever. Tinha preguiça. Mas a vida continua, tem um processo, uma dinâmica. O tempo foi passando, o casamento acabou e eu passei a amar cachorros. Eu detestava cachorros, mas depois acabei descobrindo neles uma porção de virtudes. Há um tempinho, fiz uma crônica na Folha de S. Paulo comparando o cão à máquina de escrever. O computador é o gato. Porque a máquina de escrever é fiel, como o cachorro. E o computador é independente, tem vida própria, como o gato. A máquina só faz o que você pede, já o computador apaga umas coisas, aparecem outras que você não quer. Aparece um Papai Noel tocando um sininho. Às vezes, eu estou fazendo uma coisa séria e vem aquele Papai Noel batendo o sininho. Quem botou aquele Papai Noel ali? Não sei, é vírus. Minha máquina de escrever nunca teve vírus. Envelheceu dignamente. Só que, por causa desse texto, recebi e-mails desaforados, dizendo que cachorros são poluidores e não servem para nada. E eu fiquei indignado porque, afinal de contas, amava a minha cachorra. Quando voltei a escrever, dediquei meu livro à minha cachorra. Comecei quando ela ficou doente. Eu estava começando a mexer com o computador. Eu queria dormir, mas a cachorra não me deixava. E eu ligava o computador. Mas, quando ela percebia que eu queria desligá-lo, começava a gemer. Aí eu tinha que ligar o computador de novo. Eu escrevia de tudo, passei a limpo uma porção de coisas e, de repente, não tinha mais nada para passar a limpo. Eu dormia de dia e cuidava da cachorrinha à noite, e foi aí que recomecei a escrever. Foi assim que saiu o romance. Quando ela morreu, botei o ponto final. Não escrevi uma linha a mais. O Ruy Castro, uma pessoa muito extrovertida, leu e disse que estava muito bom. Levou para o Luiz Schwarcz, (o editor) da Companhia das Letras, e ele editou o Quase Memória, que teve um bom retorno. Com o dinheiro que ganhei com essa primeira edição, tomei um navio – gosto muito de navios – e levei um notebook. Escrevi O Piano e a Orquestra (1996). Depois me descobri, novamente, num brinquedo. Mas tem uma coisa: não é que eu vá parar de repente. Agora eu não posso, porque tenho vários compromissos. Trabalho muito sob encomenda. Há uma verdadeira demonização de quem escreve sob encomenda. Mas a arte ocidental foi quase toda feita de encomenda. A arte grega, a Renascença. Mozart morreu fazendo uma missa fúnebre de encomenda. Os Sertões foi uma obra encomendada. Coelho Neto e Olavo Bilac escreveram muitos livros – inclusive pornográficos – de encomenda.

O trecho acima foi extraído da entrevista de Carlos Heitor Cony concedida a José Castello em novembro de 2002 e publicada no jornal literário Rascunho. A entrevista é uma das conversas com escritores reunidas em As Melhores Entrevistas do Rascunho – Volume 2, que a editora gaúcha Arquipélago Editorial lança na quinta-feira, dia 30 de agosto, às 19h, na livraria Palavraria (Vasco da Gama, 165, Bom Fim). O lançamento terá bate–papo entre Luís Henrique Pellanda, organizador da compilação de entrevistas, e Ivan Angelo, que vai autografar seu livro de crônicas Certos Homens, da mesma editora – a atividade comemora os seis anos da casa publicadora.

O primeiro volume de As Melhores Entrevistas do Rascunho, publicado em 2010, é um dos mais saborosos livros de entrevistas sobre literatura disponíveis no pedaço (leia resenha aqui), com autores relevantes da produção contemporânea discorrendo sobre suas motivações para escrever, sua concepção de arte e literatura, a visão de mundo que preside sua escrita.

Agora, sai a segunda compilação de grandes entrevistas com escritores brasileiras publicadas pelo Rascunho. Como no primeiro volume, são 15 os entrevistados desta segunda coletânea. Participam, além de Cony e do próprio Ruy Castro por ele citado no trech0, Adriana Lunardi, Affonso Romano de Sant’Anna, Ariano Suassuna, Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Marcelo Backes, Miguel Sanches Neto, Raimundo Carrero, Rodrigo Lacerda, Ronaldo Correia de Brito, Sérgio Rodrigues, Silviano Santiago e Vilma Arêas.

Poe em cenas de grotesco e arabesco

27 de agosto de 2012 0

Ilustração de Harry Clarke para edição de textos de Poe. Reprodução

Escritor que sabia como poucos criar imagens perturbadoras, Edgar Allan Poe inspirou, com seus contos, o trabalho de grandes ilustradores. Um deles foi o irlandês Harry Clarke, que produziu, para uma edição de contos de Poe, desenhos de grande impacto visual. É esse volume, intitulado Contos de Imaginação e Mistério, que está ganhando versão brasileira agora pela Tordesilhas (Tradução de Cássio Arantes Leite, 424 páginas, R$ 59,90). A bela edição é coroada pelas vinhetas produzidas entre 1917 e 1919 por Clarke (1889 – 1931).

Liderança irlandesa do movimento Arts & Crafts, que postulava atenção e cuidado às artes decorativas, Clarke trabalhou como ilustrador para edições de obras de Hans Christian Andersen e Charles Perrault. Seu trabalho com os contos de Poe (1809 – 1849) é considerado uma de suas obras-primas. Publicada originalmente em 1919, a edição de Contos de Imaginação e Mistério com os trabalhos de Clarke é considerada uma das mais suntuosas já produzidas para o trabalho do mestre americano do conto – frequentemente comparada às imagens produzidas por outro grande ilustrador britânico de Poe, Aubrey Beardley (1894 – 1895). Detalhista, minucioso e com imaginação exuberante, Clarke traduz, nas duas dezenas de ilustrações, rebuscadas, com uso inteligente de hachuras e do contraste entre preto e branco, as atmosferas densamente construídas nas narrativas de Poe. São obras em que é possível vislumbrar lado a lado horror, beleza e decadência, três características essenciais dos contos de Poe, repletos de personagens mergulhados nos mais claustrofóbicos desvãos da alma humana.

Na seleção, como costuma ocorrer com as coletâneas de Poe, há uma mescla entre as obras clássicas presentes na maioria das coletâneas com outras peças pouco conhecidas dentre a produção do autor americano (que, além da poesia e do conto, também incursionou por gêneros como a fábula). Estão lá O Gato Preto O Escaravelho de Ouro e O Poço e o Pêndulo, por exemplo, listadas, em uma pesquisa realizada em 2011 pela tradutora Denise Bottmann, entre aquelas com o maior número de versões traduzidas no Brasil. Os Assassinatos da Rue Morgue e O Mistério de Marie Roget, duas das três histórias com as quais Poe inaugurou o gênero policial, também estão na coletânea (embora, estranhamente, não esteja lá A Carta Furtada, para alguns a mais bem realizada das três).

