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Posts de outubro 2012

Capa Brega do Dia: Lembrando clichês

31 de outubro de 2012 0

Existe um tipo de literatura que transcende a capa e é ela própria uma releitura do brega por natureza. São romances que poderiam estar sendo vendidos nas coleções baratas de bancas de jornal mas ganham, misteriosamente, edição nobre, em formato convencional, sem que isso melhore em uma vírgula o sentimentalismo do conteúdo.

Danielle Steele é uma dessas campeãs de vendas com livros que parecem estar vestindo a roupa errada. E com capas como a dessa edição mais antiga de Relembranças, romance no qual uma nobre italiana revê o próprio passado, seus amores, suas tragédias, etc., etc. e o resto é meio fácil de imaginar

Essa coisa brilhante que é a chuva*

29 de outubro de 2012 0

Esperto é o senhor Ademar Martim dos Santos, 60 anos. Quando a chuva ainda não era tão intensa na tarde da Feira, ele já era visto estendendo plásticos sobre suas caixas de saldos. Não era alarme ou exagero. Com a experiência de quem atua na Feira há 10 anos, ele sabia: vinha água pela frente. Ele só não havia imaginado o quanto.

Lá pelas 18h30min, o céu desabou às ganhas na praça, provocando correria pelos corredores. Veja o pessoal da Saraiva, aí em cima, por exemplo. Foi a chuva apertar e a água, associada ao vento, começou a vazar pela parte de baixo da lona de proteção, molhando ou respingando os livros.

O jeito foi correr para retirar o que dava de cima das prateleiras dos estandes, tentando salvar os volumes que estavam na linha de fogo, ou melhor de água, das goteiras.

Outros tiveram problemas com goteiras na lona da cobertura – posta à prova pela primeira chuva do ano. Por toda parte viam-se funcionários da equipe de manutenção tentando vedar, ainda que provisoriamente, os vazamentos.

Passada meia hora de chuvarada, o centro da praça e parte do corredor central estavam como na foto acima, cheios de poças e parcialmente alagados.

Trabalho dobrado para garis como Cíntia Cristina de Oliveira, da Cootravipa, que, desconsiderando o caudal cada vez mais volumoso, batalhava para dar vazão à água em direção aos bueiros no centro dos corredores. Para ela, a tarefa vale a pena. Ela adora trabalhar no entorno da praça e de seus livros, que observa com maravilhamento. Há dois anos é empregada da empresa, já passou por duas feiras antes desta, e guarda como um tesouro uma lembrança preciosa:
- No ano passado até ganhei um livro aqui na Feira.

* Obrigado a Cíntia Moscovich, de quem peguei emprestado o título deste post. A frase dá nome ao mais recente livro de crônicas da autora gaúcha, que tem sessão de autógrafos no próximo dia 3 de novembro, um sábado, às 18h.

Ah, sim, as fotos desta matéria são minhas.

