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Posts de novembro 2012

Anatomia de um fim

29 de novembro de 2012 0

Texto de Cláudio Rabin

Quando Christopher Hitchens morreu, em 15 de dezembro de 2011, a notícia se espalhou pela internet com a mesma força das palavras que um dia ele fora capaz de expressar. Agora, a voz do jornalista britânico volta a se projetar nas livrarias brasileiras com o lançamento do livro Últimas Palavras (editora Globo Livros, 96 páginas), que reúne seus artigos derradeiros publicados na revista americana Vanity Fair (todos disponíveis em inglês no site da publicação), nos quais narra a descoberta e o tratamento de um agressivo câncer no esôfago.

As palavras finais do jornalista britânico não foram de esperança nem de autocomiseração ou arrependimento. Foram fiéis ao autor: provocativas, céticas e coerentes com sua trajetória intelectual. Hitchens não pediu água ao além, a divindades ou a qualquer religião – objetos de ataques e ironias frequentes do autor de Deus Não é Grande.

Antes: aspectos da própria mortalidade (aliás, o título do livro em inglês é Mortality), e o que representou seu encontro com o câncer em termos físicos e morais é o principal assunto dos ensaios. Ironiza eufemismos médicos como “equipe de gestão de dor”, quando narra as consequências de um tratamento de ponta que lhe permite viver um pouco mais, mas que parece uma forma de tortura. A memória da dor, ele escreve, o fez repensar se teria optado pelo tratamento caso soubesse pelo que passaria. O paradoxo, o jornalista pondera, é que a recusa significaria a própria extinção.

Provavelmente é uma misericórdia que a dor seja impossível de descrever de memória. Também é impossível alertar contra ela“, registra, deixando impresso na memória do leitor o nível de sofrimento físico que uma doença terminal pode causar.

Pela verborragia agressiva, rapidez na escrita e capacidade de intelectual, Hitchens lembra, de certo modo, Paulo Francis. Sua origem e seu talento, porém, são distintos: longe de ser um ensaísta ou cronista, ele segue a tradição do também inglês George Orwell (seu grande ídolo) de estar onde os conflitos acontecem e se guiar por uma moral política sem ceder ao partidarismo.

Foi assim que Hitch (apelido dado pelo escritor e amigo Martin Amis) surpreendeu os que acompanhavam sua carreira ao decidir, por exemplo, apoiar a Guerra do Iraque. Ele havia visto pessoalmente as covas coletivas criadas por Saddam Hussein depois de testar armas químicas na população curda. Por coerência, acreditou que o tirano deveria ser chutado do poder.

O apoio ao poder jamais seria acéfalo. Quando os Estados Unidos se engajaram no debate sobre tortura de prisioneiros acusados de terrorismo, o inglês se submeteu ao procedimento de waterboarding (um método de afogamento), apontou o dedo para as forças armadas americanas e escreveu um artigo cujo título era óbvio mas emblemático: “Acredite em mim, é tortura“. Na sua última coletânea de artigos, ele relembra a experiência e compara o medo que sentiu com alguns tipos de tratamento a que foi submetido.

Com o avanço da doença, se aproxima do fim sua persona. A voz sempre pronta para o debate, para a conversa, para o discurso, acompanha sua saúde e se esvai. “Certamente é morrer mais que um pouco“, relata no quinto capítulo. O cabelo, a massa muscular, a barba mal feita e até os pelos do nariz, vão embora juntos com suas forças.

O maior medo de Hitchens, ao receber uma dose de analgésico para reduzir a dor nas mãos, ele relata em um dos melhores momentos do livro, é não poder mais escrever. É a forma que este jornalista encontrou para existir no mundo. O silêncio forçado, portanto, era uma forma de morrer.

O capítulo final do livro é uma metáfora trágica do momento: não é um artigo como os anteriores. Suas últimas palavras são um conjunto de frases, referências e ideias que Hitchens, muito debilitado pelo câncer, não conseguiu completar. Quando não pôde mais escrever ou falar, quando não foi mais capaz de projetar suas palavras para o mundo, a chama se extinguiu.