Mas há também narrativas pouco conhecidas e pouco traduzidas, como Silêncio: uma Fábula, história de inspiração oriental narrada por um demônio, a alegoria O Rei Peste e o estranhíssimo Leonizando, com um protagonista obcecado pelo estudo da Nosologia, a ciência dos narizes. Mesmo que estes últimos não sejam contados entre as melhores narrativas do autor, trazem ainda a marca de mestre visível na maior parte do trabalho do maior gótico americano.

Nelson, centenário além do óbvio ululante

23 de agosto de 2012 0

Nelson Rodrigues, cujo nascimento completa 100 anos hoje. Foto: Banco de Dados

Faça como Olegário, o marido obsessivamente desconfiado da peça A Mulher sem Pecado, e questione muito do que já ouviu a respeito de Nelson Rodrigues. Para marcar o centenário de nascimento do maior dramaturgo moderno brasileiro, celebrado hoje, pesquisadores e encenadores desfazem mitificações e revelam novos aspectos de sua obra, que reúne 17 peças de teatro, além de contos, romances, crônicas (ou ensaios) e textos publicados em livro postumamente. É um sinal de que os discursos críticos sobre Nelson, aos poucos, deixam de ser o óbvio ululante – para usar uma de suas mais célebres expressões – que se tornaram há tempos: seria irônico demais para o sujeito que disse que toda unanimidade é burra. Aos poucos, descortina-se um Nelson além do reacionário, moralista ou simplesmente tarado, como já foi chamado.

Sim, foi uma revolução sem precedentes no teatro.Mas não é correto acreditar que o palco apareceu para Nelson como uma inspiração desvinculada de seu tempo. A inovação deve ser entendida, em parte, pelo diálogo com as comédias de costume de grande apelo popular no Rio de Janeiro das décadas de 1930 e 40,as quais Nelson conhecia bem.“Isto eu confesso”, declarou em uma entrevista em 1967, citando nomes hoje praticamente esquecidos do público.“Eu tinha ódio do Joracy Camargo, por causa do sucesso de Deus lhe Pague, ódio do Raimundo Magalhães Jr.,por causa do Carlota Joaquina, tudo anterior a mim. Mas não importa, eu incluía o passado no meu presente, no meu ressentimento. Qualquer sujeito que tivesse, quisesse ter ou tivesse tido algum êxito teatral dava-me uma irritação de extrema malignidade, não perdoava”. O depoimento está reproduzido no livro Nelson Rodrigues por Ele Mesmo (Nova Fronteira), organizado pela filha Sonia Rodrigues e lançado este ano.

Tania Brandão, crítica de teatro e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), afirma que os paralelos com modernos e revolucionários como o americano Eugene O’Neill (1888 – 1953) e o italiano Luigi Pirandello (1867 – 1936) têm sido suficientemente explorados. É preciso, segundo ela, situar Nelson no teatro nacional.

– Tradicionalmente se parte da ideia de que ele zerou a dramaturgia brasileira, que liquidou o passado e se impôs com violência contra um teatro de sala de visitas, de sentimentalismo barato – explica. – Pode surgir uma nova luz se lembrarmos das comédias açucaradas, feitas para as famílias, e percebermos como Nelson as subverte. A Madame
Clessi
, de Vestido de Noiva, tem uma função dramática que se aproxima da dama galante, um dos tipos das comédias da época. Só que ele a caracteriza como uma prostituta.

É difícil apontar culpados. Nelson foi o maior ficcionista de sua vida (“Eu fiz cinicamente a minha falsa biografia”). Várias de suas boutades foram levadas a sério por leitores com menos presença de espírito, e muito do que merecia atenção foi tomado como galhofa. Ao contrário do que ainda se acredita, ele não leu pouca dramaturgia, tampouco era distante das salas de espetáculo. Um Inimigo do Povo, de Ibsen, foi uma das “mais deslumbrantes experiências vitais”, assim como a Electra de O’Neill.“Depois disso então, por uma questão de decoro pessoal”, declarou, “passei a ler muito teatro”. Veio Shakespeare. Fora da dramaturgia, Dostoiévski o impressionava sobremaneira.

Tema de pesquisa de uma vasta produção bibliográfica nas áreas de teatro, literatura e, cada vez mais, antropologia, sociologia e história, a obra de Nelson ainda tem flancos a serem preenchidos, como lembra Alexandre Pianelli Godoy, historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp):

– Há poucas abordagens sobre as encenações das peças teatrais e seus significados históricos. É um trabalho ainda a ser feito, bem como sobre o repertório de leituras de Nelson Rodrigues – aponta o pesquisador, que publicará, ainda este ano, o livro Nelson Rodrigues – O Fracasso do Moderno no Brasil (Alameda/Fapesp).

Godoy defende que é preciso compreender a mitologia criada pelo autor em torno de si como parte, e não como explicação da obra:

– Outra confusão é estabelecer uma relação direta e um pouco “chapada” entre as tragédias familiares pelas quais passou e sua produção teatral e jornalística. Seu repertório “trágico” vinha certamente do trabalho com o jornalismo policial exercido desde de muito jovem no jornal de seu pai, entre os anos 1920 e 1930, no Rio de Janeiro. É legítimo estabelecer paralelismos entre vida e obra, mas, na maioria das vezes, tende a empobrecer e comprometer a análise estética e histórica.

E que vida, diga-se: nasceu no Recife, quinto dos 15 filhos que o deputado e jornalista Mário Rodrigues e Maria Esther Falcão teriam. Aos quatro, mudou-se com a família para o Rio. Com 13, começou a trabalhar como repórter policial. Aos 17, viu um irmão, Roberto, ser assassinado em plena redação. Outro, Paulo, morreu com a mulher e os filhos no desabamento de um prédio em 1966. Antes, em 1963, a filha Daniela nasceu cega, fato marcante na vida do  dramaturgo e escritor. Outro de seus filhos, batizado com o nome do pai, foi preso e torturado durante a ditadura militar, mesmo que Nelson tivesse relação pessoal com o general Médici.

A trajetória no teatro foi duradoura: a primeira peça, A Mulher sem Pecado, estreou em dezembro de 1942; a última, A Serpente, em março de 1980, ano de sua morte, em 21 de dezembro. Textos como Anjo Negro e Senhora dos Afogados foram proibidos em 1948. Foi em 1951 que começou a publicar no jornal Última Hora a coluna A Vida como Ela É... Mais uma vez, despistava – com o título irônico – os leitores apressados: nada é menos realista do que sua ficção. A coloquialidade da dicção dos personagens no teatro contribuía para a falsa impressão.