Um trecho para hoje

29 de outubro de 2012 0

O que se chama negrume é esse céu sem estrelas que dá vontade de não ver, é a lagoa tão sombria que é melhor nem olhar. E Néstor fecha os olhos, apóia os cotovelos na borda, e a vibração do barco torna-se mais perceptível, e o barulho do motor ganha mais corpo, e a escuridão não é maior do que quando ele tinha a vista cravada no alto ou nas águas.
– Cansado?
Néstor abre os olhos, constata que a lagoa continua igualmente impenetrável, embora agora reflita luzes distantes, e que a seu lado está Cristina.
– Com vontade de se jogar?
Cristina roçou em seu braço. Talvez tenha sido uma tentativa de carícia. Néstor a observa detidamente. Nada decifra nesse rosto que ele conhece à perfeição, que exibe pequenas rugas. Em Cristina até que ficam bem essas leves ondulações emoldurando as pálpebras. Um elogio que certamente não a agradaria. Uma mulher de verdade, Cristina. Frase que não quer dizer nada, e que ela portanto adoraria. E se a disse? Néstor não abre a boca, apenas tenta sorrir.
– Arrependido?
– Não estou cansado, não vou me jogar na água, não me arrependo de nada. E você, se arrepende?
Néstor saber que sua tentativa de sorrido não passou de uma tentativa.
Eu, me arrepender? Nunca.
Cristina sim, sorri, esplêndida, e está dizendo mais alguma coisa. O quê?
– Perguntei que horas sáo.
– Estamos chegando.
Néstor tenta reforçar o que acaba de dizer apontando para as luzes cada vez mais próximas.
– Meu adorado tormento, por que você nunca responde o que eu pergunto?
O gesto de Néstor, assim como o sorriso, fica incompleto.
– São onze horas.
– Como você sabe?
Néstor não olhou o relógio, também não o olha agora, só estende o braço, põe o pulso com o relógio diante do nariz de Cristina. Que ela se convença, se quiser, ele está muito ocupado com as luzes que agora deixam ver a boca de um canal.
– Vamos para lá?
Néstor se dá conta, Cristina não se refere ao canal. No outro lado da proa estão Magda e Bruno, de pé como Cristina e ele, também apoiados na borda, mas em silêncio. E Néstor não precisa olhar, ele sabe que são os únicos passageiros.
– Você vem?
Cristina não espera a resposta, agarra o pulso que sabe do tempo, puxa com decisão. Néstor deixa-se levar. Alguns passos, e Magda e Bruno abrem espaço para eles, sem romper o silêncio.
Ele junto de Cristina.Ao lado de Cristina, Bruno. Apertada contra Bruno, Magda. E Néstor olha melhor, Bruno e Magda parecem hipnotizados pelas luzes quase palpáveis. Ou estarão pensando? Em quê? Em luzes que se aproximam? Certamente não. Não é algo digno de se pensar, basta ver. Ou será que contemplar intensamente uma luz permite que se deixe de pensar? Quem sabe. Ele também vai encher a cabeça de luzes para não pensar
.

O trecho acima é do romance As Afinidades, do cubano Reinaldo Montero, que é esperado hoje na Praça da Alfândega como convidado especial da Feira do Livro. Nesta segunda-feira, a programação temática é dedicada a Cuba, e Montero vai participar de um encontro às 17h30min com Tailor Diniz e Lisiane Cohen, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul. Antes disso, na mesma sala, como parte dessa mesma programação, o escritor José Eduardo Degrazia recebe outro cubano, Virgilio López Lemus.

Montero já esteve no Rio Grande do Sul em 2007, como participante da Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo. Filólogo de formação, é dramaturgo e escritor com uma vasta obra publicada e premiada desde os anos 1980. Já teve editados aqui no Brasil os livros Mulheres e As Afinidades, o livro do qual pinçamos o trecho acima. É a obra mais conhecida de Montero, um conto  erótico-filosófico cujo ponto de partida é uma troca de casais em um balneário cubano no fim do século 20. O livro é dividido em capítulos cada qual contado pelo ponto de vista de um dos personagens da simpática suruba (Néstor e Cristina, Bruno e Magda), uma releitura latina e contemporânea do clássico As Afinidades Eletivas, de Goethe. O livro foi adaptado para o cinema em 2010, em uma produção de Vladimir Cruz e Jorge Perugorría, que vivem também os personagens masculinos da trama.

O escritor Reinaldo Montero em Passo Fundo, em 2007. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Sabedoria de Mãe

28 de outubro de 2012 0

O escritor Valter Hugo Mãe no Memorial do RS. Foto: Félix Zucco, ZH

Foi realizada esta noite uma das grandes palestras desta edição da 58ª Feira do Livro: uma conversa entre a professora e patrona da Feira 2011, Jane Tutikian, o escritor e editor Pedro Gonzaga e o autor português (angolano de nascimento) Valter Hugo Mãe. Em sua primeira visita a Porto Alegre (mas nona ao Brasil, incluindo uma temporada de férias que ele considera transformadora, em Niterói, no Rio de Janeiro , no fim dos anos 1990), Valter Hugo Mãe mostrou-se um orador tranquilo e um tímido bastante articulado. Embora falasse em voz baixa, às vezes se encolhesse na cadeira, Mãe falava de modo ponderado, desviava-se por vezes do assunto elaborando o  pensamento à medida que falava, e provocava risos com tiradas certeiras e momentos de profundo silêncio e reflexão com uma que outra frase iluminada. Abaixo, uma pequena súmula dos principais temas abordados pelo escritor:

