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Um trecho para hoje

29 de outubro de 2012 0

O que se chama negrume é esse céu sem estrelas que dá vontade de não ver, é a lagoa tão sombria que é melhor nem olhar. E Néstor fecha os olhos, apóia os cotovelos na borda, e a vibração do barco torna-se mais perceptível, e o barulho do motor ganha mais corpo, e a escuridão não é maior do que quando ele tinha a vista cravada no alto ou nas águas.
– Cansado?
Néstor abre os olhos, constata que a lagoa continua igualmente impenetrável, embora agora reflita luzes distantes, e que a seu lado está Cristina.
– Com vontade de se jogar?
Cristina roçou em seu braço. Talvez tenha sido uma tentativa de carícia. Néstor a observa detidamente. Nada decifra nesse rosto que ele conhece à perfeição, que exibe pequenas rugas. Em Cristina até que ficam bem essas leves ondulações emoldurando as pálpebras. Um elogio que certamente não a agradaria. Uma mulher de verdade, Cristina. Frase que não quer dizer nada, e que ela portanto adoraria. E se a disse? Néstor não abre a boca, apenas tenta sorrir.
– Arrependido?
– Não estou cansado, não vou me jogar na água, não me arrependo de nada. E você, se arrepende?
Néstor saber que sua tentativa de sorrido não passou de uma tentativa.
Eu, me arrepender? Nunca.
Cristina sim, sorri, esplêndida, e está dizendo mais alguma coisa. O quê?
– Perguntei que horas sáo.
– Estamos chegando.
Néstor tenta reforçar o que acaba de dizer apontando para as luzes cada vez mais próximas.
– Meu adorado tormento, por que você nunca responde o que eu pergunto?
O gesto de Néstor, assim como o sorriso, fica incompleto.
– São onze horas.
– Como você sabe?
Néstor não olhou o relógio, também não o olha agora, só estende o braço, põe o pulso com o relógio diante do nariz de Cristina. Que ela se convença, se quiser, ele está muito ocupado com as luzes que agora deixam ver a boca de um canal.
– Vamos para lá?
Néstor se dá conta, Cristina não se refere ao canal. No outro lado da proa estão Magda e Bruno, de pé como Cristina e ele, também apoiados na borda, mas em silêncio. E Néstor não precisa olhar, ele sabe que são os únicos passageiros.
– Você vem?
Cristina não espera a resposta, agarra o pulso que sabe do tempo, puxa com decisão. Néstor deixa-se levar. Alguns passos, e Magda e Bruno abrem espaço para eles, sem romper o silêncio.
Ele junto de Cristina.Ao lado de Cristina, Bruno. Apertada contra Bruno, Magda. E Néstor olha melhor, Bruno e Magda parecem hipnotizados pelas luzes quase palpáveis. Ou estarão pensando? Em quê? Em luzes que se aproximam? Certamente não. Não é algo digno de se pensar, basta ver. Ou será que contemplar intensamente uma luz permite que se deixe de pensar? Quem sabe. Ele também vai encher a cabeça de luzes para não pensar
.

O trecho acima é do romance As Afinidades, do cubano Reinaldo Montero, que é esperado hoje na Praça da Alfândega como convidado especial da Feira do Livro. Nesta segunda-feira, a programação temática é dedicada a Cuba, e Montero vai participar de um encontro às 17h30min com Tailor Diniz e Lisiane Cohen, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul. Antes disso, na mesma sala, como parte dessa mesma programação, o escritor José Eduardo Degrazia recebe outro cubano, Virgilio López Lemus.

Montero já esteve no Rio Grande do Sul em 2007, como participante da Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo. Filólogo de formação, é dramaturgo e escritor com uma vasta obra publicada e premiada desde os anos 1980. Já teve editados aqui no Brasil os livros Mulheres e As Afinidades, o livro do qual pinçamos o trecho acima. É a obra mais conhecida de Montero, um conto  erótico-filosófico cujo ponto de partida é uma troca de casais em um balneário cubano no fim do século 20. O livro é dividido em capítulos cada qual contado pelo ponto de vista de um dos personagens da simpática suruba (Néstor e Cristina, Bruno e Magda), uma releitura latina e contemporânea do clássico As Afinidades Eletivas, de Goethe. O livro foi adaptado para o cinema em 2010, em uma produção de Vladimir Cruz e Jorge Perugorría, que vivem também os personagens masculinos da trama.

O escritor Reinaldo Montero em Passo Fundo, em 2007. Foto: Adriana Franciosi, ZH

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