– É uma linguagem à frente do seu tempo porque não se fecha em um estilo realista, psicológico. Tem uma força poética, teatral muito forte. Os diálogos são construídos da forma mais coloquial possível, mas não buscam reproduzir a realidade – afirma Angela Leite Lopes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tradutora de Nelson Rodrigues para o francês. – São os novos artistas que estão trabalhando, no teatro, esse aspecto de maneira mais clara.

Assim, Nelson realizou a revolução. Estruturada em planos simultâneos, Vestido de Noiva desafiou as convenções teatrais em voga no país em 1943. Álbum de Família gerou escândalo com personagens incestuosos: foi escrita em 1945, proibida no ano seguinte e liberada apenas em 1965 (a estreia foi em 1967, no Rio). Seu teatro completo é uma sequência de clássicos do início ao fim. Mas ainda há o que ser redescoberto, afirma Luís Artur Nunes, diretor gaúcho radicado no Rio e em São Paulo:

– Vejo textos que são pouco montados. Me refiro mais especificamente a Viúva, Porém Honesta; Anti-Nelson Rodrigues e Perdoa-me por me Traíres. A desculpa frequentemente é que seriam textos menores. Não concordo. Acho que são textos que intimidam porque se articulam em chaves diferentes daquelas que encontramos no resto da obra. Jogam com a farsa, com a metalinguagem e com estruturas narrativas mais livres, desamarradas, quase anárquicas. E aí fica difícil de encontrar o tom adequado.

Sorte dos encenadores contemporâneos, que encontram um contexto mais apropriado do que nunca para se livrar das amarras das velhas convenções. Nada seria menos coerente do que ler Nelson Rodrigues com excesso de reverência.“Todas as vaias são boas, inclusive as más”, dizia ele.

Clóvis Massa, professor do Departamento de Arte Dramática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defende:

– O equívoco seria a pasteurização, ou seja, montar suas peças sempre da mesma forma. Hoje, não há a exigência de uma fidelidade. Os textos de qualquer autor podem ser subvertidos frente a uma encenação que coloca em tensão o que a dramaturgia propôs.

Entre os dualismos que marcaram a vida e a escrita de Nelson Rodrigues, ficou este: o reacionário era, na verdade, revolucionário.

Descongelando os subzeros - parte 1

22 de agosto de 2012 2

Eu bem que gostaria de assumir empreitadas como esta com mais frequência – e de cumpri-las com mais celeridade, também, mas com uma série de compromissos além deste blog, quando invento uma série de posts elas, embora com intenções periódicas, acabam dependendo das conveniências do blogueiro, infelizmente. Mas se conseguirmos concluir aos poucos cada desafio, já terá valido. Digo isso porque demoramos uma semana para publicar a primeira série de resenhas dos contos incluídos em Geração Subzero, mas aqui está ela. Vamos tentar diminuir o intervalo entre esta parte e a segunda. Mas antes de irmos ao que interesse, como conhecemos a internet e não é de ontem, vamos a dois postulados básicos de todas as nossas séries de resenhas aprofundadas conto a conto. A coisa funciona assim:

Sem (muito) spoiler
Nestes textos, tento não entregar muito da trama, mas as histórias, obviamente, serão comentadas para além do mero resumo. Quem achar que até isto afetará seu prazer de leitura, pare agora.

Eu não peço desculpas…
Ninguém precisa entrar no blog retrucando que algo comentado nestas resenhas é só uma opinião minha. Não vou ficar toda hora usando fórmulas que amenizem o fato de que, em uma resenha assinada por mim, é claro que qualquer opinião é minha – salvo no caso de citações de terceiros, que serão identificadas como se deve. Ah, sim, antes que eu me esqueça: como no caso da Granta, coincidentemente também aqui meu contato prévio com alguns dos autores foi puramente profissional – algumas entrevistas, por exemplo, a maioria delas realizada em edições variadas da Feira do Livro de Porto Alegre. Não tenho amigos nem desafetos entre os selecionados.

Vamos aos textos:

O Cão, de Juva Batella
Uma história que cria um curioso paralelo involuntário com a antologia da Granta, por abrir a seleção com um conto sobre a morte de um cachorro. As semelhanças, contudo, entre este relato de Juva Batella e Animais, de Michel Laub, se interrompem aí. A narrativa aqui não é fragmentada, e sim calcada em uma certa oralidade do conto falado – as primeiras duas frases do texto são, justamente: “Contaram-me. // Reconto.”, recuperando um estilo tradicional do conto escrito principalmente no século XIX: a atribuição da história que se quer contar a um personagem narrador que, por sua vez, diz ter ouvido aquela narrativa de alguém outro, identificado ou não. É um recurso que serve para ligar o narrado ao grande emaranhado de teias e histórias que formam a tradição literária, tentando restabelecer aquele fio narrativo da grande experiência humana que Walter Benjamin considerava irremediavelmente perdido.
A história de Juva Batella começa bem. Uma jovem que acaba de se mudar com dois grandes pastores para uma vizinhança de subúrbio percebe, horrorizada, que a vizinha do lado, uma senhora gentil, tem um minúsculo poodle, praticamente feito para se tornar presa fácil para seus animais – ainda mais porque apenas uma cerca-viva separa os dois terrenos. A narrativa acompanha com tensão crescente o medo que a jovem vizinha sente a cada chegada em casa, o quanto parece óbvio que apenas por sorte os dois cachorros vigorosos ainda não massacraram o animalzinho no outro lado da divisão. Até que um dia, a jovem chega em casa para encontrar o cenário de horror que havia imaginado, e tem de decidir o que fazer.
Como eu havia comentado, há uma aparente intenção de oralidade na forma como a história é contada, embora nem sempre cumprida. Como o próprio ensaio introdutório já havia declarado, “escrever fácil é muito difícil“, e em determinados trechos o conto soa redundante e mais enrolado do que o necessário, como no trecho abaixo, em que a última frase praticamente resume toda a argumentação construída pelo que vem antes:
“Era do tipo que não perdia a oportunidade de imaginar, sempre que possível, o pior, acreditando ao mesmo tempo, no fundo da sua alma, que o pior nunca haveria de acontecer, justamente porque as coisas nunca aconteciam do modo como as imaginamos. E era essa a sua fórmula: imaginar o pior justamente para que o pior não acontecesse.
Esse caráter meio fosco da linguagem se torna um problema se comparado ao que, para mim, foi a principal questão encontrada no conto: sua trama. A história que o conto narra é uma versão estendida e tensionada de uma anedota popular que ouvi pela primeira vez aos 13 anos quando morava em São Gabriel, e que já ouvi outras vezes desde então. Dado que a matriz não é original nem surpreendente – aliás, o final me decepcionou como leitor, uma vez que havia um horror crescente na construção da narrativa que não se cumpriu – ao menos a linguagem deveria ser. Mas o conto incorpora as já mencionadas repetições  da oralidade sem uma justificativa interna que as sustente – o conto é um “causo” recontado, fato que o narrador enuncia brevemente e ao qual não volta nem mesmo ao final.

