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Descongelando os subzeros - parte 2

06 de setembro de 2012 1

Uma coisa interessante que eu devia ter mencionado no primeiro bloco de resenhas: assim como a misteriosa ordem em que foram dispostos na coletâna os autores da Granta, também nesta Geração Subzero a forma como os contos foram organizados é idiossincrática. Eles não vêm em ordem de título, de nome ou de sobrenome de autor, por idades ou anos de nascimento. Sequer estabelecem eixos ou proximidades temáticas. O que isso importa? Felipe Pena, o autor da compilação, não esclarece que critério adotou para dispor os autores no livro, vai ver o critério é a ordem em que recebeu os contos. E isso não importa muito, também, apenas fico imaginando que tipo de classificação o autor pretendeu estabelecer naquele recorte quando claramente ele não parece ter seguido os parâmetros mais comuns de catalogação.

Como o post anterior ficou bastante longo, vamos tentar enxugar este um pouco mais, começando por cortar os preâmbulos. Vamos, diretamente, a mais cinco contos da coletânea Geração Subzero:

O Índio no Abismo sou Eu, de Luiz Bras
Sem enrolar: é o melhor texto da coletânea até aqui, casando com propriedade imaginação, limpidez da prosa, encadeamento narrativo. Escrito dentro de estritos padrões de gênero, o texto de Bras também consegue acenar com um olhar mais amplo sobre questões que vão além de sua narrativa e que têm algo a dizer sobre o mundo contemporâneo – na escola da boa ficção científica. Todos os demais contos até aqui apresentam algumas dessas características, mas não todas, e, principalmente, não todas em grau elevado: há, como frisamos, textos imaginativos com linguagem  descuidada, há um conto bem escrito que se perde ao contar uma história que circula como anedota, há pura fantasia desconectada de qualquer sentido do mundo e da realidade. O texto de Bras (que nasceu, civil e literariamente, como Nelson de Oliveira) é, a bem dizer, o primeiro deste livro que se sustenta sozinho dentro dos parâmetros estabelecidos pela própria coletânea.
A história é narrada pelo ponto de vista de um personagem que desperta. Concordo com o que o crítico Sérgio Rodrigues argumenta neste post sobre o perigo das histórias que começam com um “despertar”, mas neste caso o despertar é subvertido pela narrativa: o personagem não entende onde está e parece não ter uma percepção clara nem de si nem do que o cerca:
Sinto a eletricidade correr nos fios entrelaçados de minha consciência. Sem alvoroço. Antes não sentia, agora sinto. Antes eu não era nada, agora sou qualquer coisa que não sei bem o que é. Talvez eu seja só a própria eletricidade atravessando uns poucos neurônios. Talvez eu seja só uma folha que acaba de se desprender de um galho. Mas aqui não há galhos, árvores, paisagem. Aqui não há nada, apenas a serena eletricidade. Não há céu nem terra, direito e avesso. Nada. Somente eu. Se ao menos ventasse isso já seria reconfortante. E se estiver ventando? E se estiver ventando muito, sem que eu possa perceber? Sou uma folha e nada mais. Sem certezas nem equilíbrio. Uma folha elétrica.”
Não é um despertar corriqueiro: a personagem (é uma mulher) foi congelada por um longo período, quase nos estertores de uma longa doença terminal. Preservada, hibernou por duzentos anos até a medicina do futuro ter condições de tratá-la. É o que explica à paciente um médico que a atende em um cenário virtual no qual ambos se comunicam por telepatia – não sei se Bras já leu ou tinha em mente Lanark, de Alasdair Gray, mas as sequências dos diálogos entre o médico e a paciente no hospital me lembraram algumas cenas de Lanark, o personagem título, no Instituto no qual ele é tratado e mais tarde ajuda a tratar uma estranha doença. Voltando ao conto de Bras: por trás da maravilha daquela “ressurreição”, a personagem logo começa a perceber fissuras no mundo em que vive, expressas em uma dedução à qual chega após uma situação de crise se instalar no hospital: “O futuro jamais é para todos. O futuro é apenas para quem pode pagar.”
Mesmo os aparentes problemas da narrativa encontram solução em sua arquitetura interna. No início, para alguém que desconhece o mundo à sua volta, a personagem parece saber demais e usar termos e conceitos que não teria como compreender para uma consciência aparentemente surgida do nada, mas tudo se explica no momento em que se descobre que aquela mulher é alguém despertando de um sono longo, com os dados mantidos a salvo em seu cérebro emergindo desordenadamente. O final, elusivo como a boa ficção científica, mantém o tom melancólico e crítico ao tipo de  futuro que uma sociedade como a atual pode vir a engendrar.

