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Memórias dos Carcereiros

02 de outubro de 2012 1

Drauzio Varella. Foto: Renato Parada, divulgação

Hoje Drauzio Varella é o médico mais pop do Brasil – apresenta quadros periódicos no Fantástico no qual realiza campanhas de divulgação de medicina e saúde para o grande público e é autor de uma dezena de livros, incluindo literatura infantil e infantojuvenil. A gênese desse processo, contudo, está em seu best-seller Estação Carandiru, publicado em 1999. Por telefone, de seu consultório em São Paulo, Varella explicou por que resolveu voltar agora, em Carcereiros (Companhia das Letras, 232 páginas, R$ 33), às suas recordações do Carandiru, mas desta vez pelo ponto de vista dos homens responsáveis por manter a ordem e guardar os detentos. De quebra, falou também sobre as mazelas do sistema prisional e do massacre do Carandiru. Há exatos 20 anos, uma invasão da Polícia Militar ao Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo (o nome oficial do Carandiru), que havia caído na mão de prisioneiros rebelados, terminou com uma trilha de sangue e de 111 detentos mortos.

Zero Hora _ Seu livro Carcereiros revisita o espaço e a história do Carandiru no ano em que o massacre completa 20 anos. O livro foi escrito para marcar essa efeméride?
Dráuzio Varella _
Não. Foi pura coincidência, não havia nenhuma intenção premeditada.

ZH – Passados 13 anos do primeiro livro, o que o motivou a voltar para aquele ambiente e para aquelas recordações neste livro?
Varella –
Quando escrevi Estação Carandiru, a repercussão foi tão grande que eu fiquei até assustado. Eu não queria, de modo algum, criar aquele debate todo que houve, e as consequências todas, o filme, tudo aquilo. Uma discussão teórica mesmo sobre a cadeia, sobre o que estava acontecendo no sistema penitenciário. Eu só queria contar aquela história, não tinha pretensão de nada além disso. E ficou assim, e passaram-se todos esses anos sem eu mexer ou tocar nesse assunto. E um dia eu fui escrever uma história que tinham me contado, porque quis guardá-la, pensei: vou escrever antes que eu me esqueça. A história era a de uma fuga por um túnel. No Estação Carandiru eu contei essa história pelo ponto de vista dos presos. E aí o agente penitenciário que era o chefe do pavilhão onde houve essa fuga contou certa noite como ele foi ludibriado pelos acontecimentos. Ele recebia a denúncia de que estavam fazendo um túnel mas não conseguia encontrar. E eu quis escrever essa história. Gostei tanto de voltar a esse tema, de descrever as situações de cadeia. Mas isso eu já contei de um jeito, agora é legal conhecer o outro lado da história. E ao escrever essa história pensei que poderia render um livro contar a narrativa pelo lado dos carcereiros. Porque essa história eu nunca li.

ZH – O senhor sentia já em Estação Carandiru que esse lado da história havia sido pouco abordado?
Varella
– Naquela época não. Nem pensei nisso. Naquela época eu quis mesmo contar como era aquela cadeia, como funcionava na prática, quem eram as pessoas que estavam lá, quais eram as regras de procedimento, as leis internas. Foi isso que me interessou naquele tempo. Eu falo dos funcionários e tal, mas eu dedico no Estação… só um capítulo a eles, em uma abordagem mais superficial.

ZH – Os dois livros parecem ter estruturas simétricas. Estação Carandiru enumera histórias do cotidiano da cadeia e termina, em seu último capítulo, com a descrição do massacre. Carcereiros começa com uma história do massacre, a dos carcereiros que conseguiram evitar que a chacina se estendesse ao Pavilhão 8, e depois vai enfileirando histórias. Esse espelhamento foi voluntário?
Varella –
Isso foi intencional, abrir com essa história, porque sempre achei essa história um relato que precisava vir a público. É uma cena tão impressionante para mim, desde aquela época. Porque quando aconteceu aquela tragédia toda tinha meia dúzia de homens no Pavilhão 8, onde ficavam mais de mil presos. E eles naquela confusão toda conseguiram trancar esses presos todos e impedir que a PM invadisse o 8, o que tornaria a tragédia muito mais grave, com muito mais mortos. E no fim foram alguns homens que conseguiram isso arriscando a própria vida, para tentar manter a ordem num pavilhão ao lado do outro em que estava acontecendo toda aquela tragédia. Essa possibilidade caracteriza bem um lado da função. Porque quando se fala de carcereiros, a população acha que aquilo é um bando de gente ruim, corruptos, e na verdade tem gente ótima lá, e mesmo gente boa que de vez em quando faz uma coisa errada. A vida não é assim em preto e branco, as pessoas são às vezes boas, más, honestas, desonestas… E comecei com esse episódio porque era uma cena forte porque achei que ele era forte e que mostrava o tipo de trabalho que essa gente faz.