Ficção da desmemória

19 de novembro de 2012 0

O filme Amnésia (2000) chamou a atenção para o talento do cineasta Christopher Nolan - mais tarde elogiado diretor das adaptações de Batman para o cinema. Montado em blocos narrativos ordenados de trás para diante, para dar ao espectador a mesma noção de desorientação na narrativa vivida pelo protagonista, trazia Guy Pearce como um cara que, após ser atacado por um criminoso e ficar à beira da morte, desenvolve uma condição neurológica que o impede de fixar memórias recentes. Tudo o que o sujeito vive e testemunha simplesmente desaparece de sua cabeça após um determinado período que agora não me lembro se era de sete ou de 15 minutos. Como ele está obcecado por encontrar o ladrão que matou sua esposa e o deixou naquela situação, ele toma notas obsessivas em polaroides que usa para se guiar na selva desmemoriada dos contatos cotidianos. Quando algo é de fato muito importante, ele tatua na pele como um lembrete. Apesar da engenhosidade e da qualidade narrativa do filme, há um furo básico de roteiro na história que somos convencidos a deixar de lado, já que Amnésia é tão bacana: o personagem toma notas e tatua mensagens para si mesmo porque sabe que sua memória é fugaz, mas mesmo esse conhecimento refere-se a uma condição posterior ao tal ataque. Logo, pelos próprios postulados narrativos do filme, passados 15 minutos (ou sete, faz tempo que vi o filme), ele não deveria lembrar de nada, inclusive do fato de não se lembrar de nada depois de sete minutos (ou 15, você entendeu).

Cito aqui esse episódio para mostrar como histórias envolvendo perda de memória recorrente podem ser tão intrincadas quanto as que abordam viagem no tempo, com o risco de deixar pontas soltas não importa o quanto o resultado seja bacana. Outra produção cinematográfica que lida com esse mote é um dos poucos filmes simpáticos e assistíveis de Adam Sandler: Como se Fosse a Primeira Vez (2004), no qual ele se vê condenado a cortejar dia após dia a mesma garota vivida por Drew Barrymore, vítima de um acidente de trânsito que também a deixa impossibilitada de manter memórias recentes depois de 24 horas. Todos os dias, mesmo anos após o acidente, ela acorda acreditando viver ainda a mesma manhã anterior ao desastre. Embora regido pela mesma lógica bobinha de qualquer comédia romântica, o filme se vê compelido a arranjar um final feliz que é, também, condizente com a proposta da memória: o casal fica junto, blá, blá, mas ela não recupera a memória perdida, e precisa ser relembrada todas as manhãs de que casou e já tem uma filha, e que a vida seguiu depois daquela manhã.

E por que falei de dois filmes em um blog de livros? Na verdade eu não estava falando necessariamente dos filmes, e sim da força existente na ficção da desmemória. Justamente por a memória ser uma ferramenta fundamental para a invenção da própria identidade, apagar a memória de um personagem ou impedi-lo de adquirir novas lembranças é levar a narrativa a um ponto de abismo que sempre provocará curiosidade e representará um desafio para que a história que se segue a esse recurso tão radical seja digna não apenas do recurso em si, mas da personagem vitimada por ele. É difícil dotar de dignidade um protagonista que não tem uma das ferramentas mais comuns à construção pessoal de qualquer dignidade: a possibilidade de selecionar, dentro de suas próprias memórias, aquelas que corroboram sua própria narrativa pessoal – o choque dessa narrativa com as narrativas dos outros é também um tema de eleição da grande arte por ser outro dos aspectos fundamentais da vida.

Antes de Dormir (Record, tradução de Ana Carolina Mesquita), thriller que marca a estreia literária do inglês S.J. Watson, é, a seu modo, outra obra a encarar esse desafio. É, podemos dizer, uma versão dark da premissa que Como se Fosse a Primeira Vez desenvolveu como comédia romântica – e acrescentando a dificuldade adicional de estar bastante consciente do furo de roteiro essencial em Amnésia: se você não guarda memórias novas, mesmo esse fato está fora de seu alcance. É o que acontece com Christine, a protagonista do livro. Já na primeira cena, ela acorda na cama com um homem que não conhece e sem lembrar de como chegou ali. O homem é grisalho e usa uma aliança – conclusão imediata: em consequência de uma noite bem pegada, ela foi para a cama com um homem casado. Numa escapada ao banheiro para tentar organizar as ideias, ela tem o verdadeiro choque: seu rosto, seu corpo, suas mãos, parecem ter amadurecido da noite para o dia:

“O rosto que vejo me olhando de volta não é o meu. O cabelo não tem volume e está bem mais curto do que costumo usar, a pele nas faces e sob o queixo é flácida, os lábios, finos, a boca, curvada para baixo. Dou um grito, um grito contido sem palavras que se transformaria em um berro de choque caso eu o deixasse sair, mas então noto os olhos. A pele ao redor deles está marcada com rugas, é verdade, mas apesar de tudo vejo que são os meus olhos. A pessoa no espelho sou eu, porém com vinte anos a mais. Vinte e cinco. Mais.”