A Filha do Diabo, de Luis Eduardo Matta
Para meu gosto de leitor, Matta é um dos primeiros desta seleção a encarar um desafio que eu talvez esperasse ver mais: o exercício de uma história de gênero transplantada para a realidade brasileira tentando dar conta tanto dos parâmetros mais restritos da literatura de entretenimento quanto das especificidades da nossa cultura. Em outras palavras: não faltam autores no mundo para escrever fantasias de cavalaria em cenários que lembram a Idade Média europeia, mas talvez fosse interessante ver uma história de horror usando elementos de que só um autor daqui ou mergulhado na cultura local poderia lançar mão.
Na pequena comunidade interiorana de Iguaúna, a chegada de “uma bela forasteira de procedência desconhecida e sem antepassados na região” não demora a despertar os receios e rancores supersticiosos dos habitantes da cidade, onde “os rumores mais sombrios sobre sua procedência e reais intenções na cidade começaram a circular...” Apenas duas pessoas do vilarejo mantêm contato frequente com a mulher: um adolescente que passa bastante tempo na casa alugada pela forasteira, fazendo serviços gerais, e a mãe dele, que presta ocasionais serviços de lavadeira e empregada. Um dia, a lavadeira aparece morta e a comunidade se mobiliza para resgatar o menino daquela casa isolada e sinistra, contando para isso com a ajuda de um padre especializado em exorcismos chamado pelo pai do garoto.
O conto de Matta é eficiente em sustentar a atmosfera de horror e suspense que pretende construir, com exceção do final, que estende  além da medida a antecipação de uma reviravolta previsível. 
No aspecto formal, Matta é uma grata e, aí sim, genuína surpresa (não conhecia nada de sua obra anterior, dedicada ao thriller). Seu conto é um dos que se ajustam com mérito ao que a coletânea apresenta como sua profissão de fé: uma história intrigante conduzida por uma narrativa sem firulas mas dedicada a cativar. Não há grandes voos formais na prosa de Matta, mas ela é correta e segura do início ao fim – não esqueçamos que os primeiros textos da série apresentavam grandes problemas nesse quesito.  Um bom conto.