ZH – Seu retrato dos carcereiros no livro é uma tentativa de dar dimensão humana ao agente penitenciário, um personagem que muitas vezes goza da mau conceito, associado a brutalidade e corrupção?
Varella –
Sim, mostrar o outro lado. Acho que de alguma forma consegui mostrar como acontecem essas crises e de que forma elas são resolvidas. Porque é engraçado: de um lado a sociedade contrata esses homens e os coloca lá nas piores condições de trabalho. E de outro, critica quando eles erram. Naquela época não havia nenhum treinamento. Isso é que era triste. Porque você joga no fogo gente que não está treinada, que não está preparada para enfrentar aquela confusão toda. E quando eles erram, você execra.

ZH – Carcereiros é um livro no qual o senhor parece mais à vontade para emitir críticas pessoais ou análises sobre os fatos e sobre o cenário. A distância do primeiro livro o deixou mais confortável para uma avaliação mais pesada, mais pessoal?
Varella –
No Estação Carandiru eu procurei me inventar. Eu procurei contar aquela história de como era a cadeia, etc. O narrador não dava a opinião dele a respeito de nada, e eu fiz questão de que fosse assim, porque eu queria que não fosse o narrador a figura principal do livro. Neste novo livro também não é, mas agora eu estou há 23 anos frequentando cadeias, e achei que o leitor esperaria uma reflexão em alguns momentos. E achei que era esse o lugar de colocá-las. Elas não são muitas, mas eu discuto vários aspectos: a superlotação das cadeias, a tortura, a necessidade de construção de novas cadeias, a impossibilidade de construir cadeias na velocidade que teria de ser construídas para abrigar essa população inteira.

ZH – O senhor chega a elencar algumas propostas de solução, como a diminuição radical das penas de prisão, a separação entre criminosos primários e os profissionais do crime. O senhor defende também a personalização da pena.
Varella û
A personalização da pena existe. O que não existe é a personalização do cumprimento da pena. Porque às vezes tem um menino que fez uma besteira na vida e vai parar numa cadeia dominada por facções e vai ter contato com os piores bandidos, e não tem sentido fazer as coisas dessa maneira.

ZH – A neutralidade do narrador em Estação Carandiru foi apontada muitos críticos como um problema porque parecia legitimar os atos dos criminosos que eram personagens do livro. Neste livro o senhor parece avançar mais até mesmo no juízo de alguns personagens e das situações. O senhor não hesita em usar o termo “maldade” como um elemento presente no ambiente do presídio.
Varella –
Lógico. Não é uma escola de moças. É um ambiente onde existem as piores violências, entre gente que cometeu os piores crimes na rua. O ponto, para mim, é o que já comentei. Achei que cabiam neste livro essas reflexões. Que, insisto, não cabiam no outro livro. Porque ali eu estava descrevendo uma cadeia, o jeito que ela funciona. Quem tinha que tirar conclusão ali era o leitor. Porque quando você descreve. Eu me lembro que no Estação Carandiru eu descrevi uma cena de um cara que foi assaltar uma loja pertencente a um japonês. O dono disse que não ia abrir o cofre de jeito nenhum. Aí o ladrão pegou uma faca e espetou a mão do japonês em uma mesa. Você não precisa dizer que isso aquilo é uma crueldade, está implícito. O que o leitor vai achar, que é um ato de caridade? Um pouco desse tipo de crítica vem do fato de as pessoas quererem que venha um discurso acoplado àquele texto. Eu não queria fazer discurso nenhum, queria contar como a cadeia funciona, que há uma ordem, não é uma coisa de um matando o outro o tempo todo. A maioria do tempo a cadeia vive em paz. Quando você tem cela apinhadas a violência não aumenta, pelo contrário, diminui. Para mim o que me interessava, o que me fascinava, é que aquilo é um experimento da natureza que envolvia pessoas humanas. Muitos dizem: são animais. Não, eles são pessoas. A tendência nossa é considerar os bandidos como outros seres, e isso não é verdade, eles são seres humanos. Não são cachorros, não são cavalos. E neste eu também não faço julgamento de ninguém. Não sou eu que tenho de dizer se alguém é bom ou ruim. É o leitor quem vai julgar.