A poesia e a prosa
“Não é apenas aqui que conhecem mais os meus romances, também em Portugal sou mais conhecido por eles, e bem pouco pela minha poesia. Acontece-me muito de lerem meus romances e sugerirem que eu devia escrever poesia.  “

Escrever um livro
“A experiência de escrever um livro é muito intensa. Eu às vezes sonho com a resolução dos problemas de meu livro, eu encontro respostas para problemas do meu livro no inconsciente. E às vezes quando acordo, sei que sonhei com a solução de algo e me esqueço do que era, fico de mau humor. E depois dessa experiência tão intensa, terminar um livro tem uma sensação dupla: a satisfação de haver terminado e a sensação de ser abandonado, de ser deixado para trás, porque aquelas personagens permanecem no livro e se apartam de mim”

o nosso reino
“Eu publiquei livros de poesia por 10 anos antes de estrear em prosa, foi uma estreia acidental. Eu estava conversando com uma jornalista da assessoria da Feira e ela me perguntou como eu vivo na cidade do Porto. Eu respondi que por causa da crise que estamos a atravessar, eu vivo no Porto triste e vocês vivem no Porto Alegre. A tristeza da alma é um tópico muito português, que foi muito desenvolvido ao longo do século XX, e eu queria abordar esse tópico e fui escrevendo um texto que eu não sabia direito o que era, pensei ser um poema, um poema em prosa, mas aquele texto não acabava, insistia em querer mais. Os textos têm uma energia intensa que me transcende. Não sei trabalhar de modo esquemático. Eu não seria inteligente o bastante para escrever um texto sozinho, eu preciso que ele também faça sua parte.”

Criação de seus personagens
“Me inspiram as pessoas caladas. Quando elas falam, elas limitam minha ação, elas diminuem as possibilidades. Se elas ficarem em silêncio, eu as observo e invento tudo que preciso saber, e há pessoas que comunicam muito sem palavra alguma.”

O uso das minúsculas
“Houve um momento em que eu fiquei marcado pelo uso das minúsculas: “como é esse livro”, “ah, é um romance escrito por um autor que só usa minúsculas”. Não parecia que eu havia trabalhado tanto naquele livro, e isso começou a me irritar. Por isso voltei a assinar meu nome com maiúsculas e a usá-las nos meus textos.”

Histórias
“Acontece muito de as pessoas virem colaborar comigo e dizerem: tenho uma ótima história para que a conte. E não é assim, é algo mais complexo. Não se escreve somente com ideias, um livro não é apenas uma boa história.”

O Filho de Mil Homens
“Esse romance é uma tentativa de simplificar a felicidade. O primeiro capítulo é narrado como se fosse uma história infantil, de um homem que sente que algo lhe falta, e que pede por aquilo e aquilo lhe é concedido. Esse livro é uma história que tenta fazer da felicidade uma coisa simples. Porque acho que muitas das vezes aquilo que nos falta está um pouco ao alcance de nossa mão, mas o constrangimento, a desconfiança, a incapacidade de acreditar é tão grande que não damos espaço.”

A Máquina de Fazer Espanhóis
“A Máquina de Fazer Espanhóis foi um livro que partiu da circunstância de minha mãe morrer. Foi um livro que me magoou, tinha de me magoar. E depois disso, tive uma necessidade de escrever um livro que me fizesse bem, esse é O Filho de Mil Homens.”

O idioma português
É impressionante como se monta um português com tantas facetas. Há pouco falávamos do aparecimento das novelas brasileiras na TV portuguesa nos anos 1970. Aquilo, para nós, mudou muita coisa e abriu uma janela para uma forma de estar que nós portugueses, que tínhamos saído da ditadura, não tínhamos acesso.  Acompanhar a obra de autores brasileiros fornece uma ideia de liberdade muito grande com o idioma. Talvez em Portugal tenhamos um sentido mais de proprietários da língua, de achar que as coisas podem mudar mas não muito. E no Brasil a mescla de muita coisa é natural, é ainda a língua portuguesa, mas algo muito novo. E é natural que assim seja, basta ver o tamanho do território do Brasil em comparação a Portugal. Não é nem um anão, é uma formiga diante de um gigante incomensurável. A nossa possibilidade de reformar o português é bem menor do que a de vocês.

