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Posts de setembro 2012

Um rosto de infância

25 de setembro de 2012 0

A escritora Marcia Tiburi. Foto: Rubens Martins Chaves, divulgação

Em seu último ensaio publicado, Olho de Vidro (2011), a filósofa e escritora Marcia Tiburi refletia sobre a onipresença da imagem na cultura contemporânea. Em seu novo romance, Era Meu Esse Rosto, é a ausência de uma imagem que norteia a busca do protagonista por si mesmo.

Era Meu Esse Rosto é o quarto romance de Marcia Tiburi, publicado após a conclusão de sua Trilogia Íntima: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009). Em comparação com os demais, o novo romance preserva a prosa limítrofe com a poesia, um narrar mais de sensaçõesdo que de situações. Há, contudo,um elemento diverso: é a primeira vez que a literatura de Marcia lida com um narrador masculino. Um recurso que,a própria autora admite, foi adotado para antepor um certo distanciamento do material mais pessoal e autobiográfico deste romance.

– Criei um homem que eu ficcionalizei neste livro. Talvez eu tenha feito isso para poder me distanciar da minha própria história. A gente sempre se inspira na realidade, porque a literatura é verossimilhança, tem a ver com o que poderia ter acontecido, e isso é o que vai sustentar o que chamamos de literatura. Há uma referência a um possível, e às vezes este “possível” é muito mais próximo do acontecimento vivido – diz a autora, em entrevista por telefone.

Era Meu Esse Rosto divide-se em duas linhas narrativas: a descrição, poética e exacerbada, das memórias de infância do narrador/protagonista em uma cidade do interior (nomeada apenas como V., como a Vacaria natal de Marcia), entremeadas com o relato de uma viagem do mesmo protagonista, já adulto, até a cidade da Itália de onde veio sua família (também batizada apenas de V., com a descrição imprecisa de uma metrópole mediterrânea com canais, como Veneza).

O personagem cumpre essa jornada de V. a V. para tentar encontrar na Itália, a pedido de uma parente, um retrato de seu avô, já morto e sepultado sob uma lápide sem foto. Essa busca por uma imagem fugidia é narrada em blocos de texto entre parênteses (transformando o presente do personagem em uma interrupção da infância na qual residem suas sensações e memórias mais vívidas). A jornada é também uma chave para o estilo elusivo e denso do romance.

– O personagem busca uma imagemque não está disponível, então a objetividade também não está disponível. O que sobra para ele? A tangência, a busca, um caminho que vai se construindo no próprio processo – comenta Marcia.

A busca pela imagem física, fotográfica, não é o centro da narrativa, e sim as evocações de uma infância em companhia das irmãs e dos nonnos: a avó, mais pragmática, o avô, uma figura marcante, contador de histórias e, aos olhos do neto, artífice de maravilhas.

– O que é a memória senão impressão? Essa memória de infância mais ainda, porque está misturada com uma sensação da infância que, para quem vive depois de adulto, é só uma sensação perdida. Uma sensação carregada de pureza, de uma ausência de mediação. Agora, o que vivemos é mediado por nossa história, currículo, formação, cultura, família, exigências sociais. Mas, para a criança, tudo é descoberta, tudo se imprime com mais força. E nunca mais será tão forte.

Erico, o solo e o tempo

21 de setembro de 2012 0

Neste sábado publicaremos um caderno Cultura especial para marcar os 50 anos da conclusão de O Tempo e o Vento, a obra máxima de Erico Verissimo, que foi encerrada em 1962 com a publicação do último tomo de O Arquipélago. Aproveitando a oportunidade, republicamos aqui uma “entrevista imaginária” elaborada com o autor.

A história dessa pequena conversa que nunca houve entre este repórter e Erico pode ser remontada ao ano de 2005, quando se completaram 100 anos do nascimento do autor, transformando-o em um dos personagens mais festejados do país. Data daquela época também o começo da republicação integral da sua obra pela Companhia das Letras. O Caderno Donna, hoje editado pela Mariana Kalil, que mantém o blog Por Aí (acesse Por Aqui, hãn, sacaram?) naquela época estava sob o comando de Milena Fischer (ela também tem um blog, todo mundo tem um blog hoje em dia), e trazia a cada semana uma entrevista na Contracapa – eram feitas a entrevistados diferentes sempre as mesmas perguntas, inspiradas no famoso “questionário de Proust”. Aí surgiu a ideia de elaborar, para aquele final de semana em que se completavam os cem anos do escritor (17 de dezembro), respostas possíveis de Erico a perguntas do questionário, que se chamava “Auto-retrato“, sem o “r dobrado naqueles tempos pré-acordo ortográfico.

Escolhi respostas de Erico pinçadas de trechos dos dois volumes de Solo de Clarineta. Essa opção foi tomada porque esses dois livros reúnem memórias assinadas por Erico, e portanto eram frase e opiniões dele, e não interpretações delirantes recortadas de seus trabalhos de ficção, onde o autor gostava de ser “imparcial”, ou seja, dava aos seus personagens voz e ideias próprias, mesmo quando não concordava com elas. Abaixo, quem fala é o próprio Erico – para esta republicação, busco as respostas na íntegra (em 2005 o material precisou ser cortado):

Mundo Livro – Qual seu maior ídolo na adolescência?
Erico Verissimo
– Uma das maiores descobertas literárias de meus dez ou onze anos foi a dum livro encadernado que encontrei um dia no fundo duma gaveta. Sua capa, com desenhos em negro sobre um fundo vermelho, mostrava à esquerda uma jiboia enroscada numa bananeira, ao pé da qual estava sentado um leão que parecia olhar para um veleiro desarvorado e encalhado numa praia. Num céu escuro subia um balão. No alto da capa li um nome: Júlio Verne. Pouco abaixo, estas palavras: Viagens Maravilhosas. Contra a encosta dum rochedo, o título do romance: a casa a vapor. (…) Passei a ser um admirador fidelíssimo de Júlio Verne.