Essa é apenas a primeira surpresa relacionada com os despertares de Christine. O homem que dorme a seu lado a coloca a par de tudo: ele se chama Ben, e a cada dia é obrigado a recontar a ela a história de ambos. Há fotos dela no banheiro, recados pendurados, alguns lembretes para que tal despertar seja mais suave, mas ainda assim, o choque é real. Depois que Ben sai para o trabalho, ela fica sozinha em uma casa que, para todos os efeitos, não conhece, munida de um telefone celular para emergências – embora ela não saiba muito bem o que é um celular sem que o marido explique, já que sua perda de memória parece anterior à popularização do aparelho. Só que a determinado momento, o celular toca. É um jovem médico com quem Christine vem se tratando, aparentemente às escondidas do marido. E ele a informa onde procurar um diário que ela vem mantendo há algumas semanas após cada dia de consulta. Depois que ela encontra o diário, a narrativa pula para as diversas entradas registradas nas páginas, cobrindo cerca de um mês antes da primeira cena, a que testemunhamos e que abre o livro.

Cada entrada, narrada também em primeira pessoa, acrescenta uma camada de dúvidas e de versões sobre a história de Christine: ela ficou sem memória depois de ser atacada em um hotel, onde havia ido esperar o marido para um encontro romântico. Não, talvez não fosse o marido, e sim um amante. Talvez a abnegação do seu marido, que tem cuidado dela desde então, tenha um pouco de vingança pelo ultraje? Ela teve ou não um filho – cujas evidências parecem ter sido apagadas? Por que ela parece ter se afastado de sua melhor amiga, e que relação isso pode ter com sua condição? Quem é o jovem doutor Nash, que a vem aconselhando a manter o diário – é um homem desinteressado ou tem sua agenda secreta? Por que ele vem sendo mantido escondido de Ben mesmo que o tratamento de registrar as lembranças pareça estar dando resultado, uma vez que algumas memórias sem referência clara às vezes boiam até a superfície?

São vários os desafios, como comentamos, desse tipo de narrativa. Como romance é um thriller, a “trama se complica”: a estrutura básica de uma história de suspense exige que a cada momento uma nova peça para a montagem do quebra-cabeça seja apresentada ao leitor por meio do juízo avaliativo do detetive (e um bom leitor por vezes discorda desse juízo, chegando antes do fim do livro à resolução do mistério). Só que neste caso, a figura que seria a do detetive é também a da vítima: Christine só tem acesso às descobertas que anota em seu diário, e a escrita é a versão depurada do que ela viu ou viveu. E ela não tem como manter anotações de toda a sua vida, até porque depois de um determinado tempo tais anotações se tornariam inúteis porque ela não teria como ler tal massa de material escrito. O que Christine tem não é um juízo avaliativo, uma vez que seu conhecimento das pessoas que compõem sua vida presente parece ser nulo: ela tem apenas (e portanto, também o leitor, uma vez que o livro é narrado em primeira pessoa por Christine, no presente e nos diários) relatos de alguns fatos passados e versões para as perguntas mais importantes da narrativa.

Watson se sai bem desse labirinto que criou para si mesmo, embora um recurso utilizado ao fim da história para que Christine – e o leitor – tenha finalmente um quadro completo de tudo o que aconteceu com ela comprometa um pouco a solidez da narrativa por lembrar um artifício de desenhos animados da Hannah Barbera. Ainda assim, a forma como determinadas coisas ficam necessariamente em aberto ao fim do livro (leia e você vai entender) está de pleno acordo com o desenvolvimento da narrativa. E o autor consegue valer-se com competência do fato de que alguém sem memória, e portanto sem a capacidade de saber quem é, se torna extremamente frágil.

Falsos cognatos culturais

15 de novembro de 2012 0

Já li, em diversas formas e versões, a defesa da tese, consenso entre profissionais da tradução, de que a transposição de uma obra de um idioma para o outro envolve não apenas questões linguísticas, mas culturais: não basta encontrar um equivalente semântico no idioma de chegada se não houver uma identidade cultural entre o leitor do original e o da versão traduzida, sob pena de se produzir um ruído, uma estranheza capaz de fazer o leitor ser expelido, ainda que por instantes, do universo autônomo criado pelo autor do livro. Não se trata aqui dos romances autorreferenciais cuja estética se constrói sobre a discussão constante do estatuto ficcional da obra ou sobre a reiteração contínua do caráter literário e não “real” daquele universo engendrado pela prosa. Trata-se sim, de pequenos acidentes abruptos na estrada da leitura, que fazem o leitor se dar conta de que está viajando em uma ficção – e em último caso podem até levar ao mesmo questionamento do estatuto da obra, mas desta vez involuntariamente.