Poesia brasileira
Disse ontem em um jantar que ficar atento à poesia brasileira tem para mim um caráter de oficina, é uma necessidade e um trabalho. Me interessa mais um livro de poesia brasileira ruim do que uma prosa média brasileira. Há na poesia brasileira uma forma diferente de dizer as coisas. É sempre aumentativo, sempre amplia nossos horizontes.”

Capa Brega (e subversiva) do Dia

28 de outubro de 2012 0

A Guerra Fria foi uma era dominada por um monstro paranoico de duas cabeças que tentavam se devorar uma à outra: de um lado os Estados Unidos apavorados com a “ameaça vermelha”; de outro, a União Soviética desconfiada com as “tramoias do capitalismo decadente”. Foi uma época fértil para “analistas especializados” de lado a lado ganharem uns trocados denunciando os “ganhos de terreno” do adversário, como neste livro do acadêmico Thomas T. Hammond (1920 – 1993) que mapeava o avanço comunista.

Docente da Universidade da Virgínia, Hammond ajudou a implementar por lá um departamento de estudos de política externa soviética, e ele próprio foi o autor de livros sobre invasões extraterritoriais dos soviéticos, como Bandeira Vermelha no Afeganistão e este Anatomia da Subversão, um estudo sobre a ampliação das zonas de influência da União Soviética

E, como se pode ver na capa desta edição da Artenova, o perigo era de fato real, uma vez que o comunismo estava preparado para dominar o planeta com um exército subversivo de clones do Waldick Soriano.

Um trecho para hoje

28 de outubro de 2012 0

A Luta do Samurai

Numa aldeia, próxima a Tóquio, vivia um honrado e velho samurai. Apesar de sua idade avançada, ainda era capaz de derrotar qualquer adversário. Contudo, optara, ultimamente, por se dedicar a ensinar a arte zen aos jovens. Descobrira, em sua longa experiência de vida, que era mais vantajoso satisfazer o seu coração do que o seu ego, esta fútil entidade eternamente insatisfeita, cuja ávida caça ao tesouro leva, no fim das contas, a nada mais do que um baú vazio.
Certa tarde, porém, um guerreiro que era puro ego dos pés à cabeça, apareceu diante do velho samurai e falou-lhe do alto de seus tamancos e de sua soberba:
– Quero enfrentá-lo, samurai, para aumentar ainda mais minha  fama de lutador invencível.
O velho aceitou o desafio e tão logo começou a luta o jovem começou com provocações:
– Velho inútil, agora entendo por que se reduziu a ensinar a arte zen. Não passa de um pobre diabo que não consegue mais lutar nem com um louva-a deus. – atiçava-o o arrogante jovem, escarnecendo do adversário ao mesmo tempo em que ia perdendo a luta.
O samurai, sem responder aos desaforos, continuou tranquilamente enfrentando o grosseiro adversário com seus golpes de mestre.
– Você está acabado, velho! – persistia o petulante jovem no seu monólogo, sem nunca tirar o sorriso zombeteiro, pregado na feia cara.
Mas ao ver que o velho prosseguia a luta impassível, de ouvidos moucos, o próprio jovem samurai começou a se irritar verdadeiramente como se os insultos fossem dirigidos a si mesmo. Fora de si, chutou algumas pedras em direção ao adversário, cuspiu no chão com desprezo e se pôs a praguejar como um oni.
Mas nada surtia efeito, o samurai continuava impenetrável.
Assim que a luta terminou, o arrogante guerreiro, exausto desta luta em que usara mais a língua do que a katana, mirou na retina do velho e lhe cuspiu no rosto com desprezo. Embainhou, finalmente sua espada e retirou-se bufando como um touro bravo.
Mal o samurai deu as costas ao adversário e os discípulos, que haviam assistindo a tudo indignados, se voltaram ao mestre e um deles perguntou, não sem um tom de censura na voz:
– Por que suportou tais desfeitas e insultos sem revidar, mestre?
– Quando alguém pretende entregar um presente que não é aceito, com quem fica o presente? – respondeu o mestre?
– Com o próprio entregador. – responderam os discípulos a uma só voz.
– Do mesmo  modo ocorre com o ressentimento, o despeito, os insultos e a inveja. Quando não são aceitos continuam pertencendo a quem os carrega consigo.  A nossa tranquilidade e paz interior dependem, exclusivamente, de cada um de nós e ninguém pode usurpá-la sem nosso consentimento.
Sem mais uma palavra, os discípulos inclinaram-se, lenta e profundamente, diante deste verdadeiro mestre-mentor.