ML – Onde passou férias inesquecíveis?
Erico
– …um certo anoitecer de fevereiro de 1959, em Portugal. Tinha acabado de descer do automóvel de meu editor português em Conímbriga, nas proximidades de Coimbra. Íamos ver ruínas romanas. O céu, onde cintilava  a estrela vespertina, e o ar, que o frio hálito da noite embalsamava, pareciam feitos do mesmo translúcido cristal azulado. (…) Mafalda estava a meu lado, seu braço no meu braço.(…) Pensei: “Eis um momento que jamais poderei esquecer…”

ML – Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Erico –
Vejo-me ou, melhor, sinto-me deitado num berço, num quarto em penumbra. Sentada numa cadeira a meu lado, minha mãe me aplica uma cataplasma de linhaça que me queima o peito, ao mesmo tempo que um odor acre me entra pelas narinas. Noutra ocasião, as mãos maternas me esfregam as costas com um linimento de cheiro penetrante. Mas há outro momento ainda mais nítido na minha memória. É noite, D. Bega me canta uma canção de ninar, e eu com o indicador e o polegar da mão direita seguro sua aliança, fazendo-a rolar dum lado para outro no dedo dela, como quem dá corda a um relógio. Fazia isso todas as noites para conseguir encontrar a porta do sono. Imagino que nesse tempo eu não teria mais de dois anos de idade.

ML – Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Erico
– li (…) um livro sobre Portugal, impresso em papel esponjoso e grosso, com muitas ilustrações em cor, uma das quais mostrava uma árvore com flores vermelhas, tendo por baixo a legenda: olaias em flor. A palavra “olaia” me agradou tanto aos olhos como ao ouvido. Quarenta anos mais tarde, visitando Portugal pela primeira vez numa fria mas luminosa primavera, procurei as olaias como quem procura amigos de infância há muito perdidos.

ML – Que filme você sempre quer rever?
Erico
Os Últimos dias de Pompéia, que vimos com considerável atraso em Cruz Alta, causou-me profunda impressão.

ML – Que livro você mais cita?
Erico
– Eu lia e traduzia Rabindranath Tagore.  Vejo agora aqui a meu lado, tirada do fundo duma gaveta quase esquecida, uma tradução que fiz de passagens do livro Pássaros Extraviados

ML – Que música não sai da sua cabeça?
Erico –
… uma frase musical duma esquisita e inesperada beleza, que me enfeitiçou: a viola desenhava a linha melódica dum andante, cuja melodia me ficou gravada na memória. Que era tocada por um quarteto de cordas, não havia a menor dúvida. também eu estava certo de que não ouvia a voz de Mozart nem a de Beethoven. Brahms, quem sabe?Não. A música me falava francês e não alemão, italiano ou qualquer outra língua. A frase do quarteto me perseguiu obsessivamente durante todo aquele fim de 1930. Parecia descrever musicalmente o meu estado de espírito naquela época de minha vida: doce e preguiçosa melancolia e ao mesmo tempo um hesitante desejo de fuga ou, melhor, de ascensão… Só quatorze anos mais tarde, quando já liberto da ópera — para ser preciso em 1944, em San Francisco da Califórnia — é que vim a saber que a frase mágica era o Andantino Doucement Expressif do Quarteto de Cordas em Sol Menor, de Claude Debussy.

ML – Um hábito de que não abre mão.
Erico –
Nossa casa está sempre de portas abertas. Nunca se sabe quem por elas vai entrar nem quando. Mafalda e eu podemos estar à noite completamente a sós, lendo ou escutando música, e minutos depois termos conosco dez, quinze, vinte pessoas — amigos e às vezes até desconhecidos, que aparecem para uma prosa, sem nenhum motivo relacionado com o calendário ou qualquer convite especial.

ML – Um hábito de que você quer se livrar
Erico –
….eu diria que é uma curiosa combinação de preguiça – física e mental – e timidez. Tenho passado a vida a combater ambas, muitas vezes com o mais positivo sucesso.

ML – Um elogio inesquecível.
Erico
– Alegra-nos [a ele e a sua mulher,Mafalda] saber que as pessoas geralmente sentem-se bem em nossa casa.

ML – Em que situação você perde a elegância?
Erico – …é muito desagradável, além de absurdo, quando um escritor passa a ser tratado mais como um assunto, uma notícia, do que como um ser humano. Reajo com a maior veemência, procurando manter o meu copyright individual e evitando cair em domínio público.

ML – Em que outra profissão consegue se imaginar?
Erico
– …o pintor e o poeta frustrados que coexistem em mim com o romancista.

ML – Eu sou…
Erico
– Palavra de honra, não sei e acho que tenho medo de saber.