Cristais de Prata, de Pedro Drummond
A história que Drummond tem a contar nesta peça é interessante: uma jornalista de TV narra sua tentativa de produzir um livro recuperando um caso no qual praticamente tropeçou por acaso. Ao alugar uma casa em São Paulo, a moça quebra o espelho de uma penteadeira e descobre colado atrás dele um retrato antigo de um jovem em pé defronte à Estação da Luz. Atrás da foto, um recado anotado: “espero você”. Intrigada com o achado, a jornalista se lança a uma investigação sobre a identidade do estranho na foto e, após algumas idas e vindas por antiquários, bairros distantes e cidades interioranas, recupera uma história de amor malfadado na São Paulo dos anos 1940. Uma mulher casada e seu enamorado haviam combinado uma fuga desesperada dos desmandos do autoritário e poderoso marido dela. E a fuga jamais acontece – por motivos trágicos que a jornalista vai desencavando aos poucos e que têm relação com um  fato histórico real: o incêndio da já mencionada Estação da Luz em 1946.
O final traz uma surpresa indeterminada que cria mais dúvidas do que soluções, mas isso não é um problema. O problema aqui é de linguagem. Ainda que a história possa, a priori, parecer propícia para um novelão, nada impede que, contada com linguagem enérgica e cativante ou com algum olhar renovado, ela se torne uma gema narrativa. Mas a prosa de Drummond não é fluente, embora se perceba o esforço realizado para que seja. Na tentativa de injetar o tal “olhar renovado” na frase, o autor enfileira sentenças cheias de descrições em que a narrativa tenta passear como uma câmera escolhendo um detalhe que revele o resto. Essas frases resultam apenas empoladas, truncadas, criando problemas de compreensão e mesmo incongruências para a mais elementar visualização ou verossimilhança da cena. Senão vejamos:
Quando a protagonista quebra o espelho, ela escreve: “Um pedaço afiado caiu da peça e a rachadura, larga, permitia ver a madeira que a sustentava“. (p. 31) Sustentava o quê, a rachadura ou a peça? E logo na página seguinte, temos a repetição da mesma estrutura na frase: “Olhei para o móvel e o que vi era realmente curioso: havia ali uma fotografia. Não havia caído acidentalmente entre o espelho e o fundo que o sustentava“. (p.32)
Ao encontrar a foto, essencial para o avanço da narrativa, a jornalista a descreve longamente, mas prestem atenção no trecho a seguir: “Não fosse sua pose ali, e o retrato poderia passar por um cartão postal da época. Sua aparência era alegre, sorriso ainda na validade dos primeiros segundos. Cabelo moreno e bastante curto, sugerindo seus vinte e poucos anos”. A imagem, como informa o autor, é em preto e branco. Portanto, como, numa foto com mais de 60 anos de idade, se pode afirmar com tanta certeza que cabelos “bastante curtos” são morenos? E como qualquer corte de cabelo poderia “sugerir” uma idade em período tão remoto em uma foto sem cores e que não é sequer um close?
A estrutura das descrições, longas a maioria delas, também não ajuda na fluência do texto – o que trava o avanço da leitura: “O homem levou-me até a sala escura, onde me apontou uma poltrona puída, e, tossindo, deitou-se no sofá, onde já o aguardava um velho cobertor. Ao lado, uma sacola de plástico translúcido permitia ver que estava repleta de remédios.” Por que esse pulo narrativo do homem para a sacola entregando a ela, a sacola, o comando da ação, já que ela, o objeto inanimado, de súbito “permite” ver alguma coisa? Depois, a prosa volta a se concentrar no homem, mostrando que a sacola foi mero torneio formal. 
Não que o conto se resuma a essas tentativas de frases de efeito, há bons achados (“‘Senhor, diversos móveis do local onde moro foram comprados nesse antiquário’, dirigi-me propositalmente à pessoa mais idosa que encontrei lá. Um jovem em um antiquário não inspira confiança“.) O saldo final, contudo, é que se tentou preencher com estilo deficiências da construção narrativa.

A canção de Maria, de André Vianco
Vianco é o primeiro autor da coletânea a de fato se ajustar a seu anunciado espírito: enfileirar autores “pop” para os quais a crítica torce o nariz. Best-seller nacional com seus livros de vampiros anos antes que Stephenie Meyer tornasse os dentuços moda outra vez com Crepúsculo, ele começa este conto parecendo que vai ousar, afastando-se de seu universo de referência para tentar algo novo. Em um ano indeterminado do que parece ser o Oriente Médio dos tempos bíblicos, mais especificamente os anos em que Jesus teria passado pela região, um lenhador de nome Ezra dá abrigo, em certo dia particularmente chuvoso, Maria, uma jovem menina prestes a parir. A menina dá à luz a filha e o velho, viúvo, acolhe ambas como um sopro de vida e alegria em uma existência incolor. Como a jovem já havia escapado de um apedrejamento, Ezra, para evitar problemas, apresenta-a ao povoado em que vive como uma meia-irmã que não via há muito tempo. Até que um dia, ao voltar para casa do trabalho, Ezra encontra um cenário de tragédia que o enluta e o coloca na desagradável posição de ter de lutar contra uma maldição que pode aprofundar ainda mais sua perda.
Fujo de dar muitos detalhes, o suficiente apenas para que vocês saibam que… sim, tem vampiro no meio. De novo.
Não que um conto de horror nos tempos bíblicos não seja uma bela ideia, e enquanto Vianco vai construindo a atmosfera de seu enredo, a coisa funciona. A delicada construção do sentimento que começa a unir, aos poucos, Ezra, Maria e a bebê desta, Miriam, consegue ser comovente, apesar de alguns tropeços de linguagem, como a insistência em chamar Maria de “jovem mãe” ou em descrições que resvalam no piegas: “Ezra apanhou um facão e suspendeu o corpo leve da menina com seu braço forte“.
O problema verdadeiro reside em o autor abandonar o mundo que vinha construindo, alicerçado na narrativa bíblica ocidental, para inserir nele seu tema de eleição. Vianco não está tentando algo novo, está só viajando pelo tempo carregando a bagagem de sempre. Não que ele precisasse fazer algo novo, mas a própria ambientação da narrativa nos tempos de Jesus – Ezra é identificado mais adiante como primo de João, o Batista, convalidando esta afirmação – pediria uma solução mais orgânica. Incluir um vampiro, identificado assim mesmo, com esta palavra, fere de morte a credibilidade da narrativa. Não pensem que vejo como um problema colocar vampiros em qualquer época (eu até vejo, mas não é o centro do meu argumento aqui). O que seria interessante em ver um vampiro em um período tão remoto é imaginar como aquela visão de mundo supersticiosa e religiosa entenderia tal criatura. E usar a palavra “vampiro” é oferecer uma interpretação a priori que negligencia qualquer tentativa de imaginar esse entendimento. E
mbora algumas narrativas folclóricas hebraicas, como os filhos de Lilith, devoradores de energia sexual, possam ser vistas como lendas ancestrais de vampiros, não seria assim que eles seriam encarados pela Israel do século I, e sim como demônios, íncubos ou súcubos, Dibuk – há até mesmo uma palavra à disposição naquele contexto, alukah, que significa literalmente “sanguessuga”, e que é usada em Provérbios 30:15: “A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Estas três coisas nunca se fartam; e com a quarta, nunca dizem: Basta!”, no que poderia ser uma referência ancestral ao mito “vampiresco”.
Escrever é pesar as palavras, e ao escolher usar o termo “vampiro”, já tão carregado de interpretações extemporâneas ao conto que escreveu, Vianco não deixa de transformar sua narrativa de uma “história bem contada”, como a coletânea se anuncia, em… experimento literário. A chave de leitura passa a ser metaficcional:  desculpa-se o uso do termo vampiro porque isto é uma história “de André Vianco, autor de livros de vampiro”, não “a história de um lenhador judeu enfrentando um horror incompreensível no século I”. Busca-se no escritor e em sua carreira pregressa algo que atenue a impressão de que o autor não dotou a história de coerência interna.