O trecho acima é uma das Melhores Lendas Japonesas compiladas por Carmen Seganfredo (Artes & Ofícios, 312 páginas). A organizadora da coletânea, que há anos vêm recontando em seleções variadas histórias de variadas mitologias, autografa o livro hoje às 18h na Praça dos Autógrafos, na Área Geral da Feira.

O homem das multidões

28 de outubro de 2012 0

J.J. Benítez, com o microfone, fala no Memorial do RS. Foto: Carlos André Moreira

J.J. Benítez é um homem de muitos paradoxos. Espécie de Dan Brown dos anos 1980 e início dos 1990, com a série Operação Cavalo de Troia, Benítez há anos não está mais no ápice de sua popularidade, mas ainda é conhecido o bastante no Brasil para ter protagonizado uma das palestras mais concorridas deste primeiro fim de semana da Feira. A plateia interessada em ouví-lo ocupou todos os 240 lugares disponíveis na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul na noite de ontem, e muitos ainda ficaram de pé, encostados nas paredes (como vocês podem ver na foto que não é das melhores, mas eu nunca disse que era um grande fotógrafo).

Benítez desafia uma definição unívoca por mais de um motivo. Sua primeira manifestação foi declarar que tudo o que tinha para dizer estava em seu livro, e que a estar ali, conversando com outros sobre coisas a respeito das quais já escreveu, ele preferia estar em casa. Para ele,m seria melhor que o debate fosse pontuado de perguntas do público, mas depois dessa declaração Benítez falou sem parar por 45 minutos, deixando espaço para apenas duas perguntas da plateia.

Outro ponto inusitado de Benítez é sua relação, ou melhor, seu discurso público, sobre sua própria obra. A saga Operação Cavalo de Troia apresenta um relato sobre a vida de Jesus Cristo, discrepante dos Evangelhos, que ele definiu como um “fracasso completo em traduzir os ensinamentos de Cristo.” O narrador é um major da agência americana NASA  enviado ao passado em uma máquina do tempo experimental. Não é a primeira vez que um romance apresenta a vida de Jesus por um prisma diverso dos Evangelhos canônicos: José Saramago, Nikos Kazantzákis, Eduardo Mendoza e Christopher Moore já fizeram isso, para falar de apenas quatro, com estilos e propostas bem variadas. Só que Benítez alega, e repetiu isto ontem na sua palestra, que  tudo o que ele conta nos seus romances é verdadeiro, retirado de documentos secretos da NASA que relatam uma viagem no tempo real empreendida por dois astronautas de carne e osso.

- Se tudo o que está ali fosse não a verdade, e sim um romance de fantasia, eu já deveria ter sido indicado ao Nobel – provocou.

A saga já está no nono volume, Caná, que teoricamente encerraria a série, mas Benítez anunciou que trabalha em outros quatro romances que dão continuidade à obra e revelam “todas as perguntas” deixadas em aberto pelos outros, pasmem, nove livros publicados e que não solucionaram ainda todos os nós..

Jorge Amado, modernidade e trajetória

28 de outubro de 2012 0

Carlos Augusto Magalhães (com o microfone) e Josélia Aguiar (à direita) ontem na Feira

A Rua Chile é pequena. Vai da Praça Municipal ao Largo do Teatro, enladeirada. No entanto é o coração da cidade, nela se exibe toda a gente. Como a Rua do Ouvidor,  no Rio, a Rua da Praia, em Porto Alegre, ou a Rua Direita, em São Paulo. Em todas as cidades há uma rua assim. A da Bahia não é pior nem melhor que as das outras  capitais. São ruas do fútingue, da conversa, de negócios também, de namoros, de brilho, de exibição. Ali se estabelece o comércio mais elegante. As grandes casas  de fazendas, sapatos, roupas de homem e mulher. Ali estão os ricos sem quefazer, os desocupados, os literatos, os aventureiros, os turistas, gente que sobe e desce  a rua, ali as mulheres mostram seus novos vestidos, exibem as bolsas caras, em passeio diário. Há quem não possa deixar de ir à Rua Chile todos os dias. Há mesmo  quem viva em função da hora ou da hora e meia em que passeia pela rua atravancada.