Paulo Coelho, a arte e a filosofia

17 de setembro de 2012 0

O escritor Paulo Coelho. Foto: Martin Rendo, Divulgação

Texto de Rodrigo Celente

Como um bom mago que se preze, a data de lançamento do livro Manuscrito Encontrado em Accra, o 22° da carreira de Paulo Coelho, foi escolhida pela sua simbologia. No dia 25 de julho comemora-se o aniversário da cidade espanhola de Santiago de Compostela, data que coincidiu com o 25º aniversário da publicação do best-seller Diário de um Mago, que narra a peregrinação de Paulo Coelho pelo Caminho de Santiago, que para milhares de pessoas é uma experiência mística, filosófica e transcendental.

E é esta experiência (engendrada numa história intertextual onde se misturam Shakespeare, Umberto Eco, Jorge Luis Borges, fatos históricos) que volta à tona em Manuscrito Encontrado em Accra (Sextante, 176 páginas). É sabido que, para se contar a história de um indivíduo, há necessidade de se articular situações diversas, um tempo de história e outro de História. E Paulo Coelho acerta a mão neste aspecto em Manuscrito Encontrado em Accra. Ao final da leitura, por meio de posicionamentos estéticos e éticos, fazemos uma releitura da vida. O livro, diz o autor, é a transcrição do pergaminho descoberto em 1974 pelo arqueólogo inglês sir Walker Wilkinson. O manuscrito, que foi escrito em árabe, hebraico e latim, contém um relato sobre os conselhos que um sábio grego, Copta, deu à população de Jerusalém às vésperas da invasão da cidade pelos cruzados, em julho de 1099.

A situação é semelhante à abertura de O Nome da Rosa, obra que consagrou o italiano Umberto Eco. No prefácio, Eco diz que teve contato com um pergaminho de um suposto Abade Vallet. A partir daí, ele desenvolve a história repleta de citações e situações históricas e literárias. Num claro jogo metafórico, de que muito faz uso, Paulo Coelho reafirma sua proposta de trabalhar com elementos que digam das coisas reais. Alguns dos fatos, locais, nomes e datas presentes na narrativa são recursos ficcionais. Servem apenas para dar ao leitor aquele conhecido que se necessita para sentir-se bem. Paulo Coelho vai, portanto, da realidade à aparência.

O crítico João Alexandre Barbosa, em A Leitura do Intervalo, escreve que aquilo que lemos na obra literária ultrapassa as fronteiras do texto, incorpora contextos diversos e atualiza o conhecimento de um determinado sujeito sobre um particular objeto. Ao nos depararmos com os conselhos de Copta, questionamo-nos acerca de nossas ações, ou melhor, falta de ações em todos os níveis no mundo contemporâneo. Os interlocutores de Copta perguntam sobre valores e sentimentos como lealdade, coragem, amor, medo, solidão, derrota e morte. E as lições de Copta nada mais são do que uma reflexão sobre a felicidade ou infelicidade de nossa condição humana. Ora, e não é justamente isto que esperamos de uma obra de arte?

Honra e virtude no sertão

13 de setembro de 2012 0

Estreia nesta quinta-feira em Porto Alegre, dentro da programação do 19º Porto Alegre em Cena, o espetáculo baiano Sargento Getúlio, adaptado por  Gil Vicente Tavares da novela homônima de João Ubaldo Ribeiro. A peça, um monólogo no qual o ator Carlos Betão vive o sargento façanhudo e falastrão, será levada de hoje a sábado, às 19h, no Teatro do Sesc. O espetáculo venceu a edição 2011 do Prêmio Braskem baiano, nas categorias Melhor Espetáculo e Melhor Ator, e me parece um bom pretexto para republicar este texto que o David Coimbra escreveu sobre Sargento Getúlio, o  livro (Alfaguara, 168 páginas), na época em que a obra fazia parte de uma coleção de clássicos vendidos nas bancas junto com o jornal. Desfrutem:

A Qualquer Preço

David Coimbra

Essa história quem conta é Getúlio, sargento Getúlio, bem entendido, que prendeu um preso e leva o preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros, sertão fundo, sol de brasa parecendo sempre a pique e mosquerio e tudo seco e tisnado, é o Sergipe, o Sergipe é assim. Getúlio vai assuntando com o preso e o chofer Amaro, Amaro não é de muito falar, fica lá, quietão atrás da direção, cuidando a buraqueira da estrada. Amaro é bom de direção, o melhor da soldadama, mas não é de trela, é Getúlio que fica assim contando façanha, que Getúlio é façanhudo. De morte, vinte nas costas. Vinte. Não é pouco. Já de comecinho Getúlio avisa que matou, que mata, mas que não é dado a sangria. Fosse, terminava o vivente no ferro, porém faz um barulho esquisito e não é asseado por causo de todo aquele esguincho que sai. Getúlio prefere disparo no cachaço, como explicou pro preso e pro Amaro já na saída de Paulo Afonso, pegando aquela estrada ruim, estrada de carroça. E se vão os três desse jeito na camioneta, sacolejando, Getúlio falando sem parar, de quando em quando fazendo filosofice, Getúlio é de preceitos, vai ensinando uns e outros, vai lembrando de Tárcio. Bom amigo, Tárcio. Bom de tiro, bom de briga, bom na atalaia. Tárcio tinha um olho cego e quando ele arregalava aquele olho cego e branquela e cheio de veiazona arroxeada, nossa, o vivente podia se apreparar que vinha coisa, ah, vinha, Tárcio era fogo. Getúlio sabe também de gente importante. De comunista. Udenista. Pessedista. Luis Carlos Preste, Cristiano Machado, Floriano Peixoto, muitas gentes. Todo Peixoto é macho, sabia? Pois é. Getúlio tem cabelo ruim, tenta alisar com Quina Petróleo Oriental, já usou? Ou Brilhantina Glostora, que tem cheiro bom, ele até prefere, mas em salão ele não vai, que se o cabra olha enviesado pra ele ele já abre um buraco no infeliz. Pois é assim que se vai a história de Getúlio, do chofer e do preso. A história passeia junto com a mosquinha que passeia pelo vidro da camioneta, a história é dura, história de gente matada, mas também é história risonha, de mulher bonita, de amizades e amores. Getúlio vai contando e a gente vai lendo como se tivesse ouvindo e vai se imiscuindo na história e não consegue mais largar o livro do Ubaldo, que até nem é um livrão, é livrinho, fininho, mas é uma beleza de se ler e se encantar com o jeito do Getúlio, o jeito do Ubaldo, o jeito que a história sai envolvendo a gente, a gente acaba dentro da camioneta e termina o livro. Pena. Dá até saudade do Getúlio.