Na Maternidade, de Thalita Rebouças
Uma divertida e bem-humorada narrativa de Thalita Rebouças que não chega a começar exatamente bem, mas se recupera até um final que abraça com sinceridade a emoção. Armando é um homem para quem pelada (o jogo, bem entendido) é “um troço muito importante” – e, por isso, ele está sempre arranjando problemas com sua mulher, Angela Cristina, que “como toda mulher de peladeiro, detesta o meu dia de pelada. Diz que não entende como um bando de marmanjos leva tão a sério ‘um jogo idiota’, como conseguimos deixar mulher de lado em prol de futebol e outras barbaridades do gênero“. Esse foi meu senão inicial com a obra: a insistência em reforçar estereótipos sexistas como o do “peladeiro de alma” e suas atribulações com a incompreensão das mulheres a respeito desse ritual sacrossanto do futebol semanal. Ainda bem que o texto é assinado por Thalita. Fico imaginando o que se poderia dizer dele se fosse escrito pelo David Coimbra, por exemplo. 
Mas voltemos ao conto. Armando e Angela estão esperando um bebê para breve. Ao saber dessa informação, o leitor não tardará a deduzir que a filha terminará por nascer perto de uma pelada marcada pelo pai com os amigos. E é aqui que o conto me surpreendeu, de certo modo, porque parecia se encaminhar para uma comédia em que a graça viria das trapalhadas do pai tentando estar presente nas duas situações, mas não é isso. A esposa de Armando tem o bebê, e ele de fato decide de súbito ir até a pelada já marcada. Imerso na tensão cômica que foi aguardar o parto com a mulher, Armando só percebe a imensidão do que acaba de acontecer com ele, tornar-se pai, depois do jogo, em uma cena que poderia ser piegas mas que tira proveito de uma linguagem leve, aparentada com a crônica, apropriada para a brevidade da história. 
Narrado em primeira pessoa, o conto produz humor por diálogos ágeis, na contraposição entre Armando, deslocado mas presente em um momento em que ele é necessário mas completamente inútil, como o do parto, e Angela, voluntariosa e tensa pelas dores. É uma boa história, como falei, e um entretenimento tecnicamente bem-executado.

