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Um trecho para hoje

28 de outubro de 2012 0

A Luta do Samurai

Numa aldeia, próxima a Tóquio, vivia um honrado e velho samurai. Apesar de sua idade avançada, ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. Contudo, optara, ultimamente, por se dedicar a ensinar a arte zen aos jovens. Descobrira, em sua longa experiência de vida, que era mais vantajoso satisfazer o seu coração do que o seu ego, esta fútil entidade eternamente insatisfeita, cuja ávida caça ao tesouro leva, no fim das contas, a nada mais do que um baú vazio.
Certa tarde, porém, um guerreiro que era puro ego dos pés à cabeça, apareceu diante do velho samurai e falou-lhe do alto de seus tamancos e de sua soberba:
– Quero enfrentá-lo, samurai, para aumentar ainda mais minha  fama de lutador invencível.
O velho aceitou o desafio e tão logo começou a luta o jovem começou com provocações:
– Velho inútil, agora entendo por que se reduziu a ensinar a arte zen. Não passa de um pobre diabo que não consegue mais lutar nem com um louva-a deus. – atiçava-o o arrogante jovem, escarnecendo do adversário ao mesmo tempo em que ia perdendo a luta.
O samurai, sem responder aos desaforos, continuou tranquilamente enfrentando o grosseiro adversário com seus golpes de mestre.
– Você está acabado, velho! – persistia o petulante jovem no seu monólogo, sem nunca tirar o sorriso zombeteiro, pregado na feia cara.
Mas ao ver que o velho prosseguia a luta impassível, de ouvidos moucos, o próprio jovem samurai começou a se irritar verdadeiramente como se os insultos fossem dirigidos a si mesmo. Fora de si, chutou algumas pedras em direção ao adversário, cuspiu no chão com desprezo e se pôs a praguejar como um oni.
Mas nada surtia efeito, o samurai continuava impenetrável.
Assim que a luta terminou, o arrogante guerreiro, exausto desta luta em que usara mais a língua do que a katana, mirou na retina do velho e lhe cuspiu no rosto com desprezo. Embainhou, finalmente sua espada e retirou-se bufando como um touro bravo.
Mal o samurai deu as costas ao adversário e os discípulos, que haviam assistindo a tudo indignados, se voltaram ao mestre e um deles perguntou, não sem um tom de censura na voz:
– Por que suportou tais desfeitas e insultos sem revidar, mestre?
– Quando alguém pretende entregar um presente que não é aceito, com quem fica o presente? – respondeu o mestre?
– Com o próprio entregador. – responderam os discípulos a uma só voz.
– Do mesmo  modo ocorre com o ressentimento, o despeito, os insultos e a inveja. Quando não são aceitos continuam pertencendo a quem os carrega consigo.  A nossa tranquilidade e paz interior dependem, exclusivamente, de cada um de nós e ninguém pode usurpá-la sem nosso consentimento.
Sem mais uma palavra, os discípulos inclinaram-se, lenta e profundamente, diante deste verdadeiro mestre-mentor.

O trecho acima é uma das Melhores Lendas Japonesas compiladas por Carmen Seganfredo (Artes & Ofícios, 312 páginas). A organizadora da coletânea, que há anos vêm recontando em seleções variadas histórias de variadas mitologias, autografa o livro hoje às 18h na Praça dos Autógrafos, na Área Geral da Feira.

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