As cores deste blog

12 de setembro de 2012 0

Faz algum tempo, mudamos o projeto gráfico deste blog, com a adoção do cabeçalho bonitão lá de cima – que tem tons terrosos e em preto e branco. Para manter uma certa harmonia visual do conjunto, isso nos levou a mudar o padrão dos títulos dos posts, antes em azul, para uma cor mais condizente com o tom do topo.

Como o tema que usamos neste blog prevê que os títulos dos posts e os links sejam sempre da mesma cor, a mudança automaticamente atingiu também os links para textos. Mas vinha me incomodando o fato de que a nova cor poderia passar despercebida por ser por demais semelhante ao padrão da fonte normal, então fui lá nas configurações e mudei para um marrom mais contrastante, creio eu.

Como vocês podem ver neste exemplo aqui.

Mas preciso saber o que vocês, nossos leitores, acharam. Está mais fácil identificar os links nos textos?

Opiniões na caixa de comentários.

Abraço.

Eu preciso aprender a ser só

12 de setembro de 2012 1

Que tipo de comportamento civilizado você estaria disposto a manter se fosse, aparentemente, o último ser civilizado sobre a Terra? Este argumento, que flerta com a boa ficção científica, é a premissa do romance Sozinho no Deserto Extremo (Editora Prumo, 320 páginas, R$ 29,90).

Sozinho no Deserto Extremo narra a história de um homem que, certa manhã de domingo, acorda em São Paulo e descobre que é o último ser vivo na cidade. Todos os outros desapareceram misteriosamente, como se vítimas de uma explosão seguida de imediata implosão, deixando apenas em seus lugares as roupas dispostas em misteriosos arranjos circulares. O romance é também o primeiro livro para adultos de Luiz Bras – que já lançou livros infantis, como São Paulo e o Imperador da China, e uma coletânea de crônicas e ensaios (Muitas Peles). Bras é também o pseudônimo com o qual o contista, crítico e organizador de antologias Nelson de Oliveira vinha assinando peças de ficção científica em projetos muitas vezes capitaneados por ele próprio, além de crônicas no jornal literário Rascunho.

Depois de Poeira, Demônios e Maldições (leia mais aqui), ficção científica distópica lançada em 2010, Bras se tornou o nom de plume oficial de Oliveira. Conhecido pelas experimentações formais nos trabalhos de seus primeiros anos de carreira, Oliveira/Bras já vinha flertando há algum tempo com o universo da literatura de gênero. Foi ele o organizador, em 2007, da coletânea de ficção científica Futuro Presente (Record). Ele também editou revistas do Projeto Portal, tentativa de aproximação entre autores de ficção científica mais estrita e escritores do que se costuma chamar de “literatura mainstream” – nomenclatura que é também problemática, uma vez que a ideia de “mainstream” casaria melhor com os “best-sellers”.

O cruzamento entre o legado mais realista do pregresso Oliveira e a imaginação feroz da nova identidade Luiz Bras faz de Sozinho no Deserto Extremoum livro peculiar na ficção nacional. Partindo de uma premissa sobrenatural, a do sumiço de quase toda a população do planeta, Bras investiga com profundidade as progressivas metamorfoses na psique esfacelada do último sobrevivente, um homem comum de meia-idade chamado Davi. O protagonista passa os primeiros dias após o evento sem sair de seu apartamento, em choque pela perda da mulher e dos filhos. Depois, premido pela necessidade de encontrar comida, explora a cidade vazia, de bicicleta (as ruas estão tomadas de carros acidentados que ficaram sem motoristas em pleno trânsito, chocando-se uns contra os outros e todas contra qualquer coisa que estivesse na frente: paredes, vitrinas, guardas de pontes). Davi invade lojas e casas em busca de víveres, imagina um meio desesperado de emitir sinais a possíveis sobreviventes, dorme cada noite em um local diferente, seguindo o fluxo da energia elétrica (sem ninguém para fazer a manutenção, as estações de alimentação vão se desligando paulatinamente)

Davi era um bem-sucedido publicitário. Enquanto o mundo ainda estava nos eixos, era um grande apreciador de cinema – e muitas das elaborações que ele faz para tentar entender o que aconteceu derivam de tramas de filmes de ficção científica a que assistiu. Davi não é um herói, é um homem comum, que pensa a todo instante nas problemáticas consequências de cada gesto. Se ele se ferir ou adoecer gravemente, o que fazer num mundo sem médicos? Quando expirar a validade dos alimentos industrializados disponíveis nos refrigeradores que ainda  funcionam, ele se alimentará de quê. A certa altura, o próprio romance se assume como uma variação mais realista e sombria de As Cidades Silenciosas conto de Ray Bradbury incluído em As Crônicas Marcianas, também com o mote de um homem sozinho em uma cidade abandonada, em Marte:

Você leu esse conto há muito, muito tempo, Davi. Mas a premissa logo pegou você de jeito. Liberdade, liberdade. Que delícia, ter o mundo todo à sua disposição, não precisar estudar nem trabalhar, não precisar ser gentil e educado com as pessoas gentis e educadas, nem hostil e agressivo com as pessoas hostis e agressivas. Que maravilha, entrar numa loja – em qualquer loja – e levar o que quiser, poder vestir qualquer roupa sem se preocupar com a opinião alheia. Não ter que votar, acorda cedo, pagar impostos ou fugir de psicopatas. O protagonista não estava preocupado com a falta de um médico em caso de acidente ou de uma doença grave. Ou com a falta de energia elétrica quando todas as usinas deixassem de funcionar.

A narrativa, estruturada em capítulos numerados informando quantos dias se passaram desde o misterioso evento (mas dispostos não necessariamente em ordem), também enfoca o medo de Davi por estar literalmente sozinho no mundo.

E seu medo ainda maior ao suspeitar que talvez não esteja.


Em versão para maiores

11 de setembro de 2012 0

O escritor Caio Riter. Foto: Adriana Franciosa, arquivo ZH – 01/09/2005

Texto de Caue Fonseca

Há, sim, crianças e adolescentes. Mas, aqui, ora são roubadas por forasteiros que se aproveitam de mães solitárias, ora são atacadas a golpes de faca para lavar a honra ou impedir vingança futura. Nos contos de Vento Sobre Terra Vermelha (8Inverso Editora, 184 páginas), o escritor Caio Riter se aventura com estilo diverso, mas com a mesma destreza demonstrada nos livros infanto- juvenis pelos quais é reconhecido.

Mesmo que o Caio dos títulos juvenis apareça em pinceladas lúdicas, é injusto com Vento Sobre Terra Vermelha Editora – limitá- lo à comparação com a trajetória do seu autor, porto-alegrense de 49 anos e com mais de 20 de obras publicadas.

Vento… para em pé. Em rara escrita que é ao mesmo tempo mítica, ancestral e límpida, Caio apresenta um bem amarrado conjunto de contos sitiados em uma cidade a todo tempo desafiada por pequenas barbáries, quase sempre cometidas por gente comum e sem rumo.

Em torno de um personagem que morrerá ainda no primeiro conto, o temido e respeitado Coronel Boaventura, aparecem outros que se comunicam em narrativas de estranhamento, luxúria ou simples violência.Embora não se prenda a aspectos regionalistas de linguagem, o Rio Grande do Sul de Simões Lopes Neto aparece na obra de Caio por meio da pretensa firmeza de valores, e na ligeira punição, quase sempre a lâmina, a quem os afronta.

Não é por acaso que o conto que fecha a obra narre o caso de uma árvore da praça que, se acreditava, punia de morte quem a desafiasse. E ainda apontava, com a sua sombra, o cenário das tragédias. É uma metáfora do que une as histórias: personagens que sucumbem a tentações mesmo antevendo e temendo os seus desfechos. E o fazem por serem vítimas de desejos irrefreáveis como o vento que dá nome ao livro.

11 livros sobre o 11 de setembro

11 de setembro de 2012 0

O que mais pareceu desconcertar quem testemunhou o 11 de Setembro não foi o fato de estar assistindo a algo inédito, mas a sensação contrária: parecia que aquilo já havia sido visto à exaustão em um contexto mais seguro, o dos filmes-catástrofe que o próprio cinema americano se especializou em produzir. Foi natural que o cinema e a literatura parecessem haver decretado uma quarentena sobre o tema – cujo impacto começou a ser abordado primeiramente em livros de não ficção (como as reportagens O Vulto das Torres, de Lawrence Wright, e 102 Minutos, de Jim Dwyer e Kevin Flynn) e documentários. Como Jean Baudrillard escreveu em um ensaio incluído na coletânea Power Inferno, o caráter gigantesco do evento o tornava refratário a apropriações estéticas –“Por absorver toda a imaginação e não ter sentido, ele não pode ser representado”. Neste 11º aniversário do ataque às Torres Gêmeas, vai uma lista de 11 livros sobre o 11/9:

Windows of the World – Frederic Beigbeder
Um dos primeiros romances a abordar o trauma do 11 de setembro não foi um drama escrito por um americano, e sim esta sátira assinada por um provocativo autor francês. Por meio da história de um pai divorciado que passa suas duas últimas horas de vida em um almoço com os filhos no restaurante panorâmico que ficava no topo de uma das torres (e que dá nome ao livro), Beigbeder constrói uma sátira impiedosa ao modo de vida americano e à falsa sensação de onipotência vivida pelos Estados Unidos nos anos de riqueza imediatamente anteriores aos atentados. Lançado em 2005, ganhou reedição em 2010. Tradução de André Teles. Record; 352 páginas.

