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Honra e virtude no sertão

13 de setembro de 2012 0

Estreia nesta quinta-feira em Porto Alegre, dentro da programação do 19º Porto Alegre em Cena, o espetáculo baiano Sargento Getúlio, adaptado por  Gil Vicente Tavares da novela homônima de João Ubaldo Ribeiro. A peça, um monólogo no qual o ator Carlos Betão vive o sargento façanhudo e falastrão, será levada de hoje a sábado, às 19h, no Teatro do Sesc. O espetáculo venceu a edição 2011 do Prêmio Braskem baiano, nas categorias Melhor Espetáculo e Melhor Ator, e me parece um bom pretexto para republicar este texto que o David Coimbra escreveu sobre Sargento Getúlio, o  livro (Alfaguara, 168 páginas), na época em que a obra fazia parte de uma coleção de clássicos vendidos nas bancas junto com o jornal. Desfrutem:

A Qualquer Preço

David Coimbra

Essa história quem conta é Getúlio, sargento Getúlio, bem entendido, que prendeu um preso e leva o preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros, sertão fundo, sol de brasa parecendo sempre a pique e mosquerio e tudo seco e tisnado, é o Sergipe, o Sergipe é assim. Getúlio vai assuntando com o preso e o chofer Amaro, Amaro não é de muito falar, fica lá, quietão atrás da direção, cuidando a buraqueira da estrada. Amaro é bom de direção, o melhor da soldadama, mas não é de trela, é Getúlio que fica assim contando façanha, que Getúlio é façanhudo. De morte, vinte nas costas. Vinte. Não é pouco. Já de comecinho Getúlio avisa que matou, que mata, mas que não é dado a sangria. Fosse, terminava o vivente no ferro, porém faz um barulho esquisito e não é asseado por causo de todo aquele esguincho que sai. Getúlio prefere disparo no cachaço, como explicou pro preso e pro Amaro já na saída de Paulo Afonso, pegando aquela estrada ruim, estrada de carroça. E se vão os três desse jeito na camioneta, sacolejando, Getúlio falando sem parar, de quando em quando fazendo filosofice, Getúlio é de preceitos, vai ensinando uns e outros, vai lembrando de Tárcio. Bom amigo, Tárcio. Bom de tiro, bom de briga, bom na atalaia. Tárcio tinha um olho cego e quando ele arregalava aquele olho cego e branquela e cheio de veiazona arroxeada, nossa, o vivente podia se apreparar que vinha coisa, ah, vinha, Tárcio era fogo. Getúlio sabe também de gente importante. De comunista. Udenista. Pessedista. Luis Carlos Preste, Cristiano Machado, Floriano Peixoto, muitas gentes. Todo Peixoto é macho, sabia? Pois é. Getúlio tem cabelo ruim, tenta alisar com Quina Petróleo Oriental, já usou? Ou Brilhantina Glostora, que tem cheiro bom, ele até prefere, mas em salão ele não vai, que se o cabra olha enviesado pra ele ele já abre um buraco no infeliz. Pois é assim que se vai a história de Getúlio, do chofer e do preso. A história passeia junto com a mosquinha que passeia pelo vidro da camioneta, a história é dura, história de gente matada, mas também é história risonha, de mulher bonita, de amizades e amores. Getúlio vai contando e a gente vai lendo como se tivesse ouvindo e vai se imiscuindo na história e não consegue mais largar o livro do Ubaldo, que até nem é um livrão, é livrinho, fininho, mas é uma beleza de se ler e se encantar com o jeito do Getúlio, o jeito do Ubaldo, o jeito que a história sai envolvendo a gente, a gente acaba dentro da camioneta e termina o livro. Pena. Dá até saudade do Getúlio.

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