Esses pensamentos algo vadios me ocorreram durante duas recentes experiências de leitura que me mostraram o quanto a construção de uma cena literária, por ser realizada por um autor mergulhado em uma determinada realidade e cultura, pode chegar ela toda como um ruído de tradução quando transposta para um leitor distante – e nesse caso sem que haja qualquer problema na tradução propriamente dita ou nos esforços realizados pelo tradutor para verter o original.

No primeiro caso, durante um breve intervalo ali uma semana antes da Feira do Livro, decidi ler O Guerreiro Solitário, romance policial do sueco Henning Mankell que aguardava sua vez na minha estante há pelos menos uns dois anos. É uma nova aventura do policial recorrente do autor, o policial de meia idade Kurt Wallander, talentoso porém desencantado investigador lotado na delegacia de Yistad. Muito antes da onda deflagrada por Stieg Larsson e sua trilogia Millennium, Mankell já era a prova de rica tradição do romance de crime escandinavo, criando narrativas desconcertantes pela habilidade com que o autor amplia o foco de uma investigação até o limite necessário para que o leitor não se perca, mas dotando-a de uma complexidade que valoriza o esforço dos policiais para desvendá-la. Um pouco como se pode ver também nos livros de Michael Connelly protagonizados pelo veterano do Vietnã residente em Los Angeles Harry Bosch; ou no distrito policial de Edimburgo em que o detetive punk John Rebus é o centro das atenções, na obra de Ian Rankin.

Pois bem, voltando a Wallander (que virou uma elogiada série de TV protagonizada por Kenneth Brannagh, que estou curioso para ver mas ainda não tive tempo nem oportunidade): O Guerreiro Solitário mostra o policial à caça do que pode ser o primeiro “serial killer” sueco: um furioso matador que arranca escalpos das suas vítimas. No princípio Wallander não sabe, mas o leitor sim, que o matador se considera inspirado pelo espírito dos índios norte-americanos, pinta o rosto com tintura de guerra e sempre mata seus alvos com lâminas afiadas, para depois enterrar seus escalpos em  uma oferenda ritual que só faz sentido para ele e sobre a qual não vou falar mais para não entregar o mistério para ninguém.

Pois bem, a determinada altura, Kurt Wallander perde a chave de casa. Fica bastante fácil para o leitor atento perceber em que momento aquilo aconteceu – e, também, quem é o assassino, uma descoberta que a polícia só vai fazer nas últimas páginas, tornando a aparência de suspense da parte da narrativa focada no criminoso algo exasperante. Mas como eu disse: Wallander perdeu sua chave, só se dá conta no meio de um dia atribulado, liga de novo para os locais em que esteve, deixa recados, pede que alguém que achou a guarde, etc… E o leitor sabe que isso será potencialmente perigoso para Wallander, uma vez que ele não perdeu a chave, ela foi subtraída em uma determinada circunstância pelo assassino, meticuloso planejador de seus ataques, que pretende usá-la para inspecionar o apartamento do detetive.

Parte do que a série de aventuras escritas por Mankell faz de melhor é escavar os aspectos em que a aparentemente utópica sociedade sueca desmorona aos poucos. Os crimes investigados pelo detetive são sempre pontas para a discussão de problemas como o aumento da violência contra mulheres e imigrantes, a diversificação da crueldade dos criminosos, a inserção da Suécia no mercado globalizado do crime internacional. É uma sociedade quase sem crimes descobrindo-se aos poucos desagregada. Pois bem, por mais que essa seja a intenção da história, parece simplesmente absurdo para um leitor como eu, morador de uma Capital em um país sul-americano que ostenta um dos quatro maiores índices de homicídio no mundo, que Wallander não encontre a chave e simplesmente deixe isso pra lá. Em Porto Alegre, em São Paulo, no Rio, em Manaus, em praticamente qualquer cidade grande do Brasil, alguém que perdesse a chave sem saber onde provavelmente trocaria a fechadura no máximo dois dias depois, e passa-se uma semana sem que Wallander faça outra coisa que não procurar a tal chave e resignar-se com sua perda. Esse “ruído cultural” talvez tenha outra origem: a colega Bruna Amaral, do blog Intercambiando, com “sete intercâmbios na bagagem”, como diz a apresentação da página, ao me ouvir comentar a estranheza dessa passagem, me alertou para o fato de que na Europa é muito comum que apenas o proprietário de um apartamento possa fazer uma cópia da chave. E que, dependendo do país, isso pode envolver uma senhora burocracia. Não sei se é o caso específico da Suécia, mas se for, de qualquer modo ajusta-se ainda ao meu argumento de base: determinadas circunstâncias culturais podem provocar “ruído de leitura” pela discrepância entre a realidade do autor e o ambiente em que vive o leitor quando a obra é traduzida. Mankell não precisa explicar que tirar uma cópia de chave é difícil um perrengue ou achar estranho que sequer passe pela cabeça de um sueco trocar a fechadura por segurança após perder uma chave, mas quem vive em um país com a violência do Brasil acha tudo isso muito exótico.