Fogo e Trevas, de Eduardo Spohr
Confesso nunca li a série que tornou Spohr um fenômeno de público, A Batalha do Apocalipse, portanto não posso dizer se o texto publicado na coletânea é de algum modo parte dos romances do ciclo – a apresentação do autor, anterior ao conto, não discrimina se o texto é um conto ou parte de um romance inédito ou já publicado (Felipe Pena explica no ensaio introdutório que abriu mão do critério do ineditismo), e essa é uma crítica que pode ser feita à organização do volume. Este texto, contudo, não é um conto, é claramente um fragmento de um romance em progresso ou até mesmo algo que se insere nas brechas de uma narrativa maior, talvez até multimidiática, como uma fanfic de um RPG, algo assim, mas não posso apostar. Basicamente, é a condução de duas cenas em momentos distintos no tempo e no espaço, e o andamento e a coesão situam-se, consequentemente, fora dos parâmetros de análise.
A primeira parte narra a luta de um grupo multifacetado de aventureiros em uma câmara subterrânea contra um demônio de, como diz o título, “fogo e trevas” – algo que claramente se inspira, mesmo que por caminhos indiretos, na batalha contra o Balrog nas minas de Moria descrita por Tolkien em O Senhor dos Anéis. O grupo de aventureiros tem a variegada composição obrigatória em obras literárias de fantasia-mágica-medieval-ao-estilo-RPG-ou-videogame-adventure: Eu poderia enumerar, mas acho que podemos dar voz ao próprio autor:
“Quem vinha primeiro era Artimus, o cavaleiro, segurando sua enorme espada de duas mãos. Trajava uma armadura de placas de metal, com o visor do elmo levantado. Alana, a feiticeira, caminhava logo atrás, seguida pelo bruxo Zamir, com suas vestes negras e cajado de marfim escuro. Na retaguarda apareceu Grammal, um guerreiro bárbaro meio gente e meio orc com a força de três homens, carregando um pesado machado duplo com lâminas-irmãs duas extremidades.”
O trecho não diz, mas o grupo também é composto por um arqueiro e por um “halfling” – raça mágica recorrente em RPG, são humanoides pequenos e ágeis, parecidos com duendes para os não iniciados. A segunda metade da narrativa mostra, seis meses antes, o guerreiro Artimus em uma aprazível varanda em uma localidade nas montanhas, engajado em um diálogo com uma sacerdotisa no qual repassa os antecedentes que vão levar à aventura da primeira parte da história.
Com raras exceções, considero a literatura derivada de RPGs falha em reproduzir literariamente a diversão proporcionada aos participantes efetivos do jogo, mas estou mantendo minha mente aberta aos postulados da coletânea: não há novidade alguma no uso que  Spohr faz desse material, mas vamos analisar como ele é estruturado enquanto entretenimento. A luta na câmara subterrânea é uma cena de aventura narrada em ritmo ágil, embora padeça de alguns problemas, um deles recorrente dos quadrinhos de super-heróis: a descrição de um gesto é simultânea à enunciação de uma fala, e o gesto claramente deveria ser rápido demais para que essa fala pudesse ser proferida, ou o suspense é ralentado até muito além do que seria crível mesmo dentro dos postulados internos de uma obra de fantasia. Há também deslizes técnicos: algumas descrições, embora empolgadas, não são eficientes em fazer o leitor visualizar corretamente a ação:
Percebendo que Alana era uma feiticeira cujos encantamentos poderiam afetá-lo, usou sua mão esquerda para agredir a mulher. Por instinto, Alana pulou para trás e protegeu o rosto. Escapou das garras, mas o punho da fera a acertou no quadril“. Esse gesto me parece fisicamente impossível: ou Alana foi atingida por um punho fechado ou por garras de uma mão aberta. Ainda que o tal demônio fosse o Wolverine, com as garras projetadas do dorso da mão, não consigo imaginar como alguém, com um passo para trás, se esquivaria das garras mas não do punho.
Um pouco antes, um dos aliados vestidos em armadura já havia sido derrubado e pisado pelo demônio. Nessa cena temos outro problema:
A placa que protegia o tórax de Grammal era a única coisa que o mantinha vivo, mas esquentava a cada instante, feito chapa quente. Em pouco tempo, o semiorc seria esturricado.
Bom, até onde eu me lembro, uma placa peitoral é uma chapa metálica, que está ficando quente, no caso do conto. A menos que a metáfora “feito chapa quente” seja uma inserção deslocada de uma gíria carioca, é uma redundância que compromete. Sem falar que é estOrricado, e não estUrricado.
Dado que o objetivo era o entretenimento, esses problemas são, para mim, pedras no caminho que impedem a fruição de uma boa leitura em uma narrativa que já é na origem o reaproveitamento de clichês narrativos de fantasia. Sempre vai ter alguém dizendo que gostou, que o autor tem fãs (não discuto isso, ele tem mesmo, e eu não li o Batalha do Apocalipse). Entendo que provavelmente os textos de Spohr não se dirigem a leitores da minha idade ou com minha bagagem de leitor (no bom e no mau sentido), mas a jovens abertos a ler tudo como novidade porque, para um leitor recém-iniciado na leitura, tudo de fato é novidade. Só que estou analisando este texto da forma como  foi apresentado, em uma coletânea voltada para o leitor não iniciado e sem notas de rodapé.

Por hoje era isso. Espero vocês no próximo post sobre o livro.

O que você está lendo, Ruben Oliven

22 de agosto de 2012 0

O antropólogo Ruben Oliven. Foto: Emílio Pedroso, ZH

Na série O Que Você Está Lendo?, que faz a pergunta título a escritores, professores, intelectuais e críticos, fomos buscar uma dica de leitura fornecida pelo antropólogo Ruben George Oliven, autor de trabalhos fundamentais na área da antropologia urbana no Brasil. Entre seus principais trabalhos – muitos deles aclamados pela forma como casam Antropologia, Sociologia e Ciência Política – contam-se A Parte e o Todo: A diversidade cultura no Brasil-nação (1982); Antropologia de Grupos Urbanos (1985) e Violência e Cultura no Brasil (1989). Oliven vem lançando há anos um olhar crítico sobre a tendência cada vez mais aprofundada no Rio Grande do Sul de só se relacionar com o global ou o nacional pela perspectiva regional.

Então diga-nos, o que você está lendo, Ruben Oliven:

Gosto de ler mais de um livro simultaneamente, em geral um de ficção e outro de ciência. Acabo de ler El Sueño del Celta de Mario Vargas Llosa, um livro sobre Roger Casement, um personagem controverso que foi cônsul britânico no Congo belga e no Peru, onde combateu as condições desumanas dos seringueiros. Ele recebeu o título de Sir da coroa britânica, mas pouco depois foi condenado à morte por ter-se aliado aos alemães na I Guerra Mundial para lutar pela independência da Irlanda. Estou também lendo The Making of the Middle Class, uma coletânea organizada por A. Ricardo López e Barbara Weinstein, que é um retrato fascinante e transnacional das modernas classes medias em diferentes países.


>>> Leia aqui outros depoimentos da série “O Que Você Está Lendo?”

Italo Moriconi fala sobre a reedição de Mario Quintana

21 de agosto de 2012 0

O professor e poeta Italo Moriconi. Foto: Divulgação, Editora Objetiva

Crítico, professor da pós-graduação em letras na UERJ e ele próprio poeta, o carioca Italo Moriconi é o responsável pela nova edição da obra completa de Quintana, que marca a mudança do poeta para uma nova editora depois de décadas na editora Globo. A edição começa com a publicação de Canções, seguido de Sapato Florido e a Rua dos Cataventos; Apontamentos de História Sobrenatural e A Vaca e o Hipogrifo. Por telefone, do Rio de Janeiro, Moriconi concedeu a seguinte entrevista, na qual fala de seus critérios para a organização da obra, do papel de Quintana como poeta e das diferenças entre seu projeto e o da organizadora da republicação anterior, a professora Tânia Carvalhal.

Zero Hora – O senhor começa a republicação da obra integral de Quintana sem uma ordem cronológica, com três livros do início da carreira, condensados em um único volume (A Rua dos Cataventos, Canções e Sapato Florido) e dois outros livros dos anos 1970 (Apontamentos de História Sobrenatural e A Vaca e o Hipogrifo). Por que esta opção?
Italo Moriconi – O objetivo foi dar uma organização que chamasse a atenção para diferentes livros, para não ficarmos na sequência aparentemente lógica, que seria a cronológica, tentando dar uma visibilidade nova para os diversos livros do Quintana. Vamos fazer um jogo de colocar os livros iniciais com obras publicadas em um momento posterior da carreira dele para fazer um contraste. Sendo que um dos objetivos disso também foi valorizar a parte final da obra do Quintana do ponto de vista crítico. Creio que há uma necessidade de maior visibilidade dessa consistência poética dos últimos livros do Quintana.

