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Maldito Fruto

11 de setembro de 2012 0

A diva Billie Holiday

Texto e entrevista de Cauê Marques

O ano é 1939. Com os Estados Unidos prestes a encarar a Segunda Guerra Mundial, crimes contra pessoas negras – abusos de autoridade, linchamentos e segregação social – eram comuns no país. Billie Holiday, a primeira grande diva do jazz, grava uma música que seria um divisor na história recente da música. Strange Fruit – Billie Holiday a Biografia de uma Canção, do jornalista americano David Margolick (Tradução de José Rubens Siqueira. Cosac Naify, 138 páginas, R$ 39,90), trata deste importante capítulo da carreira da intérprete americana.

Escrita por Abel Meeropol, um professor nova-iorquino, branco e judeu, Strange Fruit fala de um linchamento ocorrido no interior dos EUA, no estado de Indiana, em que os corpos de dois homens negros foram fotografados depois de um enforcamento público. A letra da canção, que descrevia em tristes versos a terrível situação, foi gravada por Billie Holiday em 1939 e acabou se tornando um dos símbolos da luta contra o preconceito nos EUA. Em todos os seus shows a partir desta data, Billie teria em Strange Fruit um elemento que a completava enquanto artista. Negra e de origem humilde, Billie parecia encarnar a tristeza da canção na sua voz. A história da música e a adoção dela por Holiday são o foco do livro. Lançada no Brasil pela editora Cosac Naify, a obra trata da influência e da amplitude que a mensagem da música alcançou com a ajuda de Billie Holiday. David Margolick explica como o compositor judeu nova-iorquino acabou conhecendo a maior cantora de jazz da época (e de todos os tempos), encontro que fez com que a luta pelos direitos dos negros na sociedade norte-americana fosse pauta de discussão dos grandes jornais das décadas de 1930/1940.

A pesquisa de Margolick sobre como surgiu Strange Fruit é minuciosa e alguns detalhes quase colocam o livro a perder em um dos capítulos, mas passadas essas páginas, o que o leitor encontra é uma série de depoimentos sobre como Holiday, que no início da década de 1940 já enfrentava problemas com álcool e heroína, arrebatou plateias com a canção-denúncia. O livro, com acabamento caprichado, é mais um documento da biografia da primeira grande voz feminina do jazz, além de contextualizar a importância da arte como parte das mudanças sociais.

Leia abaixo entrevista com o autor do livro, concedida por telefone, e ao fim do post assista a uma rara filmagem de Billie Holiday interpretando a canção:

Mundo Livro – Por que o senhor quis pesquisar sobre a canção? Quando começou seu interesse pela música Strange Fruit e a história com Billie Holiday?
David Margolick – Eu me interessava pelo assunto havia anos. Sabia da música, sempre fui curioso sobre a história. Eu escrevi um artigo sobre o filho de Abel Meeropol, autor da música, para o jornal norte-americano “The New York Times” durante os anos 1990. Tive a oportunidade de conhecer Robbie Meeropol e me lembro de ter conversado com ele sobre a música. Ele me deu um livro de poesias do seu pai naquela situação. Então, este assunto ficou na minha cabeça durante anos antes de eu escrever o livro. Gosto de jazz e de música, mas sou bastante interessado sobre a história dos direitos civis, e a história da América – da história dos judeus e do radicalismo americano. Todos esses tópicos se encontram na história da música.

Mundo Livro – Casos de músicas que mudam o pensamento das pessoas ou abraçam uma causa ainda são possíveis nos dias de hoje?
Margolick –
Acho que a consciência do público está saturada nos dias atuais. Acho que é muito mais difícil de afirmar algo com uma música do que era antigamente, a indústria da música é muito mais restrita atualmente do que naqueles tempos. Ela era controlada por poucas pessoas. Era muito mais fácil de se destacar com uma música antigamente. Atualmente, em termos musicais, já se discutiu quase tudo. Chocar as pessoas hoje seria mais difícil.

Mundo Livro – O trabalho de Billie em StrangeFruit inspirou outros artistas que vieram depois dela?
Margolick –
Bem, esta canção é um elemento estranho na carreira dela. Era completamente atípico para a época, e ela não fez nada parecido em toda a sua carreira, mas ao mesmo tempo parecia que aquilo havia se tornado a vida dela. Ela personificou a música, a tristeza de Strange Fruit parecia ser a tristeza vivida por Billie. Ela nunca foi uma ativista política, mas essa música e a vida dela falavam por si.

Mundo Livro – Os artistas negros de hoje ainda enfrentam preconceito como Billie enfrentava?
Margolick
– Não sou especialista neste assunto, mas entendo que em nações com muitas misturas étnicas, como os Estados Unidos ou o Brasil, o preconceito nunca desaparecerá por completo. É o tipo de coisa que pode afetar qualquer pessoa de outra etnia. E é por isso que músicas como Strange Fruit são simbólicas – não porque ainda existam linchamentos acontecendo nas ruas, mas porque o preconceito de que fala a música é o tipo de coisa com que a humanidade terá de lutar continuamente ao longo da história, é o tipo de coisa que nunca desaparecerá definitivamente.

Veja abaixo Billie Holiday interpretando a canção Strange Fruit:

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