O segundo episódio foi mais cômico do que propriamente estranho. Já na primeira cena de 1Q84, o best-seller mais recente do japonês Haruki Murakami, que está sendo lançado aqui no Brasil este mês pela Alfaguara, a personagem Aomame está em um táxi sobre uma via expressa elevada, dirigindo-se a um compromisso importante (Aomame é personal trainer e assassina profissional. O compromisso, o leitor saberá páginas adiante, é a eliminação de um alvo). Tem, então, sua atenção despertada por uma música que vem do som de altíssima qualidade instalado no veículo pelo taxista: a composição Sinfonietta, do tcheco Leos Janácek, escrita em 1926 (esta que vocês podem ouvir na janela de Youtube aí embaixo – o texto continua abaixo dela).

Pois bem. Na noite imediatamente anterior ao dia em que li esse trecho em particular, eu havia pegado um táxi e, do som do carro, o que ouvi foi uma versão horrenda em ritmo de pagode de Sunday Bloody Sunday do U2, tocando na Rádio Eldorado – descobri depois, comentando minha profunda perplexidade com colegas de redação, que o crime foi perpetrado por um grupo chamado Sambô, especialista em fazer pagodaços de clássicos do rock – e que, aparentemente, só eu não conhecia.

A determinado momento da narrativa, Aomame desce do táxi em um recuo de manutenção da para escapar do engarrafamento na via expressa e conseguir chegar a tempo de seu “compromisso”. Ao fazer isso, o inesperado do gesto parece criar uma espécie de realidade paralela, em que eventos que ela desconhece aconteceram, os uniformes dos policiais mudaram sem que ela se lembre quando e… duas luas podem ser vistas no céu.

Com tudo isso, o mais fantástico dessa realidade paralela parece mesmo um táxi em que o rádio toca música clássica.


Uma história coletiva

12 de novembro de 2012 0

Douglas Silva, Luíza Schmidt, Cláudia Tajes e Marcelo Santos na Feira

Ao longo da primeira semana da Feira do Livro de Porto Alegre, Zero Hora provocou seus leitores a colaborarem em uma história criada em parceria com Luis Fernando Verissimo. Na segunda semana, fez-se o mesmo, mas o ponto de partida foi dado pela autora de Por Isso Eu Sou Vingativa e Louca por Homem, Claudia Tajes. Leia aqui o resultado e um breve relato de como a coisa funcionou.

Neste fim de semana, no último dia da Feira, Cláudia esteve na Feira para conhecer alguns de seus colaboradores (depois do primeiro trecho, escrito por Claúdia, a história teve sequência com sugestões enviadas por e-mail e selecionadas pela redação do Segundo Caderno). Na imagem acima, vocês podem ver, da esquerda para a direita, Douglas Silva, Luiza Schmidt, Claudia e Marcelo Santos.

Numa amostra do perfil bastante diversificado dos leitores/colaboradores, Douglas trabalha com química, Luíza é advogada (passou recentemente no exame da OAB) e Marcelo é professor de história – em comum, a paixão pela palvra escrita: Marcelo já ganhou alguns concursos de contos e Luíza também teve um dos trechos selecionados na história coletiva escrita com Luis Fernando Verissimo. Com a palavra, Claudia Tajes a respeito do resultado da ideia original (o texto completo, com todas as contribuições, pode ser lido aqui):

“Gostei do rumo que eles deram pra história, porque eu tinha pensando em uma coisa mais macabra, com a vizinha cozinhando as criancinhas do prédio talvez, e eles deixaram a história mais bem-humorada”

A Feira e a Cidade - um documentário

10 de novembro de 2012 0

Ao longo das últimas semanas, este repórter e uma equipe de Zero Hora online dedicou algum tempo e muito esforço a entrevistas, pesquisas e edição de um webdocumentário sobre a história da Feira do Livro. O vídeo entrou no ar hoje em ZeroHora.com.