ZH – Na apresentação de  Apontamentos de História Sobrenatural, Quintana já dizia que o próprio lançamento de seus livros seguira um plano que não era o da escrita do material. Também afirma: “O fato é que nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo”. O senhor concorda?
Moriconi –
Por um lado ele tem razão nisso: porque o estético cria uma equivalência atemporal entre os objetos. Então, uma obra completa de um autor, Shakespeare ou outro grande escritor, não interessa se um livro foi escrito no iníci ou no fim da vida, o que interessa é que são bons. Claro que se você for fazer um estudo biográfico da evolução da obra, a cronologia importa muito, mas do ponto de vista da leitura e da fruição, nem tanto. Agora, com relação a essa afirmativa do Quintana, a gente pode questioná-la. Esse destaque às obras finais do Quintana vai mostrar que ele teve sim uma certa evolução dentro de um parâmetro invariável, que é o do lirismo. Ele evoluiu como poeta, tanto na temática quanto na forma.

ZH – Já foi dito que o fato de Quintana ter se tornado um poeta imensamente popular possa ter afetado a recepção crítica de sua obra. O senhor concorda?
Moriconi –
Na verdade não. Porque a fortuna crítica de Quintana é vasta, ele sempre tem sido estudado na universidade. Talvez em alguns setores da crítica mais de Rio e São Paulo, mais ligados à herança concrecista e vanguardista, possa haver um desprezo crítico ao Quintana. Mas, se você for ver ali na realidade das coisas, ele sempre teve repercussão crítica. Inclusive Drummond escreveu sobre ele, ele sempre teve grande prestígio entre os grandes poetas brasileiros, foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras. Nos últimos anos, até porque ele faleceu já há 20 anos, com 80 de idade, houve um pequeno decréscimo, que acho que vai ser revertido com essa nova edição.

ZH – O senhor retomou questões de fixação de texto ou de versões?
Moriconi –
Quanto a isso não, porque a obra do Quintana já está muito bem mapeada, muito bem cuidada pela Elena Quintana. E ele já teve outras edições de obras completas antes. Não foi necessário um tabalho de arquivo maior.

ZH – E como o senhor diferencia o trabalho desta nova edição da obra completa daquele que havia sido feito na década passada pela professora Tânia Franco Carvalhal, que organizou a republicação dos livros de Quintana pela Globo e a edição integral da obra em um volume pela Nova Aguillar?
Moriconi –
A edição da Nova Aguillar é mais voltada para especialistas, porque é tudo em um livro só, com a fortuna crítica, então ela serviu de referência muito importante para mim. Sou um grande admirador do trabalho da professora Tânia Carvalhal, sou da geração que entrou para a associação de literatura comparada criada por ela e outros professores. Então eu considero que meu trabalho é uma continuidade, na qual estou bebendo nas águas de Tânia Carvalhal. Já a edição da Globo foi competente a seu tempo, mas agora estamos com a Alfaguara e pretendemos estar à altura das edições anteriores.

ZH – A simplicidade e a facilidade com que Quintana se comunicava com o público são apontadas pelo senhor como fundamentais para explicar a sua importância no sistema literário, como um autor que apaixona o leitor.
Moriconi –
Esse é um atributo dos grandes líricos. Você vê Gonçalves Dias, Olavo Bilac, são poetas que vêm de uma intuição popular e voltam a ela. O Quintana é mais um dessa tradição. Ele é um grande formador de leitor.

ZH – A lírica oscila em uma lâmina entre o sentimentalismo e a estética. O senhor acredita que o olhar da criança na poesia de Quintana tenha sido o ponto de equilíbrio para essa tensão?
Moriconi -
Isso mesmo. Ele olha para o mundo como se o estivesse vendo pela primeira vez, e essa é uma grande força da lírica do Quintana, esse olhar fresco sobre as coisas do mundo. E toda vez que a gente lê um poema dele, a gente recupera essa sensação. A força da poesia dele vem daí: ele permite essa experiência de uma visão primeira, e de uma primeira reflexão, quando você começa a pensar no tempo, na passagem do tempo, na morte, no como existe um elemento bonito e ao mesmo tempo melancólico nessa fugacidade do tempo, como as cidades e as vidas mudam… E ele coloca aqui como se fosse a primeira vez que estivesse tendo aquela revelação, tem algo de epinafia nos poemas. Isso é o que dá força aos grandes líricos, o lírico em “tom menor”, digamos, como o Bandeira dizia de si próprio que era um “poeta menor”: o lírico que fala diretamente a uma percepção muito imediata do que está em volta.

ZH – Essa concepção de “poeta menor”, contudo, foi usada algumas vezes como depreciativa em comparação a um grande metafísico como Drummond, por exemplo.
Moriconi –
Mas ela é muito importante, porque o “menor” aqui é como o tom menor em música. O “menor” não é geométrico ou matemático. E o tom menor é o tom de intimidade, e essa é outra força grande da poesia do Quintana, ele fala a partir de um território de intimidade absoluta.

ZH – Quintana foi um cantor de Porto Alegre, mas sua obra parece ter transcendido o regional e encontrado ressonância fora daqui. 
Moriconi –
Sim, porque o regional dele tem um fator universal. Na poesia dele, Porto Alegre já não é mais Porto Alegre, é Província, com “P” maiúsculo, pode ser na Alemanha, pode ser na Bolívia, pode ser em Singapura. Desde o início o regionalismo do Quintana não tem nada de regional.

As profecias de Mario Quintana

19 de agosto de 2012 0

2005

Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos….
A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas.
A poesia é irredutível.

De Mario Quintana, que escreveu essa vinheta em 1975 (e mais tarde a reuniu em A Vaca e o Hipogrifo, de 1977, um dos títulos que abre a reedição da obra integral do poeta gaúcho pela Alfaguara, organizada por Italo Moriconi. É a segunda reedição integral da obra do poeta em uma década – a primeira foi a republicação organizada pela professora Tânia Franco Carvalhal para a Globo, para marcar o centenário do poeta, a partir, justamente, de 2005).

Ele não sabia o quanto estava certo.

E o quanto estava errado.

Vamos descongelar os subzeros

15 de agosto de 2012 0

Antes mesmo do lançamento oficial da Granta, Geração Subzero, uma coletânea de autores “congelados pela crítica mas adorados pelos leitores” foi impressa (ao menos é essa a definição que o livro traz no subtítulo impresso em sua capa). Em um lance inteligente de marketing, a obra se apresentava desde o ensaio de seu organizador, Felipe Pena, como uma resposta provocadora ao que a Granta e outras tentativas de hierarquização do ambiente literário contemporâneo representavam: os autores também são em número de 20, como na seleção da revista estrangeira, e o título é uma referência direta à Geração Zero Zero organizada no ano passado por Nelson de Oliveira.