Com a leitura deste trecho, extraído de Bahia de Todos os Santos, espécie de guia informal que Jorge Amado escreveu sobre Salvador (que, na época, 1945, era ainda mais comumente chamada de “Cidade da Bahia” ou simplesmente de “Bahia“), o acadêmico e escritor Carlos Augusto Magalhães lembrou na tarde de ontem, na Feira, a ligação profunda de Jorge Amado com a cidade, para onde se mudou na adolescência para morar em um cortiço no Pelourinho – região da cidade já à época degradada, frente às largas avenidas que as reformas urbanas de J.J. Seabra começava a sangrar na cidade, nem que para isso tivesse de deitar abaixo belas igrejas históricas do período colonial. Jorge se enraizaria de tal modo no Pelourinho que ali ambientaria boa parte de sua ficção urbana. O cortiço em que viveu quando para lá se mudou inspiraria o curto romance Suor - lembrou Magalhães. O professor falou sobre as transformações urbanas de Salvador, apresentou imagens da cidade aos tempos da juventude de Jorge Amado e relacionou-as com a ficção do autor. A insistência em retratar o Pelourinho revela um escritor que não se deixou deslumbrar pelas transformações urbanas radicais que estavam se processando em Salvador.

- Jorge continuaria escrevendo sobre o Pelourinho para mostrar como os males do capitalismo reservavam as benesses da modernidade para uns poucos enquanto os demais eram condenados à miséria, mas esse retrato tinha um olhar otimista, socialista, de uma possibilidade de transformação – disse Magalhães

Ele dividiu o estrado na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul com a jornalista Josélia Aguiar (a conversa foi mediada por Eliana Pristsch). Baiana de nascimento e repórter da área de Cultura do jornal Folha de São Paulo, Josélia está encerrando uma biografia do autor a ser lançada até o fim do ano pelo selo Três Estrelas, do grupo Folha. Josélia antecipou a linha mestra de seu livro, que, de acordo com ela, investiga também as razões que tornaram Jorge Amado um escritor internacionalmente conhecido. Segundo a jornalista, não foi apenas a orientação ideológica do Partido Comunista – que existiu, e transformou Jorge Amado em best-seller nos países da Cortina de Ferro – ou o exotismo da narrativa Amado que lhe valeram interesse global.

- Para quem é da Bahia, Jorge Amado não é exótico. Para quem é de fora, sim. Mas por esse prisma qualquer literatura de um lugar que não se conhece pode despertar interesse por ser exótico, o que não acontece – disse Josélia.

De acordo com ela, parte fundamental da receita que tornou Jorge Amado um autor popular passa pela descoberta ainda precoce de sua obra pela França e por uma fenomenal capacidade de trabalho.

- Jorge Amado teve Jubiabá (1935) traduzido para o francês  poucos anos depois de ser lançado, por Michel Berveiller e Pierre Hourcarde, da missão francesa que fundou a USP, que eram parte de uma geração de intelectuais europeus que estavam saturados da experiência da modernidade e iam buscar lugares que vivessem ainda segundo modos de vida antigos e não totalmente contaminados pelo modelo da Europa. E naquela época, ser traduzido para o francês era um grande trampolim – explicou.

Amado também era um autor tomado pela volúpia de realizar seus projetos, em vez de cultivá-los por longos anos. Isso explica a extensão de sua obra, que em vários períodos contou com um livro publicado a cada ano, mesmo nas épocas em que estava no exílio ou perseguido pela polícia.

- Muitas pessoas criticam os livros de Jorge porque não são perfeitos. E não são mesmo. Entre guardar algo para voltar depois àquilo em busca do aprimoramento, como o Graciliano fazia, por exemplo, e concluir a obra que ele queria fazer no momento que desejava, ele ficava com a segunda alternativa, o que explica como ele conseguiu produzir tanto – disse Josélia.

Capa Brega do Dia, o retorno

27 de outubro de 2012 0

Respeitável público, abram alas para a seção mais pedida do Caderno da Feira – ao menos da coluna deste repórter a cada Feira, sendo todo o resto bastante dispensável, ok, eu entendi, mas posso viver com isso.