Este seu blogueiro agradece ao empenho e ao belo trabalho de edição da jovem jornalista Raquel Saliba. Você pode assistir ao resultado abaixo:

Um trecho para hoje - o samba é assim

09 de novembro de 2012 0

Sodré parou, recuou dois passos, encafuou-se atrás de um poste ao notar que Valdemar vinha em sua direção na Rua do Estácio,  altura do Bar do Apolo. Deu para sair na escama, dobrar a esquina  sem que o outro o percebesse. 
Caraminholou, iniciou a volta ao quarteirão para surpreendê-lo pelas costas.
Manhã deserta na zona do baixo meretrício.
Se matasse esse rival, que era preto nesta vida, não teria problema com a polícia, já que era branco e funcionário do Banco do Brasil. Muito por esse motivo acatou a ideia de Valdirene. Nunca pensou em matar ninguém, nem mesmo Brancura. Não fosse o amor, não cometeria esse crime de morte.
Ia naquela hora tentar matar Valdemar à navalha. Se precisasse, pregaria chumbo nele, já que levava às costas, presa ao cós da calça, uma pistola para qualquer eventualidade. Tentaria matar com arma branca porque chama menos a atenção. Tinha de acertar logo a jugular, num ataque único, sem produzir muita dor. Nada de um monte de golpes para uma morte só. Não queria jorramento de sangue, não suportaria gente que demorasse a morrer em suas mãos.
A bem da verdade, Brancura era que tinha de ir primeiro. Era ele o cafetão dela, o perigoso, o malandro velho do Largo do Estácio, cobra de duas cabeças, faca de dois gumes. Valdemar era só um bobo apaixonado, moleque novo, sem real noção das desavenças da vida. No entanto, quando mulher cisma não tem jeito, ela não estava querendo mais Valdemar na face da terra. Tirá-lo de circulação era um modo de provar a ela seu amor e sua cumplicidade. 
Valdemar entrou no Bar do Apolo, pegou um revólver da mão de Brancura, colocou-o na cinta, foi à esquina montar tocaia.
Brancura foi para o sobrado de uma de suas putas para assistir a tudo de camarote. Poderia ter largado mão desse negócio de vingança, já que pensava em deixar aquela vida para trás a fim de seguir sua sina de fazedor de versos bonitos, de criador de melodias intocáveis; sina de fazer samba que nem Bide, Silva, Bastos, Baiaco, Edgar e tantos outros ali de sua área que tinham a arte como religião. Pra quê? Não ia casar com a virgem de seus sonhos? Então por que essa necessidade de vingança? O que nos leva a querer ser sempre o mais esperto? O maioral?
Seu Tranca-Rua da Calunga Grande lhe dissera que, se ele cumprisse a sua recomendação, sua vida caminharia no rumo que ele sempre quis: arrumaria emprego, seus sambas seriam comprados e moraria no mesmo cazuá que a mulher que lhe dava prazer de verdade. Então, pra que ver o português morto nessa trama que bolou? Só para provar a si e aos amigos que era o mais malandro dos malandros? Coisa feia! Coisa de bobo. Na verdade, no fundo, no fundo, tinha certa desconfiança de que Valdirene gozava com Sodré. Também nunca apostou tudo na macumba, apesar de ter experiência suficiente para saber que sua vida espiritual também iria cair para um patamar de padrão vibratório sem nenhuma força para elevação de alma. Então, por que agia assim? Essa coisa de errar sabendo que está errando não é tolice de criança que não recebe corretivo de pai e mãe? De criança que faz esperneamento de raiva por qualquer coisa? O ser humano tem esses sentimentos de nada. Tem gente que se alegra com situações de força negativa.
Um babaca de pouca fé.

O trecho acima é de Desde que o Samba é Samba (Planeta, 336 páginas), romance histórico de Paulo Lins, que estará hoje às 19h na Feira do Livro para um bate-papo com Lúcia Jahn na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul. Depois do encontro, às 20h30min, o escritor carioca, também autor de Cidade de Deus, autografa o novo romance no próprio Memorial. Em  Desde que o Samba é Samba, Lins reconta a fundação da primeira escola de samba, no morro do Estácio, no Rio, nos anos 1920. Retrata o gênero como cria da boemia carioca, de personagens com um pé na Zona do Meretrício e outro nos terreiros da umbanda, e traça as origens do caldo cultural e étnico nacional.

Capa Brega do Dia: Barbecue

07 de novembro de 2012 0

Lembram quando eu disse que tinha uns romances que pareciam ter ganho edição tradicional por acidente, e que seu destino estava mais ligado às obras em papel jornal para vender nas bancas de revistas? Pois eu nem ia voltar a esse tema, mas encontrei a colega jornalista Fernanda Grabauska na Feira e ela me comentou que havia fotografado uma capa brega para mim (sim, a seção tem leitores fiéis que sugerem e colaboram, este caso não foi o único).

Quando ela me mostrou a imagem em seu telefone, era a deste romance, A Vida no Texas, de Judith Gould, que eu JÁ havia fotografado dias antes. Tomei aquilo como um sinal: esta capa tem de entrar.

