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Sabedoria de Mãe

28 de outubro de 2012 0

O escritor Valter Hugo Mãe no Memorial do RS. Foto: Félix Zucco, ZH

Foi realizada esta noite uma das grandes palestras desta edição da 58ª Feira do Livro: uma conversa entre a professora e patrona da Feira 2011, Jane Tutikian, o escritor e editor Pedro Gonzaga e o autor português (angolano de nascimento) Valter Hugo Mãe. Em sua primeira visita a Porto Alegre (mas nona ao Brasil, incluindo uma temporada de férias que ele considera transformadora, em Niterói, no Rio de Janeiro , no fim dos anos 1990), Valter Hugo Mãe mostrou-se um orador tranquilo e um tímido bastante articulado. Embora falasse em voz baixa, às vezes se encolhesse na cadeira, Mãe falava de modo ponderado, desviava-se por vezes do assunto elaborando o  pensamento à medida que falava, e provocava risos com tiradas certeiras e momentos de profundo silêncio e reflexão com uma que outra frase iluminada. Abaixo, uma pequena súmula dos principais temas abordados pelo escritor:

A poesia e a prosa
“Não é apenas aqui que conhecem mais os meus romances, também em Portugal sou mais conhecido por eles, e bem pouco pela minha poesia. Acontece-me muito de lerem meus romances e sugerirem que eu devia escrever poesia.  “

Escrever um livro
“A experiência de escrever um livro é muito intensa. Eu às vezes sonho com a resolução dos problemas de meu livro, eu encontro respostas para problemas do meu livro no inconsciente. E às vezes quando acordo, sei que sonhei com a solução de algo e me esqueço do que era, fico de mau humor. E depois dessa experiência tão intensa, terminar um livro tem uma sensação dupla: a satisfação de haver terminado e a sensação de ser abandonado, de ser deixado para trás, porque aquelas personagens permanecem no livro e se apartam de mim”

o nosso reino
“Eu publiquei livros de poesia por 10 anos antes de estrear em prosa, foi uma estreia acidental. Eu estava conversando com uma jornalista da assessoria da Feira e ela me perguntou como eu vivo na cidade do Porto. Eu respondi que por causa da crise que estamos a atravessar, eu vivo no Porto triste e vocês vivem no Porto Alegre. A tristeza da alma é um tópico muito português, que foi muito desenvolvido ao longo do século XX, e eu queria abordar esse tópico e fui escrevendo um texto que eu não sabia direito o que era, pensei ser um poema, um poema em prosa, mas aquele texto não acabava, insistia em querer mais. Os textos têm uma energia intensa que me transcende. Não sei trabalhar de modo esquemático. Eu não seria inteligente o bastante para escrever um texto sozinho, eu preciso que ele também faça sua parte.”

Criação de seus personagens
“Me inspiram as pessoas caladas. Quando elas falam, elas limitam minha ação, elas diminuem as possibilidades. Se elas ficarem em silêncio, eu as observo e invento tudo que preciso saber, e há pessoas que comunicam muito sem palavra alguma.”

O uso das minúsculas
“Houve um momento em que eu fiquei marcado pelo uso das minúsculas: “como é esse livro”, “ah, é um romance escrito por um autor que só usa minúsculas”. Não parecia que eu havia trabalhado tanto naquele livro, e isso começou a me irritar. Por isso voltei a assinar meu nome com maiúsculas e a usá-las nos meus textos.”

Histórias
“Acontece muito de as pessoas virem colaborar comigo e dizerem: tenho uma ótima história para que a conte. E não é assim, é algo mais complexo. Não se escreve somente com ideias, um livro não é apenas uma boa história.”

O Filho de Mil Homens
“Esse romance é uma tentativa de simplificar a felicidade. O primeiro capítulo é narrado como se fosse uma história infantil, de um homem que sente que algo lhe falta, e que pede por aquilo e aquilo lhe é concedido. Esse livro é uma história que tenta fazer da felicidade uma coisa simples. Porque acho que muitas das vezes aquilo que nos falta está um pouco ao alcance de nossa mão, mas o constrangimento, a desconfiança, a incapacidade de acreditar é tão grande que não damos espaço.”

A Máquina de Fazer Espanhóis
“A Máquina de Fazer Espanhóis foi um livro que partiu da circunstância de minha mãe morrer. Foi um livro que me magoou, tinha de me magoar. E depois disso, tive uma necessidade de escrever um livro que me fizesse bem, esse é O Filho de Mil Homens.”

O idioma português
É impressionante como se monta um português com tantas facetas. Há pouco falávamos do aparecimento das novelas brasileiras na TV portuguesa nos anos 1970. Aquilo, para nós, mudou muita coisa e abriu uma janela para uma forma de estar que nós portugueses, que tínhamos saído da ditadura, não tínhamos acesso.  Acompanhar a obra de autores brasileiros fornece uma ideia de liberdade muito grande com o idioma. Talvez em Portugal tenhamos um sentido mais de proprietários da língua, de achar que as coisas podem mudar mas não muito. E no Brasil a mescla de muita coisa é natural, é ainda a língua portuguesa, mas algo muito novo. E é natural que assim seja, basta ver o tamanho do território do Brasil em comparação a Portugal. Não é nem um anão, é uma formiga diante de um gigante incomensurável. A nossa possibilidade de reformar o português é bem menor do que a de vocês.

Poesia brasileira
Disse ontem em um jantar que ficar atento à poesia brasileira tem para mim um caráter de oficina, é uma necessidade e um trabalho. Me interessa mais um livro de poesia brasileira ruim do que uma prosa média brasileira. Há na poesia brasileira uma forma diferente de dizer as coisas. É sempre aumentativo, sempre amplia nossos horizontes.”

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