Garimpando nos saldos da Feira do Livro, encontrei uma pérola de uma autora hoje pouquíssimo comentada, Carolina Nabuco, escritora carioca, filha de Joaquim Nabuco e protagonista de um rumoroso caso de plágio envolvendo a autora de Rebecca, Daphne Du Maurier. Carolina traduziu seu romance A Sucessora (1934) e enviou para um editor inglês, tentando lançar-se no mercado internacional. Daphne Du Maurier era agenciada pelo mesmo editor  e, por isso, leu a tradução e, em 1938, publicou Rebecca, livro com muitas semelhanças com o da brasileira.

O tempo não foi cruel apenas para a posteridade de Carolina Nabuco, hoje pouco lida, editada e comentada (bem como a própria Daphne Du Maurier, pensando bem), mas também com as edições de suas obras, como é possível ver na arte desta edição da Record para o romance de 1947 Chama e Cinzas, cujo maior mérito é ter tentado fazer uma capa sem chamas, e sem cinzas, embora o resultado “sofá, almofada e cabeças decapitadas flutuantes” não tenha ficado muito melhor.

O Verissimo que não estará lá

27 de outubro de 2012 0

Fonte: Câmara Rio-Grandense do Livro, reprodução

Reparem com atenção na imagem acima. Ela é uma reprodução da programação de autógrafos divulgada pela Câmara Rio-Grande do Livro em seu guia oficial, que está sendo distribuído na praça. Pelo que você pode ler no trecho marcado em vermelho, a programação oficial da Feira do Livro prevê uma sessão de autógrafos de Luis Fernando Verissimo, que autografaria na Feira seu novo livro, a coletânea de crônicas Diálogos Impossíveis.

Só que Luis Fernando Verissimo está em Paris, em uma de suas recorrentes temporadas na cidade, e só volta a Porto Alegre no início de novembro – portanto, não haverá a sessão de autógrafos que está sendo divulgada no guia distribuído na Praça. Como Verissimo é um autor muito popular, que sempre junta uma fila de respeito na Praça da Alfândega (veja aqui, por exemplo, como foi o lançamento de Algum Lugar do Paraíso, na Feira do ano passado), este blog partilha a informação com vocês e adverte: avisem quem vocês conhecem, compartilhem no facebook, ponham no tuíter: Verissimo não estará na praça nessa sessão marcada para domingo.

Nós aqui da cobertura da Feira do Livro de Porto Alegre praticamente esbarramos na informação ao planejar a cobertura da Feira consultando o Guia da Feira. Enviamos uma entrevista por e-mail para o autor sobre seu novo livro, e nessa troca de e-mails surgiu a informação: ele estava em Paris e não viria. Telefonamos para a casa do autor, onde nos atendeu sua filha, Fernanda Verissimo, que garantiu: ele não estaria em Porto Alegre no dia anunciado no guia. Verissimo respondeu nosso e-mail encerrando a questão:

Até onde sei, participo de uma homenagem ao Canini e de uma mesa com o Mario Prata e o Fernando Caruso no dia 7. Não sei de onde tiraram esses autografos no dia 28.”

Fernanda Verissimo tratou de avisar as instâncias interessadas, mas as revistas com o guia já haviam sido impressas e estão sendo distribuídas na praça. Por isso, reforço para nossos parcos leitores serem camaradas com seus confrades amigos do livro e repitam por aí: Verissimo não estará na praça na sessão marcada para domingo.

A origem do erro permanece obscura. A editora Objetiva, responsável pelo livro, havia nos informado do encontro de Verissimo e Mario Prata no dia destinado ao humor. Ao vermos os autógrafos de Verissimo ao recebermos o Guia da Feira com a informação, perguntamos para a editora do livro,  e a sua assessoria de imprensa nos confirmou a sessão, mas nos informou como fonte da informação a Feira do Livro. A assessoria da Feira do Livro, consultada após a mensagem de Verissimo, confirmou que a sessão estava cancelada, mas não tivemos informação de onde esse equívoco se originou.

Mas o que eu queria escrever aqui era outra coisa, para que vocês nos ajudem a disseminar a notícia:

Verissimo não estará na praça na sessão marcada para domingo.

"Eu não vou, entendeu?" - Foto: Fernando Gomes, ZH