Até porque se a vida no Texas for que nem a da imagem, até esqueço que lá é a terra do Bush e, quem sabe, não faço uma visitinha?

Discussões em alto nível

06 de novembro de 2012 0

Mas, se mesmo assim tudo lhe for desagradável, se considerar a casa mal construída, se o café estiver frio e fraco e a cerveja muito quente, se tudo – enfim - lhe parece errado ou ruim, então eu só lhe peço que se lembre de uma coisa: a casa, afinal de contas, é brasileira. Nela, se há regras para o anfitrião, há também normas para a visita. E que até mesmo quando não se gosta, se pode dizer isso educada e generosamente.

Roberto da Matta, na Conversa para Receber o Leitor que serve de introdução a seu livro A Casa & A Rua: Espaõ, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil (tenho uma edição antiga, da Brasiliense, mas a mais recente é da Rocco). Mostrando o caminho a boa parte dos comentrollistas de internet (caminho que eles, é claro, em sua infinita ignorância, ficarão felizes em ignorar).

Capa Brega do Dia: Quadrinho do Batizado

06 de novembro de 2012 0

Em meus tempos de guri, no interior do Estado, era bastante popular entre famílias de classe média baixa como a minha uma espécie de “quadrinho do batizado” que se constituía de um número variável de reproduções de fotos do rosto de um mesmo bebê em um fundo branco. Era costume das famílias pendurarem esses quadros nas paredes da sala, recepcionando as visitas. Sempre achei o resultado meio estranho, parecia que aquelas crianças estavam prestes a se afogar em leite ou algo assim. Com que surpresa descobri, vasculhando as capas do dia, que a moda não se restringiu apenas às salas de visita de conjuntos habitacionais populares, mas às capas de livros de uma escritora respeitada como Joyce Carol Oates – hoje um nome frequentemente cotado para o Nobel. Esta edição de seu romance Eles, pela Edições MM, espécie de “quadrinho de batizado do mal”, é de 1978.