Dê-me Abrigo, de Sérgio Pereira Couto
Esta história parte de um mote muito interessante: o uso, pelo exército dos Estados Unidos, do condicionamento musical como forma de despertar reações automáticas em seus combatentes.  A condução da narrativa, contudo, não é tão preciosa quanto o achado temático, uma vez que os blocos que constituem a trama não parecem apropriadamente concatenados.
O “condicionamento” é inserido como elemento de ameaça em uma história de aproximação amorosa. Certo dia, Cristina, uma mulher que se encaixa no padrão recorrente das protagonistas de comédias românticas (a certa altura, uma amiga a descreve como “executiva bem-sucedida de uma das maiores agências de publicidade do país”, que “nunca tem tempo para sair“) vê se mudar para a casa em frente à sua um homem que desperta seu interesse. O vizinho, Paulo, é, de acordo com o narrador onisciente em terceira pessoa da história, “alto, encorpado, com um ar militar e expressão séria no rosto.” Ele bate à casa dela pedindo um copo d’água e da atração mútua nasce um convite para sair. Enquanto Cristina some para se trocar, somos apresentados ao problema sombrio do homem. Cristina ouvia música em um IPod colocado numa estante. Quando Paulo está sozinho na sala, o aparelho começa a tocar a música Gimme Shelter, dos Rolling Stones, e o efeito é imediato: 
“Paulo percebeu que tudo sumira: os móveis, os tapetes, até mesmo a sala em si. Ele se via no meio de uma paisagem inóspita, sentindo o vento árido do deserto esparramar em seu rosto e o sol queimando as costas. Ao longe soavam explosões e tiros, cada vez mais altos, e uma língua que não entendia gritando ao longe”.
Para encurtar o caso: Paulo, um ex-soldado norte-americano (filho de brasileiro nascido nos Estados Unidos, o que explica sua presença no nosso país para o conto), foi submetido a experiências de “condicionamento musical” em seu regimento e surta toda vez que ouve essa canção específica dos Stones, recuperando um episódio traumático vivido em combate no Oriente Médio. Não vou estender muito a trama, por dois motivos: para não entregar demais a história e porque a própria trama pregressa ao encontro de Paulo e Cristina se enrola mais do que se entrega. Paulo, no passado, foi vítima de uma emboscada armada por uma companheira de exército que desertou usando como desculpa um estupro que o próprio Paulo foi convencido POR ELA, a desertora, a cometer (como é que é?). É sério:
Ela o seduziu e o convenceu a estuprá-la. Usou isso para ter uma desculpa para debandar para o lado da Al-Qaeda.” (p. 132)
Me parece de uma ligeireza atroz que algo assim seja colocado como um fato tão colateral ao centro da história. Afinal, uma mulher que convence o agressor, no fundo boa pessoa segundo os ditames da narrativa, a estuprá-la para ter uma “desculpa” para algo é uma construção de um grotesco tão grave  que não deveria estar tão à parte na narrativa. Há uma implicação ética em levar essa história, depois de esboçada, a um ponto crível. É como se a trama anterior do personagem tivesse sido orquestrada sem muito cuidado apenas para dar um trauma ao personagem masculino com uma certa moldura de historicidade (todo esse enrosco ocorreu na guerra do Afeganistão).
A prosa às vezes escorrega em um artificialismo que não combina com o conjunto, mas o maior senão do livro não é formal: é o pressuposto de que, devido ao condicionamento musical sofrido pelo personagem, qualquer reviravolta na trama depende muito de a música estar tocando em algum lugar ou circunstância, o que produz coincidências difíceis de engolir e ao menos uma decisão de Paulo tão esdrúxula que é praticamente inaceitável, claramente tomada para produzir um episódio dramático na história.

Ao Cortar os Cordões, de Estêvão Ribeiro
Dois homens em um bar partilham um “causo” da região: um psiquiatra chega a sua casa em determinado dia e encontra no lugar uma adolescente a quem tratou e que desenvolveu por uma ele uma obsessão doentia. Ambos conversam, ambos discutem, ela se insinua, ele resiste, ela expõe um insight perturbador sobre o mundo e tenta convencê-lo de que está certa… Até que uma circunstância sobrenatural vitima o desvalido terapeuta custando-lhe mais do que a imagem profissional. É um conto curto e de levada ágil, com uma história interessante. Mas o desfecho, no qual se retorna, com um twist de horror, aos dois homens que contavam a  história lá na primeira cena, me soou algo afetado. 
Como boa parte da narrativa é sustentada pelo diálogo entre o psiquiatra, Fernando, e a jovem paciente, Joana, alguns desvios de curso na estrutura das falas dos personagem podem representar um problema, bem como um que outro tropeço na carpintaria do texto, que não se eleva além de um arranjo por vezes piegas ou excessivo:
“Fernando encarou a garota, tentando ver sentido naquilo. Olhou-a nos olhos e viu nada mais que a verdade. Uma verdade que não podia ser sua ou real, mas a menina acreditava no que acabara de falar, seja lá o que fosse.”
No geral, contudo, é um bom conto, com uma história criativa que não tem medo de levar as suas circunstâncias internas até as últimas consequências.

