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Javier Marías e o sensacionalismo

19 de outubro de 2012 0

“Todos esses dados estavam repartidos em dois dias, os dois seguintes ao assassinato. Depois a notícia desapareceu por completo dos jornais, como costuma ocorrer com todas atualmente: as pessoas não querem saber por que alguma coisa aconteceu, só que aconteceu e que o mundo está cheio de imprudências, perigos, ameaças e acasos, que passam raspando por nós porém atingem e matam nossos semelhantes descuidados, ou talvez não eleitos. A gente convive com mil mistérios não solucionados que nos ocupam dez minutos de manhã e depois são esquecidos sem deixar mal-estar nem rastro. Precisamos não aprofundar nada nem nos demorar muito em nenhum fato ou história, para que nossa atenção não seja desviada de uma coisa a outra e que as desgraças alheias não se renovem, como se depois de cada uma pensássemos: “Puxa, que coisa. E o que mais? De que outros horrores nos livramos? Precisamos nos sentir sobreviventes e imortais diariamente, por comparação, de modo que nos contem atrocidades diferentes, porque as de ontem já eram”.

O texto acima é um excerto de um dos primeiros capítulos de Os Enamoramentos (Tradução de Eudardo Brandão, Companhia das Letras, 344 páginas, R$ 49,50) o mais recente romance do escritor espanhol Javier Marías, e exemplifica bem o que há de peculiar e característico na ficção do autor. O parágrafo acima é totalmente acessório ao fio de trama sobre o qual o livro se sustenta: uma funcionária de uma editora acompanha, encantada, de sua mesa em um café, todas as manhãs, cenas afetuosas de atenção e carinho que um casal protagoniza algumas mesas distante dela na cafeteria:

“não é que eu acreditasse que o dia seria ruim se não compartilhasse com eles o desjejum, à distância, entenda-se; era que eu o iniciava com o moral mais baixo ou com menos otimismo, sem a visão que eles me ofereciam diariamente e que era a do mundo em ordem, ou, se preferirem, em harmonia”.

Um dia o marido morre e a narradora  se aproxima da viúva, descobrindo com essa intimidade que aquela noção de harmonia e entendimento com ares românticos que ela vislumbrava à distância era uma construção ingênua que não espelhava a realidade. O trecho acima está situado em um momento em que a protagonista descobre, com certo atraso, que o marido foi morto durante um episódio aparentemente aleatório de violência urbana. E enquanto vasculha as notícias nos sites eletrônicos de jornais, a narradora se desvia em digressões que são a alma da literatura de Javier Marías, como quem leu sua magnífica trilogia Seu Rosto Amanhã ou a novela Coração Tão Branco saberá. Há mais de um motivo para apreciar Os Enamoramentos: sua construção caricatural deliciosa do universo literário, com suas pequenas e mesquinhas ridicularias; suas digressões que se espalham do mundo concreto ao universo literário e maestria de Marías no manejo da técnica romanesca.

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