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Erico, o solo e o tempo

21 de setembro de 2012 0

Neste sábado publicaremos um caderno Cultura especial para marcar os 50 anos da conclusão de O Tempo e o Vento, a obra máxima de Erico Verissimo, que foi encerrada em 1962 com a publicação do último tomo de O Arquipélago. Aproveitando a oportunidade, republicamos aqui uma “entrevista imaginária” elaborada com o autor.

A história dessa pequena conversa que nunca houve entre este repórter e Erico pode ser remontada ao ano de 2005, quando se completaram 100 anos do nascimento do autor, transformando-o em um dos personagens mais festejados do país. Data daquela época também o começo da republicação integral da sua obra pela Companhia das Letras. O Caderno Donna, hoje editado pela Mariana Kalil, que mantém o blog Por Aí (acesse Por Aqui, hãn, sacaram?) naquela época estava sob o comando de Milena Fischer (ela também tem um blog, todo mundo tem um blog hoje em dia), e trazia a cada semana uma entrevista na Contracapa – eram feitas a entrevistados diferentes sempre as mesmas perguntas, inspiradas no famoso “questionário de Proust”. Aí surgiu a ideia de elaborar, para aquele final de semana em que se completavam os cem anos do escritor (17 de dezembro), respostas possíveis de Erico a perguntas do questionário, que se chamava “Auto-retrato“, sem o “r dobrado naqueles tempos pré-acordo ortográfico.

Escolhi respostas de Erico pinçadas de trechos dos dois volumes de Solo de Clarineta. Essa opção foi tomada porque esses dois livros reúnem memórias assinadas por Erico, e portanto eram frase e opiniões dele, e não interpretações delirantes recortadas de seus trabalhos de ficção, onde o autor gostava de ser “imparcial”, ou seja, dava aos seus personagens voz e ideias próprias, mesmo quando não concordava com elas. Abaixo, quem fala é o próprio Erico – para esta republicação, busco as respostas na íntegra (em 2005 o material precisou ser cortado):

Mundo Livro – Qual seu maior ídolo na adolescência?
Erico Verissimo
– Uma das maiores descobertas literárias de meus dez ou onze anos foi a dum livro encadernado que encontrei um dia no fundo duma gaveta. Sua capa, com desenhos em negro sobre um fundo vermelho, mostrava à esquerda uma jiboia enroscada numa bananeira, ao pé da qual estava sentado um leão que parecia olhar para um veleiro desarvorado e encalhado numa praia. Num céu escuro subia um balão. No alto da capa li um nome: Júlio Verne. Pouco abaixo, estas palavras: Viagens Maravilhosas. Contra a encosta dum rochedo, o título do romance: a casa a vapor. (…) Passei a ser um admirador fidelíssimo de Júlio Verne.

ML – Onde passou férias inesquecíveis?
Erico
– …um certo anoitecer de fevereiro de 1959, em Portugal. Tinha acabado de descer do automóvel de meu editor português em Conímbriga, nas proximidades de Coimbra. Íamos ver ruínas romanas. O céu, onde cintilava  a estrela vespertina, e o ar, que o frio hálito da noite embalsamava, pareciam feitos do mesmo translúcido cristal azulado. (…) Mafalda estava a meu lado, seu braço no meu braço.(…) Pensei: “Eis um momento que jamais poderei esquecer…”

ML – Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Erico –
Vejo-me ou, melhor, sinto-me deitado num berço, num quarto em penumbra. Sentada numa cadeira a meu lado, minha mãe me aplica uma cataplasma de linhaça que me queima o peito, ao mesmo tempo que um odor acre me entra pelas narinas. Noutra ocasião, as mãos maternas me esfregam as costas com um linimento de cheiro penetrante. Mas há outro momento ainda mais nítido na minha memória. É noite, D. Bega me canta uma canção de ninar, e eu com o indicador e o polegar da mão direita seguro sua aliança, fazendo-a rolar dum lado para outro no dedo dela, como quem dá corda a um relógio. Fazia isso todas as noites para conseguir encontrar a porta do sono. Imagino que nesse tempo eu não teria mais de dois anos de idade.

ML – Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Erico
– li (…) um livro sobre Portugal, impresso em papel esponjoso e grosso, com muitas ilustrações em cor, uma das quais mostrava uma árvore com flores vermelhas, tendo por baixo a legenda: olaias em flor. A palavra “olaia” me agradou tanto aos olhos como ao ouvido. Quarenta anos mais tarde, visitando Portugal pela primeira vez numa fria mas luminosa primavera, procurei as olaias como quem procura amigos de infância há muito perdidos.

ML – Que filme você sempre quer rever?
Erico
Os Últimos dias de Pompéia, que vimos com considerável atraso em Cruz Alta, causou-me profunda impressão.

ML – Que livro você mais cita?
Erico
– Eu lia e traduzia Rabindranath Tagore.  Vejo agora aqui a meu lado, tirada do fundo duma gaveta quase esquecida, uma tradução que fiz de passagens do livro Pássaros Extraviados

ML – Que música não sai da sua cabeça?
Erico –
… uma frase musical duma esquisita e inesperada beleza, que me enfeitiçou: a viola desenhava a linha melódica dum andante, cuja melodia me ficou gravada na memória. Que era tocada por um quarteto de cordas, não havia a menor dúvida. também eu estava certo de que não ouvia a voz de Mozart nem a de Beethoven. Brahms, quem sabe?Não. A música me falava francês e não alemão, italiano ou qualquer outra língua. A frase do quarteto me perseguiu obsessivamente durante todo aquele fim de 1930. Parecia descrever musicalmente o meu estado de espírito naquela época de minha vida: doce e preguiçosa melancolia e ao mesmo tempo um hesitante desejo de fuga ou, melhor, de ascensão… Só quatorze anos mais tarde, quando já liberto da ópera — para ser preciso em 1944, em San Francisco da Califórnia — é que vim a saber que a frase mágica era o Andantino Doucement Expressif do Quarteto de Cordas em Sol Menor, de Claude Debussy.

ML – Um hábito de que não abre mão.
Erico –
Nossa casa está sempre de portas abertas. Nunca se sabe quem por elas vai entrar nem quando. Mafalda e eu podemos estar à noite completamente a sós, lendo ou escutando música, e minutos depois termos conosco dez, quinze, vinte pessoas — amigos e às vezes até desconhecidos, que aparecem para uma prosa, sem nenhum motivo relacionado com o calendário ou qualquer convite especial.

ML – Um hábito de que você quer se livrar
Erico –
….eu diria que é uma curiosa combinação de preguiça – física e mental – e timidez. Tenho passado a vida a combater ambas, muitas vezes com o mais positivo sucesso.

ML – Um elogio inesquecível.
Erico
– Alegra-nos [a ele e a sua mulher,Mafalda] saber que as pessoas geralmente sentem-se bem em nossa casa.

ML – Em que situação você perde a elegância?
Erico – …é muito desagradável, além de absurdo, quando um escritor passa a ser tratado mais como um assunto, uma notícia, do que como um ser humano. Reajo com a maior veemência, procurando manter o meu copyright individual e evitando cair em domínio público.

ML – Em que outra profissão consegue se imaginar?
Erico
– …o pintor e o poeta frustrados que coexistem em mim com o romancista.

ML – Eu sou…
Erico
– Palavra de honra, não sei e acho que tenho medo de saber.

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