O ensaio introdutório do organizador Felipe Pena é um combatente armado disparando generalidades para mais de um lado e enchendo-se de ressalvas a cada linha como autodefesa, senão vejamos: “É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico”. Mais adiante, Pena até enumera os autores contemporâneos que, segundo ele, buscam “uma história bem-contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor“. A definição entre aspas é tomada emprestada por Pena de uma entrevista do escritor Rodrigo Lacerda. Quando enumera os autores que seguem essa estratégia, Pena lista o próprio Lacerda, Fernando Molica, Tatiana Salem Levy, Homero Senna, Edney Silvestre, Bernardo Carvalho, Cristóvão Tezza, Livia Garcia-Roza e Sérgio Rodrigues.

Nada a objetar, concordo com ele, e incluiria ainda outros como Michel Laub, Daniel Galera, Carol Bensimon, Max Mallmann. Miguel Sanches Neto, Alexandre Plosk, Paulo Scott, entre outros (falo do Scott narrador, não do poeta). O que me faz desconfiar de sua primeira afirmação, quando com essa lista cobrimos boa parte dos autores de interesse no momento e ainda deixamos muita gente de fora, por esquecimento. Quem são, portanto, esses que formam a “grande parte da nossa ficção”? Pena não diz. Esse é o primeiro ponto problemático de seu ensaio, que diz não pretender “desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e, às vezes, justos) pelos cadernos de cultura do país”. A afirmativa é retórica, como o tom depreciativo da sentença deixa claro, e aí seria melhor e mais apropriado dar nome aos bois de uma vez.

Levando a questão da literatura brasileira ensimesmada como parâmetro a não seguir, ele aponta um preconceito da crítica (que existe, já começamos concordando) com a literatura de entretenimento, para a qual a coletânea organizada por ele é um veículo: “O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento. Mais adiante ele define os termos: “Em literatura, entretenimento é sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo. // É esse o conceito de entretenimento que defendo para a ficção brasileira. Tenho a impressão de que todas as outras artes já o utilizam desta forma, mas a literatura ainda parece padecer da velha dicotomia entre o erudito e o popular“.

Chegamos ao ponto relativamente válido do ensaio, e que poderia ter sido abordado na origem, nos poupando de umas três páginas de ataque à crítica, à academia, à literatura brasileira, etc, etc. Curiosamente, ao fazer uma defesa tão eloquente do entretenimento, Pena prefere citar nomes estrangeiros como Nick Hornby e David Sedaris sem nunca mencionar, por exemplo, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Tony Bellotto ou Tabajara Ruas, cultores do policial e da ficção de pegada pulp, ou Luis Fernando Verissimo, cronista de leitura em todo Brasil. Ou melhor, a citação a Hornby e a Sedaris é do escritor João Ximenes Braga, mas Pena concorda com ela. Mas o que o organizador do livro pretende é um espaço para o reconhecimento crítico da literatura de entretenimento (é o que está expresso na oposição “crítica-leitores” do subtítulo, apesar dos ataques ao pedantismo acadêmico e à insistência no ponto de que essa literatura é amada pelo público). Bueno, pretendo fazer minha parte nesse processo repetindo aqui com a Geração Subzero a experiência que fizemos com a Granta: uma série de resenhas em bloco, texto a texto, dos 20 contos do livro. E vamos ler o livro de acordo com seus próprios pressupostos. Os contos ali incluídos são obras que têm como prioridade declarada o entretenimento. Então os leremos assim, mas lembrando que mesmo o entretenimento tem regras: uma das principais delas o domínio técnico. Cinema de entretenimento é cinema tecnicamente superior, muitas vezes, a filmes de arte feitos na raça. Um show de Ivete Sangalo ou de Daniel tem produção mais vistosa e mais esmero em luz e movimento do que João Gilberto com um banquinho no meio do palco, para usar como exemplo as “outras artes” que Pena evoca.

Vamos só fazer diferente desta vez: eu não teria paciência para outros cinco blocos de textos com quatro resenhas. Vamos fazer quatro capítulos com cinco contos analisados em cada um. Os autores reunidos na coletânea são Juva Batella, Pedro Drummond, André Vianco, Thalita Rebouças, Eduardo Spohr, Luiz Bras, Luiz Eduardo Matta, Sérgio Pereira Couto, Estêvão Ribeiro, Raphael Draccon, Ana Cristina Rodrigues, Julio Rocha, Helena Gomes, Carolina Munhoz, Vera Carvalho Assumpção, Martha Argel, Janda Montenegro, Delfin, Eric Novello e Cirilo S. Lemos

Stay tuned.

O que você está lendo, Ricardo Barberena?

15 de agosto de 2012 0

Ricardo Barberena. Fonte: Arquivo pessoal

Tivemos uma breve interrupção de duas  semanas por motivos de força maior na nossa série das quartas-feiras, O Que Você Está Lendo?, que pergunta semanalmente a escritores, críticos, intelectuais e acadêmicos quais as suas leituras do momento e como elas poderiam ser partilhadas com nossos leitores. Nesta retomada da seção, nosso convidado é o professor de literatura Ricardo Barberena. Gaúcho, com doutorado e pós-doutorado pela UFRGS, Barberena é professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, onde leciona Teoria Literária. Suas linhas de pesquisa incluem identidade nacional, diferença e cultura. É também o coordenador do Acervo Cyro Martins no banco de acervos Delfos, da PUCRS.

Então, o que você está lendo, Ricardo Barberena?

Cabeça a Prêmio, de Marçal Aquino, publicado em 2003, evidencia uma narrativa policial que não se restringe aos clichês de certos textos literários desse tipo de literatura, pois, inegavelmente, percebe-se uma escrita arrojada que mistura uma polpa de sangue, de intimismo, de simbolismo, de carne. Esse escritor brasileiro contemporâneo investe no rompimento de uma identidade nacional hegemônica, no tocante à representação de um Brasil bárbaro e profundo, submerso numa malha de paixões e desesperos humanos. Entre o desamparo e a violência estetizada, a nervosa narrativa de Aquino não se resume à descrição realista de matadores e vítimas trucidadas. Há, isso sim, um timbre narrativo cru e direto que combina uma estrutura narrativa complexa e descontínua, repleta de avanços, de elipses vertiginosas, de intensos deslocamentos geográficos. Balizado pela desarticulação dos estereótipos tropicais, o romance acaba por mapear as possíveis respostas para indagações fulcrais quanto aos descentramentos nas paisagens culturais de classe, raça, gênero, nacionalidade: Quem são os sujeitos dessa nação? Quais são as cabeças que estão a prêmio? Que país é esse?

>>> Leia aqui outros depoimentos da série “O Que Você Está Lendo?”