Extremamente Alto e Incrivelmente Perto Jonathan Safran Foer
O 11 de Setembro e suas consequências pelo olhar de um menino de nove anos portador de Síndrome de Asperger. Oskar perde o pai nos atentados às Torres e busca um sentido para a perda em uma chave encontrada no casaco de seu terno. No caminho, além de encontrar um mosaico de diferentes pessoas dedicadas a lidar elas mesmas com o luto, também restabelece contato com seu avô, um homem que aos poucos foi deixando de falar e que também tem uma experiência traumática no passado: a destruição de Dresden por bombardeios aéreos durante a II Guerra. Tradução de Daniel Galera. Rocco, 360 páginas.

Terrorista – John Updike
Ahmad, um adolescente filho de pai árabe e mãe de ascendência irlandesa, luta entre os impulsos contrários de suas duas lealdades: à luta religiosa, nele incutida pelo líder espiritual islâmico que frequenta, ou ao  Oeste decadente representado pela mãe e pelo seu professor Jack Levy, tutor na escola em que o  jovem tem dificuldade de se enquadrar. Escrito com a prosa suntuosa que Updike tornou sua marca, foi duramente criticado pela artificialidade do retrato psicológico de Ahmad. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 336 páginas.

À Sombra das Torres Ausentes–  Art Spiegelman
Único único artista a ganhar um prêmio Pulitzer com uma história em quadrinhos (Maus), Spiegelman, nesta luxuosa HQ, critica George W. Bush e seu modelo de governo, e também a xenofobia que passou a imperar nos EUA. Em uma das histórias, na qual reproduz o recurso que o tornou célebre em Maus, de retratar a si mesmo como um rato antropomorfizado, Spiegelman narra seus instantes de pânico nas horas imediatamente subsequentes ao atentado e sua tentativa de chegar à escola do filho. Tradução de Antonio Macedo Soares. Companhia das Letras.

Homem em Queda – Don DeLillo
Um romance que arrebata já desde a primeira cena: uma descrição impactante do protagonista coberto da poeira espalhada pela queda das torres. O protagonista é um advogado, um dos que conseguiram sair das Torres. Depois que o prédio desaba ele busca, em choque, refúgio na casa de sua ex-mulher. Esmagado pelo trauma, passa os dias seguintes rodando cassinos e tentando entender o que viveu. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 264 páginas.

Sábado Ian McEwan
McEwan prova-se neste romance um mestre em estender uma atmosfera de tensão e suspense com recursos de grande sobriedade. Em um sábado de 2003 em Londres, para o qual está marcada uma grande manifestação contra a iminente invasão americana do Iraque, um bem-sucedido neurocirurgião, Henry Perowne, prepara minuciosamente um jantar de família até se envolver em um acidente que pode acabar com a segurança tranquila e racional de seu mundo. Com a descrição minuciosa e paciente do cotidiano de Perowne, McEwan prepara a explosão de perigo e ameaça na parte final, comprometida por uma certa ingenuidade romântica do argumento final. Ainda assim, um dos grandes romances da lista. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras, 344 páginas.

O Fundamentalista RelutanteMohsin Hamid
O jovem Changez, 22 anos, paquistanês residente em Nova York, estudante destacado, com futuro promissor, emprego bem remunerado como consultor de empresas, se torna, após os atentados, alvo da paranoia posterior à queda das torres. O romance é um monólogo dirigido pelo próprio Changez tempos depois a um enigmático americano que encontra em um café em Lahore. Em contraponto ao retrato claudicante de Updike, é um romance sincero sobre o “ponto de vista de outro lado”: os milhares de imigrantes islâmicos vivendo nos Estados Unidos e atropelados pelo clima geral de patriotada maniqueísta criado pela mídia e pelo governo americanos. Tradução de Vera Ribeiro. Objetiva/Alfaguara, 176 páginas.

Terras BaixasJoseph O’Neill
A premiada história tangencia o trauma do 11 de setembro ao enfocar a relação entre dois homens fascinados um pelo outro e ambos pelo críquete: o caribenho Chuck,  imigrante de Trinidad obcecado por construir um monumental estádio para a prática de críquete em plena Nova York, e o holandês Hans van der Broek, um homem solitário, cuja família voltou para a Europa traumatizada com os atentados. Van der Broek busca refúgio da Nova York traumatizada pelos ataques em um clube de críquete frequentado apenas por estrangeiros, e o livro fala mais de críquete do que dos atentados (o esporte é majoritariamente praticado por imigrantes nos Estados Unidos do beisebol). Tradução de Cássio Arantes Leite. Objetiva/Alfaguara, 272 páginas.

Reconhecimento de PadrõesWilliam Gibson
O pai do cyberpunk, uma das correntes mais pops e relevantes da ficção científica contemporânea, enfoca o 11 de Setembro inserindo-o no universo habitual de sua ficção: as megalópoles ultratecnológicas de um mundo de capitalismo selvagem high tech em expansão constante. A protagonista, Cayce Pollard, é uma consultora especializada em design e tendências de comportamento, trabalho para o qual utiliza uma espécie de intuição sobrenatural que a faz prever com segurança as movimentações futuras do mercado de comportamento. Um efeito colateral dessa habilidade é uma aversão maníaca a logomarcas, o suficiente para pesados ataques de pânico. Chamada a Londres para um trabalho, ela se envolve em uma trama de paranoia e crime internacional que pode ter desdobramentos ligados ao paradeiro de seu pai, um ex-agente da CIA desaparecido nos ataques às Torres. Tradução de Fábio Fernandes. Aleph, 416 páginas.