Corredores do Carandiru após o massacre. Foto: Niels Andreas, Folha Imagem

ZH – Passados 20 anos do massacre do Carandiru, que avaliação o senhor faz do episódio?
Varella –
Olha, o que aconteceu ali, além de ser um fato inaceitável, foi um absurdo, porque não havia necessidade nenhuma. Foi uma atitude absolutamente gratuita. Porque os presos haviam feito aquela bagunça, eles haviam matado alguns rivais na briga entre eles, ninguém sabe direito quantos, porque esses que morreram antes se misturaram com os outros. Mas eles estavam sozinhos, não tinham nenhum refém, o que aliás, foi uma imprudência da parte deles. Aí um idiota resolve invadir e “controlar a rebelião a qualquer preço”. Essa frase foi dita. O que aconteceu lá não tinha nenhuma necessidade. Não deixaram o diretor negociar, e isso me foi contado pelo próprio diretor. Imagina há quantos anos eu não venho ouvindo essa história, contada pelos mais diferentes lados, com todos os detalhes. O que tinha que fazer ali era cortar a água e a luz. Eles já haviam feito isso muitas outras vezes: corta a água e a luz e deixa para conversar no dia seguinte. Sem água, luz ou comida, a primeira coisa que fazem no dia seguinte é chamar para conversar. E aí o que o cara faz? Pega os PMs, dá a ordem de entrar, à noite, e dominar a qualquer custo, dá uma metralhadora e um cachorro na mão e espera que eles façam o quê? Eles entraram em um lugar que eles não conheciam, no escuro, sabendo que estava cheio de bandido, e já saíram atirando, não conversaram com ninguém.

ZH – Ainda hoje não é difícil, por incrível que pareça, encontrar quem defenda a chacina. É uma prova de que o nó do sistema penitenciário passa por essa animalização do criminoso, pela incapacidade de enxergar no preso um “outro” semelhante a si mesmo?
Varella –
O Estado faz uma coisa dessas e o cara diz: “É isso aí mesmo, morreram poucos, tinha que morrer uns 200, 300, tinha que matar todos”. Bom, se matasse todos, como eles querem, talvez resolvesse o problema, mas é difícil matar todos, e tem que matar os que estão lá dentro e os que estão na rua, não é? Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto: Qual foi o resultado dessa violência toda? O Estado começou a perder o controle das cadeias, começaram a aparecer as facções, que sempre existiram, mas nunca tiveram o poder que têm depois do massacre. E foi um massacre. Isso não é uma opinião minha. Você conversa com qualquer agente penitenciário, qualquer diretor que tenha entrado em contato com o Carandiru, que tenha acompanhado o que aconteceu na cadeia, eles dizem: “tudo começou no massacre, daí em diante foi que a situação se deteriorou”. E olha o trabalho que está dando hoje para recuperar isso. Então, essa é uma atitude estúpida.

ZH – Há 10 anos, em uma entrevista para Zero Hora quando se falava em implodir o Carandiru, o senhor comentava que via a derrubada do edifício como a falência do modelo que ele representava, e que via positivamente um modelo novo que se tentava implantar, o de unidades menores com menos encarcerados. Como o senhor analisa esse novo modelo uma década depois?
Varella –
Olha, naquela época eu acho que estava certo. Eu vinha mesmo pensando: não tem cabimento fazer cadeias tão grandes. Com cadeias pequenas, para 600, 800 homens, você tem o controle mais fácil. Mas o que aconteceu? Com o aumento da criminalidade, essas cadeias que foram feitos para 800 tem 1,5 mil, 2 mil presos. Então nós construímos minicarandirus espalhados por aí. E isso é no Brasil inteiro. Você não encontra uma cadeia no Brasil que tenha o número de presos para o qual foi construída. Você construiu cadeias pequenas, para ter mais controle, e hoje estão apinhadas, celas para oito detentos têm 20. A questão é muito maior, você não consegue construir cadeia para toda essa gente. Ou nós atacamos esse problema pela raiz tentando diminuir o número daqueles que envereda pelo caminho da criminalidade ou não tem jeito. É uma guerra perdida, nunca vamos conseguir construir cadeias na velocidade necessária para prender todo mundo.

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » Meu primeiro e-book diz: 14 de dezembro de 2012

    [...] de apêndice de Estação Carandiru, livro que deu fama ao médico escritor Drauzio Varella (leia entrevista com o autor aqui). Paguei US$ 12 e o livro baixou em segundos. Na tela, ele fica disponível com capa e tudo, em uma [...]

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