Um trecho para hoje - Getúlio

06 de novembro de 2012 0

Uma visão retrospectiva dos fatos ajudaria a mostrar que, de fato, Getúlio se encontrava em considerável dívida política com Borges de Medeiros. Em 20 de fevereiro de 1921, fora reeleito para a Assembleia dos Representantes, com 78.381 votos (sexto colocado) e a necessária chancela do chefe do PRR. No ano seguinte, em outubro de 1922, tivera seu nome apontado, por decisão do mesmo Borges, para a Câmara Federal. Com a ajuda da máquina estadual republicana, foi confirmado nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir um mandato-tampão. Iria completar o período de pouco mais de um ano que restava do mandato pertencente originalmente ao deputado federal rio-grandense Rafael Cabeda, falecido em 12 de setembro de 1922. Portanto, Getúlio estava perto de trocar o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro.
“A esta hora estás eleito deputado federal, e tuas virtudes, lato sensu, reconhecidas e proclamadas”, escreveu-lhe Érico Ribeiro da Luz, ex-intendente de São Borja. “Bem se diz – e uma vez me repetiste – que para vencer, às vezes, basta esperar”, alegrava-se o amigo na carta a Getúlio.
É inegável que a escolha do nome de Getúlio Dornelles Vargas para a Câmara obedecia a uma série de conveniências do borgismo. A rigor, pela lera exata da lei, Getúlio – ou qualquer outro filiado ao PRR – não poderia sequer ter concorrido ao carto de deputado federal naquele momento. Isso porque o partido comandado por Borges já dispunha de quatro das cinco cadeiras relativas ao terceiro distrito eleitoral do Rio Grande. Como a quanta cadeira pertencera ao oposicionista Cabeda e a Constituição Federal assegurava o direito de representação das minorias, a vaga teria que obrigatoriamente ser preenchida por outro representante dos federalistas.
“O candidato apresentado pelo Partido Republicano Rio-grandense é um verdadeiro intruso, um pretendente à usurpação dos direitos da minoria”, protestou a posição, em ofício às mesas eleitorais.
A reclamação foi ignorada e Getúlio, declarado eleito. Havia poucos meses, ainda no fim de 1921, ele seguira a orientação ditada por Borges de Medeiros, quando da campanha pela sucessão do então presidente da República, Epitácio Pessoa. O candidato oficial do Catete para as eleições presidenciais de 1922, apoiado por Minas Gerais e São Paulo, fora o mineiro Artur Bernardes, conforme o figurino de alternância do poder entre os dois estados mais poderosos na nação. Pessoa, a despeito de ser paraibano e apelidado pela imprensa de “Patativa do Norte”, recebera apoio dos cafeicultores paulistas, ao defender medidas de valorização permanente do produto no mercado internacional. Era, portanto, a vez de Minas dar as cartas, mantendo os termos do pacto inalterados. O gaúcho Borges de Medeiros, contudo, resolveu insurgir-se contra a hegemonia da conhecida “República do café com leite”.Borges aderiu à Reação Republicana, aliança que tentava construir um eixo alternativo de poder, composto pelo Rio de Janeiro e pelas oligarquias da Bahia e Pernambuco, estados que, um dia poderosos no Império, haviam aos poucos perdido relevância econômica e se tornado forças políticas periféricas após o advento da República, com a ascensão do baronato paulista do café. Ao somar-se a esse bloco, o emergente Rio Grande do Sul, por meio da resolução de Borges de Medeiros, declarou apoio oficial ao candidato oposicionista, o fluminense Nilo Peçanha, que durante a campanha pregou ardorosamente contra o “imperialismo dos grandes estados” e acenou com a promessa de “arrancar a República das mãos de alguns para as mãos de todos”.
João Francisco, a Hiena do Cati, voltou à cena  para recriminar a opção eleitoral de Borges: “Parece mentira mas é verdade! Borges de Medeiros está agora abraçado com o algoz de Pinheiro Machado”, escreveu, alardeando de novo a teoria conspiratória de que Nilo Peçanha estava por trás do assassinato do senador gaúcho. “Eu conhecia bem a hipocrisia do sr. Medeiros e sabia que ele e seus íntimos se sentiram melhor e até se regozijaram com o desaparecimento de Pinheiro Machado”, denunciou a Hiena. “Quando Pinheiro Machado caiu atravessado pelo punhal de um miserável sicário ao serviço de miseráveis políticos, Medeiros chorou lágrimas de crocodilo”, acusou João Francisco.
Getúlio, ainda líder do governo estadual na Assembleia dos Representantes, evitou uma resposta direta às acusações de João Francisco contra Nilo Peçanha, mas na sessão de 30 de novembro de 1921 partiu em defesa da candidatura presidencial abraçada por Borges de Medeiros, opção duramente criticada pela oposição interna dos federalistas rio-grandenses.
“Quando queremos a eleição de um nome nacional, escolhido em uma convenção livre, sem compromissos prévios, os federalistas se rebelam, opinando por um desconhecido”, condenou Getúlio, que julgava Artur Bernardes, governador de Minhas Gerais, uma insondável e perigosa incógnita.
Contra Bernardes havia um episódio rumoroso, no qual cartas atribuídas a ele desacatavam um ícone da caserna, o marechal Hermes da Fonseca, referido nas tais mensagens como um “sargentão sem compostura”, paparicado por oficiais que não passariam de um “canalha” que precisava “de uma reprimenda para entrar na disciplina”. As cartas, soube-se logo depois, eram escandalosamente falsas. Mas o estrago em relação à imagem de Bernardes junto aos militares já estava feito.
Não era isso, entretanto, que sustinha o discurso de Getúlio Vargas contra o candidato oficial ao Catete. Getúlio alegava que Bernardes não teria a expressão política e o conhecimento da questão nacional de Nilo Peçanha, já testado na presidência da República, mesmo brevemente, entre junho de 1909 e novembro de 1910, ao assumir, como vice, após a morte do então titular Afonso Pena.
“Vossas Excelências assinaram um cheque em branco para descontar no banco do Catete, em troca de favores oficiais”, acusou Getúlio em discurso na Assembleia dos Representantes, levantando desconfianças em torno dos reais motivos da preferência dos adversários federalistas pela candidatura de Artur Bernardes.

O trecho acima foi retirado das páginas 176, 177 e 178 do primeiro volume da biografia Getúlio, do jornalista Lira Neto (leia resenha do livro aqui). Também biógrafo de Padre Cícero, de José de Alencar e de Maysa, Lira Neto lançou em maio a biografia do maior personagem político do Brasil no século 20. Volta a Porto Alegre agora para participar de Feira em um dia lotado de atrações sobre a história remota ou recente do Brasil. Lira Neto conversa às 19h, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul, com a historiadora Mary Del Priore, que vem autografar em Porto Alegre seu recente estudo A Carne e o Sangue, sobre o triângulo amoroso entre Dom Pedro I e suas mulheres Imperatriz Leopoldina e Domitila de Castro e Canto Melo (leia entrevista com a autora aqui).

O dia também tem debate entre os jornalistas Leonencio Nossa, autor da reportagem Mata!, sobre a guerrilha do Araguaia, e Mario Magalhães, que vem lançar na Feira a biografia do líder guerrilheiro Carlos Marighella.