Ao Pé da Escada, de Lorrie Moore
Best-seller lançado no fim de 2011 no Brasil, não se concentra diretamente sobre o episódio dos atentados, mas aborda o racismo insidioso que se espalhou pela sociedade americana pós-11 de Setembro (um pouco o tema também de O Fundamentalista Relutante, embora este dedique mais espaço ao episódio em si por ser ambientado em Nova York, enquanto o romance de Moore se passa no Meio-Oeste). É, a seu modo, um romance de formação, protagonizado por Tassie Keltjin, que começa a trabalhar de babá para um misterioso casal em processo de adoção de uma bebê negra. Suas relações com o casal, com a própria família e com um pretendente se veem subitamente transformadas pela onda de medo e luto que sucedeu aos ataques. Tradução de Maria C. Clark. Record, 336 páginas.

O Jardim dos Últimos DiasAndré Dubus III
Outro título que saiu no Brasil em 2011, expõe os conflitos de personagens cujas vidas se cruzam nos dias que antecederam os ataques terroristas. O centro gravitacional do livro é Bassan, um dos responsáveis por pilotar um dos aviões usados no ataque. Ele chega antes dos demais aos Estados Unidos para aproveitar todas os decadentes entretenimentos do Ocidente antes de seu “martírio”, e se envolve com uma stripper. O episódio é baseado em rumores não plenamente confirmados de que um dos terroristas teria feito o mesmo:  mergulhado nos prazeres da sociedade ocidental dias antes dos atentados. Tradução de Marcelo Barbão. Record, 476 páginas.

Maldito Fruto

11 de setembro de 2012 0

A diva Billie Holiday

Texto e entrevista de Cauê Marques

O ano é 1939. Com os Estados Unidos prestes a encarar a Segunda Guerra Mundial, crimes contra pessoas negras – abusos de autoridade, linchamentos e segregação social – eram comuns no país. Billie Holiday, a primeira grande diva do jazz, grava uma música que seria um divisor na história recente da música. Strange Fruit – Billie Holiday a Biografia de uma Canção, do jornalista americano David Margolick (Tradução de José Rubens Siqueira. Cosac Naify, 138 páginas, R$ 39,90), trata deste importante capítulo da carreira da intérprete americana.

Escrita por Abel Meeropol, um professor nova-iorquino, branco e judeu, Strange Fruit fala de um linchamento ocorrido no interior dos EUA, no estado de Indiana, em que os corpos de dois homens negros foram fotografados depois de um enforcamento público. A letra da canção, que descrevia em tristes versos a terrível situação, foi gravada por Billie Holiday em 1939 e acabou se tornando um dos símbolos da luta contra o preconceito nos EUA. Em todos os seus shows a partir desta data, Billie teria em Strange Fruit um elemento que a completava enquanto artista. Negra e de origem humilde, Billie parecia encarnar a tristeza da canção na sua voz. A história da música e a adoção dela por Holiday são o foco do livro. Lançada no Brasil pela editora Cosac Naify, a obra trata da influência e da amplitude que a mensagem da música alcançou com a ajuda de Billie Holiday. David Margolick explica como o compositor judeu nova-iorquino acabou conhecendo a maior cantora de jazz da época (e de todos os tempos), encontro que fez com que a luta pelos direitos dos negros na sociedade norte-americana fosse pauta de discussão dos grandes jornais das décadas de 1930/1940.

A pesquisa de Margolick sobre como surgiu Strange Fruit é minuciosa e alguns detalhes quase colocam o livro a perder em um dos capítulos, mas passadas essas páginas, o que o leitor encontra é uma série de depoimentos sobre como Holiday, que no início da década de 1940 já enfrentava problemas com álcool e heroína, arrebatou plateias com a canção-denúncia. O livro, com acabamento caprichado, é mais um documento da biografia da primeira grande voz feminina do jazz, além de contextualizar a importância da arte como parte das mudanças sociais.

Leia abaixo entrevista com o autor do livro, concedida por telefone, e ao fim do post assista a uma rara filmagem de Billie Holiday interpretando a canção:

Mundo Livro – Por que o senhor quis pesquisar sobre a canção? Quando começou seu interesse pela música Strange Fruit e a história com Billie Holiday?
David Margolick – Eu me interessava pelo assunto havia anos. Sabia da música, sempre fui curioso sobre a história. Eu escrevi um artigo sobre o filho de Abel Meeropol, autor da música, para o jornal norte-americano “The New York Times” durante os anos 1990. Tive a oportunidade de conhecer Robbie Meeropol e me lembro de ter conversado com ele sobre a música. Ele me deu um livro de poesias do seu pai naquela situação. Então, este assunto ficou na minha cabeça durante anos antes de eu escrever o livro. Gosto de jazz e de música, mas sou bastante interessado sobre a história dos direitos civis, e a história da América – da história dos judeus e do radicalismo americano. Todos esses tópicos se encontram na história da música.

Mundo Livro – Casos de músicas que mudam o pensamento das pessoas ou abraçam uma causa ainda são possíveis nos dias de hoje?
Margolick –
Acho que a consciência do público está saturada nos dias atuais. Acho que é muito mais difícil de afirmar algo com uma música do que era antigamente, a indústria da música é muito mais restrita atualmente do que naqueles tempos. Ela era controlada por poucas pessoas. Era muito mais fácil de se destacar com uma música antigamente. Atualmente, em termos musicais, já se discutiu quase tudo. Chocar as pessoas hoje seria mais difícil.

