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Sonja, Sonya e o Abutre

05 de dezembro de 2012 0

Quem cresceu lendo quadrinhos nos anos 1980 no Brasil mais de uma vez deparou com a ruiva da imagem ao lado nas páginas da revista Heróis da TV – e mais tarde em histórias de A Espada Selvagem de Conan ou da revista Aventura e Ficção. Ela é Sonja (não sabíamos então que o nome deveria ser pronunciado “Sônia”, e dizíamos, os leitores, “SonJA”, declinando o “J” sem culpa), a guerreira, apresentada a nós, incautos ignorantes daquela época, como uma “personagem criada por Robert E. Howard”.

Howard, escritor americano nascido no Texas, tornou-se célebre como o criador de Conan, o Bárbaro, seu personagem mais conhecido, que já foi transplantado para cinema, TV e quadrinhos – quadrinhos que por vezes se inspiravam nos contos originais que o autor escreveu para revistas de fantasia e aventura dos anos 1930. Nos quadrinhos, Conan conhecia Sonja, guerreira hirkaniana, que jurou só “se entregar” (único eufemismo para sexo que se usava nos quadrinhos da época) ao homem que a vencesse em combate. Como ela era uma espadachim invencível mesmo com esse biquíni de placas metálicas altamente improvável para ser usado nos tempos antigos, ela continuava cumprindo seu juramento.

Só que no universo de Howard a coisa não era exatamente assim. Howard de fato criou uma Sonya (com Y), mas não necessariamente essa. A Sonja que se consolidou nos quadrinhos é mais resultado do trabalho do escritor americano Roy Thomas do que dos contos de Howard. Em 1973, Thomas era o roteirista regular da série de Conan para a Marvel. Buscando subsídios para os gibis em material original de Howard, fez uma devassa nos contos antigos, mesmo aqueles não protagonizados pelo bárbaro, e encontrou  A Sombra do Abutre – publicado na revista The Magic Carpet Magazine, em 1934, em que um dos personagens de destaque é uma ruiva de cabelos fulgurantes chamada Sonya Rubra (ou Ruiva, ou Vermelha) de Rogatino.

Diferentemente dos contos da Era Hiboriana protagonizados por Conan, nos quais Howard fazia uma salada de referências indiscriminadas para criar um mundo novo com elementos de diversas épocas e geografias, A Sombra do Abutre é um conto de aventura “histórica”, baseado em fatos e episódios até certo ponto verificáveis. Sonya, nesta narrativa, é uma guerreira russa do século XVI, hábil na espada, nas imprecações e no copo, que se junta a um guerreiro alemão e a outros aventureiros tentando furar um cerco imposto pelo imperador otomano Suleiman  a Viena. O cerco é um episódio histórico ocorrido em 1529, no qual Howard maneja personagens reais e fictícios. A Sonya descrita por ele é mais semelhante a uma rainha pirata do que propriamente a uma improvável guerreira seminua, como se pode ver na ilustração abaixo (de autoria de Michael Peters para um fanzine adaptando histórias de Howard):

Voltemos então a 1973: Roy Thomas pegou a trama básica de A Sombra do Abutre (que inclui ainda um assassino insidioso enviado para matar o protagonista, o guerreiro germânico Gottfried von Kalmbach), e reescreveu o bagulho transferindo-o do Século XVI para a era Hiboriana e usou a Sonya da história como modelo para a Sonja do gibi.  Também comparecem na personalidade e na história da Sonja dos quadrinhos elementos de outra guerreira criada por Howard, Agnes de Chastillon, também conhecida por Dark Agnes e Agnes de La Fere, também do século 16, mas francesa. O primeiro visual da Sonja dos quadrinhos, na história que manteve o nome A Sombra do Abutre, publicada em Conan The Barbarian nº 23, foi desenhado por Barry Windsor-Smith (mas na história original Sonja se vestia de modo mais apropriado para uma guerreira: cota de malha e calças de seda vermelha). A Sonja que se tornou célebre pelo seu impossível biquíni de metal foi criada pelo espanhol Estéban Maroto, e foi assim que a ruiva voltou à cena e mais tarde ganhou revista solo.

Como se vê, há a heroína dos quadrinhos, largamente conhecida, mas que só muito vagamente saiu das páginas do escritor, e há a guerreira do conto de Howard. É essa que pode ser conhecida agora na edição de A Sombra do Abutre publicada há algumas semanas pela editora Arte & Letra, de Curitiba, casa que vem publicando há algum tempo, também, uma revista de contos muito bacana chamada, justamente, Arte & Letra, cada edição identificada por letras em vez de números (leia aqui um texto sobre a edição “B”). A tradução é de Gabriel Oliva Brum (88 páginas, R$ 35), em uma série que inclui ainda O Cair da Noite, de Isaac Asimov. A Sombra do Abutre tem prefácio do escritor e editor Cesar Alcázar, um dos organizadores da Odisseia de Literatura Fantástica. É um bom exemplo do que é característico na prosa de Howard: uma imaginação vívida para a construção de cenários e circunstâncias, o encadeamento ágil de episódios vibrantes de pura aventura e diálogos rápidos que, por vezes, se excedem em sua função e são usados pelo autor como uma muleta para fazer a trama avançar ou apresentar informações que ele não conseguiu encaixar em blocos narrativos anteriores. Ainda assim, é uma das melhores histórias do autor.

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