O Primeiro Dragão, de Raphael Draccon
Não li os livros da série Dragões de Éter, de Draccon, para saber se aqui temos um excerto de um deles (mesma circunstância da narrativa de Eduardo Spohr). Me parece que não, que o texto tem a autonomia de um conto, com um final fechado que dota a peça de unidade sem depender de mais nada. Uma narrativa que, assim como a história escrita por Spohr, retrabalha temas consagrados da fantasia em estilo RPG medieval: o protagonista é um “paladino” a serviço de um deus para funcionar como elemento de equilíbrio nos assuntos dos homens e ajudá-los no combate contra criaturas monstruosas (neste caso, hobgoblins, criaturas do folclore nórdico semelhantes a duendes, lideradas por um “bugbear”, um monstro lendário “goblinoide” apropriado pela narrativa do RPG Dungeons and Dragons). O protagonista começa ferido e semimorto em um campo coalhado de cadáveres, tem suas feridas magicamente curadas pela benemerência de sua divindade, sai a perambular pela cidade destroçada, encontra cadáveres de entes queridos e entra em luta com oito hobgoblins em patrulha. Mata-os e liberta um contingente de três dezenas de humanos que seriam levados como escravos na retaguarda da horda de duendes malignos. O “primeiro dragão” ao que o título faz menção é um episódio do passado do paladino, que matou sua primeira fera justamente naquela cidade, anos antes – e teve um caso amoroso com uma jovem do local. Em companhia dos humanos libertados e inspirado pelo “fogo da justiça” de seu deus, ele persegue a vanguarda dos duendes, que executa um ataque a uma aldeia de elfos nas proximidades.
O conto é provavelmente o mais longo da antologia, tem 36 páginas, mas consegue ser o mais equilibrado dos três grandes “fantásticos” que apareceram até agora. É o que parece ter menos coisa “sobrando” dentro de suas próprias prerrogativas, mas ainda assim poderia se beneficiar de alguma edição, principalmente de algumas das perífrases comuns à literatura de fantasia e que por vezes confundem o épico com o sentimental:
“De fato, para um homem comum, aquilo sempre seria inacreditável. O renascido ergue-se como se o coração estivesse mais leve. Como se a cura fosse humana, como se o mundo fosse bom e propício a heróis”. (p. 151)
A mesma ideia voltará adiante em outra cena:
“Nuvens começaram a tomar o céu de repente, como se o mundo fizesse sentido.” (p.166)
A certo momento, o paladino  volta ao local em que matou seu primeiro dragão:
Ainda sem entender o motivo de seu deus dito justo lhe encaminhar até ali, afinal é o deus quem guia o coração de um paladino, mesmo o dos renascidos, ele iria se retirar para perguntar mais uma vez o porquê a um deus que respondia com trovões.” (pp.155-156)
A “resposta do deus” faz referência a um episódio anterior, quando, confrontado com a morte da aldeia, o paladino gritava sua raiva a “Hedryl. O nome que os aldeãos e paladinos davam a um deus cabeludo e bem-vestido, tachado como seu representante de justiça”
Aí a mesmíssima ideia do trovão volta adiante, mostrando que o autor está enamorado demais de seus achados para usá-los apenas uma vez:
“Dizem que os deuses na chuva respondem a seus fiéis com trovões.” (p. 167)
Ainda assim, é o que conta a história mais interessante dentro do seu campo. Draccon é um escritor que consegue dotar suas cenas de ação de dinamismo, embora ainda precise lidar melhor com a questão do tempo da prosa. Em uma entrevista a Zadie Smith incluída no livro Conversas entre Escritores (resenha aqui), Ian McEwan reconhece que foi um equívoco escrever repetidamente em seu livro A Seta do A Criança no Tempo que o personagem sentiu o tempo desacelerar. “Não é necessário dizer isso. A própria prosa se encarrega de diminuir o ritmo.” – diz McEwan. Draccon também recorre muito às perífrases mencionadas para paralisar o tempo de sua narrativa, como se a cada cena de luta ele se valesse de uma “câmera lenta” – que ressalta didaticamente os momentos de maior tensão e interrompe a dinâmica ágil que ele consegue construir no restante da cena de batalha.

Bom, o post ficou longo igual. Tentaremos fazer mais sintético na próxima – que, espero, não demorará tanto.

>>> Leia aqui a primeira parte da série de resenhas de Geração Subzero

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » Descongelando os subzeros – parte 3 diz: 14 de dezembro de 2012

    [...] >>> Descongelando os Subzeros, parte 2 [...]

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