Mundo Livro – O trabalho de Billie em StrangeFruit inspirou outros artistas que vieram depois dela?
Margolick –
Bem, esta canção é um elemento estranho na carreira dela. Era completamente atípico para a época, e ela não fez nada parecido em toda a sua carreira, mas ao mesmo tempo parecia que aquilo havia se tornado a vida dela. Ela personificou a música, a tristeza de Strange Fruit parecia ser a tristeza vivida por Billie. Ela nunca foi uma ativista política, mas essa música e a vida dela falavam por si.

Mundo Livro – Os artistas negros de hoje ainda enfrentam preconceito como Billie enfrentava?
Margolick
– Não sou especialista neste assunto, mas entendo que em nações com muitas misturas étnicas, como os Estados Unidos ou o Brasil, o preconceito nunca desaparecerá por completo. É o tipo de coisa que pode afetar qualquer pessoa de outra etnia. E é por isso que músicas como Strange Fruit são simbólicas – não porque ainda existam linchamentos acontecendo nas ruas, mas porque o preconceito de que fala a música é o tipo de coisa com que a humanidade terá de lutar continuamente ao longo da história, é o tipo de coisa que nunca desaparecerá definitivamente.

Veja abaixo Billie Holiday interpretando a canção Strange Fruit:

Guerra pelos leitores

10 de setembro de 2012 0

Há algum tempo, escrevemos aqui umas breves considerações sobre o quanto os quadrinhos talvez ainda precisem de uma fortuna crítica consolidada para serem mais reconhecidos como expressão artística séria. Citei no artigo uma série de bons livros sobre o gênero disponíveis em português, mas deixei um bom título de fora, o que só percebi depois que uma moça perguntou em um grupo do qual faço parte no Facebook se alguém já havia lido A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Júnior (Companhia das Letras, 433 páginas, 2004).

Na época a omissão fez sentido, mas não deixa de ser injusta, uma vez que A Guerra dos Gibis é um daqueles livros preciosos que mistura pesquisa rigorosa sobre um campo de estudo pouco explorado com o texto fluente e a obsessiva apuração de uma grande reportagem. A obra narra a consolidação das histórias em quadrinhos no Brasil, nos anos 30, e o papel fundamental que tiveram nesse processo dois homens: os jornalistas Adolfo AizenRoberto Marinho (é, aquele mesmo que você pensou).

Filho de imigrantes russos residente no Brasil desde a infância, Aizen viajou aos Estados Unidos em 1932, passou lá cinco meses e, ao voltar, estava encantado com uma novidade que os periódicos americanos exibiam: suplementos semanais ilustrados com contos policiais, notícias esportivas e histórias em quadrinhos. Empolgado, elaborou um projeto de publicação de suplementos para jornais e o ofereceu ao seu empregador, Roberto Marinho, que recusou a oferta. Aizen deixou o emprego como repórter em O Globo e dedicou-se ao projeto, levando-o a efeito no periódico getulista A Nação. Foi em um desses cadernos, o Suplemento Juvenil, que Aizen passou a publicar personagens estrangeiros representados pelo escritório do King Syndicate no Brasil. Dentre eles, Jim das Selvas e Flash Gordon.

O fulminante sucesso do Suplemento Juvenil, logo desvinculado de A Nação e tornado um semanário próprio, levou Marinho a mudar de ideia, lançando ele próprio suas páginas de quadrinhos no suplemento Globo Juvenil. Com recursos financeiros que Aizen não tinha, Marinho fez mais do que criar sua própria versão de um caderno de quadrinhos: ele esmagou a concorrência, comprando por mais dinheiro os mesmos heróis que Aizen havia apresentado ao público primeiro no Suplemento Juvenil.

Caso para uma rivalidade para a vida toda? Pior que não. A Guerra dos Gibis mostra também como Aizen e Marinho precisaram mais tarde unir forças contra um inimigo comum: a censura, reivindicada por grupos conservadores preocupados com o “desvirtuamento da juventude” pelos quadrinhos, considerados alienantes e emburrecedores.

O livro traz um subtítulo auto-explicativo que mais parece saído daquelas áridas teses repletas de jargões tecnicistas: A Formação do Mercado Editorial Brasileiro e a Censura aos Quadrinhos (1933-64). Impressão equivocada que logo se desfaz. Documentado com o rigor de uma pesquisa acadêmica, A Guerra dos Gibis é também um livro fluente, escrito com leveza e carinho pelo assunto que aborda. O livro teve uma continuação publicada em 2010, Maria Erótica e o clamor pelo sexo: Imprensa, Pornografia, Consumismo e Censura na Ditadura Militar (1964 – 1985), pela editora Peixe Grande, mas esse eu não li, então não posso opinar.

Ele próprio roteirista de quadrinhos, Gonçalo Júnior tornou-se na última década um dos principais pesquisadores da cultura pop nacional. Publicou a biografia de mestres da ilustração no Brasil, Benício (Clusq, 2006), sobre o ilustrador de centenas de icônicos pôsteres cinematográficos, entre outros trabalhos e Alceu Pena e as Garotas do Brasil (Amarylis, 2010), sobre o artista famoso em todo o Brasil por suas charges para a revista Cruzeiro (e que também publicou na americana Esquire). A biografia de Pena recebeu o Jabuti da categoria no ano passado, e depois foi desclassificada pela comissão julgadora, que considerou que uma versão anterior do livro, publicada em 2004, desqualificava o trabalho como “inédito”, requisito para concorrer ao prêmio.