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Jorge Amado, modernidade e trajetória

28 de outubro de 2012 0

Carlos Augusto Magalhães (com o microfone) e Josélia Aguiar (à direita) ontem na Feira

A Rua Chile é pequena. Vai da Praça Municipal ao Largo do Teatro, enladeirada. No entanto é o coração da cidade, nela se exibe toda a gente. Como a Rua do Ouvidor,  no Rio, a Rua da Praia, em Porto Alegre, ou a Rua Direita, em São Paulo. Em todas as cidades há uma rua assim. A da Bahia não é pior nem melhor que as das outras  capitais. São ruas do fútingue, da conversa, de negócios também, de namoros, de brilho, de exibição. Ali se estabelece o comércio mais elegante. As grandes casas  de fazendas, sapatos, roupas de homem e mulher. Ali estão os ricos sem quefazer, os desocupados, os literatos, os aventureiros, os turistas, gente que sobe e desce  a rua, ali as mulheres mostram seus novos vestidos, exibem as bolsas caras, em passeio diário. Há quem não possa deixar de ir à Rua Chile todos os dias. Há mesmo  quem viva em função da hora ou da hora e meia em que passeia pela rua atravancada.

Com a leitura deste trecho, extraído de Bahia de Todos os Santos, espécie de guia informal que Jorge Amado escreveu sobre Salvador (que, na época, 1945, era ainda mais comumente chamada de “Cidade da Bahia” ou simplesmente de “Bahia“), o acadêmico e escritor Carlos Augusto Magalhães lembrou na tarde de ontem, na Feira, a ligação profunda de Jorge Amado com a cidade, para onde se mudou na adolescência para morar em um cortiço no Pelourinho – região da cidade já à época degradada, frente às largas avenidas que as reformas urbanas de J.J. Seabra começava a sangrar na cidade, nem que para isso tivesse de deitar abaixo belas igrejas históricas do período colonial. Jorge se enraizaria de tal modo no Pelourinho que ali ambientaria boa parte de sua ficção urbana. O cortiço em que viveu quando para lá se mudou inspiraria o curto romance Suor - lembrou Magalhães. O professor falou sobre as transformações urbanas de Salvador, apresentou imagens da cidade aos tempos da juventude de Jorge Amado e relacionou-as com a ficção do autor. A insistência em retratar o Pelourinho revela um escritor que não se deixou deslumbrar pelas transformações urbanas radicais que estavam se processando em Salvador.

- Jorge continuaria escrevendo sobre o Pelourinho para mostrar como os males do capitalismo reservavam as benesses da modernidade para uns poucos enquanto os demais eram condenados à miséria, mas esse retrato tinha um olhar otimista, socialista, de uma possibilidade de transformação – disse Magalhães

Ele dividiu o estrado na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul com a jornalista Josélia Aguiar (a conversa foi mediada por Eliana Pristsch). Baiana de nascimento e repórter da área de Cultura do jornal Folha de São Paulo, Josélia está encerrando uma biografia do autor a ser lançada até o fim do ano pelo selo Três Estrelas, do grupo Folha. Josélia antecipou a linha mestra de seu livro, que, de acordo com ela, investiga também as razões que tornaram Jorge Amado um escritor internacionalmente conhecido. Segundo a jornalista, não foi apenas a orientação ideológica do Partido Comunista – que existiu, e transformou Jorge Amado em best-seller nos países da Cortina de Ferro – ou o exotismo da narrativa Amado que lhe valeram interesse global.

- Para quem é da Bahia, Jorge Amado não é exótico. Para quem é de fora, sim. Mas por esse prisma qualquer literatura de um lugar que não se conhece pode despertar interesse por ser exótico, o que não acontece – disse Josélia.

De acordo com ela, parte fundamental da receita que tornou Jorge Amado um autor popular passa pela descoberta ainda precoce de sua obra pela França e por uma fenomenal capacidade de trabalho.

- Jorge Amado teve Jubiabá (1935) traduzido para o francês  poucos anos depois de ser lançado, por Michel Berveiller e Pierre Hourcarde, da missão francesa que fundou a USP, que eram parte de uma geração de intelectuais europeus que estavam saturados da experiência da modernidade e iam buscar lugares que vivessem ainda segundo modos de vida antigos e não totalmente contaminados pelo modelo da Europa. E naquela época, ser traduzido para o francês era um grande trampolim – explicou.

Amado também era um autor tomado pela volúpia de realizar seus projetos, em vez de cultivá-los por longos anos. Isso explica a extensão de sua obra, que em vários períodos contou com um livro publicado a cada ano, mesmo nas épocas em que estava no exílio ou perseguido pela polícia.

- Muitas pessoas criticam os livros de Jorge porque não são perfeitos. E não são mesmo. Entre guardar algo para voltar depois àquilo em busca do aprimoramento, como o Graciliano fazia, por exemplo, e concluir a obra que ele queria fazer no momento que desejava, ele ficava com a segunda alternativa, o que explica como ele conseguiu produzir tanto – disse Josélia.

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